Nada (Manuel Machado)

Já nada anseio. Nada já minha cabeça
consegue já levantar novo e formoso.
Quando quero viver, penso na morte…
E quando quero ver, fecho os olhos.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Nada
Manuel Machado

Ya nada ansío. Nada ya mi cabeza
logra ya levantar nuevo y hermoso.
Cuando quiero vivir, pienso en la murte…
Y cuando quiero ver, cierro los ojos.

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Navegação (Cristina Peri Rossi)

Nas mansas correntes de tuas mãos
e em tuas mãos que são tormenta
na nave divagante de teus olhos
que têm rumo seguro
na redondeza de teu ventre
como uma esfera perpetuamente inacabada
na morosidade de tuas palavras
velozes como feras fugitivas
na suavidade de tua pele
ardendo em cidades incendiadas
no lunar único de teu braço
ancorei a nave.
Navegaríamos, se o tempo houvesse
sido favorável.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Navegación
Cristina Peri Rossi

En las mansas corrientes de tus manos
y en tus manos que son tormenta
en la nave divagante de tus ojos
que tienen rumbo seguro
en la redondez de tu vientre
como una esfera perpetuamente inacabada
en la morosidad de tus palabras
veloces como fieras fugitivas
en la suavidad de tu piel
ardiendo en ciudades incendiadas
en el lunar único de tu brazo
anclé la nave.
Navegaríamos,
si el tiempo hubiera sido favorable.

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Educação sentimental (Cristina Peri Rossi)

Se fosse analfabeta
aprenderia em teu corpo
a ler com códigos
que têm os pássaros
com códigos que têm as águas
e o abecedário transparente
de tua nudez
forma da luz
refletida no espelho
– xadrez escuro -.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Educación sentimental
Cristina Peri Rossi

Si fuera analfabeta
aprendería en su cuerpo
a leer con códigos
que tienen los pájaros
con código que tienen las aguas
y el abecedario transparente
de su desnudez
forma de la luz
reflejada en el espejo
-ajedrez oscuro-.

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Os marinheiros são as asas do amor (Luiz Cernuda)

Os marinheiros são as asas do amor,
são os espelhos do amor,
o mar lhes acompanha,
e seus olhos são dourados o mesmo que o amor
dourado é também, igual que são seus olhos.

A alegria vivaz que vertem nas veias
dourada é também,
idêntica à pele que assomam;
não os deixeis marchar porque sorriem
como a liberdade sorri,
luz cegadora erguida sobre o mar.

Se um marinheiro é mar,
dourado mar amoroso cuja presença é cântico,
não quero a cidade feita de sonhos cinzas;
quero só ir ao mar onde me alague,
barca sem norte,
corpo sem norte afundar-me em sua luz dourada.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Los marineros son las alas del amor
Luiz Cernuda

Los marineros son las alas del amor,
son los espejos del amor,
el mar les acompaña,
y sus ojos son rubios lo mismo que el amor
rubio es también, igual que son sus ojos.

La alegría vivaz que vierten en las venas
rubia es también,
idéntica a la piel que asoman;
no les dejéis marchar porque sonríen
como la libertad sonríe,
luz cegadora erguida sobre el mar.

Si un marinero es mar,
rubio mar amoroso cuya presencia es cántico,
no quiero la ciudad hecha de sueños grises;
quiero sólo ir al mar donde me anegue,
barca sin norte,
cuerpo sin norte hundirme en su luz rubia.

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Estou cansado (Luiz Cernuda)

Estar cansado tem plumas,
tem plumas graciosas como um louro,
plumas que desde logo nunca voam,
mas balbuciam igual que louro.

Estou cansado das casas,
prontamente em ruínas sem um gesto;
estou cansado das coisas,
com um bater de seda voltas logo de costas.

Estou cansado de estar vivo,
embora mais cansado seria o estar morto;
estou cansado do estar cansado
entre plumas ligeiras sagazmente,
plumas do louro aquele tão familiar ou triste,
o louro aquele do sempre estar cansado.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Estoy cansado
Luiz Cernuda

Estar cansado tiene plumas,
tiene plumas graciosas como un loro,
plumas que desde luego nunca vuelan,
mas balbucean igual que loro.

Estoy cansado de las casas,
prontamente en ruinas sin un gesto;
estoy cansado de las cosas,
con un latir de seda vueltas luego de espaldas.

Estoy cansado de estar vivo,
aunque más cansado sería el estar muerto;
estoy cansado del estar cansado
entre plumas ligeras sagazmente,
plumas del loro aquel tan familiar o triste,
el loro aquel del siempre estar cansado.

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O vento e a alma (Luiz Cernuda)

Com tal veemência o vento
vem do mar, que seus sons
elementares contagiam
o silêncio da noite.

Só em tua cama o escutas
insistente nos cristais
tocar, chorando e chamando
como perdido sem ninguém.

Porém não é ele quem em desvelo
Tem-te, senão outra força
de que teu corpo é hoje prisão,
foi vento livre, e recorda.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

El viento y el alma
Luis Cernuda

Con tal vehemencia el viento
viene del mar, que sus sones
elementales contagian
el silencio de la noche.

Solo en tu cama le escuchas
insistente en los cristales
tocar, llorando y llamando
como perdido sin nadie.

Mas no es él quien en desvelo
te tiene, sino otra fuerza
de que tu cuerpo es hoy cárcel,
fue viento libre, y recuerda.

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Contigo (Luiz Cernuda)

Minha terra?
Minha terra és tu.
Minha gente?
Minha gente és tu.

O desterro e a morte
para mim estão onde
não estejas tu.

E minha vida?
Diz-me, minha vida,
que é, senão és tu?

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Contigo
Luiz Cernuda

¿Mi tierra?
Mi tierra eres tú.
¿Mi gente?
Mi gente eres tú.

El destierro y la muerte
para mi están adonde
no estés tú.

¿Y mi vida?
Dime, mi vida,¿qué es,
si no eres tú?

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Os espinhos (Luiz Cernuda)

Verdor novo os espinhos
têm já pela colina,
toda de púrpura e neve
no ar estremecida.

Quantos céus florescidos
os hás visto; embora ao encontro
eles serão sempre fieis,
tu não o serás um dia.

Antes que a sombra caia,
aprende como é a felicidade
diante dos espinhos brancos
e vermelhos em flor. Vê. Olha.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

Los Espinos
Luiz Cernuda

Verdor nuevo los espinos
tienen ya por la colina,
toda de púrpura y nieve
en el aire estremecida.

Cuántos cielos florecidos
les has visto; aunque a la cita
ellos serán siempre fieles,
tú no lo serás un día.

Antes que la sombra caiga,
aprende cómo es la dicha
ante los espinos blancos
y rojos en flor. Vé. Mira.

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O andaluz (Luiz Cernuda)

Sombra feita de luz,
que amenizando repele,
é fogo com neve
o andaluz.

Enigma ao transluz,
pois vai entre gente só,
o amor com ódio
o andaluz

Oh irmão meu, tu.
Deus, que te creia,
será quem compreenda
ao andaluz.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

El Andaluz
Luiz Cernuda

Sombra hecha de luz,
que templando repele,
es fuego con nieve
el andaluz.

Enigma al trasluz,
pues va entre gente solo,
es amor con odio
el andaluz.

Oh hermano mío, tú.
Dios, que te crea,
será quién comprenda
al andaluz.

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Dor (Alfonsina Storni)

Quisera esta tarde divina de outubro
passear pela beira longínqua do mar;
Que a areia de ouro, e as águas verdes,
e os céus puros me vissem passar.

Ser alta, soberba, perfeita, quisera,
como uma romana, para concordar
com as grandes ondas, e as rocas mortas
e as largas praias que apertem o mar.

Com o passo lento, e os olhos frios
e a boca muda, deixar-me levar;
ver como se rompem as ondas azuis,
contra os granitos e não pestanejar;
ver como as aves de rapina se comem
os peixes pequenos e não despertar;
pensar que puderam as frágeis barcas
Afundar-se nas águas e não suspirar;
Ver que se adianta a garganta ao ar,
O homem mais belo não desejar amar…

Perder o olhar, distraidamente,
perde-lo e que nunca o volte a encontrar:
E figura erguida entre céu e praia
sentir-me o esquecimento perene do mar.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

» Biografia de Alfonsina Storni

Dolor
Alfonsina Storni

Quisiera esta tarde divina de Octubre
pasear por la orilla lejana del mar;
que la arena de oro, y las aguas verdes,
y los cielos puros me vieran pasar.

Ser alta, soberbia, perfecta, quisiera,
como una romana para concordar
con las grandes olas, y las rocas muertas
y las anchas playas que ciñen el mar.

Con el paso lento, y los ojos fríos
y la boca muda, dejarme llevar;
Ver como se rompen las olas azules
contra los granitos y no parpadear;
Ver como las aves rapaces se comen
los peces pequeños y no despertar;
Pensar que pudieran las frágiles barcas
hundirse en las aguas y no suspirar;
Ver que se adelanta la garganta al aire,
el hombre más bello no desear amar.

Perder la mirada, distraídamente,
perderla y que nunca la vuelva a encontrar
y, figura erguida, entre cielo y playa,
sentirme el olvido perenne del mar.

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