Mais que inovação tecnológica, a Web3 expõe disputas de poder, riscos de concentração de riqueza e desafios para trabalhadores, educadores e movimentos sociais.

A chamada Web3 – terceira fase da internet, baseada em tecnologias como blockchain (registros digitais descentralizados), NFTs (certificados digitais de propriedade) e contratos inteligentes (acordos automatizados por códigos) – tem sido apresentada como uma revolução que transfere o controle das plataformas digitais das grandes corporações para seus usuários.
Mas é preciso olhar com atenção: quem de fato controla essas ferramentas? E o que significam para os trabalhadores, educadores e movimentos populares?
Embora muitas vezes associada ao universo dos jogos online, a Web3 tem implicações muito mais profundas. Seu discurso de descentralização promete autonomia, mas frequentemente esconde uma nova forma de concentração de riqueza e poder. Sem regulação e organização coletiva, essa “liberdade” pode se converter em mercado especulativo, vigilância digital e aprofundamento das desigualdades.
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Em vez de garantir protagonismo, os NFTs, por exemplo, criam uma falsa ideia de escassez digital, transformando criações culturais e até objetos educacionais em ativos para investimento. Assim como nas redes sociais, o trabalho criativo é capturado por plataformas e algoritmos, com poucos lucrando muito enquanto muitos produzem gratuitamente. Essa nova lógica pode ser vista como uma “mais-sabia” – a apropriação do saber-fazer e do tempo dos usuários por plataformas que extraem valor sem distribuir retorno equivalente.
No campo educacional, essa discussão é ainda mais urgente. O digital não deve ser fetiche. Tecnologias como celulares, redes, vídeos e plataformas online devem ser analisadas criticamente, questionando: a serviço de quem operam? Com que objetivos? Em quais estruturas de poder se inserem?
No Brasil e na América Latina, onde ainda convivemos com exclusão digital e precarização do trabalho, essas ferramentas devem ser politizadas. A chamada “prótese cognitiva” – ideia de que tecnologias ampliam a capacidade mental humana – só será emancipadora se seu uso estiver vinculado a projetos coletivos, soberanos e democráticos.
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Por isso, a Web3 deve ser compreendida como campo de disputa. Seu potencial só poderá ser alcançado se for apropriado criticamente por sindicatos, educadores, movimentos sociais e coletivos culturais. Não basta resistir: é preciso intervir, transformar, propor.
Vivemos um tempo de reorganização geopolítica global, com os BRICS desafiando a hegemonia unipolar e com as tecnologias de inteligência artificial e robótica alterando profundamente os modos de produção. Essas novas tecnologias concentram ainda mais riqueza e reduzem a necessidade de horas de trabalho humano. Diante disso, torna-se inadiável debater uma nova forma de distribuição da riqueza: não mais baseada apenas nos contratos de trabalho e na quantidade de horas executadas, mas sim em critérios equitativos que garantam dignidade, inclusão e bem-estar para todos.
Essa nova lógica exige uma atuação estratégica do Estado. É urgente que o desenvolvimento tecnológico esteja articulado à soberania nacional, à segurança informacional e à defesa de um projeto popular de país. O uso socialmente justo da riqueza produzida pelas novas tecnologias não pode seguir subordinado ao financismo e ao rentismo comandado por bancos e big techs. Precisamos de um Estado ativo, indutor de justiça social e capaz de direcionar a tecnologia para o bem comum – e não para o lucro de poucos.
Pequeno glossário de termos e conceitos
Web3 – É a próxima geração da internet, construída sobre princípios de descentralização. Ao contrário da Web2, em que grandes corporações controlam os dados e as plataformas, a Web3 devolve o poder aos usuários. Baseada em tecnologias como blockchain e criptografia, a Web3 permite que as pessoas controlem diretamente seus dados e transações, sem depender de intermediários. Nos jogos online, isso significa que os jogadores podem possuir seus próprios itens, moedas e até influenciar as regras e o desenvolvimento do jogo, criando uma internet mais democrática e colaborativa.
Blockchain – É uma tecnologia de armazenamento de dados que organiza informações em blocos conectados de forma sequencial e criptografada. Cada bloco contém registros de transações que são verificados por uma rede descentralizada de computadores. Isso garante que os dados sejam imutáveis e seguros, sem a necessidade de uma autoridade central.
NFT – Sigla para “Token Não Fungível”. Os NFTs são como obras de arte digitais exclusivas, registradas em blockchain. Cada NFT é único, o que significa que ele representa algo exclusivo no mundo digital, seja um item de jogo, uma skin ou até mesmo um personagem.
Token – No universo digital, é uma unidade de valor criada por uma organização que pode representar ativos, direitos ou acesso a serviços. No contexto das criptomoedas e do blockchain, um token pode ser utilizado para diversas funções: pode ser um meio de troca, um investimento ou uma forma de acesso a funcionalidades dentro de plataformas descentralizadas.
Descentralização – Quando falamos em descentralização, estamos nos referindo à retirada do controle centralizado, típico de corporações, e à distribuição desse poder para os próprios usuários.
Marketplaces – São plataformas digitais onde usuários podem comprar, vender e trocar bens e serviços. Na Web3, esses mercados são descentralizados e operam em blockchain, garantindo segurança e transparência nas transações.
Smart Contract – Imagine um contrato que se cumpre sozinho. Esse é o “contrato inteligente”, um código programado que executa automaticamente as condições acordadas entre as partes.
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