Eliana de Freitas – “Oculta”

       A megalópole paulistana comporta milhares de mundinhos que não se comunicam, cada qual julgando-se o próprio universo e considerando os demais como coisa periférica, pouco interessante. Mas, de fato, todos os grupos, centrais ou periféricos, existem e interagem; daí os preconceitos e conflitos. Tudo se multiplica num Brasil gigante e pleno de contrastes. Como se não bastasse, o tempo se apresenta. E é mais um poderoso fator de clivagens. Dividindo-nos em faixas etárias que pouco se comunicam, eleva ao infinito aqueles grupos e as possibilidades de estranhamento e desencontros. O tempo é ainda, e sobretudo, o sempiterno enigma: passa por nós, ou passamos nós por ele? Quem o acompanha, e como? Quem ficou para trás, por quê?

        É neste complexo conjunto de variáveis – e viajando por entre os multiplicados cenários que seu cruzamento implica – que Eliana de Freitas desenvolve a ação deste instigante romance Oculta – Uma sentença masculina. Nele não faltam ingredientes clássicos do romance: amor, paixão, ciúme, traição, aos quais Eliana acrescenta o molho moderno constituído de muita ação, aventura, conflitos, mistérios, comportamentos aparentemente contraditórios e sexo, muito sexo sob suas mais diversas versões.

        Na roda viva agigantada de nossos dias, desfilam as personagens típicas de cada um dos infinitos grupos. Há o jornalista que, tendo pertencido à vanguarda nos anos setenta, agora se confina em seu mundinho alternativo para negar que o tempo passa e que os valores mudam. Há uma mulher misteriosa que, ao transitar por entre grupos e comportamentos, paira acima deles e do tempo, constituindo-se no centro do enigma que Eliana propõe ao leitor deste belo romance. E, se ele não o decifrar não tem problema. Ninguém decifrou Capitu, e, quiçá por isso Dom Casmurro continue a ser sempre lido e relido.        

 Levi Bucalem Ferrari

Presidente da União Brasileira de Escritores

(*) Apresentação do livro “Oculta” de Eliana de Freitas (São Paulo, Editora Limiar)

 

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Patrícia Melo – Acqua Toffana

Acqua toffana é um veneno da Renascença. É líquido, transparente, sem sabor e sem cheiro, mas uma gota por semana faz a pessoa morrer em dois anos. A explicação está no livro de estréia de Patrícia Melo, lançado em 1994, que ganhou justamente o nome da poção mortífera.

Nele, duas novelas desenrolam-se como o itinerário caprichoso da morte lenta, planejada como uma arte ou desenhada como delírio.

No labirinto narrativo deste livro nada é o que parece ser. O ritmo ágil da prosa de Patrícia, entrecortado e construído em primeira pessoa, ludibria o leitor, fazendo cair uma cortina atrás da outra, e revelando uma natureza sombria na qual o impulso assassino fica entre a patologia e a luxúria.

Na primeira história, a protagonista tenta convencer um delegado de que seu marido é o assassino que estuprou e estrangulou várias mulheres no bairro paulistano da Lapa. Na segunda, o metódico funcionário de um cartório passa a ser atormentado pela presença de uma vizinha, e desenvolve um plano para matá-la.

Em ambas, desfilam tipos tão banais quanto esquisitos. Em contraste com psicopatas, sádicos e maníacos, há a senhorinha de cabelo acaju, a vizinha que irrita o protagonista com seus chinelos de pano e suas unhas lascadas; e a onipresença de uma tela de TV, vomitando sinopses de filmes e noticiários sensacionalistas.

Mas há, sobretudo, o elemento-surpresa: aquele que atribui ainda mais requinte ao já sofisticado universo de assassinos quase que por acaso.

 

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Victor Giudice – O Museu Darbot e outros mistérios

Neste livro, o autor Victor Giudice renovou o conto utilizando-se de grande imaginação e técnica exemplar.

O conto que dá título ao livro é estruturado com extraordinária segurança tornando verossímil uma história deliberadamente inverossímil. E que surpreenderá o leitor com desenlaces imprevisíveis.

É também uma sátira mordaz ao mundo das galerias de pintura, dos comerciantes de quadros e dos críticos de arte que criam e promovem imposturas capazes de render fortunas e instituir celebridades.

Assim ocorre com o personagem fictício Darbot. Ele atinge a glória internacional a partir de uma mistificação deliberada em que entraram negociantes de quadros, colecionadores japoneses, curadores de museu e peritos reputados.

As jogadas resultam na criação artificial de um grande pintor desconhecido nascido na França em 1872 e cuja biografia misteriosa aumenta ainda mais o interesse que despertou.

 

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Newton Moreno – As Centenárias & Maria do Caritó

A persistente luta pelo direito de amar de uma solteirona virgem e as estripulias de duas malandras centenárias para conseguir driblar a morte.

Estes são os dois motes de Nirto, o narrador, dois pontos de partida, dois enredos, dois repentes, dois causos, dois cordéis, duas zombarias, dois reveses, duas picardias, duas rezas, duas crônicas de costumes, duas fábulas.

Quem conta um conto aumenta um ponto. Imagine então quem conta dois… Então Nirto mata nossa sede de voltar às origens e preservar a memória, nos fazendo beber nas fontes da efervescente estética nordestina.

Demonstra-nos, com domínio de mestre contador de histórias, o amplo poder de resistência do povo simples de um Brasil místico e pouco conhecido.

Buscando seu lugar de no panteão das grandes personagens da literatura brasileira, a hilariante santinha Maria Caritó e as longevas carpideiras Socorro e Zaninha nos fisgam para sempre com suas perenes lições de fé na vida.

 

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Nei Lopes – 20 contos e uns trocados

Neste livro, 20 contos e uns trocados, o autor Nei Lopes concilia o espírito popular dos subúrbios do Rio com a qualidade estética de uma grande obra.

O universo dos contos é o do indivíduo negro, que vive o cotidiano das comunidades humildes e marginalizadas da cidade.

O livro também retrata a involução sofrida no mundo do samba desde a origem das primeiras escolas até a transformação do carnaval em um grande setor do turismo e do entretenimento.

Malandros, pais-de-santo, compositores de escola de samba, o subúrbio, o morro desfilam com grande força literária. São 20 contos – e ainda mais seis (os ‘trocados’ do título) – em que o autor nos conduz, com batuta de maestro, pelo dia-a-dia dos habitantes dos mais inesperados e marginalizados locais da Cidade Maravilhosa.

Imagens, cenários; alegrias, decepções; vidas construídas, destruídas, reconstruídas. Assim o leitor vai descobrindo, conhecendo e se envolvendo com esses personagens.

 

 

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Monteiro Lobato – Fábulas

Qualquer livro de Monteiro Lobato é uma obra-prima e faz muito bem para qualquer criança. Seja para desenvolver a imaginação, seja pelo prazer e o gosto pela leitura. Nós já dissemos que é abençoado o país que possui um escritor infantil da envergadura de Monteiro Lobato.

Este livro, “Fábulas”, saiu pela primeira vez em 1922. Nele, o criador do Sítio do Picapau Amarelo reconta fábulas de Esopo e La Fontaine e publica algumas de sua autoria.

Adaptadas para o universo do Sítio, as fábulas estimulam a participação de todos os personagens através de perguntas e críticas.

Nesta nova edição da obra de Lobato, cada volume adaptado é ilustrado por um artista diferente que apresenta a sua interpretação dos personagens.

“Fábulas” é ilustrado por Alcy Linares, um dos ilustradores de livros infantis mais premiados no Brasil.

 

 

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Luiz Alberto Moniz Bandeira – Presença dos Estados Unidos no Brasil

Quando lançou, em agosto de 1973, a primeira edição de PRESENÇA DOS ESTADOS UNIDOS NO BRASIL, o autor, Luiz Alberto Moniz Bandeira, estava na prisão, no Rio de Janeiro, acusado de subversão. Eram os anos de chumbo da ditadura militar. ***Mesmo assim, o livro se tornou um best seller e causou repercussão. Inclusive nos meios militares, apesar de o golpe de 1964 ter contado com o respaldo dos EUA.

Nesta edição, revista e ampliada, o autor faz o mais completo balanço das relações entre o Brasil e os Estados Unidos, mostrando como têm sido alternadamente amistosas e conflitantes. Revela fatos e aspectos até pouco tempo desconhecidos ou abafados da presença estadunidense em território brasileiro.

Abarcando o tempo histórico que vai de Brasil Colônia e Brasil Império até o Brasil República, chega à era Vargas e à queda de João Goulart.

Com base em vastíssima documentação, o autor demonstra que as relações entre os Estados Unidos e o Brasil não foram tradicionalmente tranqüilas.

O governo imperial suspendeu três vezes as relações diplomáticas com os Estados Unidos. Por volta de 1849-1854, os dois países quase entraram em guerra por causa da Amazônia. E durante a Guerra do Paraguai, os Estados Unidos respaldaram o ditador Solano López, favorecendo o Paraguai contra o Brasil.

 

 

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Luísa Castel-Branco – Não digas a ninguém

Em todas as famílias há segredos que não se confessam, histórias de amores proibidos e passados de que ninguém fala. Quando a nossa vida parece tranqüilamente assente na felicidade, como lidar com a revelação de verdades escondidas?

Três casais amigos decidem passar um fim-de-semana em conjunto, mas o aparecimento de uma mulher misteriosa, Benedita, vai transformar o que deveria ser aqueles dias numa descida ao inferno, onde cada uma das personagens é confrontada com os seus medos e desejos proibidos.

A autora, Luísa Castel-Branco, regressa ao romance e volta a surpreender os leitores com esta fábula moderna em tom de crítica social que é, também, uma história sobre os afetos, o valor da amizade e o poder do amor e do perdão.

Por outro lado, ela desenha um retrato que poderia ser de qualquer pessoa, de seus sentimentos, desejos mais íntimos, muitas vezes escondidos, inclusive, de nós mesmos.

 

 

 

 

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José Santos – Memórias de brasileiros

A idéia é interessantíssima. Parte do princípio de que todas as pessoas têm suas histórias para contar. E que estas histórias guardam suas singularidades, mas também tem muito em comum entre elas.

Fazem parte da grande história que todos vamos escrevendo através de nossas vidas. E são todas histórias importantes. Para cada um e para todos.

No livro, desfilam pessoas de várias gerações, origens, percursos. Uma rede de testemunhos que se cruzam e dialogam. Mais de cem fragmentos de vidas que têm em comum o espaço geográfico Brasil.

O livro também celebra os 15 anos do Museu da Pessoa com a edição de seu acervo de histórias de vida. Dividido por regiões e percursos de viagem, é um passeio pela paisagem física e humana do país, suas zonas de densidade e de vazios, suas áreas urbanas e rurais, seus ecossistemas e seus habitantes.

Mostra a riqueza de nossa cultura dando voz a todos que realizam atividades praticamente invisíveis, mas essenciais em suas comunidades.

O autor José Santos publicou vários livros de poesia para crianças e jovens como O ABC quer brincar com você, O casamento do Boitatá com a Mula-sem-cabeça, Poemas esparadrápicos, e outros.

 

 

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Frei Betto – A menina e o elefante

Afrânio era um elefante especial. De sua tromba-clarineta nasciam as mais doces melodias. Com habilidade, equilibrava-se e dançava sobre uma enorme bola colorida. Tão grande e tão leve…

Hoje a música tornou-se um ruído, e o dançarino, um simples paquiderme. Para Mariana, Afrânio era mais do que músico e dançarino: era seu querido animal de estimação. Para os moradores do prédio e da cidade, um estorvo, uma aberração!

O coro dos incomodados aumentava a cada dia: meninas combinam com cachorrinhos, gatinhos ou peixinhos ou, quando muito, com elefantinhos de pelúcia.

Uma coisa, diziam, era Afrânio no circo. Outra coisa, enfatizavam, era Afrânio fora do circo. Você acredita que a menina de olhos amarelos, sardas no rosto e tranças azuis abrirá mão do amigo Afrânio?

 

 

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Fábio Lucas – O poliedro da Crítica

Este livro traz uma série de reflexões sobre teoria e crítica de Literatura e sobre vários aspectos ligados à leitura e bom entendimento da obra literária.

Fábio Lucas, o autor, cuida também das modalidades de análise, de interpretação e de estimativa dos textos literários.

Livro para professores e especialistas, mas que também agradará àqueles que gostam da nobre arte porque escrito numa linguagem acessível, longe do ecletismo que caracteriza a maior parte dos trabalhos acadêmicos.

Ao contrário, é um passeio agradável pelos principais conceitos e uma visita guiada a grandes autores como Mario de Andrade, Antonio Candido, Augusto Meyer, Sérgio Buarque de Holanda, Euclides da Cunha, Benedito Nunes e Clarice Lispector, entre outros.

O autor é ex-presidente da União Brasileira de Escritores, Prêmio Intelectual do Ano e ganhador do Troféu Juca Pato e muitos outros prêmios. Foi professor no Brasil, nos Estados Unidos e em Portugal. É considerado um dos maiores críticos literários do Brasil.

 

 

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Dênis de Morais – Sociedade Midiatizada

Nos dias de hoje as notícias voam, mas tudo se esquece com a mesma rapidez. É que as mudanças em nossa sociedade vinculam-se à primazia da comunicação. Redes infoeletrônicas, satélites e fibras ópticas atravessam a Terra, interligando povos, países, culturas e economias.

Uma hiperinflação de imagens, sons e dados subjuga tudo aos modos de exibição em telas e monitores: a moda, o corpo, o sexo, as competições esportivas, a religião, a música, as relações interpessoais.

A mídia impera inclusive na fixação de hábitos e crenças através da saturação de impactos audiovisuais, apelos consumistas e acessos diferenciados a tecnologias e conhecimentos.

Pensando nessas questões o autor, Dênis de Moraes, reuniu neste livro dez pesquisadores de renome internacional e indiscutível compromisso com o pensamento crítico. 

As diversas interpretações permitem-nos aprofundar reflexões sobre a influência da mídia numa conjuntura de contradições perturbadoras, quando avanços tecnológicos e novidades a cada segundo se confundem com desigualdades clamorosas e emoções fugazes.

 

 

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Celso de Campos Jr – Adoniran – uma biografia

O autor deste livro, Celso de Campos Jr., mergulhou durante dois anos no cofre onde ficava guardado o acervo de Adoniran. Neste trabalho, foi auxiliado por Elaine Servo

Ela não só era a guardiã do acervo como de toda a papelada, das fotos e dos brinquedos feitos pelo compositor. É a principal testemunha das horas e dias dedicados pelo autor a pesquisar cada pedacinho de papel, cada objeto, cada documento.

E não foi fácil, pois Adoniran não foi apenas o grande compositor popular de São Paulo. Também foi comediante e ator de rádio; ator de televisão e cinema… E muito mais. Poucos sabem, mas no final dos anos 70, Adoniran participou até de shows em favor da anistia a presos políticos.

Na pesquisa, Celso descobriu esquetes radiofônicos da autoria de Oswaldo Moles e que foram o início do sucesso de Adoniran.

O autor entrevistou amigos, parentes, colegas e leu centenas de documentos.

Quem quer que goste dos sambas imortais de Adoniran Barbosa não pode deixar de sentir que o está reencontrando neste livro.

 

 

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Boaventura de Sousa Santos – As vozes do mundo

Este livro reúne diversos estudos sobre como os grupos sociais menos favorecidos se organizam para resistir à exclusão social produzida pela globalização neoliberal.

Realizado na África do Sul, Brasil, Colômbia, Índia, Moçambique, Portugal e China, tem por objetivo analisar iniciativas e movimentos de resistência e de formulação de alternativas em vários campos sociais.

Dirigido pelo sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, envolveu 69 pesquisadores e foram analisadas 60 iniciativas, movimentos ou organizações.

Este volume dá voz aos ativistas e líderes dos movimentos sociais, iniciativas e organizações. São entrevistas, narrativas e histórias de vida destas pessoas. Desta forma, concentra-se no discurso e no conhecimento prático dos seus protagonistas, resultados diretos da experiência vivida, dos riscos e dos desafios enfrentados, das derrotas e das vitórias.

Realizadas entre 2001 e 2005, cada entrevista fornece uma visão do contexto em que o entrevistado atua. E termina com um comentário do entrevistador.

Milhões de outras vozes, igualmente representativas poderiam ter sido escolhidas. Fica claro que as vozes não ouvidas constituem o inabarcável silêncio planetário de que emergem as vozes aqui ouvidas. Um silêncio, que, ao ouvi-las, se torna ainda mais pesado.

 

 

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Audálio Dantas – O menino Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva alinha as suas lembranças, as mesmas de milhões de outros brasileiros que percorreram o caminho dos migrantes.

A história que se conta neste livro é a de um homem que atravessou o tempo da infância sem alegria. Mas é, ao mesmo tempo, uma bela e magnífica história de superação.

Ao contá-la, ele não escolhe as palavras, não omite fatos. Aqui e ali, uma lembrança, a evocação de uma situação constrangedora, quase sempre sublinhada por um palavrão. É o Lula, não o Presidente da República.

O autor, Audálio Dantas, muito conhecido por sua liderança na resistência à ditadura e por sua militância cultural, vem se especializando em publicar livros sobre a infância de muita gente.

Começando por escritores, já escreveu sobre a infância de Graciliano Ramos, de Ziraldo e de Maurício de Souza. Todos muito bem escritos. Vamos ver o que Audálio tem a dizer sobre a infância de Lula.

 

 

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Antônio Carlos Resende – Jairo e seus diabos

O personagem desta tórrida história vive às voltas com o controle moral da escola religiosa. Junto da fé, o desejo é sua mais intensa religião: a de ter prazer e a de dar prazer.

 Mais tarde famoso locutor na época de ouro do rádio, mulheres provocantes e perigosas inundam a vida do personagem de um fervor pagão que fatalmente o arrastará ao inferno de si mesmo e ao inferno dos demais.

 Esta é a décima obra do escritor gaúcho Antonio Carlos Resende que é radialista muito conhecido em seu estado. Como o cenário de Jairo e seus diabos é o rádio, trata-se de livro semi-autobiográfico, cuja ação vai de 1943 a 1949, na Rádio Farroupilha.

Diz o autor: “Esse livro eu recomendo para os estudantes de rádio, para sentirem o que era o início do rádio. Não sei se o livro vai ser considerado bom, mas eu acho que é ágil, rápido, como uma transmissão de uma partida bem feita de futebol.”

 

 

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Lançamento: Brasil soberano – um plano nacional pós neoliberalismo

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Lançamento: O menino Lula

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Adonirando

De Levi Ferrari e Lula Barbosa

Quem mora no morro da casa verde
Ou num barraco lá no bairro do Ermelino
Quem já comeu no Bixiga
Na casa do Nicola
Conheceu o Arnesto

E tomou o trem das onze hora
Quem amou Eugênia, Maria Rosa, Iracema
Pafunça, Malvina e todas as mariposa

Fala nóis vai, nóis vem, nóis fumo, nóis vorta
Tem uma maloca saudosa
Tem uma São Paulo que chora
Choram Mato grosso e o Joca
Chora Vila Esperança
Todo mundo nessa hora
Chora o apito do samba
Chora também o meu tamborim
Cala cavaco, fica mudo o violão

Ele se foi, Deus quis assim
Mas está vivo em nossos corações
O poeta se foi, foi ver Iracema
E virou uma estrela no céu
Subiu na fumaça de um cigarro Yolanda
Foi ver a banda tocar na favela

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A CONFLUÊNCIA DA LITERATURA E DO JORNALISMO EM “OS SERTÕES”

setões

Joaquim Maria Botelho

Euclides da Cunha emergiu de Canudos como São Paulo de Damasco. Um homem com ideias renovadas.

Quando foi convidado por Júlio Mesquita, dono do jornal O Estado de S. Paulo, para fazer a cobertura jornalística da guerra de Canudos, Euclides condenava Canudos e sua gente. Engenheiro, formado no cientificismo que regia o Colégio Militar, partilhava do julgamento da gente instruída de sua época. Estava convicto de que Antônio Conselheiro era um falso messias, canalha e impostor. E Canudos, no sertão da Bahia, onde o beato se recolhera com seus seguidores, era um covil de assassinos.

Euclides foi se convertendo à medida que escrevia. Aos poucos sucumbiu à verdade e deixou de lado o cientificismo e o determinismo que explicava gente como Antônio Conselheiro e seus jagunços. Machado de Assis, por exemplo, a bordo do pensamento dominante, considerava o sertanejo um ser incapaz de atingir a civilização. Euclides sintetizaria a sua contraposição a essa ideia numa frase: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

Seguidor da doutrina de Augusto Comte, Euclides seguiu para o local das batalhas como cientista. Principiou a enviar artigos para o jornal, antes de testemunhar a luta, durante um período alongado em que permaneceu em Salvador, aguardando translado. Seu texto denunciava o engenheiro ocupado com a precisão técnica, com o rigor científico. Tinha um projeto historiográfico e para isso valia-se do discurso científico, positivista e europeu. Usava desmedidamente dados da geografia, da meteorologia, da hidráulica, da botânica e da engenharia. Seu interlocutor era a ciência.

Mas, como literato, tinha um projeto estético. Seu texto denuncia o autor ocupado com a precisão da língua, dominando a técnica narrativa, a poética e a humanidade. Mas não perdia de vista o que Machado de Assis pontificava, no artigo Instinto de Nacionalidade, publicado em 1873: “O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”

Gênero literário ou jornalístico?

Do ponto de vista da teoria da literatura, “Os Sertões” não é um romance histórico, dado que não narra um episódio histórico emprestando feição literária de personagem aos protagonistas. O registro é fundamentado, científico – pelo menos tanto que se podia ser naquele momento histórico-filosófico-literário do Brasil.

“Os Sertões” tampouco é a história romanceada, porque não acrescenta à história episódios romanescos para torná-la mais agradável à leitura.

Encaixa-se, perfeitamente, na categoria de épico. Tem narrador, tem urdidura organizada e lógica (neste caso, real), tem personagens (neste caso, históricas), tem espaço definido e tempo delimitado. Aliás, é isto mesmo que escreveu Araripe Júnior, crítico respeitadíssimo à época do lançamento do livro: “Vós sabeis retratar ao vivo a natureza física, dando intensidade às notas, sem prejudicar a veracidade dos fatos, a qualidade dos fenômenos. É o grande escolho da arte descritiva: exatidão e relevo, naturalismo e brilho, consistência e colorido, poesia e verdade.”

Tendo essas qualidades, seria, então, “Os Sertões”, uma reportagem?

Analisemos. É uma obra original, porque traz achados importantes para a sociedade. É uma obra oportuna (menos para o Exército republicano, que queria mesmo era esquecer o fracasso das expedições que durante um ano investiram contra Canudos). É factual, documentada. E, além disso, demonstra independência de consciência. Conceitualmente, tudo isto se refere ao trabalho jornalístico e está presente em “Os Sertões”.

Além disso, o texto obedece aos paradigmas do jornalismo: o quê/quem, quando, onde, como e por que.

É preciso lembrar que a retórica do jornalismo, à época, era uma retórica literária. Ainda não havia sido incorporada ao jornalismo mundial a técnica da objetividade e da imparcialidade que os Estados Unidos exportariam para o mundo depois da Segunda Guerra Mundial. Até aqui, nenhum conflito entre literatura e jornalismo, no texto de “Os Sertões”, apesar da grandiloqüência.

Mas, na questão programática, o papel do repórter está bem claro na obra. Nas “Notas à segunda edição”, Euclides da Cunha encerra com uma frase do historiador ateniense Tucídides, exibindo o seu reposicionamento.

Notas à segunda edição

“Não tive o intuito de defender os sertanejos, porque este livro não é um livro de defesa; é, infelizmente, de ataque.
Ataque franco e, devo dizê-lo, involuntário. Nesse investir, aparentemente desafiador, com os singularíssimos civilizados que nos sertões, diante de semibárbaros, estadearam tão lastimáveis selvatiguezas, obedeci ao rigor incoercível da verdade. Ninguém o negará.
E se não temesse envaidar-me em paralelo que não mereço, gravaria na primeira página a frase nobremente sincera de Tucídides, ao escrever a história da guerra do Peloponeso – porque eu também embora sem a mesma visão aquilina, escrevi

“SEM DAR CRÉDITO ÀS PRIMEIRAS TESTEMUNHAS QUE ENCONTREI, NEM ÀS MINHAS PRÓPRIAS IMPRESSÕES, MAS NARRANDO APENAS OS ACONTECIMENTOS DE QUE FUI ESPECTADOR OU SOBRE OS QUAIS TIVE INFORMAÇÕES SEGURAS.”

Testemunho

Uma vez em Canudos, Euclides ouviu seguidores de Conselheiro. Na narrativa a seguir (trecho de reportagem publicada no jornal o Estado de S. Paulo em agosto de 1897), podemos ler, ao mesmo tempo uma compreensão desvelada da situação e um depoimento do fazer jornalístico que norteava seus artigos.

Afirma o pequeno jagunço que o velho vigário de Cumbe ali aparecia, de quinze em quinze dias.
(…)
Terminamos o longo interrogatório inquirindo acerca dos milagres do Conselheiro. Não os conhece, não os viu nunca, nunca ouviu dizer que ele fazia milagres. E ao replicar um dos circunstantes que aquele declarava que o jagunço morto em combate ressuscitaria – negou ainda.
– Mas o que promete afinal ele anos que morrem?
A resposta foi absolutamente inesperada:
– Salvar a alma.
Estas revelações feitas diante de muitas testemunhas têm para mim um valor inestimável; não mentem, não sofismam e não iludem, naquela idade, as almas ingênuas dos rudes filhos do sertão.

Aí está. Emerge um novo Euclides.

Libelo

Antes de citar um trecho da “Nota preliminar”, lembremos que o jornalismo tem alguns conceitos que categorizam a notícia e a reportagem. São eles: imparcialidade, atualidade, exemplaridade e proximidade.

A civilização avançará nos sertões impelida por essa implacável “força motriz da História” que Gumplowicz, maior do que Hobbes, lobrigou, num lance genial, no esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes.
A campanha de Canudos tem por isto a significação inegável de um primeiro assalto, em luta talvez longa. Nem enfraquece o asserto o termo-la realizado nós filhos do mesmo solo, porque, etnologicamente indefinidos, sem tradições nacionais uniformes, vivendo parasitariamente à beira do Atlântico, dos princípios civilizadores elaborados na Europa, e armados pela indústria alemã – tivemos na ação um papel singular de mercenários inconscientes. Além disto, mal unidos àqueles extraordinários patrícios pelo solo em parte desconhecido, deles de todo nos separa uma coordenada histórica – o tempo.
Aquela campanha lembra um refluxo para o passado.
E foi, na significação integral da palavra, um crime.
Denunciemo-lo.

Euclides da Cunha denunciava a existência de dois Brasis, muito antes de Jacques Lambert ou Gilberto Freyre. Um libelo, como fizera Émile Zola no caso Dreyfus. Isto é mais jornalismo do que literatura. E confere ao livro funções sociais que ultrapassam as suas qualidades literárias ou científicas e que transcendem tanto o projeto historiográfico quanto o projeto estético.

Para a crítica e para os intelectuais, especialmente José Veríssimo, Sílvio Romero, Cassiano Ricardo, Gilberto Freyre e Coelho Neto, talvez a mais importante contribuição de “Os Sertões” tenha sido a tentativa de estabelecer a identidade nacional. O livro tem sido entendido como o primeiro épico da nacionalidade brasileira.

Como num ato de contrição, Euclides escreve, no capítulo V de “Os Sertões”:

“Vivendo quatrocentos anos no litoral vastíssimo, em que palejam reflexos da vida civilizada, tivemos de improviso, como herança inesperada, a República. Ascendemos, de chofre, arrebatados no caudal dos ideais modernos, deixando na penumbra secular em que jazem, no âmago do país, um terço da nossa gente. Iludidos por uma civilização de empréstimo; respingando, em faina cega de copistas, tudo o que de melhor existe nos códigos orgânicos de outras nações, tomamos, revolucionariamente, fugindo ao transigir mais ligeiro com as exigências da nossa própria nacionalidade, mais fundo o contraste entre o nosso modo de viver e o daqueles rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa. Porque não no-los separa um mar, separam-no-los três séculos…”

No entanto, os efeitos sobre o leitor são resultantes mais da retórica do que dos fatos. Isto é literatura. Vamos ver um trecho de “A luta”:

Sem comando, cada um lutava a seu modo. Destacaram-se ainda diminutos grupos para queimarem as casas mais próximas ou travarem breves tiroteios. Outros, sem armas e feridos, principiaram a repassar o rio.
Era o desenlace.
Repentinamente, largando as últimas posições, os pelotões, de mistura, numa balbúrdia indefinível, sob a hipnose do pânico, enxurraram na corrente rasa das águas!
Repelindo-se; apisoando os malferidos, que tombavam; afastando rudemente os extenuados trôpegos; derrubando-os, afogando-os, os primeiros grupos bateram contra a margem direita. Aí, ansiando por vingá-la, agarrando-se às gramíneas escassas, especando-se nas armas, filando-se às pernas dos felizes que conseguiam vencê-las, se embaralham outra vez em congérie ruidosa. Era um fervilhar de corpos transudando vozear estrídulo, e discordante, e longo, dando a ilusão de alguma enchente repentina, em que o Vaza-Barris, engrossado, saltasse, de improviso, fora do leito, borbulhando, acachoando, estrugindo. . .

Vamos escandir os principais efeitos adjetivos, no trecho acima:
 Sem comando
 Diminutos grupos
 Casas mais próximas
 breves tiroteios
 sem armas e feridos
 Repentinamente
 últimas posições
 os pelotões, de mistura
 balbúrdia indefinível,
 enxurraram na corrente rasa das águas !
 Malferidos
 afastando rudemente
 os extenuados trôpegos;
 primeiros grupos
 contra a margem direita
 gramíneas escassas
 felizes que conseguiam vencê-las
 congérie ruidosa.
 corpos transudando vozear estrídulo
 enchente repentina
 Vaza-Barris, engrossado
 borbulhando, acachoando, estrugindo . . .

Em outro trecho de “A luta”, a narrativa também está eivada de efeitos adjetivos:

E foi uma debandada.
Oitocentos homens desapareciam em fuga, abandonando as espingardas; arriando as padiolas, em que se estorciam feridos: jogando fora as peças de equipamento; desarmando-se; desapertando os cinturões, para a carreira desafogada; e correndo, correndo ao acaso, correndo em grupos, em bandos erradios, correndo pelas estradas e pelas trilhas que as recortam, correndo para o recesso das caatingas, tontos, apavorados, sem chefes . . .
Entre os fardos atirados à beira do caminho ficara, logo ao desencadear-se o pânico – tristíssimo pormenor! – o cadáver do comandante. Não o defenderam. Não houve um breve simulacro de repulsa contra os inimigos, que não viam e adivinhavam no estrídulo dos gritos desafiadores e nos estampidos de um tiroteio irregular e escasso, como o de uma caçada. Aos primeiros tiros os batalhões diluíram-se.

Mesmo tomando-se o substantivo como a base da narrativa jornalística, o seu encadeamento em “Os Sertões” tem efeitos retóricos. Destacamos, a seguir, no trecho acima, os substantivos que o leitor poderá colocar em sequência de leitura – e verá o seu efeito narrativo.

 Sem comando, cada um lutava a seu modo. Destacaram-se ainda diminutos grupos para queimarem as casas mais próximas ou travarem breves tiroteios. Outros, sem armas e feridos, principiaram a repassar o rio.
 Era o desenlace.
 Repentinamente, largando as últimas posições, os pelotões, de mistura, numa balbúrdia indefinível, sob a hipnose do pânico, enxurraram na corrente rasa das águas!
 Repelindo-se; apisoando os malferidos, que tombavam; afastando rudemente os extenuados trôpegos; derrubando-os, afogando-os, os primeiros grupos bateram contra a margem direita. Aí, ansiando por vingá-la, agarrando-se às gramíneas escassas, especando-se nas armas, filando-se às pernas dos felizes que conseguiam vencê-las, se embaralham outra vez em congérie ruidosa. Era um fervilhar de corpos transudando vozear estrídulo, e discordante, e longo, dando a ilusão de alguma enchente repentina, em que o Vaza-Barris, engrossado, saltasse, de improviso, fora do leito, borbulhando, acachoando, estrugindo . . .

Para observar a confluência entre jornalismo e literatura, basta levar em consideração a matéria de cada um. Para o jornalismo, nesse trecho anterior, o que importa são os fatos. Para a literatura, nesse mesmo trecho anterior, o que importa são as possibilidades do fato.

Nas reportagens publicadas em O Estado de S. Paulo, Euclides da Cunha faz todos os relatos em 1ª pessoa. Mas quando decidiu publicar as suas anotações como livro, trabalho que realizou durante os três anos que levou para construir uma ponte sobre o rio, em São José do Rio Pardo, Euclides promoveu uma estilização de linguagem que evidencia a presença de um sujeito. Isto implica subjetividade, mais típica do lírico do que do jornalístico. Isto não prejudica o plano estético da obra, mas contraria o discurso anunciado de relato objetivo e fiel da história.

Neste quesito, “Os Sertões” é mais literatura do que jornalismo, embora não seja integralmente num uma coisa nem outra.

Outra consistência a observar é a questão do julgamento.

O jornalista não julga – o entrevistado sim; mas Euclides prefere não dar voz direta aos entrevistados em “Os Sertões”, por isso o narrador.

O literato de mérito abstém-se de julgar – quem pode fazê-lo é o personagem ou o narrador onisciente (este também um personagem).

O tempo em “Os Sertões”

Determinou-a incidente desvalioso.
Antônio Conselheiro adquirira em Juazeiro certa quantidade de madeiras, que não podiam fornecer-lhe as caatingas paupérrimas de Canudos. Contratara o negócio com um dos representantes da autoridade daquela cidade. Mas ao terminar o prazo ajustado para o recebimento do material, que se aplicaria no remate da igreja nova, não lho entregaram. Tudo denuncia que o distrato foi adrede feito, visando o rompimento anelado.
O principal representante da justiça do Juazeiro tinha velha dívida a saldar com o agitador sertanejo, desde a época em que, sendo juiz do Bom Conselho, fora coagido a abandonar precipitadamente a comarca, assaltada pelos adeptos daquele.
Aproveitou, por isto, a situação, que surgia a talho para a desafronta. Sabia que o adversário revidaria à provocação mais ligeira. De fato, ante a violação do trato aquele retrucou com a ameaça de uma investida sobre a bela povoação do S. Francisco: as madeiras seriam de lá arrebatadas, à força.
O caso passou em dias de outubro de 1896.

O espaço em “Os Sertões”

No início de cada capítulo, à guisa de sumário ou de índice, Euclides da Cunha insere uma sequência que funciona como manchetes de jornal. Veja o exemplo em “A Terra” (capítulo I):

Preliminares. A entrada do sertão. Terra ignota. Em caminho para Monte Santo. Primeiras impressões. Um sonho de geólogo.

São tópicos frasais. (Que em jornalismo recebem a denominação técnica de “lead”.)

Vejamos como um trecho do capítulo que ambienta o homem e ambienta a batalha.

É uma paragem impressionadora.
As condições estruturais da terra lá se vincularam à violência máxima dos agentes exteriores para o desenho de relevos estupendos. O regímen torrencial dos climas excessivos, sobrevindo, de súbito, depois das insolações demoradas, e embatendo naqueles pendores, expôs há muito, arrebatando-lhes para longe todos os elementos degradados, as séries mais antigas daqueles últimos rebentos das montanhas: todas as variedades cristalinas, e os quartzitos ásperos, e as filades e calcários, revezando-se ou entrelaçando-se, repontando duramente a cada passo, mal cobertos por uma flora tolhiça – dispondo-se em cenários em que ressalta predominante, o aspecto atormentado das paisagens.
Porque o que estas denunciam – no enterroado do chão, no desmantelo dos cerros quase desnudos, no contorcido dos leitos secos dos ribeirões efêmeros, no constrito das gargantas e no quase convulsivo de uma flora decídua embaralhada em esgalhos – é de algum modo o martírio da terra, brutalmente golpeada pelos elementos variáveis, distribuídos por todas as modalidades climáticas. De um lado a extrema secura dos ares, no estio, facilitando pela irradiação noturna a perda instantânea do calor absorvido pelas rochas expostas às soalheiras, impõe-lhes a alternativa de alturas e quedas termométricas repentinas: e daí um jogar de dilatações e contrações que as disjunge, abrindo-as segundo os planos de menor resistência. De outro, as chuvas que fecham, de improviso, os ciclos adurentes das secas, precipitam estas reações demoradas.
As forças que trabalham a terra atacam-na na contextura íntima e na superfície sem intervalos na ação demolidora, substituindo-se, com intercadência invariável, nas duas estações únicas da região.

Em outro trecho:

E o observador que seguindo este itinerário deixa as paragens em que se revezam, em contraste belíssimo, a amplitude dos gerais e o fastígio das montanhas, ao atingir aquele ponto estaca surpreendido…

Observe-se aí o leitor sendo convocado a participar. Pura técnica literária – veja-se A filosofia da composição, de Edgar Allan Poe.

Gente, matéria-prima do jornalismo e da literatura

Euclides traça um retrato do habitante dos sertões que arrancou de Araripe Júnior um parágrafo laudatório: “Terminada a descrição da terra, isto é, da região das secas, feita a sua história natural e social, o jagunço salta das páginas do livro como um fruto maduro da árvore que o gerou e desenvolveu.”

As observações de Euclides sobre o sertanejo constituem, de fato, mais uma análise social e antropológica. Vejamos um trecho:

O brasileiro, tipo abstrato que se procura, mesmo no caso favorável acima firmado, só pode surdir de um entrelaçamento consideravelmente complexo.
Teoricamente ele seria o pardo, para que convergem os cruzamentos do mulato, do curiboca e do cafuz.
Avaliando-se, porém, as condições históricas que têm atuado, diferentes nos diferentes tratos do território; as disparidades climáticas que nestes ocasionam reações diversas diversamente suportadas pelas raças constituintes; a maior ou menor densidade com que estas cruzaram nos vários pontos do país; e atendendo-se ainda à intrusão – pelas armas na quadra colonial e pelas imigrações em nossos dias – de outros povos, fato que por sua vez não foi e não é uniforme, vê-se bem que a realidade daquela formação é altamente duvidosa, senão absurda.

Recursos de estilo em “Os Sertões”

RITMO

Apenas a artilharia, na extrema retaguarda, seguia vagarosa e unida, solene quase, na marcha habitual de uma revista, em que parava de quando em quando para varrer a disparos as margens traiçoeiras; e prosseguindo depois, lentamente, rodando, inabordável, terrível…

A presença da métrica poética é clara nesse trecho. Pode ser declamado com a beleza da leitura dramática, porque há um ritmo poético que mescla por exemplo a redondilha e o decassílabo. Isto é literatura.

ANALOGIAS

Outro, o velho curiboca desfalecido que não vingara disparar a carabina sobre os soldados, parecia um desenterrado claudicante.

O rosto, onde o prognatismo se acentuara, desaparecia na lanugem espessa da barba, feito uma máscara amarrotada e imunda.
À luz crua dos dias sertanejos aqueles cerros, aspérrimos rebrilham, estonteadoramente – ofuscante, num irradiar ardentíssimo.

Nesse último trecho, não há um quê de Eça de Queiroz nessa “luz crua” e nesse “irradiar ardentíssimo”?
E note-se o efeito onomatopaico de raspagem, nos cerros aspérrimos que irradiam…

TOM

As notas das cornetas vibravam em cima desse tumulto, imperceptíveis, inúteis…
Por fim cessaram. Não tinham a quem chamar. A infantaria desaparecera…
Pela beira da estrada, viam-se apenas peças esparsas de equipamento, mochilas e espingardas, cinturões e sabres, jogados a esmo por ali fora, como coisas imprestáveis.
Inteiramente só, sem uma única ordenança, o coronel Tamarindo lançou-se desesperadamente, o cavalo a galope, pela estrada – agora deserta – como se procurasse conter ainda, pessoalmente, a vanguarda. E a artilharia ficou afinal inteiramente em abandono, antes de chegar ao Angico.
Os jagunços lançaram-se então sobre ela.

É praticamente o inteiro período construído em vogais abertas – notas de corneta.

SONORIDADE

 Vaza-Barris escachoando (onomatopeia)
 O povoado revivesveu (variedades prefixionais)
 engrimponados nas pedras vacilantes (variedades verbais)
 Transmontadas as serras, sob a linha fulgurante do trópico (outro aspecto verbal)

As assonâncias construídas, abaixo (especialmente pelo uso das sibilantes), imitam “um longo uivar de ventania forte”:

Projetis de toda a espécie, sibilos finos de Mannlicher e Mauser, zumbidos cheios e sonoros de Comblain, rechinos duros de trabucos, rijos como os de canhões-revólveres, transvoando a todos os pontos: sobre o âmbito das linhas; sobre as tendas próximas aos quartéis-generais; sobre todos os morros até ao colo abrigado da Favela, onde sesteavam cargueiros e feridos; sobre todas as trilhas; sobre o álveo longo e tortuoso do rio e sobre as depressões mais escondidas; resvalando com estrondo pela tolda de couro da alpendrada do hospital de sangue e despertando os enfermos retransidos de espanto.

Em outro trecho, as aliterações propiciadas pelas letras P e T, concertam a sinfonia da linguagem:

Dali descem, acachoantes, para o levante, tombando em catadupas ou saltando “travessões” sucessivos, todos os rios que do Jequitinhonha ao Doce procuram os terraços inferiores do planalto…

Fechemos este artigo.

Para isto, um corolário jornalístico-literário com que Euclides da Cunha encerrou o seu livro “Os Sertões”:

Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.

Joaquim Maria Botelho

Euclides da Cunha emergiu de Canudos como São Paulo de Damasco. Um homem com ideias renovadas.

Quando foi convidado por Júlio Mesquita, dono do jornal O Estado de S. Paulo, para fazer a cobertura jornalística da guerra de Canudos, Euclides condenava Canudos e sua gente. Engenheiro, formado no cientificismo que regia o Colégio Militar, partilhava do julgamento da gente instruída de sua época. Estava convicto de que Antônio Conselheiro era um falso messias, canalha e impostor. E Canudos, no sertão da Bahia, onde o beato se recolhera com seus seguidores, era um covil de assassinos.

Euclides foi se convertendo à medida que escrevia. Aos poucos sucumbiu à verdade e deixou de lado o cientificismo e o determinismo que explicava gente como Antônio Conselheiro e seus jagunços. Machado de Assis, por exemplo, a bordo do pensamento dominante, considerava o sertanejo um ser incapaz de atingir a civilização. Euclides sintetizaria a sua contraposição a essa ideia numa frase: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

Seguidor da doutrina de Augusto Comte, Euclides seguiu para o local das batalhas como cientista. Principiou a enviar artigos para o jornal, antes de testemunhar a luta, durante um período alongado em que permaneceu em Salvador, aguardando translado. Seu texto denunciava o engenheiro ocupado com a precisão técnica, com o rigor científico. Tinha um projeto historiográfico e para isso valia-se do discurso científico, positivista e europeu. Usava desmedidamente dados da geografia, da meteorologia, da hidráulica, da botânica e da engenharia. Seu interlocutor era a ciência.

Mas, como literato, tinha um projeto estético. Seu texto denuncia o autor ocupado com a precisão da língua, dominando a técnica narrativa, a poética e a humanidade. Mas não perdia de vista o que Machado de Assis pontificava, no artigo Instinto de Nacionalidade, publicado em 1873: “O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”

Gênero literário ou jornalístico?

Do ponto de vista da teoria da literatura, “Os Sertões” não é um romance histórico, dado que não narra um episódio histórico emprestando feição literária de personagem aos protagonistas. O registro é fundamentado, científico – pelo menos tanto que se podia ser naquele momento histórico-filosófico-literário do Brasil.

“Os Sertões” tampouco é a história romanceada, porque não acrescenta à história episódios romanescos para torná-la mais agradável à leitura.

Encaixa-se, perfeitamente, na categoria de épico. Tem narrador, tem urdidura organizada e lógica (neste caso, real), tem personagens (neste caso, históricas), tem espaço definido e tempo delimitado. Aliás, é isto mesmo que escreveu Araripe Júnior, crítico respeitadíssimo à época do lançamento do livro: “Vós sabeis retratar ao vivo a natureza física, dando intensidade às notas, sem prejudicar a veracidade dos fatos, a qualidade dos fenômenos. É o grande escolho da arte descritiva: exatidão e relevo, naturalismo e brilho, consistência e colorido, poesia e verdade.”

Tendo essas qualidades, seria, então, “Os Sertões”, uma reportagem?

Analisemos. É uma obra original, porque traz achados importantes para a sociedade. É uma obra oportuna (menos para o Exército republicano, que queria mesmo era esquecer o fracasso das expedições que durante um ano investiram contra Canudos). É factual, documentada. E, além disso, demonstra independência de consciência. Conceitualmente, tudo isto se refere ao trabalho jornalístico e está presente em “Os Sertões”.

Além disso, o texto obedece aos paradigmas do jornalismo: o quê/quem, quando, onde, como e por que.

É preciso lembrar que a retórica do jornalismo, à época, era uma retórica literária. Ainda não havia sido incorporada ao jornalismo mundial a técnica da objetividade e da imparcialidade que os Estados Unidos exportariam para o mundo depois da Segunda Guerra Mundial. Até aqui, nenhum conflito entre literatura e jornalismo, no texto de “Os Sertões”, apesar da grandiloqüência.

Mas, na questão programática, o papel do repórter está bem claro na obra. Nas “Notas à segunda edição”, Euclides da Cunha encerra com uma frase do historiador ateniense Tucídides, exibindo o seu reposicionamento.

Notas à segunda edição

“Não tive o intuito de defender os sertanejos, porque este livro não é um livro de defesa; é, infelizmente, de ataque.
Ataque franco e, devo dizê-lo, involuntário. Nesse investir, aparentemente desafiador, com os singularíssimos civilizados que nos sertões, diante de semibárbaros, estadearam tão lastimáveis selvatiguezas, obedeci ao rigor incoercível da verdade. Ninguém o negará.
E se não temesse envaidar-me em paralelo que não mereço, gravaria na primeira página a frase nobremente sincera de Tucídides, ao escrever a história da guerra do Peloponeso – porque eu também embora sem a mesma visão aquilina, escrevi

“SEM DAR CRÉDITO ÀS PRIMEIRAS TESTEMUNHAS QUE ENCONTREI, NEM ÀS MINHAS PRÓPRIAS IMPRESSÕES, MAS NARRANDO APENAS OS ACONTECIMENTOS DE QUE FUI ESPECTADOR OU SOBRE OS QUAIS TIVE INFORMAÇÕES SEGURAS.”

Testemunho

Uma vez em Canudos, Euclides ouviu seguidores de Conselheiro. Na narrativa a seguir (trecho de reportagem publicada no jornal o Estado de S. Paulo em agosto de 1897), podemos ler, ao mesmo tempo uma compreensão desvelada da situação e um depoimento do fazer jornalístico que norteava seus artigos.

Afirma o pequeno jagunço que o velho vigário de Cumbe ali aparecia, de quinze em quinze dias.
(…)
Terminamos o longo interrogatório inquirindo acerca dos milagres do Conselheiro. Não os conhece, não os viu nunca, nunca ouviu dizer que ele fazia milagres. E ao replicar um dos circunstantes que aquele declarava que o jagunço morto em combate ressuscitaria – negou ainda.
– Mas o que promete afinal ele anos que morrem?
A resposta foi absolutamente inesperada:
– Salvar a alma.
Estas revelações feitas diante de muitas testemunhas têm para mim um valor inestimável; não mentem, não sofismam e não iludem, naquela idade, as almas ingênuas dos rudes filhos do sertão.

Aí está. Emerge um novo Euclides.

Libelo

Antes de citar um trecho da “Nota preliminar”, lembremos que o jornalismo tem alguns conceitos que categorizam a notícia e a reportagem. São eles: imparcialidade, atualidade, exemplaridade e proximidade.

A civilização avançará nos sertões impelida por essa implacável “força motriz da História” que Gumplowicz, maior do que Hobbes, lobrigou, num lance genial, no esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes.
A campanha de Canudos tem por isto a significação inegável de um primeiro assalto, em luta talvez longa. Nem enfraquece o asserto o termo-la realizado nós filhos do mesmo solo, porque, etnologicamente indefinidos, sem tradições nacionais uniformes, vivendo parasitariamente à beira do Atlântico, dos princípios civilizadores elaborados na Europa, e armados pela indústria alemã – tivemos na ação um papel singular de mercenários inconscientes. Além disto, mal unidos àqueles extraordinários patrícios pelo solo em parte desconhecido, deles de todo nos separa uma coordenada histórica – o tempo.
Aquela campanha lembra um refluxo para o passado.
E foi, na significação integral da palavra, um crime.
Denunciemo-lo.

Euclides da Cunha denunciava a existência de dois Brasis, muito antes de Jacques Lambert ou Gilberto Freyre. Um libelo, como fizera Émile Zola no caso Dreyfus. Isto é mais jornalismo do que literatura. E confere ao livro funções sociais que ultrapassam as suas qualidades literárias ou científicas e que transcendem tanto o projeto historiográfico quanto o projeto estético.

Para a crítica e para os intelectuais, especialmente José Veríssimo, Sílvio Romero, Cassiano Ricardo, Gilberto Freyre e Coelho Neto, talvez a mais importante contribuição de “Os Sertões” tenha sido a tentativa de estabelecer a identidade nacional. O livro tem sido entendido como o primeiro épico da nacionalidade brasileira.

Como num ato de contrição, Euclides escreve, no capítulo V de “Os Sertões”:

“Vivendo quatrocentos anos no litoral vastíssimo, em que palejam reflexos da vida civilizada, tivemos de improviso, como herança inesperada, a República. Ascendemos, de chofre, arrebatados no caudal dos ideais modernos, deixando na penumbra secular em que jazem, no âmago do país, um terço da nossa gente. Iludidos por uma civilização de empréstimo; respingando, em faina cega de copistas, tudo o que de melhor existe nos códigos orgânicos de outras nações, tomamos, revolucionariamente, fugindo ao transigir mais ligeiro com as exigências da nossa própria nacionalidade, mais fundo o contraste entre o nosso modo de viver e o daqueles rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa. Porque não no-los separa um mar, separam-no-los três séculos…”

No entanto, os efeitos sobre o leitor são resultantes mais da retórica do que dos fatos. Isto é literatura. Vamos ver um trecho de “A luta”:

Sem comando, cada um lutava a seu modo. Destacaram-se ainda diminutos grupos para queimarem as casas mais próximas ou travarem breves tiroteios. Outros, sem armas e feridos, principiaram a repassar o rio.
Era o desenlace.
Repentinamente, largando as últimas posições, os pelotões, de mistura, numa balbúrdia indefinível, sob a hipnose do pânico, enxurraram na corrente rasa das águas!
Repelindo-se; apisoando os malferidos, que tombavam; afastando rudemente os extenuados trôpegos; derrubando-os, afogando-os, os primeiros grupos bateram contra a margem direita. Aí, ansiando por vingá-la, agarrando-se às gramíneas escassas, especando-se nas armas, filando-se às pernas dos felizes que conseguiam vencê-las, se embaralham outra vez em congérie ruidosa. Era um fervilhar de corpos transudando vozear estrídulo, e discordante, e longo, dando a ilusão de alguma enchente repentina, em que o Vaza-Barris, engrossado, saltasse, de improviso, fora do leito, borbulhando, acachoando, estrugindo. . .

Vamos escandir os principais efeitos adjetivos, no trecho acima:
 Sem comando
 Diminutos grupos
 Casas mais próximas
 breves tiroteios
 sem armas e feridos
 Repentinamente
 últimas posições
 os pelotões, de mistura
 balbúrdia indefinível,
 enxurraram na corrente rasa das águas !
 Malferidos
 afastando rudemente
 os extenuados trôpegos;
 primeiros grupos
 contra a margem direita
 gramíneas escassas
 felizes que conseguiam vencê-las
 congérie ruidosa.
 corpos transudando vozear estrídulo
 enchente repentina
 Vaza-Barris, engrossado
 borbulhando, acachoando, estrugindo . . .

Em outro trecho de “A luta”, a narrativa também está eivada de efeitos adjetivos:

E foi uma debandada.
Oitocentos homens desapareciam em fuga, abandonando as espingardas; arriando as padiolas, em que se estorciam feridos: jogando fora as peças de equipamento; desarmando-se; desapertando os cinturões, para a carreira desafogada; e correndo, correndo ao acaso, correndo em grupos, em bandos erradios, correndo pelas estradas e pelas trilhas que as recortam, correndo para o recesso das caatingas, tontos, apavorados, sem chefes . . .
Entre os fardos atirados à beira do caminho ficara, logo ao desencadear-se o pânico – tristíssimo pormenor! – o cadáver do comandante. Não o defenderam. Não houve um breve simulacro de repulsa contra os inimigos, que não viam e adivinhavam no estrídulo dos gritos desafiadores e nos estampidos de um tiroteio irregular e escasso, como o de uma caçada. Aos primeiros tiros os batalhões diluíram-se.

Mesmo tomando-se o substantivo como a base da narrativa jornalística, o seu encadeamento em “Os Sertões” tem efeitos retóricos. Destacamos, a seguir, no trecho acima, os substantivos que o leitor poderá colocar em sequência de leitura – e verá o seu efeito narrativo.

 Sem comando, cada um lutava a seu modo. Destacaram-se ainda diminutos grupos para queimarem as casas mais próximas ou travarem breves tiroteios. Outros, sem armas e feridos, principiaram a repassar o rio.
 Era o desenlace.
 Repentinamente, largando as últimas posições, os pelotões, de mistura, numa balbúrdia indefinível, sob a hipnose do pânico, enxurraram na corrente rasa das águas!
 Repelindo-se; apisoando os malferidos, que tombavam; afastando rudemente os extenuados trôpegos; derrubando-os, afogando-os, os primeiros grupos bateram contra a margem direita. Aí, ansiando por vingá-la, agarrando-se às gramíneas escassas, especando-se nas armas, filando-se às pernas dos felizes que conseguiam vencê-las, se embaralham outra vez em congérie ruidosa. Era um fervilhar de corpos transudando vozear estrídulo, e discordante, e longo, dando a ilusão de alguma enchente repentina, em que o Vaza-Barris, engrossado, saltasse, de improviso, fora do leito, borbulhando, acachoando, estrugindo . . .

Para observar a confluência entre jornalismo e literatura, basta levar em consideração a matéria de cada um. Para o jornalismo, nesse trecho anterior, o que importa são os fatos. Para a literatura, nesse mesmo trecho anterior, o que importa são as possibilidades do fato.

Nas reportagens publicadas em O Estado de S. Paulo, Euclides da Cunha faz todos os relatos em 1ª pessoa. Mas quando decidiu publicar as suas anotações como livro, trabalho que realizou durante os três anos que levou para construir uma ponte sobre o rio, em São José do Rio Pardo, Euclides promoveu uma estilização de linguagem que evidencia a presença de um sujeito. Isto implica subjetividade, mais típica do lírico do que do jornalístico. Isto não prejudica o plano estético da obra, mas contraria o discurso anunciado de relato objetivo e fiel da história.

Neste quesito, “Os Sertões” é mais literatura do que jornalismo, embora não seja integralmente num uma coisa nem outra.

Outra consistência a observar é a questão do julgamento.

O jornalista não julga – o entrevistado sim; mas Euclides prefere não dar voz direta aos entrevistados em “Os Sertões”, por isso o narrador.

O literato de mérito abstém-se de julgar – quem pode fazê-lo é o personagem ou o narrador onisciente (este também um personagem).

O tempo em “Os Sertões”

Determinou-a incidente desvalioso.
Antônio Conselheiro adquirira em Juazeiro certa quantidade de madeiras, que não podiam fornecer-lhe as caatingas paupérrimas de Canudos. Contratara o negócio com um dos representantes da autoridade daquela cidade. Mas ao terminar o prazo ajustado para o recebimento do material, que se aplicaria no remate da igreja nova, não lho entregaram. Tudo denuncia que o distrato foi adrede feito, visando o rompimento anelado.
O principal representante da justiça do Juazeiro tinha velha dívida a saldar com o agitador sertanejo, desde a época em que, sendo juiz do Bom Conselho, fora coagido a abandonar precipitadamente a comarca, assaltada pelos adeptos daquele.
Aproveitou, por isto, a situação, que surgia a talho para a desafronta. Sabia que o adversário revidaria à provocação mais ligeira. De fato, ante a violação do trato aquele retrucou com a ameaça de uma investida sobre a bela povoação do S. Francisco: as madeiras seriam de lá arrebatadas, à força.
O caso passou em dias de outubro de 1896.

O espaço em “Os Sertões”

No início de cada capítulo, à guisa de sumário ou de índice, Euclides da Cunha insere uma sequência que funciona como manchetes de jornal. Veja o exemplo em “A Terra” (capítulo I):

Preliminares. A entrada do sertão. Terra ignota. Em caminho para Monte Santo. Primeiras impressões. Um sonho de geólogo.

São tópicos frasais. (Que em jornalismo recebem a denominação técnica de “lead”.)

Vejamos como um trecho do capítulo que ambienta o homem e ambienta a batalha.

É uma paragem impressionadora.
As condições estruturais da terra lá se vincularam à violência máxima dos agentes exteriores para o desenho de relevos estupendos. O regímen torrencial dos climas excessivos, sobrevindo, de súbito, depois das insolações demoradas, e embatendo naqueles pendores, expôs há muito, arrebatando-lhes para longe todos os elementos degradados, as séries mais antigas daqueles últimos rebentos das montanhas: todas as variedades cristalinas, e os quartzitos ásperos, e as filades e calcários, revezando-se ou entrelaçando-se, repontando duramente a cada passo, mal cobertos por uma flora tolhiça – dispondo-se em cenários em que ressalta predominante, o aspecto atormentado das paisagens.
Porque o que estas denunciam – no enterroado do chão, no desmantelo dos cerros quase desnudos, no contorcido dos leitos secos dos ribeirões efêmeros, no constrito das gargantas e no quase convulsivo de uma flora decídua embaralhada em esgalhos – é de algum modo o martírio da terra, brutalmente golpeada pelos elementos variáveis, distribuídos por todas as modalidades climáticas. De um lado a extrema secura dos ares, no estio, facilitando pela irradiação noturna a perda instantânea do calor absorvido pelas rochas expostas às soalheiras, impõe-lhes a alternativa de alturas e quedas termométricas repentinas: e daí um jogar de dilatações e contrações que as disjunge, abrindo-as segundo os planos de menor resistência. De outro, as chuvas que fecham, de improviso, os ciclos adurentes das secas, precipitam estas reações demoradas.
As forças que trabalham a terra atacam-na na contextura íntima e na superfície sem intervalos na ação demolidora, substituindo-se, com intercadência invariável, nas duas estações únicas da região.

Em outro trecho:

E o observador que seguindo este itinerário deixa as paragens em que se revezam, em contraste belíssimo, a amplitude dos gerais e o fastígio das montanhas, ao atingir aquele ponto estaca surpreendido…

Observe-se aí o leitor sendo convocado a participar. Pura técnica literária – veja-se A filosofia da composição, de Edgar Allan Poe.

Gente, matéria-prima do jornalismo e da literatura

Euclides traça um retrato do habitante dos sertões que arrancou de Araripe Júnior um parágrafo laudatório: “Terminada a descrição da terra, isto é, da região das secas, feita a sua história natural e social, o jagunço salta das páginas do livro como um fruto maduro da árvore que o gerou e desenvolveu.”

As observações de Euclides sobre o sertanejo constituem, de fato, mais uma análise social e antropológica. Vejamos um trecho:

O brasileiro, tipo abstrato que se procura, mesmo no caso favorável acima firmado, só pode surdir de um entrelaçamento consideravelmente complexo.
Teoricamente ele seria o pardo, para que convergem os cruzamentos do mulato, do curiboca e do cafuz.
Avaliando-se, porém, as condições históricas que têm atuado, diferentes nos diferentes tratos do território; as disparidades climáticas que nestes ocasionam reações diversas diversamente suportadas pelas raças constituintes; a maior ou menor densidade com que estas cruzaram nos vários pontos do país; e atendendo-se ainda à intrusão – pelas armas na quadra colonial e pelas imigrações em nossos dias – de outros povos, fato que por sua vez não foi e não é uniforme, vê-se bem que a realidade daquela formação é altamente duvidosa, senão absurda.

Recursos de estilo em “Os Sertões”

RITMO

Apenas a artilharia, na extrema retaguarda, seguia vagarosa e unida, solene quase, na marcha habitual de uma revista, em que parava de quando em quando para varrer a disparos as margens traiçoeiras; e prosseguindo depois, lentamente, rodando, inabordável, terrível…

A presença da métrica poética é clara nesse trecho. Pode ser declamado com a beleza da leitura dramática, porque há um ritmo poético que mescla por exemplo a redondilha e o decassílabo. Isto é literatura.

ANALOGIAS

Outro, o velho curiboca desfalecido que não vingara disparar a carabina sobre os soldados, parecia um desenterrado claudicante.

O rosto, onde o prognatismo se acentuara, desaparecia na lanugem espessa da barba, feito uma máscara amarrotada e imunda.
À luz crua dos dias sertanejos aqueles cerros, aspérrimos rebrilham, estonteadoramente – ofuscante, num irradiar ardentíssimo.

Nesse último trecho, não há um quê de Eça de Queiroz nessa “luz crua” e nesse “irradiar ardentíssimo”?
E note-se o efeito onomatopaico de raspagem, nos cerros aspérrimos que irradiam…

TOM

As notas das cornetas vibravam em cima desse tumulto, imperceptíveis, inúteis…
Por fim cessaram. Não tinham a quem chamar. A infantaria desaparecera…
Pela beira da estrada, viam-se apenas peças esparsas de equipamento, mochilas e espingardas, cinturões e sabres, jogados a esmo por ali fora, como coisas imprestáveis.
Inteiramente só, sem uma única ordenança, o coronel Tamarindo lançou-se desesperadamente, o cavalo a galope, pela estrada – agora deserta – como se procurasse conter ainda, pessoalmente, a vanguarda. E a artilharia ficou afinal inteiramente em abandono, antes de chegar ao Angico.
Os jagunços lançaram-se então sobre ela.

É praticamente o inteiro período construído em vogais abertas – notas de corneta.

SONORIDADE

 Vaza-Barris escachoando (onomatopeia)
 O povoado revivesveu (variedades prefixionais)
 engrimponados nas pedras vacilantes (variedades verbais)
 Transmontadas as serras, sob a linha fulgurante do trópico (outro aspecto verbal)

As assonâncias construídas, abaixo (especialmente pelo uso das sibilantes), imitam “um longo uivar de ventania forte”:

Projetis de toda a espécie, sibilos finos de Mannlicher e Mauser, zumbidos cheios e sonoros de Comblain, rechinos duros de trabucos, rijos como os de canhões-revólveres, transvoando a todos os pontos: sobre o âmbito das linhas; sobre as tendas próximas aos quartéis-generais; sobre todos os morros até ao colo abrigado da Favela, onde sesteavam cargueiros e feridos; sobre todas as trilhas; sobre o álveo longo e tortuoso do rio e sobre as depressões mais escondidas; resvalando com estrondo pela tolda de couro da alpendrada do hospital de sangue e despertando os enfermos retransidos de espanto.

Em outro trecho, as aliterações propiciadas pelas letras P e T, concertam a sinfonia da linguagem:

Dali descem, acachoantes, para o levante, tombando em catadupas ou saltando “travessões” sucessivos, todos os rios que do Jequitinhonha ao Doce procuram os terraços inferiores do planalto…

Fechemos este artigo.

Para isto, um corolário jornalístico-literário com que Euclides da Cunha encerrou o seu livro “Os Sertões”:

Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.

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