Insônia (Rafael Diaz Icaza)

Sou náufrago, mãe, e te chamo na noite,
desolado, no firme marchar para a morte,
e de golpe me assalta a ternura infinita
dos primeiros anos. E necessito saber que te achas
perto, que a tua lâmpada vela, pontual, perto de mim.

Necessito de teu copo para a má sombra dos pesadelos,
teu apoio de nogueira para o descanso dos sonhos
absurdos teu desencantado sorriso e tuas mãos sobre meus cabelos.
Desolado, desde a má noite, quebro meus punhos em portas infinitas
e chamo, e ninguém me abre.
Mãe: me dê a chave de tuas despensas,
sou um homem perdido baixo a chuva cinza:
Ascende o fósforo mais tênue para que eu caminhe

Atravessam a sombra, desde os pórticos da alvorada,
a noiva e seu lenço de açafrão e pérola,
a querida com seus beijos impuros,
todas as esperanças e todos os fracassos,
todos os malabares e os equilíbrios na corda bamba

Volta o homem, desde sua maturidade do seu poderio,
até a comarca em que chorava só baixo a noite imensa,
e voltam a soltar-se os mastins e a derramar-se o vinho dos odres,
e a assinalar com os índices à criança desvalida:
“Vejam aqui ao que come pães do lamento e a angústia.”

Mãe: um escuro terror, uma certa sensação de culpa
há neste homem cego que empunha as aldravas
das casas sem donos, em seus erros na noite.

(Tradução de Héctor Zanetti)

Insomnio
Rafael Diaz Icaza

Soy el náufrago, madre, y te llamo en la noche,
desolado, en el firme marchar hacia la muerte,
y de golpe me asalta la ternura infinita
de los primeros años. Y necesito saber que te hallas
cerca, que tu lámpara vela, puntual, cerca de mi.

Necesito tu vaso para la mala sombra de las pesadillas,
tu báculo de nogal para el descenso de los sueños
absurdos tu desencantada sonrisa y tus manos sobre mis cabellos.
Desolado, desde la mala noche, rompo mis puños en puertas infinitas
y llamo, y nadie me abre.
Madre: dame la llave de tus alacenas,
soy un hombre perdido bajo la lluvia gris:
enciende la cerilla más tenue para que yo camine

Atraviesan la sombra, desde los pórticos del alba,
la novia y su pañuelo de azafrán y nácar,
la querida con sus besos impuros,
todas las esperanzas y todos los fracasos,
todos los malabares y los equilibrios en la cuerda floja.

Vuelve el hombre, desde su madurez de su poderío,
hasta la comarca en que lloraba solo bajo la noche inmensa,
y vuelven a soltarse los mastines y a derramarse el vino de los odres,
y a señalar con los índices al niño desvalido:
“He aquí al que come los panes del lamento y la angustia.”

Madre: un oscuro terror, una cierta sensación de culpa
hay en este hombre ciego que empuña las aldabas
de las casas sin dueño, en su erranza en la Noche.

Sobre Maria Teresa Pina

Nasci em 27 de dezembro de 1962, em São Paulo, e me formei bibliotecária em 1983 pela Escola de Sociologia e Política - Faculdade de Biblioteconomia de São Paulo. Apesar de não exercer mais a profissão, nunca perdi o interesse pela pesquisa/informação e pelos meios de comunicação.
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