Quando a guerra cultural fala com memes

Memes, IA e algoritmos transformam a guerra cultural em disputa permanente por atenção, afetos e controle político nas redes.

Ilustração digital sobre memes, redes sociais e guerra cultural.

As recentes postagens nas redes sociais de vídeos animados com peças de Lego lembraram-nos que a propaganda de guerra já não se apresenta apenas sob a forma clássica dos comunicados oficiais, dos editoriais solenes ou das imagens jornalísticas cuidadosamente enquadradas. Entre bombas, drones, mísseis e operações militares, circulam agora pequenos vídeos, memes, figurinhas e animações de aparência banal, muitas vezes embalados com música, slogans rápidos e personagens caricatos. O que está em jogo não é um detalhe lateral da comunicação contemporânea, mas um sintoma importante das novas formas de disputa política e cultural.

Não se trata apenas de uma substituição de formatos. Do ponto de vista material, esses memes frequentemente são produzidos pelo mesmo aparato estatal, militar e corporativo que antes editava comunicados solenes – mas agora contam com uma vantagem adicional: o trabalho imaterial gratuito de milhões de usuários que, mobilizados afetivamente, replicam, remixam e espalham o conteúdo como se fosse espontâneo. Funcionam, assim, como um exército de reserva simbólico, terceirizando e barateando a propaganda.

Não se trata apenas de usar uma linguagem mais leve para falar de temas pesados. O que se observa é a apropriação de formas populares da cultura digital como instrumentos de guerra informacional. Em lugar do pronunciamento grave, entra a estética do compartilhável. Em vez da peça de propaganda com cara de propaganda, surge um conteúdo que parece improvisado, espontâneo, quase ingênuo. Mas essa aparência amadora frequentemente esconde uma elaboração estratégica bastante precisa.

Há algo de novo nisso, ainda que não completamente inédito. A disputa política sempre precisou condensar mensagens, mobilizar afetos, construir inimigos e criar identificações. O que muda agora é a velocidade, a escala e a forma. Ferramentas de inteligência artificial permitem gerar com rapidez bonequinhos animados, vozes sintéticas, cantores artificiais, trilhas sonoras, montagens visuais e pequenas cenas de impacto. Com isso, a propaganda deixa de depender apenas de grandes estruturas de comunicação e passa a operar também por meio de artefatos curtos, replicáveis e emocionalmente eficazes.

Contudo, essa aparente democratização do acesso à produção simbólica esconde uma concentração real de poder. As ferramentas de IA generativa – os dados, os modelos, a infraestrutura de nuvem e os semicondutores – pertencem a poucas gigantes tecnológicas e Estados imperialistas. Quem tem acesso privilegiado a esses meios de produção simbólica algorítmica dita as regras do jogo. Não se trata apenas de agilidade técnica, mas de propriedade de classe sobre os novos meios de produção cultural.

O ponto decisivo não é discutir se esse humor é bom ou ruim, refinado ou rasteiro. A questão mais importante é perceber como ele funciona politicamente. O meme, o vídeo curto e a animação satírica condensam narrativas, enquadram acontecimentos e orientam a recepção dos fatos. Eles simplificam conflitos complexos, estabilizam sentidos e oferecem ao público uma forma rápida de adesão afetiva. A guerra entra no cotidiano não só como notícia, mas como linguagem circulante, como produto simbólico de consumo veloz.

Essa forma de comunicação é particularmente poderosa porque opera na escala da atenção fragmentada. Cabe na tela do celular, exige poucos segundos, parece dispensar contexto. E, como costuma circular por intermédio de familiares, colegas de trabalho, colegas de estudo e amigos, chega revestida de confiança. O conteúdo já não vem diretamente de uma instituição identificável, mas mediado por laços sociais cotidianos. Isso dilui a percepção de origem e embaralha a fronteira entre produção estratégica e circulação espontânea.

A propaganda sempre buscou moldar percepções. O que vemos hoje é uma etapa em que ela se infiltra nas linguagens ordinárias da vida conectada. O meme não substitui os arsenais materiais, mas compõe o arsenal simbólico. Ele não derruba prédios, mas ajuda a organizar sensibilidades, fixar versões, ridicularizar adversários, normalizar violências e tornar digeríveis acontecimentos que, em sua gravidade, talvez exigissem mais pausa e reflexão. É um dispositivo de enquadramento ideológico adaptado à ecologia midiática da pressa.

É preciso ir além da noção de que o meme apenas “normaliza” violências já ocorridas. Na verdade, ele frequentemente prepara e legitima violências futuras: desumanizar um grupo em vídeos de Lego ou em figurinhas animadas é o primeiro passo material para que bombardeios ou expulsões sejam recebidos com indiferença ou aprovação. Símbolo e violência material não estão em camadas separadas – são momentos dialéticos do mesmo processo de dominação.

Nesse sentido, a velha fórmula de Marshall McLuhan, segundo a qual “o meio é a mensagem”, torna-se mais atual do que nunca. Mas é preciso tratá-la com cuidado crítico. McLuhan tende a um determinismo tecnológico que o materialismo histórico não pode aceitar sem mediações. O meio, por si só, não determina a mensagem – o que determina são as relações sociais de classe que se apropriam do meio. Como nos ensinou Raymond Williams, em sua crítica ao determinismo tecnológico, devemos perguntar: não “o que o meio faz conosco”, mas “quem controla o meio, com que intenção e sob quais relações de propriedade?”. O algoritmo que decide o alcance de um meme não é neutro – ele é propriedade privada a serviço do engajamento como mercadoria. Portanto, não é apenas “o meio é a mensagem”; é o modo de produção capitalista do meio que modela a mensagem.

Não é apenas o conteúdo que importa, mas a forma pela qual ele circula. Uma guerra narrada como meme não é apenas uma guerra ilustrada de forma engraçadinha: é uma guerra reorganizada simbólica e cognitivamente por um meio que simplifica, acelera, fragmenta e estimula reações quase instantâneas. O formato não é um invólucro neutro. Ele modela a mensagem, define seu alcance e condiciona sua leitura.

Talvez possamos dizer que, se Marx descreveu o fetiche da mercadoria como um processo em que as relações sociais aparecem disfarçadas sob a forma de coisas, hoje vivemos também algo como um “fetiche da informação”. Ou, mais precisamente, um fetiche da atenção ou do engajamento. As mensagens aparecem desprendidas de seus circuitos de produção, de seus interesses materiais e de suas determinações políticas. Consumimos conteúdos como se fossem objetos autônomos, quase naturais, quando na verdade carregam marcas de poder, intenção e disputa. E, mais do que isso: cada compartilhamento, cada reação, cada segundo de atenção é trabalho não pago – trabalho que gera valor para as plataformas, que vendem perfis comportamentais para publicidade e propaganda política. O meme não é apenas ideologia; é também mercadoria que extrai mais-valia da nossa cooperação social.

O meme parece apenas um meme. O vídeo parece apenas uma brincadeira. A figurinha parece apenas uma piada. Mas nada disso circula fora das relações concretas de força que estruturam a vida social.

Essa questão se agrava num cenário em que a mídia tradicional perde centralidade relativa, ao mesmo tempo em que sofre pressões, censuras difusas mas hegemônicas, dependências econômicas e crescente subordinação a grupos financeiros. Não se trata de idealizar os velhos meios, que sempre tiveram seus limites, seus filtros e seus vínculos com as classes dominantes. Mas é preciso evitar a nostalgia da grande imprensa – ela também sempre manipulou. O problema da fragmentação atual não é a fragmentação em si, mas o fato de ela ocorrer sob um regime de plataformização monopólica: poucas empresas controlam os algoritmos que decidem o que cada um vê, criando uma centralização sem centro aparente.

É por isso que a educação midiática se torna tão importante. Não como moralismo sobre “acreditar em tudo” nem como simples treinamento técnico para usar plataformas, mas como formação crítica para compreender linguagens, meios, interesses, circuitos de circulação e estratégias de persuasão. Educar midiaticamente é aprender a perguntar não apenas “isso é verdade?”, mas também “como isso está sendo construído?”, “por que circula assim?”, “quem ganha com esse enquadramento?”, “que emoções estão sendo acionadas?” e “que realidade está sendo tornada invisível por essa forma de narrar?”.

Contudo, essa formação crítica não pode permanecer no plano individual. Uma pedagogia verdadeiramente marxista – que bebe em Paulo Freire, em Gramsci e na comunicação popular – sabe que decodificar não basta: é preciso produzir coletivamente contra-memes, organizar redes de contra-informação, disputar os algoritmos com ação política organizada. Sem a dimensão coletiva e prática, a “educação midiática” vira mero exercício escolar, incapaz de enfrentar a máquina de propaganda da extrema direita.

Essa tarefa é decisiva porque a guerra cultural não é mais metáfora vazia. Ela se materializa em campanhas permanentes de disputa por imaginários, afetos, repertórios e interpretações. Os vídeos animados gerados por IA, com seus soldadinhos sorridentes, suas trilhas heroicas e seus cantores artificiais, não são apenas curiosidades digitais. Eles são sintomas de um estágio em que as tecnologias de produção simbólica se baratearam, se aceleraram e se tornaram muito mais acessíveis para a luta ideológica cotidiana.

As guerras reais já fazem uso disso com desenvoltura crescente. Mas, entre nós, a próxima grande batalha talvez não venha sob a forma de bombardeios, e sim de disputa eleitoral. Também aqui os memes, os vídeos curtos, as montagens e as peças aparentemente banais serão parte decisiva da luta política. A extrema direita compreendeu cedo a força dessa linguagem e soube ocupá-la com eficácia, transformando humor, escracho, simplificação e repetição em armas de mobilização. Não basta lamentar isso, nem responder com desprezo elitista diante dessas formas de comunicação. É preciso entendê-las.

Mas é necessário reconhecer uma assimetria estrutural: a extrema direita tem vantagem nesse terreno porque seu conteúdo – simplificação binária, ódio ao “outro”, individualismo competitivo – encaixa-se perfeitamente na lógica do algoritmo, que premia polarização, repetição e engajamento rápido. A esquerda, que carrega a tarefa de explicar contradições, historicizar e propor complexidade, opera em desvantagem dentro da ecologia da pressa. Portanto, não basta “disputar formatos” – é preciso disputar a própria economia política das plataformas: algoritmos públicos, quebra de monopólios, financiamento democrático da comunicação. Sem isso, a guerra cultural será sempre assimétrica.

Entender o fenômeno é condição para enfrentá-lo. Não se derrota uma máquina contemporânea de propaganda apenas com boas intenções, nem apenas com argumentos longos e corretos. Será necessário disputar formatos, meios, linguagens e sensibilidades, sem abrir mão da crítica, da complexidade e do horizonte democrático. A batalha das ideias passa também pela batalha dos signos, das imagens e das formas de circulação.

Afinal, a próxima guerra, entre nós, será travada nas telas, nas redes, nas conversas cotidianas e, por fim, no voto. Mas o voto, por si só, não basta. A extrema direita não será derrotada apenas nas urnas enquanto as condições materiais de exploração, precarização e racismo forem reproduzidas diariamente. A guerra cultural é permanente, não apenas cíclica. Por isso, é preciso ir além do horizonte eleitoral: organização de base, resistência sindical, controle social dos meios de produção – inclusive dos meios de produção simbólica. A batalha dos memes é parte da luta de classes, e a luta de classes se resolve, em última instância, na transformação das relações de propriedade.

E será preciso vencê-la nas ideias, na propaganda e nas urnas – mas também nas ruas, nos locais de trabalho, nas plataformas democratizadas e, sobretudo, na construção de um poder popular que não se esgote no voto, derrotando a extrema direita também no terreno em que ela aprendeu a manipular com tanta eficiência.

Ilustração em estética de blocos coloridos sobre memes e disputa política nas redes.
Parece Lego, mas não é brinquedo. Esta ilustração foi gerada por IA (ChatGPT + DeepSeek) a partir de prompts inspirados neste texto. A estética blocante e colorida não é um acaso: é uma ferramenta cada vez mais usada para disputar mentes na velocidade de um compartilhamento.

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A inteligência artificial entrou na batalha política

Até na guerra em seu sentido mais brutal a inteligência artificial já deixou de ser detalhe técnico. Drones guiados por sistemas cada vez mais autônomos, reconhecimento de alvos, cruzamento instantâneo de dados, vigilância ampliada e decisões aceleradas por máquinas estão mudando a forma de ocupar, perseguir e matar.

Ilustração digital sobre inteligência artificial e disputa política.

Até na guerra em seu sentido mais brutal a inteligência artificial já deixou de ser detalhe técnico. Drones guiados por sistemas cada vez mais autônomos, reconhecimento de alvos, cruzamento instantâneo de dados, vigilância ampliada e decisões aceleradas por máquinas estão mudando a forma de ocupar, perseguir e matar. A tecnologia já entrou no centro dos conflitos contemporâneos. Seria ingenuidade imaginar que, diante disso, ela não alteraria também a guerra cultural, a disputa política e a luta pela hegemonia.

Quando se fala em inteligência artificial, muita gente ainda se detém na superfície: textos gerados em segundos, imagens vistosas, vídeos sintéticos, vozes artificiais, memes, automações. Tudo isso impressiona. Mas o centro da questão está em outro lugar. A IA não é apenas uma nova ferramenta de produção de conteúdo. Ela passou a integrar a estrutura de poder que organiza visibilidade, alcance, prioridade, monitoramento e influência social.

A pergunta decisiva, portanto, não é se a inteligência artificial é boa ou ruim. Essa forma de colocar o problema, além de pobre, desvia do essencial. O que importa não é o que a IA faz ou deixa de fazer – o que importa é quem a controla! Quem controla os sistemas, os dados, os algoritmos, as plataformas e a infraestrutura de circulação controla boa parte da disputa contemporânea pelo imaginário social. O que está em disputa é o poder.

A disputa sobre a IA não envolve apenas comunicação e narrativa, mas também trabalho, concentração de riqueza, soberania tecnológica e apropriação social dos ganhos de produtividade.

O meio molda a mensagem, mas agora tem dono

McLuhan, teórico canadense da comunicação, foi lembrado à exaustão pela frase de que “o meio é a mensagem”. A frase está atualíssima porque chama atenção para algo decisivo: a forma da comunicação altera o conteúdo social do que circula. Mas hoje é preciso acrescentar uma camada que se tornou incontornável. O meio cada vez molda mais a mensagem. Mas os meios têm donos. E esses donos definem e programam as regras da circulação.

As grandes plataformas não são canais neutros. Elas selecionam, priorizam, repetem, escondem, recomendam, impulsionam e abafam. Organizam a atenção coletiva. Interferem no ritmo do debate público. Condicionam o alcance da palavra política. Definem, por meios opacos, o que aparece mais, o que desaparece mais rápido e o que se converte em sensação dominante do momento.

É por isso que já não basta repetir a crítica clássica à velha concentração dos meios de comunicação. Ela segue necessária, mas agora é insuficiente. O problema não está apenas em quem possui jornal, rádio ou televisão. Está também em quem controla dados, sistemas de recomendação, métricas de engajamento, publicidade segmentada e a arquitetura invisível que filtra o que milhões de pessoas verão a cada dia.

Em termos políticos, isso significa que a esfera pública foi privatizada em novo patamar. A luta de ideias está mais presente que nunca, mas acontece num terreno tecnicamente moldado por interesses privados, sobretudo pelos grandes grupos tecnológicos, as tais Big Techs. A guerra cultural deixou de ser apenas disputa de narrativa. Tornou-se também disputa pelas condições materiais da circulação da narrativa.

Memes ajudam, mas não substituem organização

É claro que a inteligência artificial pode ser útil para as forças populares. Pode acelerar a produção de memes, imagens, vídeos curtos, animações, legendas, roteiros, resumos, variações de linguagem e respostas rápidas a fatos políticos. Pode reduzir enormemente custos de produção. Pode ampliar agilidade. Pode melhorar a capacidade de reação diante da velocidade imposta pelas redes.

Isso não é pouco. Num ambiente saturado por estímulos, rapidez importa. Capacidade de adaptação importa. Linguagem adequada a cada plataforma importa. Seria um erro desprezar essas possibilidades e deixar que apenas a direita e o mercado ocupem esse terreno.

Mas seria erro ainda maior confundir agilidade com consciência política. Meme não substitui formação, não substitui organização, não substitui programa. Um meme pode satirizar o adversário, condensar uma crítica, abrir uma porta, chamar atenção. Não mais do que isso. Se a política se resumisse a peças rápidas de impacto, a história seria escrita por publicitários e não por sujeitos coletivos organizados.

A esquerda precisa usar esses instrumentos sem fetichismo. O problema de parte do debate tecnológico é justamente esse: ou se cai no deslumbramento, como se a máquina fosse solução mágica ou se cai na recusa nostálgica, como se fosse possível disputar o presente ignorando as mediações técnicas do presente. Nenhuma dessas posições ajuda.

Não basta estar nas redes, é preciso entendê-las e dominá-las

Também não existe “a rede” em abstrato. Cada plataforma tem lógica própria, ritmo próprio e efeito político próprio. Há ambientes mais voltados ao confronto imediato e à excitação permanente. Há outros mais úteis à organização de núcleos, à comunicação direta e à fidelização de comunidades. Há espaços em que a imagem vale mais do que o argumento. Há espaços em que a velocidade destrói nuance. Há espaços em que a repetição cria familiaridade e aparência de verdade. E o filtro do que é impulsionado e do que é escondido tem fortes componentes ideológicos escamoteados em algoritmos sem transparência.

Por isso, uma comunicação política minimamente séria não pode agir no escuro. Não basta publicar muito. Não basta estar presente. Não basta repetir palavras de ordem. É preciso estudar formatos, linguagens, públicos, tempos de reação, padrões de alcance e formas específicas de circulação.

Estudar os algoritmos não é fetiche tecnocrático. É parte da luta política contemporânea. Quem não compreende minimamente como funcionam os mecanismos de distribuição de conteúdo entra no conflito usando instrumentos definidos pelo adversário e em terreno desenhado por ele. Numa guerra cultural, isso cobra preço alto.

Dados sem política não bastam

A inteligência artificial também pode ajudar a organizar dados, acompanhar reações, agrupar comentários, identificar temas recorrentes, mapear dúvidas, detectar padrões de ataque e perceber tendências. Isso é importante. Fazer comunicação sem observar resultados é agir por impulso. E impulso, sozinho, não sustenta estratégia.

Mas aqui também é preciso manter a cabeça no lugar. Dados não pensam sozinhos. Painéis não substituem análise. Métrica não substitui linha política. O risco é transformar a ação militante em culto à performance, confundindo ruído com força real, viralização com convencimento, curtida com organização.

O que precisamos não é de submissão à lógica da plataforma, mas de inteligência militante. Isto é, capacidade coletiva de ler o ambiente, interpretar sinais, compreender disputas, ajustar a linguagem e manter direção política. A técnica deve servir ao projeto. Nunca o contrário.

A extrema direita saiu na frente, mas isso pode mudar

A extrema direita percebeu cedo o potencial das redes para produzir medo, ressentimento, simplificação e mentira em escala industrial. Entendeu a eficácia da repetição, da provocação permanente, da deformação do adversário e da mobilização baseada em afeto regressivo. Fez da comunicação digital uma máquina de agitação contínua.

A tarefa da esquerda não é copiar esse método. Não é repetir sua lógica. Não é trocar horizonte histórico por reflexo condicionado. Nossa tarefa é construir outra forma de presença tecnológica: mais clara, mais organizada, mais enraizada, mais ligada ao povo real e menos dependente da espuma do instante.

É precisamente aqui que a inteligência artificial entra como terreno de disputa. Ela pode ser usada para aprofundar manipulação, vigilância e barbárie. Mas pode também ser apropriada como apoio à formação, à mobilização, à sistematização de informações, à produção de materiais e à ampliação da capacidade de diálogo popular.

O desafio imediato: eleger nossos candidatos

Tudo isso ganha peso maior quando pensamos nas eleições. Não haverá disputa vitoriosa se tratarmos a comunicação como apêndice, improviso ou tarefa lateral. A batalha eleitoral exigirá articulação entre rua, rede e organização. A rua dá enraizamento. A rede dá escala. A organização dá continuidade. Sem essa combinação, a estratégia manca.

Precisamos de mensagens claras, capacidade de resposta rápida, leitura de tendências, coordenação entre linguagens e disciplina política para não desperdiçar energia em vaidades digitais. Precisamos usar a técnica para fortalecer o trabalho político real. Precisamos transformar presença nas redes em apoio, confiança, voto e militância.

No fim, a pergunta decisiva continua sendo a mais simples. Quem controla a inteligência artificial? Quem controla os dados? Quem controla as plataformas? Quem controla os critérios de visibilidade? Porque é daí que sai a resposta sobre a quem a tecnologia serve.

Se ficar nas mãos dos monopólios privados, do rentismo digital e das máquinas de manipulação, a IA servirá para ampliar dominação. Se for disputada politicamente, regulada democraticamente e apropriada pelas forças populares, pode ajudar na formação de consciência, na mobilização social e na construção de maioria.

Por isso, diante da inteligência artificial, nossa tarefa não é admiração nem medo. É disputa política. E essa disputa precisa estar a serviço de um objetivo concreto: eleger nossos candidatos, fortalecer um campo democrático e popular, enfrentar a extrema direita e recolocar o povo no centro do destino nacional.

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Os “pecados” a evitar na redação com usos de inteligência artificial

Alguns dos vícios mais comuns que devem ser sempre retrabalhados para o texto ficar com voz humana e clareza didática

Ilustração digital sobre redação e uso de inteligência artificial.

A IA ajuda a rascunhar, destravar e organizar ideias, mas costuma deixar “marcas de fábrica” no texto. Aqui estão alguns dos vícios mais comuns que devem ser sempre retrabalhados para o texto ficar com voz humana, clareza didática e estilo consistente com a obra que esteja a ser produzida.

Além de identificar os “pecados” estilísticos mais comuns, é fundamental compreender que escrever com auxílio de IA exige vigilância política e sensibilidade comunicacional. A luta por um discurso emancipador não se coaduna com textos pasteurizados, com vocabulário genérico e estruturas que diluem o sentido de classe e de território.

Muitos militantes hoje escrevem para jornais sindicais, atas de assembleias, boletins de base, materiais de formação ou trabalhos acadêmicos. Nestes casos, a IA pode ser útil, mas deve ser domada. O estilo sindical – claro, direto, mas com densidade crítica – não pode ser substituído por uma retórica publicitária ou por frases genéricas típicas de manuais empresariais.

Assim como lutamos contra a automação que precariza o trabalho, devemos lutar contra a automação da linguagem que precariza a reflexão. Os textos produzidos com apoio de IA devem manter a temperatura da luta, o gosto da fala popular e o ritmo do pensamento crítico. Como ensinava Paulo Freire, escrever é um ato político, e nenhum algoritmo pode substituir essa escolha ética e estética.

1) Travessões demais e do tipo errado; vírgulas antes do “e” – Evite o uso frequente de travessões como muleta de ritmo, especialmente para encaixar explicações no meio da frase. Quando for realmente necessário, use apenas o travessão médio (–) e nunca o travessão longo (—). Na maior parte dos casos, prefira reescrever com vírgulas, parênteses ou em duas frases. Não use vírgula antes de etc. A IA também costuma colocar vírgula antes do “e” quando não usamos em português, pois ela segue normas de escrita da língua inglesa por default.

2) Listas em excesso, listas longas e listas “sem pedagogia” – Textos gerados por IA tendem a virar sequência de bullets e listas numeradas. Use listas só quando isso ajudar a aprender: passo a passo, comparação, síntese, critérios, checklist de atividade. Se a lista não acrescenta clareza, reescreva em parágrafos e deixe o texto fluir. Também evite listas com muitos itens, elas viram “catálogo” e cansam (ou coloque-as dentro de um box específico).

3) Adjetivação inflada e entusiasmo genérico – A IA gosta de adjetivos que não informam nada: “incrível”, “poderoso”, “rico”, “dinâmico”, “robusto”, “relevante”. Adjetivo, no seu texto, deve entrar por necessidade, não por enfeite. Troque adjetivos por dados, exemplos concretos, comparações simples ou por verbos mais precisos.

4) Frases com “cara de palestra” e chavões repetidos – Evite fórmulas prontas como “em um mundo cada vez mais digital”, “na era da informação”, “é importante ressaltar que”, “vale destacar que”, “de forma geral”, “de maneira significativa”. Elas ocupam espaço sem dizer algo específico. A regra é simples: se a frase não muda o entendimento do leitor, corte ou substitua por uma afirmação concreta.

5) Estrutura rígida e previsível demais – A IA tende a montar parágrafos com “introdução – explicação – conclusão” sempre iguais, como se cada trecho fosse uma mini redação. Misture ritmos: comece por uma pergunta, uma cena, um exemplo, um problema real da escola, uma situação cotidiana online e offline. Varie o tamanho das frases, sem perder clareza.

6) Repetição de conectivos e “amarradores” – Outro vício é encadear tudo com “além disso”, “por outro lado”, “no entanto”, “portanto”, “dessa forma”. Quando cada frase começa com um conector, o texto fica artificial. Use conectivos quando houver contraste, consequência ou sequência real. Em muitos casos, ponto final resolve melhor.

7) Tom professoral, moralista ou prescritivo – IA frequentemente escorrega para sermão: “você deve”, “nunca faça”, “sempre lembre”. Prefira um tom de conversa orientadora, com foco em autonomia e reflexão. Quando precisar de orientação direta (por exemplo, segurança, privacidade, direitos), seja objetivo, sem bronca e sem dramatização.

8) Generalizações sem lastro e afirmações absolutas – Cuidado com “sempre”, “nunca”, “todos”, “ninguém”, “a maioria” sem base. IA inventa certezas com facilidade. Quando for uma tendência, diga que é tendência. Quando for exemplo, diga que é exemplo. E, se houver dado, fonte ou data, marque para checagem obrigatória.

9) Falta de exemplo concreto e excesso de abstração – IA escreve bonito, mas frequentemente não mostra. Sempre que aparecer um conceito (algoritmo, bolha informacional, desinformação, pegada digital, curadoria), garanta ao menos um exemplo cotidiano, preferencialmente ligado a práticas juvenis, situações escolares ou da vida política e social concreta.

10) “Definição de dicionário” e parágrafos enciclopédicos – Evite começar tópicos com “x é…” em modo verbete e seguir com explicações longas e neutras. Traga o conceito para uma situação: “quando você…”, “em um grupo de mensagens…”, “numa pesquisa para trabalho escolar…”. A definição pode vir depois, mais curta.

11) Padronização errada de maiúsculas e títulos – A IA tende a capitalizar como no inglês (Title Case), colocando maiúsculas em quase todas as palavras de títulos e intertítulos. Use maiúsculas apenas no início da frase e em nomes próprios/siglas. Faça uma varredura final especialmente em títulos, intertítulos, nomes de capítulos, nomes de leis, programas, órgãos e documentos.

12) Variação mal calibrada de termos ou repetição desnecessária – Variar termos muito frequentes pode ser uma boa estratégia de fluência, desde que não altere o sentido nem crie ruído. Em palavras de uso recorrente, como celular/smartphone/dispositivos móveis, a alternância pode ajudar a evitar repetição cansativa, desde que o texto deixe claro que está falando da mesma coisa e não de categorias diferentes. O cuidado é com casos em que a IA troca palavras que não são equivalentes, ou mistura termos técnicos e comuns sem avisar, gerando ambiguidade.

13) Traduções literais e falsos cognatos – Cuidado com construções importadas do inglês: “fazer sentido para” em excesso, “impactar” quando “afetar” resolve, “atualmente” usado como muleta, “eventualmente” no sentido de “por fim”, “assistir” no sentido de “dar suporte”, “abordar” quando usado de forma vaga. Prefira o português direto e natural, mais preciso e menos jargão de tradução automática.

14) Precaução nas referências a marcas e plataformas – A IA costuma citar marcas e plataformas como se fossem padrão universal. Evite prescrever ferramenta específica quando não for necessário. Quando citar, faça como exemplo e, de preferência, com alternativas ou descrição genérica do tipo de serviço.

15) Coesão artificial e retomadas “robóticas” – Fique atento a retomadas mecânicas: “isso significa que…”, “em outras palavras…”, “em suma…”. Use quando forem realmente necessárias para o leitor, mas não como preenchimento. Muitas vezes, uma frase mais clara elimina a necessidade de explicar de novo.

16) Encerramentos “de redação do Enem” – IA adora fechar com “conclui-se que”, “portanto, é fundamental…”. Nos seus textos, o fechamento deve ser mais vivo: uma pergunta de reflexão, uma ponte para a atividade, um convite a observar a própria prática online e offline.

17) Conteúdo plausível, mas inexistente – Ao pedir sugestões de bibliografia, referências, leis, relatórios, ferramentas ou exemplos, não confie no “tom de certeza” da IA. Mesmo quando você fornece título, autor, editora e ano, isso não garante que o resultado seja real: a IA pode completar lacunas, misturar obras diferentes e inventar referências muito verossímeis, porém falsas. Por isso, toda indicação bibliográfica sugerida por IA deve ser checada em fonte confiável (catálogo de biblioteca, site da editora, base acadêmica, diário oficial, repositório institucional etc.) antes de entrar no seu texto final.

18) Dicas práticas: – Use a IA como motor de hipótese e de organização (para levantar termos de busca, autores relacionados, palavras-chave, perguntas, estruturas de leitura e caminhos possíveis). Evite copiá-la ipsis literis, porque isso preserva justamente os cacoetes de estilo e os riscos de conteúdo.Lembre-se: quando você pesquisa e escreve, precisa confirmar sempre toda a informação recebida, seja automatizada ou humana”.

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A quem pertencem as palavras? Escritores, IA e os direitos autorais

Bilhões de palavras, frases, ilustrações e ideias – frutos do trabalho intelectual de autores em geral – vêm sendo coletadas, processadas e reconfiguradas por algoritmos que alimentam plataformas de IA

Ilustração digital sobre escritores, inteligência artificial e direitos autorais.

Com a ascensão meteórica das inteligências artificiais generativas, um fenômeno silencioso e de proporções gigantescas se desenrola nos bastidores: bilhões de palavras, frases, ilustrações e ideias – frutos do trabalho intelectual de escritores, jornalistas, ilustradores e autores em geral – vêm sendo coletadas, processadas e reconfiguradas por algoritmos que alimentam plataformas de IA.

Essas tecnologias se baseiam na extração massiva de obras, inclusive de domínio privado, para simular uma criatividade que não é criação, mas recombinação estatística do trabalho humano. Tudo isso ocorre, em grande parte, sem consentimento nem compensação, convertendo BigTechs em herdeiras ilegítimas de um patrimônio cultural que pertence à sociedade, mas cujo valor econômico não pode ser alienado de quem o produz: os trabalhadores da palavra.

É neste contexto que surge uma proposta fundamental: a criação de uma entidade que cumpra papel semelhante ao do ECAD – Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, responsável por coletar e repassar os valores de direitos autorais a músicos e compositores sempre que suas obras são utilizadas publicamente, como em rádios, TV, shows e plataformas digitais. A iniciativa, agora voltada aos direitos autorais dos escritores, vem do SINDEESP – Sindicato dos Escritores do Estado de São Paulo (www.sindeesp.org.br) e merece atenção ampla da sociedade. Essa proposta se estrutura em cinco pontos essenciais:

1. Garantir remuneração aos autores cujos textos alimentam essas plataformas: É necessário reconhecer economicamente o uso de obras literárias, jornalísticas e ensaísticas por sistemas de IA, da mesma forma que se remunera o uso de músicas em rádios e filmes. Sem isso, perpetua-se a lógica da extração de valor sem retorno para quem de fato cria.

2. Exigir transparência sobre quais obras são utilizadas no treinamento das IAs: As empresas devem ser obrigadas a divulgar quais conteúdos alimentaram seus algoritmos, para que autores saibam se suas obras foram utilizadas e em que medida. A opacidade atual favorece o uso indevido e impede a responsabilização.

3. Criar mecanismos ágeis de notificação e remoção em caso de uso indevido: Assim como ocorre com imagens e músicas em redes sociais, é preciso dispor de canais eficazes para que escritores possam solicitar a remoção de conteúdos não autorizados e sejam ressarcidos por eventuais danos morais e financeiros.

4. Condicionar o uso de conteúdos literários à autorização e pagamento: Nenhuma plataforma de IA ou ferramenta de mineração de dados deve poder utilizar obras literárias ou textos autorais sem o consentimento expresso do autor e a devida compensação financeira. O princípio da autorização prévia precisa ser respeitado.

5. Instituir um sistema de arrecadação e distribuição de direitos autorais: o “ECAD dos Escritores”: A proposta em debate é criar uma entidade moderna e digitalizada, com atuação nacional, responsável por gerir coletivamente esses direitos, negociando com plataformas e assegurando que a retribuição seja distribuída de forma justa entre os autores.

Essa iniciativa é mais do que justa: é urgente. Estamos diante de um novo ciclo de expropriação simbólica, um “cercamento digital” que transforma a linguagem em insumo gratuito para gigantes corporativos, ao mesmo tempo em que fragiliza ainda mais o sustento de quem vive da palavra.

Para isso, será fundamental uma ampla articulação social e política, envolvendo outras organizações da sociedade civil e os três poderes da República. O desafio é debater como a riqueza socialmente produzida deve ser socialmente apropriada. O que está em jogo não é apenas o uso de textos, mas a captura indevida de valor gerado por escritores e profissionais da palavra, transformado em lucro privado por plataformas que se apropriam, sem consentimento, de um patrimônio coletivo.

É preciso enfrentar esse modelo de espoliação digital e garantir que os verdadeiros produtores de conteúdo sejam reconhecidos e remunerados com justiça. A criação de uma entidade gestora de direitos dos escritores é um passo possível para reequilibrar essa balança – sem prejuízo de outros caminhos que assegurem justiça digital e econômica. Não se trata de conter a tecnologia, mas de orientá-la para servir ao que realmente importa: o ser humano e sua capacidade de criar sentido e conhecimento por meio da palavra.

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Tecnologia, poder e justiça: o que está em jogo na Web3

Mais que inovação tecnológica, a Web3 expõe disputas de poder, riscos de concentração de riqueza e desafios para trabalhadores, educadores e movimentos sociais.

Ilustração digital sobre Web3, tecnologia e poder.

A chamada Web3 – terceira fase da internet, baseada em tecnologias como blockchain (registros digitais descentralizados), NFTs (certificados digitais de propriedade) e contratos inteligentes (acordos automatizados por códigos) – tem sido apresentada como uma revolução que transfere o controle das plataformas digitais das grandes corporações para seus usuários.

Mas é preciso olhar com atenção: quem de fato controla essas ferramentas? E o que significam para os trabalhadores, educadores e movimentos populares?

Embora muitas vezes associada ao universo dos jogos online, a Web3 tem implicações muito mais profundas. Seu discurso de descentralização promete autonomia, mas frequentemente esconde uma nova forma de concentração de riqueza e poder. Sem regulação e organização coletiva, essa “liberdade” pode se converter em mercado especulativo, vigilância digital e aprofundamento das desigualdades.

Leia também: Ciberbullying, jogos de controle, poder e lucro

Em vez de garantir protagonismo, os NFTs, por exemplo, criam uma falsa ideia de escassez digital, transformando criações culturais e até objetos educacionais em ativos para investimento. Assim como nas redes sociais, o trabalho criativo é capturado por plataformas e algoritmos, com poucos lucrando muito enquanto muitos produzem gratuitamente. Essa nova lógica pode ser vista como uma “mais-sabia” – a apropriação do saber-fazer e do tempo dos usuários por plataformas que extraem valor sem distribuir retorno equivalente.

No campo educacional, essa discussão é ainda mais urgente. O digital não deve ser fetiche. Tecnologias como celulares, redes, vídeos e plataformas online devem ser analisadas criticamente, questionando: a serviço de quem operam? Com que objetivos? Em quais estruturas de poder se inserem?

No Brasil e na América Latina, onde ainda convivemos com exclusão digital e precarização do trabalho, essas ferramentas devem ser politizadas. A chamada “prótese cognitiva” – ideia de que tecnologias ampliam a capacidade mental humana – só será emancipadora se seu uso estiver vinculado a projetos coletivos, soberanos e democráticos.

Leia também: A digitalização do mundo e o tecnoimperialismo

Por isso, a Web3 deve ser compreendida como campo de disputa. Seu potencial só poderá ser alcançado se for apropriado criticamente por sindicatos, educadores, movimentos sociais e coletivos culturais. Não basta resistir: é preciso intervir, transformar, propor.

Vivemos um tempo de reorganização geopolítica global, com os BRICS desafiando a hegemonia unipolar e com as tecnologias de inteligência artificial e robótica alterando profundamente os modos de produção. Essas novas tecnologias concentram ainda mais riqueza e reduzem a necessidade de horas de trabalho humano. Diante disso, torna-se inadiável debater uma nova forma de distribuição da riqueza: não mais baseada apenas nos contratos de trabalho e na quantidade de horas executadas, mas sim em critérios equitativos que garantam dignidade, inclusão e bem-estar para todos.

Essa nova lógica exige uma atuação estratégica do Estado. É urgente que o desenvolvimento tecnológico esteja articulado à soberania nacional, à segurança informacional e à defesa de um projeto popular de país. O uso socialmente justo da riqueza produzida pelas novas tecnologias não pode seguir subordinado ao financismo e ao rentismo comandado por bancos e big techs. Precisamos de um Estado ativo, indutor de justiça social e capaz de direcionar a tecnologia para o bem comum – e não para o lucro de poucos.

Pequeno glossário de termos e conceitos

Web3 – É a próxima geração da internet, construída sobre princípios de descentralização. Ao contrário da Web2, em que grandes corporações controlam os dados e as plataformas, a Web3 devolve o poder aos usuários. Baseada em tecnologias como blockchain e criptografia, a Web3 permite que as pessoas controlem diretamente seus dados e transações, sem depender de intermediários. Nos jogos online, isso significa que os jogadores podem possuir seus próprios itens, moedas e até influenciar as regras e o desenvolvimento do jogo, criando uma internet mais democrática e colaborativa.

Blockchain – É uma tecnologia de armazenamento de dados que organiza informações em blocos conectados de forma sequencial e criptografada. Cada bloco contém registros de transações que são verificados por uma rede descentralizada de computadores. Isso garante que os dados sejam imutáveis e seguros, sem a necessidade de uma autoridade central.

NFT – Sigla para “Token Não Fungível”. Os NFTs são como obras de arte digitais exclusivas, registradas em blockchain. Cada NFT é único, o que significa que ele representa algo exclusivo no mundo digital, seja um item de jogo, uma skin ou até mesmo um personagem.

Token – No universo digital, é uma unidade de valor criada por uma organização que pode representar ativos, direitos ou acesso a serviços. No contexto das criptomoedas e do blockchain, um token pode ser utilizado para diversas funções: pode ser um meio de troca, um investimento ou uma forma de acesso a funcionalidades dentro de plataformas descentralizadas.

Descentralização – Quando falamos em descentralização, estamos nos referindo à retirada do controle centralizado, típico de corporações, e à distribuição desse poder para os próprios usuários.

Marketplaces – São plataformas digitais onde usuários podem comprar, vender e trocar bens e serviços. Na Web3, esses mercados são descentralizados e operam em blockchain, garantindo segurança e transparência nas transações.

Smart Contract – Imagine um contrato que se cumpre sozinho. Esse é o “contrato inteligente”, um código programado que executa automaticamente as condições acordadas entre as partes.

🌐 vermelho.org.br/coluna/tecnologia-poder-e-justica-o-que-esta-em-jogo-na-web3

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Sinapses artificiais

Usar IA não é apenas pedir respostas prontas – é criar percursos. É experimentar hipóteses improváveis, explorar possibilidades que talvez nunca nos ocorressem.

Se nosso cérebro é uma imensa rede de conexões, onde cada pensamento nasce de um estalo elétrico entre neurônios, por que não chamar de sinapses artificiais aquilo que as inteligências artificiais fazem quando nos ajudam a pensar por diferentes caminhos?

Usar IA não é apenas pedir respostas prontas – é criar percursos. É experimentar hipóteses improváveis, explorar possibilidades que talvez nunca nos ocorressem. Como abrir uma gaveta de conexões não percebidas e ver surgir padrões antes invisíveis.

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Do microtrabalho à lumpenproletarização: estratégias para enfrentar a precarização

A substituição de empregos formais por ocupações informais, muitas vezes mediadas por aplicativos, expõe trabalhadores à insegurança econômica e à ausência de direitos básicos.

A análise marxista das transformações contemporâneas no mundo do trabalho, como o microtrabalho, a uberização e a lumpenproletarização, revela desafios significativos para a classe trabalhadora e para os comunistas que buscam compreender e intervir nessas dinâmicas.

O microtrabalho refere-se a tarefas fragmentadas e de curta duração, frequentemente mediadas por plataformas digitais. A uberização, por sua vez, caracteriza-se pela intermediação de serviços por aplicativos, onde trabalhadores são tratados como autônomos, sem vínculos empregatícios formais. Essas modalidades flexibilizam as relações laborais, mas também precarizam o trabalho, retirando direitos e garantias históricas. A ausência de benefícios como previdência, férias remuneradas e proteção contra demissões arbitrárias coloca os trabalhadores em situação vulnerável.

A lumpenproletarização, conceito marxista que descreve a degradação de segmentos do proletariado a condições de subsistência marginal, é observada quando trabalhadores são empurrados para atividades informais e instáveis. A expansão do trabalho mediado por plataformas digitais pode contribuir para esse fenômeno, ao desestruturar empregos formais e empurrar trabalhadores para a informalidade.

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Ciberbullying, jogos de controle, poder e lucro

Analisando as raízes históricas e as dinâmicas de poder do bullying e ciberbullying, este texto destaca a necessidade de uma abordagem estrutural para combater essas práticas abusivas.

Desde priscas eras, as relações de ameaça, perseguição, assédio e intimidação ocorrem entre indivíduos, entre grupos, entre classes. Na maioria das vezes, com interesses econômicos exploratórios, objetivando acúmulo de riqueza e poder.

De origem inglesa, desde o século passado, a palavra “bully” passou a designar alguém que assedia, intimida ou aterroriza outros, especialmente em contextos escolares. O mundo digital nos agregou o “ciber”, palavra de origem grega para controle e direção que inspirou o termo “cybernetics” – introduzido pelo matemático e filósofo norte-americano Norbert Wiener, em 1948, em seu livro Cibernética: ou o controle e comunicação no animal e na máquina (em inglês, “Cybernetics: Or Control and Communication in the Animal and the Machine”).

Nasce aí o atual “ciberbullying” – que é a prática de intimidação, assédio ou humilhação de uma pessoa ou grupo, utilizando meios digitais, como redes sociais, mensagens de texto, e-mails e outras plataformas online, em geral de forma repetitiva e intencional.

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Segurança digital e proteção de dados

Adotar senhas fortes, manter sistemas atualizados e verificar remetentes e sites, são práticas essenciais para proteger informações pessoais e financeiras contra ameaças online.

Todo mundo sabe que não se deve deixar aberta a porta de sua casa para evitar que ladrões o roubem, mas os mesmos cuidados não são tomados muitas vezes com relação às suas portas e janelas digitais, que dão acesso a suas contas bancárias, às suas redes sociais e outras ferramentas de comunicação.

Além dos dados mais sensíveis, como senhas, é cada vez mais importante resguardar outras informações de sua “persona” digital, que são cada vez mais captadas e usadas por grandes sistemas coletores e sistematizadores de dados, o chamado Big Data, potencializadas com algoritmos de inteligência artificial.

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A digitalização do mundo e o tecnoimperialismo

A digitalização e manipulação de dados impulsionam um novo imperialismo tecnopolítico, alimentando a extrema-direita e corroendo a democracia com algoritmos e exploração.

O mundo de hoje é composto de duas camadas complementares: a física, constituída de átomos, e a digital, formada de bits. O feijão que comemos tem seus nutrientes compostos de átomos, porém seu preço é feito em bits. Cada vez mais, todos os elementos da realidade são digitalizados, sejam objetos ou, principalmente, as pessoas e suas ações.

No mundo digitalizado, as pessoas definem seus trajetos através de informações de algoritmos de trânsito coletados em tempo real e retroalimentam o sistema com as coordenadas de seu geoposicionamento. Pesquisamos modelos e preços de aparelhos, encomendamos comida, curtimos postagens de amigos e desconhecidos, em uma série de ações que são mapeadas e cruzadas com todos os dados já existentes sobre cada um de nós. Isso tudo alimenta grandes bancos de dados, o tal de Big Data (grandes e complexos conjuntos de dados que precisam de tecnologias especiais para análise e compreensão), base essencial para as plataformas de inteligência artificial interagirem através de algoritmos desenhados com finalidades específicas.

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50 anos da Revolução dos Cravos

A luta contínua pela democracia e a influência histórica das colônias na queda do fascismo em Portugal.

“Temos a certeza que a liquidação do colonialismo português arrastará a destruição do fascismo em Portugal”, afirmou Amílcar Cabral, histórico líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, em 1961.

Juntamente com Agostinho Neto, do Movimento Popular de Libertação de Angola, e Samora Machel, da Frente de Libertação de Moçambique, os movimentos de libertação das colônias portuguesas tiveram uma influência significativa na conscientização política dos oficiais portugueses e desempenharam um papel importante na eclosão da Revolução do 25 de Abril em Portugal.

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Combatendo a ditadura das Big Techs

A urgência de regular as Big Techs diante de ameaças à democracia e soberania nacional, evidenciadas pelo comportamento disruptivo de figuras como Elon Musk.

O recente ataque do bilionário Elon Musk às instituições brasileiras colocou a nu um dos maiores perigos para a soberania das nações: o poder das chamadas Big Techs. Se, no início do século 20, a política do Big Stick (com o lema “fale manso e carregue um grande porrete”) foi uma abordagem de política externa adotada por Theodore Roosevelt, que usava o poder militar dos EUA para influenciar a política internacional, hoje as Big Techs usam sua força econômica e tecnológica para influenciar políticas e mercados.

As Big Techs, como são chamadas as grandes empresas mundiais de tecnologia, exercem um poder significativo devido ao seu tamanho, alcance e influência econômica, sendo cada vez mais capazes de moldar a opinião pública, influenciar políticas governamentais e definir padrões de consumo e comportamento através de suas plataformas e produtos. Suas políticas envolvem questões de privacidade de dados, monopólio de mercado e regulação, onde enfrentam desafios legais e sociais para equilibrar seus interesses comerciais com as preocupações públicas e governamentais.

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Inteligência artificial, menos esperta que gatos

A tecnologia, incluindo a inteligência artificial, não é neutra e reflete as relações de poder na sociedade. Portanto, é essencial que haja um controle democrático sobre o desenvolvimento e uso da IA.

Impressiona ver a quantidade de pessoas e organizações que dizem “precisamos fazer algo com a inteligência artificial” mas que não têm ideias sobre o que querem ou precisam fazer. Essa é o tipo de coisa que, se você não sabe o que fazer com ela, certamente deverá ter receios sobre o que outros poderiam fazer.

Yann LeCun, cientista-chefe de IA da Meta, acredita que o medo generalizado de que modelos poderosos de inteligência artificial sejam perigosos é em grande parte imaginário, porque a tecnologia atual está longe de ser humana, nem mesmo é comparável à inteligência ao nível de um gato. O cérebro de um gato doméstico tem cerca de 800 milhões de neurônios, o cérebro de um cão tem cerca de 2 bilhões de neurônios e um cérebro humano maduro tem cerca de 100 bilhões.

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Celulares em aulas e reuniões

Um dos efeitos nocivos da extrema conectividade que temos hoje é o excesso de informação usado como estratégia para a desinformação.

Todo mundo tem um celular no bolso ou na bolsa. Com a pandemia, as relações digitais – por texto, áudio ou vídeo – se expandiram, seja em conversas em pequenos grupos, em reuniões empresariais ou partidárias, em cursos à distância. Quando as pessoas não usam celular, utilizam computador (ou ambos).

Quando os Jetsons se comunicavam à distância com outras pessoas, ou em Jornada nas Estrelas, quando um Spock no planeta lá embaixo conversava numa boa com um Kirk na espaçonave em órbita, ninguém pensava nos inúmeros impactos que estas tecnologias de comunicação teriam sobre a sociedade, a psicologia, a economia e até mesmo nas relações amorosas, familiares e políticas.

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A língua portuguesa e os conteúdos digitais

Quantidade de conteúdos em língua portuguesa na internet pode ser reveladora do potencial, inclusive econômico, de nosso idioma.

A quantidade de conteúdos em língua portuguesa na internet pode ser reveladora do potencial, inclusive econômico, de nosso idioma – o nono mais falado no planeta (e quarto em termos de falantes nativos), sendo a língua mais falada no hemisfério sul. Estima-se que algo entre 3% e 4% dos conteúdos na internet estão em português. Já em termos da quantidade de livros, os publicados em nosso idioma representam cerca de 2% dos editados em inglês, diferença essa multiplicada em função das tiragens muito baixas do nosso mercado editorial.

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Robinson Crusoe e as tecnologias educacionais

A tomada de decisões – “motor” básico de quase toda a simulação – pode levar os estudantes a fazer uma série de perguntas, visando a algumas abordagens que a resolução de problemas implica.

Quando se fala em uso das novas tecnologias na escola sempre surgem as inevitáveis menções às inúmeras carências, de janelas quebradas até os baixos salários dos professores. Sem pretender entrar nessa discussão, pelo menos neste texto, não podemos deixar de apontar que é apenas com o melhor da tecnologia que evitaremos uma clivagem social ainda maior entre a escola pública e a privada (ou entre o Brasil e as nações desenvolvidas). Como disse Seymour Pappert a um interlocutor: “não morda meu dedo, olhe para onde estou apontando”.

Antes de prosseguirmos, vamos conceituar o que é tecnologia. Isto é fundamental numa área onde se cultuam tantos totens tecnológicos, onde se consideram obsoletos dispositivos que sequer tiveram suas possibilidades exploradas, e onde a “culpa” pelo não-uso é sempre da falta de equipamentos melhores.

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Multiverso, um possível universo digital

O conceito de metaverso, embora promissor, enfrenta desafios tecnológicos e comerciais para sua plena realização e impacto na sociedade.

O termo “metaverso” refere-se a um conceito expansivo e interativo de universo virtual, em plataformas online, onde as pessoas podem interagir entre si e com o ambiente digital tridimensional de maneira semelhante à interação no mundo real, por meio de avatares personalizados.

Este conceito surgiu em um livro de ficção científica chamado Snow Crash, do escritor Neal Stephenson, publicado em 1992, mas ganhou popularidade em 2021, quando o Facebook anunciou a mudança de nome para Meta e revelou seus planos de construir um metaverso. Outras empresas de tecnologia, como a Microsoft, também estão investindo nessa ideia. Uma primeira versão de metaverso alcançou certa popularidade há alguns anos com o Second Life, lançado em 2003. Foi um dos primeiros mundos virtuais 3D online a permitir que os usuários criassem seus próprios avatares e interagissem uns com os outros em um ambiente online compartilhado.

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Os direitos autorais e seus desafios

Um panorama complexo que envolve interesses diversos, da remuneração dos autores à garantia do acesso cultural, demandando reflexão e debate amplo.

O “direito do autor” nasceu há cerca de 300 anos, em vários lugares do mundo assumindo características diferentes e mudando ao longo desse período inúmeras vezes e em diversos aspectos. A discussão de sua atualização em tempos de inteligências artificiais e também considerando os impeditivos da circulação de obras, assim como a justa remuneração dos autores propriamente ditos (com raras exceções algo quase insignificante, inclusive devido a tiragens irrelevantes) é de grande importância para todos os envolvidos, dos autores a seus leitores, passando pelos intermediários na cadeia de edição e distribuição, também importantes partícipes nesta questão.

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Usando interlocutores artificiais na educação

Como essas plataformas trabalham com a geração artificial de textos e de imagens, há uma tendência para achar que esse “psitacismo cibernético” pode funcionar como uma pitonisa que tudo sabe.

Cada dia mais as chamadas “inteligências artificiais”, ou IA para os íntimos, estão na boca do povo. Mesmo sem saber direito o que rola, alguns se apavoram, outros se extasiam e outros tentam aprender e discutir os impactos em várias áreas da atividade humana.

Há um nítido exagero no uso do termo “inteligência” para se referir às variadas plataformas de software existentes em intenso desenvolvimento. Há muita inteligência envolvida, obviamente, porém é a inteligência humana que está a gerar resultados impressionantes, que precisamos acompanhar e estudar formas de regulação e controles sociais.

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O celular na sala de aula

O desafio não está na proibição do celular, mas sim na transformação de seu uso em uma ferramenta educacional inovadora e construtiva.

É cada vez mais difícil encontrar algum estudante que não tenha consigo um aparelho celular. Assim como a imensa maioria dos brasileiros (já temos uma quantidade muito maior de celulares do que de pessoas no país), quase todo o aluno carrega no bolso ou na bolsa um desses dispositivos de comunicação.

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A inteligência artificial na produção artística

O debate sobre o papel da IA na criação artística requer reflexão sobre ética, direitos autorais e equilíbrio entre inovação tecnológica e valorização do trabalho criativo humano.

Com as “habilidades” de geração de imagens por inteligência artificial cada vez mais desenvolvidas, têm surgido alguns questionamentos e preocupações especialmente por parte de profissionais da ilustração e do mercado editorial.

Esta discussão é fundamental não só para ilustradores, mas também para todos os demais profissionais de editoração, jornalismo e para a arte e cultura em geral, inclusive com suas implicações na educação, na ciência, na economia.

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Da caverna de Platão ao fetiche da mercadoria

Platão e Marx ecoam na era digital, mostrando como a realidade virtual e a economia obscurecem relações sociais e verdade.

Na alegoria da caverna, que Platão narra em seu A República, seres humanos acorrentados dentro de uma caverna desde o nascimento têm suas visões limitadas à parede da caverna, onde observam as sombras projetadas que são criadas por objetos fora de sua visão, iluminados pela luz fora da caverna. A realidade percebida pelos sentidos (as sombras na parede) e a realidade mais ampla e verdadeira fora da caverna guardam muita coisa em comum porém podem ser totalmente díspares. Platão utiliza essa metáfora para discutir a natureza da realidade e do conhecimento.

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Redes digitais e comunidades de prática

As redes sociais, parte intrínseca da cultura, transformam as interações humanas, influenciando a educação, a política e as relações sociais.

As redes sociais existem há milhares de anos, fazendo parte da própria civilização e da cultura da humanidade de modo tão intrínseco que mal temos consciência de sua existência. Além das relações presenciais, há muito que a distância tem sido superada por mecanismos de comunicação como a escrita, os correios, a imprensa, o rádio, o telégrafo, a televisão etc. Hoje com isso tudo na internet.

Porém, as redes hoje estão em evidência e o senso comum designa cada vez mais por este termo as redes digitais que se desenvolvem através das tecnologias de informação e comunicação na internet (Instagram, Facebook, YouTube, TikTok, ex-Twitter, Wikipédia, WhatsApp e muitas mais), além de outros ambientes de interação na web.

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O digital: leitura, educação e ação política

As tecnologias digitais desafiam a educação e a sociedade, criando oportunidades e ameaças que exigem reflexão e ação.

Um importante aspecto envolvendo as tecnologias digitais é o da leitura. As pessoas vão deixar de ler livros no bom e consagrado formato de edições em papel? No caso dos livros didáticos e dos dicionários, em boa parte sim; no caso de romances, de poesia, quase certamente não exclusivamente. Afinal, o papel é uma tecnologia comprovadamente resistente, que não necessita de fonte de energia, e assim como o cinema não acabou com o teatro, nem a televisão acabou com o cinema, o livro possui inúmeras vantagens. O maior inimigo dos livros não são os leitores de formatos digitais (que nos grandes sistemas online são também os maiores compradores de edições em papel) mas sim os não-leitores.

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