Façamos um trato (Mario Benedetti)

Companheira
você sabe
que pode contar
comigo
não até dois
ou até dez
senão contar
comigo

se alguma vez
percebe
que a olho nos olhos
e um brilho de amor
reconheces nos meus
não alerte seus fuzis
nem pense que deliro
apesar do brilho
ou talvez porque existe
você pode contar
comigo

se outras vezes
me encontra
intratável sem motivo
não pense que fraquejara
igual pode contar
comigo

porém façamos um trato
eu quisera contar
com você
é tão lindo
saber que você existe
um se sente vivo
e quando digo isto
quero dizer contar
embora seja até dois
embora seja até cinco
não já para que acuda
pressurosa em meu auxílio
senão para saber
a ciência certa
que você sabe que pode
conta comigo.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

» Biografia de Mario Benedetti

Hagamos un trato
Mario Benedetti

Compañera
usted sabe
que puede contar
conmigo
no hasta dos
o hasta diez
sino contar
conmigo

si alguna vez
advierte
que la miro a los ojos
y una veta de amor
reconoce en los míos
no alerte sus fusiles
ni piense qué delirio
a pesar de la veta
o tal vez porque existe
usted puede contar
conmigo

si otras veces
me encuentra
huraño sin motivo
no piense qué flojera
igual puede contar
conmigo

pero hagamos un trato
yo quisiera contar
con usted
es tan lindo
saber que usted existe
uno se siente vivo
y cuando digo esto
quiero decir contar
aunque sea hasta dos
aunque sea hasta cinco
no ya para que acuda
presurosa en mi auxilio
sino para saber
a ciencia cierta
que usted sabe que puede
contar conmigo.

Mario Benedetti declama seu poema Hagamos un Trato
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Poema do regresso (José Angel Buesa)

Venho do fundo escuro de uma noite implacável,
e contemplo os astros com um gesto de assombro.
Ao chegar à tua porta me confesso culpável,
e uma pomba branca se me pousa no ombro

Meu coração humilde se detém em tua porta,
com a mão estendida como um velho mendigo;
e teu cachorro me late de alegria na horta,
porque, apesar de tudo segue sendo meu amigo.

Ao fim cresceu o roseiral aquele que não crescia
e agora oferece suas rosas atrás da grade de ferro;
Eu também hei mudado muito desde aquele dia,
pois não tem estrelas as noites do exílio.

Talvez tua alma está aberta atrás da porta fechada;
porém ao abrir tua porta, como se abre a um mendigo,
olha-me docemente, sem perguntar-me nada,
e saberás que não hei voltado… porque estava contigo.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Poema del regreso
Jose Angel Buesa

Vengo del fondo oscuro de una noche implacable,
y contemplo los astros con un gesto de asombro.
Al llegar a tu puerta me confieso culpable,
y una paloma blanca se me posa en el hombro.

Mi corazón humilde se detiene en tu puerta,
con la mano extendida como un viejo mendigo;
y tu perro me ladra de alegría en la huerta,
porque, a pesar de todo, sigue siendo mi amigo.

Al fin creció el rosal aquel que no crecía
y ahora ofrece sus rosas tras la verja de hierro:
Yo también he cambiado mucho desde aquel día,
pues no tienen estrellas las noches del destierro.

Quizás tu alma está abierta tras la puerta cerrada;
pero al abrir tu puerta, como se abre a un mendigo,
mírame dulcemente, sin preguntarme nada,
y sabrás que no he vuelto… porque estaba contigo.

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Tática e estratégia (Mario Benedetti)

Minha tática é
olhar-te
aprender como tu és
querer-te como tu és

minha tática é
falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível

minha tática é
ficar em tua lembrança
não sei como nem sei
com que pretexto
porém ficar em ti

minha tática é
ser franco
e saber que tu és franca
e que não nos vendemos
simulados
para que entre os dois

não haja cortinas
nem abismos

minha estratégia é
em outras palavras
mais profunda e mais
simples
minha estratégia é
que um dia qualquer
não sei como nem sei
com que pretexto
por fim me necessites.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

» Biografia de Mario Benedetti

Táctica y estrategia
Mario Benedetti

Táctica y estrategia
Mario Benedetti
Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos

mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible

mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos

mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos

no haya telón
ni abismos

mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple
mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.

Mario Benedetti declama seu poema Táctica y estrategia
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Soneto (Louise Labé)

Nem heróis como Ulisses e outros mais
Por mais sagazes e por mais divinos
Cheios de graça e louros peregrinos
Desafios provaram aos meus iguais.

Brilho desses olhos tão sensuais
Tanto inflamou meus sonhos femininos
Que para meus ardores repentinos
Não há remédio, se vós não m’o dais.

Ó dura sorte, que me faz igual
A quem pede socorro ao escorpião
Contra o veneno do mesmo animal.

Só peço que não me venha a fenecer
Esse desejo no meu coração
Porque, sem ele, é bem melhor morrer.

(Tradução de Sérgio Duarte)

» Biografia de Louise Labé

Sonnet
Louise Labé

Si jamais il y eut plus clairvoyant qu’Ulysse,
Il n’aurait jamais pu prévoir que ce visage,
Orné de tant de grâce et si digne d’hommage,
Devienne l’instrument de mon affreux supplice.

Cependant ces beaux yeux, Amour, ont su ouvrir
Dans mon coeur innocent une telle blessure
-Dans ce coeur où tu prends chaleur et nourriture-
Que tu es bien le seul à pouvoir m’en guérir.

Cruel destin ! Je suis victime d’un Scorpion,
Et je ne puis attendre un remède au poison
Que du même animal qui m’a empoisonnée !

Je t’en supplie, Amour, cesse de me tourmenter !
Mais n’éteins pas en moi mon plus précieux désir,
Sinon il me faudra fatalement mourir.

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Poema (Louise Labé)

Belos olhos que fingem não me ver
Mornos suspiros, lágrimas jorradas
Tantas noite em vão desperdiçadas
Tantos dias que em vão vi renascer;

Queixas febris, vontades obstinadas
Tempo perdido, penas sem dizer,
Mil mortes me aguardando em mil ciladas
Que o destino me armou por me perder.

Risos, fronte, cabelos, mãos e dedos
Viola, alaúde, voz que diz segredos
À fêmea em cujo peito a chama nasce!

E quanto mais me queima, mas lamento
Que desse fogo que arde tão violento
Nem uma só fagulha te alcançasse.

(Tradução de Sérgio Duarte)

» Biografia de Louise Labé

Poème
Louise Labé

Ô beaux yeux bruns, ô regards détournés,
Ô chauds soupirs, ô larmes épandues,
Ô noires nuits vainement attendues,
Ô jours luisants vainement retournée !

Ô tristes plaints, ô désirs obstiné,
Ô temps perdu, ô peines dépendues,
Ô milles morts en mille rets tendues,
Ô pires maux contre moi destiné !

Ô ris, ô front, cheveux bras mains et doigts !
Ô luth plaintif, viole, archet et voix !
Tant de flambeaux pour ardre une femelle !

De toi me plains, que tant de feux portant,
En tant d’endroits d’iceux mon coeur tâtant,
N’en ai sur toi volé quelque étincelle.

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Ontem à noite (Marguerite Duras)

Ontem à noite, depois da sua partida definitiva, fui para aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, fui para ali onde fico sempre no mês de junho, esse mês que inaugura o Inverno. Tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral. Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo: vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba. Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque. E depois comecei a escrever…

(Tradução de Tereza Coelho)

» Biografia de Marguerite Duras

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Criatividade (Paolo Satta)

Criatividade
a qual
vulcanicamente
sentes em teu íntimo.
Vontade de explodir
em tua máxima
capacidade.
Tudo se torna
uma melodia,
profundamente sentida.
Profundamente
tua.

(Tradução de Patrizia Streparava)

Creatività
Paolo Satta

Creatività
che
vulcanicamente
senti nel tuo intimo.
Voglia di esplodere
nella tua massima
capacità.
Diventa tutto
una melodia,
gelosamente sentita.
Profondamente
tua.

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O sol, a rosa e o menino (Miguel Hernández)

O sol, a rosa e o menino
flores de um dia nasceram.
Os de cada dia são
Sois, flores, meninos novos.

Amanhã não serei eu:
outro será o verdadeiro.
E não serei mais além
de quem queira sua lembrança.

Flor de um dia é a maior
ao pé do mais pequeno.
Flor da luz relâmpago,
e flor do instante o tempo.

Entre as flores te fostes.

Entre as flores fico.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

» Biografia de Miguel Hernández

El sol, la rosa y el niño
Miguel Hernández

El sol, la rosa y el niño
flores de un día nacieron.
Los de cada día son
soles, flores, niños nuevos.

Mañana no seré yo:
otro será el verdadero.
Y no seré más allá
de quien quiera su recuerdo.

Flor de un día es lo más grande
al pie de lo más pequeño.
Flor de la luz relámpago,
y flor del instante el tiempo.

Entre las flores te fuiste.

Entre las flores me quedo.

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Pedra preta sobre pedra branca (César Vallejo)

Morrerei em Paris com aguaceiro,
um dia do qual tenho já a lembrança.
Morrerei em Paris – e não me apresso –
talvez em uma quinta-feira, como é hoje, de outono.

Quinta-feira será, porque hoje, quinta, que proseio
estes versos, os úmeros hei posto
a mau e, jamais como hoje, hei voltado
com todo meu caminho, a ver-me só.

César Vallejo há morto, lhe batiam
todos sem que ele lhes faça nada
davam-lhe forte com um pau e duro

Também com uma corda, são testemunhos
os dias de quinta e os ossos úmeros,
a solidão, a chuva, os caminhos…

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

» Biografia de César Vallejo

Piedra negra sobre piedra blanca
César Vallejo

Me moriré en París con aguacero,
un día del cual tengo ya el recuerdo.
Me moriré en París -y no me corro-
tal vez un jueves, como es hoy, de otoño.

Jueves será, porque hoy, jueves, que proso
estos versos, los húmeros me he puesto
a la mala y, jamás como hoy, me he vuelto,
con todo mi camino, a verme solo.

César Vallejo ha muerto, le pegaban
todos sin que él les haga nada;
le daban duro con un palo y duro

también con una soga; son testigos
los días jueves y los huesos húmeros,
la soledad, la lluvia, los caminos…

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Os mensageiros negros (César Vallejo)

Há golpes na vida, tão fortes… eu não sei!
Golpes como o ódio de Deus; como se ante eles,
a ressaca de todo o sofrido
se estagna na alma… eu não sei!

São poucos; mas são… abrem poças escuras
no rosto mais feio e no lombo mais forte,
serão talvez os potros de bárbaros atilas;
os mensageiros negros que nos manda a morte.

São as quedas fundas dos cristos da alma,
de alguma fé adorável que o destino blasfema.
Esses golpes sanguinolentos são as crepitações
de algum pão que na porta do forno nos queima.

E o homem… pobre….pobre! Volta os olhos, como
quando por sobre o ombro nos chama uma palmada;
Volta os olhos loucos, todo o vivido
estagna-se, como charco de culpa, no olhar.
Há golpes na vida, tão fortes… eu não sei!

(Tradução de Héctor Zanetti)

» Biografia de César Vallejo

Los heraldos negros
César Vallejo

Hay golpes en la vida, tan fuertes … ¡Yo no sé!
Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos,
la resaca de todo lo sufrido
se empozara en el alma… Yo no sé!

Son pocos; pero son… Abren zanjas obscuras
en el rostro más fiero y en el lomo más fuerte.
Serán talvez los potros de bárbaros atilas;
o los heraldos negros que nos manda la Muerte.

Son las caídas hondas de los Cristos del alma,
de alguna fe adorable que el Destino blasfema.
Esos golpes sangrientos son las crepitaciones
de algún pan que en la puerta del horno se nos quema.

Y el hombre… Pobre… pobre! Vuelve los ojos, como
cuando por sobre el hombro nos llama una palmada;
vuelve los ojos locos, y todo lo vivido
se empoza, como charco de culpa, en la mirada.

Hay golpes en la vida, tan fuertes… Yo no sé!

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