Amor, de tarde (Mario Benedetti)

É uma lástima que não estejas comigo
quando olho o relógio e são quatro
e acabo a planilha e penso dez minutos
e estiro as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para afrouxar as costas
e dobro os dedos e lhes tiro mentiras.

É uma lástima que não estejas comigo
quando olho o relógio e são cinco
e sou um punho que calcula interesses
ou duas mãos que saltam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como late o telefone
ou um tipo que faz números e lhes tira verdades.

É uma lástima que não estejas comigo
quando olho o relógio e são seis
podias aproximar-te de surpresa
e dizer-me: Como vais? E ficaríamos
eu com a mancha vermelha de teus lábios
tu com a marca azul de meu carbono.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

» Biografia de Mario Benedetti

Amor, de tarde
Mario Benedetti

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las cuatro
y acabo la planilla y pienso diez minutos
y estiro las piernas como todas las tardes
y hago asi con los hombros para aflojar la espalda
y me doblo los dedos y les saco mentiras.

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las cinco
y soy una manija que calcula intereses
o dos manos que saltan sobre cuarenta teclas
o un oído que escucha como ladra el teléfono
o un tipo que hace números y les saca verdades.

Es una lástima que no estés conmigo
cuando miro el reloj y son las seis.
Podrías acercarte de sorpresa
y decirme “¿Qué tal?” y quedaríamos
yo con la mancha roja de tus labios
tú con el tizne azul de mi carbónico.

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Soneto XLIV (Pablo Neruda)

Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo e por isso te amo quando te amo.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

» Biografia de Pablo Neruda

Soneto XLIV
Pablo Neruda

Sabrás que no te amo y que te amo
puesto que de dos modos es la vida,
la palabra es un ala del silencio,
el fuego tiene una mitad de frío.

Yo te amo para comenzar a amarte,
para recomenzar el infinito
y para no dejar de amarte nunca:
por eso no te amo todavía.

Te amo y no te amo como si tuviera
en mis manos las llaves de la dicha
y un incierto destino desdichado.

Mi amor tiene dos vidas para armarte.
Por eso te amo cuando no te amo
y por eso te amo cuando te amo.

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Distância justa (Cristina Peri Rossi)

No amor, e no boxe,
tudo é questão de distância.
Se te aproximas demasiado me excito
me assusto.
me ofusco digo bobagens
me ponho a tremer.
Porém se estás longe
sofro entristecido
me desvelo
e escrevo poemas.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Distancia justa
Cristina Peri Rossi

En el amor, y en el boxeo
todo es cuestión de distancia
Si te acercas demasiado me excito
me asusto
me obnubilo digo tonterías
me echo a temblar
pero si estás lejos
sufro entristezco
me desvelo
y escribo poemas.

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Tenho andado muitos caminhos (Antonio Machado)

Tenho andado muitos caminhos
tenho aberto muitas veredas;
tenho navegado em cem mares
e atracado em cem ribeiras

Em todas partes tenho visto
caravanas de tristeza
orgulhosos e melancólicos
borrachos de sombra negra.

E pedantes ao pano
que olham, calam e pensam
que sabem, porque não bebem
o vinho das tabernas

Má gente que caminha
e vai empestando a terra…

E em todas partes tenho visto
pessoas que dançam ou jogam,
quando podem, e lavoram
seus quatro palmos de terra.

Nunca, se chegam a um lugar
perguntam a onde chegam.
Quando caminham, cavalgam
lombos de mula velha.

E não conhecem a pressa
nem mesmo nos dias de festa.
Onde há vinho, bebem vinho,
onde não há vinho, água fresca.

São boas pessoas que vivem
trabalham, passam e sonham
e em um dia como tantos
descansam abaixo da terra.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

» Biografia de Antonio Machado

He andado muchos caminos
Antonio Machado

He andado muchos caminos,
he abierto muchas veredas;
he navegado en cien mares
y atracado en cien riberas.

En todas partes he visto
caravanas de tristeza,
soberbios y melancólicos
borrachos de sombra negra,

y pedantones al paño
que miran, callan, y piensan
que saben, porque no beben
el vino de las tabernas.

Mala gente que camina
y va apestando la tierra…

Y en todas partes he visto
gente que danzan o juegan,
cuando pueden, y laboran
sus cuatro palmos de tierra.

Nunca, si llegan a un sitio,
preguntan adónde llegan.
Cuando caminan, cabalgan
a lomos de mula vieja,

Y no conocen la prisa
ni aun en los días de fiesta.
Donde hay vino, beben vino;
donde no hay vino, agua fresca.

Son buenas gentes que viven,
laboran, pasan y sueñan,
y en un día como tantos
descansan bajo la tierra.

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À sombra te sentas das desnudas rochas (Rosalía de Castro)

À sombra te sentas das desnudas rochas,
e no canto te escondes onde zumbe o inseto,
e ali onde as águas estancadas cochilam
e não há irmãos seres que interrompam teus sonhos,
quem soubesse em que pensas, amor de meus amores,
quando com leve passo e contido alento,
tremendo a que percebas minha agitação extrema,
ali onde te escondes, ansiosa te surpreendo!

— Curiosidade maldita, frio ferrão que feres
as femininas almas, os varonis peitos!,
tua força impeli ao homem a que busque a profundidade
do desencanto amargo e a que remova o lodo
onde se formam sempre os odores infectados.

— Que hás dito de amargura e lodo e desencanto?
Ah! Não pronuncies frases, meu bem, que não compreendo;
Diz-me só em que pensas quando de mim te afastas
e fungindo dos homens vais buscando o silêncio.

— Penso em coisas tristes às vezes e tão negras,
e em outras tão estranhas e tão formosas penso,
que… não as saberás nunca, porque o que se ignora
não nos danifica se é mal, nem perturba se é bom.
Eu te o digo, menina, a quem deveras amo;
encerra a alma humana tão profundos mistérios,
Que quando a nossos olhos um véu os oculta
é temerário empreendimento retroceder esse véu;
não penses, pois, meu bem, não penses em que penso.

— Pensarei noite e dia, pois sem sabê-lo morro.

E conta o que soube, e que a matou então
a pena de sabê-lo.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

» Biografia de Rosalia de Castro

A la sombra te sientas de las desnudas rocas
Rosalía de Castro

A la sombra te sientas de las desnudas rocas,
y en el rincón te ocultas donde zumba el insecto,
y allí donde las aguas estancadas dormitan
y no hay hermanos seres que interrumpan tus sueños,
¡quién supiera en qué piensas, amor de mis amores,
cuando con leve paso y contenido aliento,
temblando a que percibas mi agitación extrema,
allí donde te escondes, ansiosa te sorprendo!

—¡Curiosidad maldita, frío aguijón que hieres
las femeninas almas, los varoniles pechos!,
tu fuerza impele al hombre a que busque la hondura
del desencanto amargo y a que remueva el cieno
donde se forman siempre los miasmas infectos.

—¿Qué has dicho de amargura y cieno y desencanto?
¡Ah! no pronuncies frases, mi bien, que no comprendo;
dime sólo en qué piensas cuando de mí te apartas
y huyendo de los hombres vas buscando el silencio.

—Pienso en cosas tan tristes a veces y tan negras,
y en otras tan extrañas y tan hermosas pienso,
que… no lo sabrás nunca, porque lo que se ignora
no nos daña si es malo, ni perturba si es bueno.
Yo te lo digo, niña, a quien de veras amo;
encierra el alma humana tan profundos misterios
que cuando a nuestros ojos un velo los oculta
es temeraria empresa descorrer ese velo;
no pienses, pues, bien mío, no pienses en qué pienso.

—Pensaré noche y día, pues sin saberlo muero.

Y cuenta que lo supo, y que la mató entonces
la pena de saberlo.

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Poema do renunciamento (José Angel Buesa)

Passarás por minha vida sem saber que passaste
Passarás em silêncio por meu amor e, ao passar,
fingirei um sorriso, como um doce contraste
de dor de querer-te… e jamais o saberás.

Sonharei com o nácar virginal de tua testa;
sonharei com teus olhos de esmeralda de mar;
sonharei com teus lábios desesperadamente;
sonharei com teus beijos… e jamais o saberás

Talvez passes com outro que te diga ao ouvido
essas frases que ninguém como eu te dirá;
e afogando para sempre meu amor inadvertido,
te amarei mais que nunca… e jamais saberás.

Eu te amarei em silêncio, como algo inacessível,
como um sonho que nunca conseguirei realizar;
e o longínquo perfume de meu amor impossível
roçará teus cabelos… e jamais o saberás

E se um dia uma lágrima denuncia meu tormento
o tormento infinito que devo ocultar
te direi sorridente: “não é nada…foi o vento”.
Me enxugarei a lágrima… e jamais o saberás

(Tradução Maria Teresa Almeida Pina)

Poema del renunciamiento
Jose Angel Buesa

Pasarás por mi vida sin saber que pasaste.
Pasarás en silencio por mi amor y, al pasar,
fingiré una sonrisa, como un dulce contraste
del dolor de quererte… y jamás lo sabrás.

Soñaré con el nacar virginal de tu frente;
soñaré con tus ojos de esmeralda de mar;
soñaré con tus labios desesperadamente;
soñaré con tus besos… y jamás lo sabrás.

Quizás pases con otro que te diga al oído
esas frases que nadie como yo te dirá;
y, ahogando para siempre mi amor inadvertido,
te amaré más que nunca… y jamás lo sabrás.

Yo te amaré en silencio, como algo inaccesible,
como un sueño que nunca lograré realizar;
y el lejano perfume de mi amor imposible
rozará tus cabellos… y jamás lo sabrás.

Y si un día una lágrima denuncia mi tormento
-el tormento infinito que te debo ocultar-
te diré sonriente: “No es nada… Ha sido el viento.”
Me enjugaré la lágrima… y jamás lo sabrás.

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Silêncio (Juana de Ibarbourou)

Minha casa tão longe do mar.
Minha vida tão lenta e cansada.
Quem me dera deter-me a sonhar!
Uma noite de lua na praia!
Morder musgos avermelhados e ácidos
E ter por fresquíssimo travesseiro
Um montão dessas curvas pedras
Que há polido o sal das águas.
Dar o corpo aos ventos sem nome
Abaixo o arco do céu profundo
E ser toda uma noite, silêncio,
No vazio ruidoso do mundo.

(Tradução Hector Zanetti)

Silencio
Juana Ibarbourou

Mi casa tan lejos del mar.
Mi vida tan lenta y cansada.
!Quién me diera tenderme a soñar
Una noche de luna en la playa!
Morder musgos rojizos y ácidos
Y tener por fresquísima almohada
Un montón de esos curvos guijarros
Que ha pulido la sal de las aguas.
Dar el cuerpo a los vientos sin nombre
Bajo el arco del cielo profundo
Y ser toda una noche, silencio,
En el hueco ruidoso del mundo.

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Implacável (Juana de Ibarbourou)

E te dei o cheiro
De todas minhas dálias e narcos em flor.
E te dei o tesouro
Das fundas minas de meus sonhos de ouro.
E te dei mel,
Do favo moreno que finge minha pele.
E tudo te dei!
E como uma fonte generosa e viva para tua alma fui.
E tu, deus de pedra
Entre cujas mãos nem a hera cresce;
E tu deus de ferro
Ante cujas plantas velei como um cachorro,
Desdenhaste o ouro, o mel e o cheiro.
E agora retornas, mendigo de amor!
A buscar as dálias, a implorar o ouro,
A pedir de novo todo aquele tesouro!
Ouve, mendigo:
Agora que tu queres é que eu não quero,
Se o roseiral floresce,
É já para outro que em casulo cresce.
Vá embora, deus de pedra,
Sem fontes, sem dálias, sem mel, sem hera
Igual que uma estátua,
A quem Deus baixara do pedestal, por vaidade.
Vá embora, deus de ferro!
Que junto a outras plantas se há estendido o cachorro!

(Tradução Hector Zanetti)

Implacable
Juana Ibarbourou

Y te di el olor
De todas mis dalias y nardos en flor.
Y te di el tesoro
De las hondas minas de mis sueños de oro.
Y te di la miel,
Del panal moreno que finge mi piel.
¡Y todo te di!
Y como una fuente generosa y viva para tu alma fui.
Y tú, dios de piedra
Entre cuyas manos ni la yedra medra;
Y tú, dios de hierro
Ante cuyas plantas velé como un perro,
Desdeñaste el oro, la miel y el olor.
¡Y ahora retornas, mendigo de amor.
A buscar las dalias, a implorar el oro,
A pedir de nuevo todo aquel tesoro!
Oye, pordiosero:
Ahora que tú quieres es que yo no quiero.
Si el rosal florece,
Es ya para otro que en capullos crece.
Vete, dios de piedra,
Sin fuentes, sin dalias, sin mieles, sin yedra.
Igual que una estatua,
A quien Dios bajara del plinto, por fatua.
¡Vete, dios de hierro,
Que junto a otras plantas se ha tendido el perro!

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Tu que nunca serás (Alfonsina Storni)

Sábado foi e caprichoso o beijo dado,
Capricho de varão, audaz e fino
Mas foi doce o capricho masculino
A este meu coração, lobinho alado.

Não é que creia, não creio, se inclinado
sobre minhas mãos te senti divino
E me embriaguei, compreendo que este vinho
Não é para mim, mas jogo e roda o dado…

Eu sou a mulher que vive alerta,
Tu o tremendo varão que se desperta
E é uma torrente que se desvanece no rio

E mais se encrespa enquanto corre e poda.
Ah, resisto, mas me tens toda,
Tu, que nunca serás de todo meu.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

» Biografia de Alfonsina Storni

Tu, que nunca serás
Alfonsina Storni

Sábado fue, y caprichoso el beso dado,
capricho de varón, audaz y fino,
mas fue dulce el capricho masculino
a este mi corazón, lobezno alado
No es que crea, no creo, si inclinado
sobre mis manos te sentí divino,
y me embriagué. Comprendo que este vino
no es para mí, más juego y rueda el dado.

Yo soy la mujer que vive alerta,
tú el tremendo varón que se despierta
y es un torrente que se ensancha en río,

y más se encrespa mientras corre y poda.
Ah, me resisto, más me tienes toda,
Tú, que nunca serás del todo mío.

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O engano (Alfonsina Storni)

Sou tua, Deus o sabe porquê, já que compreendo
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.

Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.

Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator do papel dono.

Eu te olho calada com meu doce sorriso,
Não és tu o que me engana, quem me
engana é meu sonho.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

» Biografia de Alfonsina Storni

El Engaño
Alfonsina Storni

Soy tuya, Dios lo sabe por qué, ya que comprendo
Que habrás de abandonarme, fríamente, mañana,
Y que, bajo el encanto de mis ojos, te gana
Otro encanto el deseo, pero no me defiendo.

Espero que esto un día cualquiera se concluya,
Pues intuyo, al instante, lo que piensas o quieres.
Con voz indiferente te hablo de otras mujeres
Y hasta ensayo el elogio de alguna que fue tuya.

Pero tú sabes menos que yo, y algo orgulloso
De que te pertenezca, en tu juego engañoso
Persistes, con un aire de actor del papel dueño.

Yo te miro callada con mi dulce sonrisa,
Y cuando te entusiasmas, pienso: no te des prisa,
No eres tú el que me engaña; quien me engaña es mi sueño.

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