FÁBIO LUCAS, CRÍTICO E HUMANISTA

Também conhecido como Nobel Brasileiro ou, mais afetuosamente, Nobelzinho, o Prêmio Conrado Wessel de Arte, Ciência e Cultura, se constitui no mais importante de sua categoria em nosso país. Entre os contemplados surgem nomes como Aziz Ab´Sáber, Isaías Raw, Maria Inês Schmidt, Adib Jatene e Ferreira Gullar. Atestam ainda a seriedade do prêmio, concedido pela Fundação Conrado Wessel, as demais entidades que o promovem: Fapesp, Capes, CNPq, SBPC, ABC, ABL e CTA. Outros organismos públicos e privados com o mesmo grau de excelência também indicam membros para as comissões julgadoras.

A categoria Cultura, representada pela Literatura, contemplou no ano de 2005,  nosso caro Fábio Lucas, ex-presidente por cinco gestões da UBE, ex-presidente de seu Conselho Deliberativo e Fiscal e atual presidente do Conselho Editorial deste O Escritor. Com muita justiça.

Fábio Lucas: um dos mais importantes
críticos literários do país.

Não que prêmios e honrarias sejam novidades para Fábio Lucas, um dos mais importantes críticos literários do país. Aí estão, entre outros, o Juca Pato, como Intelectual do Ano de 1992, oferecido pela União Brasileira de Escritores; o Jabuti e o Amigo do Livro, ambos pela CBL; o de Melhores do Ano – Setor Crítica, pela APCA; a Medalha de Honra ao Mérito Machado de Assis, pela UBE/Nova Iorque; o Fernando Chinaglia pela UBE/RJ; a Medalha Santos Dumont pelo Governo de Minas Gerais; e a Homenagem pela Cidade de São Paulo “por sua contribuição à cultura e à democracia nos últimos 21 anos”, prêmio de edição única ocorrida em 1995.

Nem novidade, nem coroação. A contribuição de Lucas à nossa cultura mantém-se ativa, plena e profícua. E, se não se encerrou, não se encerra também o reconhecimento devido. O Prêmio Conrado Wessel foi, deste modo, o correspondente a mais uma etapa.

Outros reconhecimentos virão para o incessante trabalho do intelectual incansável, sempre dedicado ao estudo das teorias literária e sociológica e seu constante devir à luz de suas dinâmicas intrínsecas e extrínsecas, estas relacionadas ao que no universo, real e simbólico, está sempre em mutação.

Porque aí reside a matriz filosófica, axial de Fábio Lucas. O que o obriga ainda a acompanhar, estudar e decifrar as manifestações concretas tanto da Política quanto da Literatura. Acompanhar e propor, estudar e participar, decifrar e posicionar-se sobre todas as questões que dizem respeito à condição humana, desde seu modo de viver, sobreviver e relacionar-se até as formas pelas quais ela – humanidade – expressa, pela arte literária, a representação crítica e estética daquela condição. O real sempre em mudança exige ainda novas interpretações que, por sua vez, se inserem e se conflitam com as teorias interpretativas pré-existentes.

O papel do crítico

Este é o papel do crítico. Muito mais complexo que o de um mero apreciador e divulgador de obras literárias. Papel de quem sabe que a História interage com a Teoria e com a manifestação estética, ainda que estas tenham sua parcela de desenvolvimento autônomo. E que, por isso mesmo, também contribuem ao refazer histórico, através do que de crítico , de utópico, oferecem à reflexão e ação humanas.

Ao afastar-se das teorias mecanicistas, que atribuem à arte papel meramente reflexo da condição humana concreta e, daí seu compromisso imediato, panfletário com a mudança, o crítico, como o artista, também não pode ser seduzido pelas teorias esteticistas tão em voga, e manifestas em nosso meio através de literatices alheias à realidade e sua dinâmica. Como se a arte caísse do céu e fôssemos todos nós, escritores, anjos etéreos bafejados pela inspiração de intangíveis musas.

Ao descrever seu ambiente, o artista o interpreta; ao mostrar o é, deixa implícita sua conformidade – assim sempre será – ou sua indignação,  e a conseqüente utopia do que poderia ser. Voluntária ou involuntariamente, assume uma ou outra visão de mundo. O mais descolado escritor trai suas representações. Estas poderão ser ideológicas ou utópicas. As primeiras são conjuntos de idéias e valores que servem à legitimação de sistemas de dominação; as segundas são críticas, portanto, emancipadoras.

Fábio Lucas

Fábio Lucas

Fábio nota que, se a obra literária é sempre interpretação do real, a crítica é outra interpretação. Compete ao crítico trabalhar com a tensão entre a manifestação artística e as informações estéticas que a compreendem; entre a interpretação livre do artista e a teoria que interpreta o real e sua dinâmica. E, se for o caso, deixar explícitas as eventuais representações ideológicas ou utópicas que informam a obra em análise.

Observa-se que o crítico apenas se alçará à plenitude desta condição se ultrapassar o strictu sensu das adjetivações, sejam as de literário, de teatro, cinema, música ou artes plásticas. O crítico pleno é aquele que compreende sua temática dentro de teorias explicativas mais amplas das relações humanas e da mudança social. A especialização é outra coisa. Ela  ocorre pela afinidade, pela formação e pelo volume de informações específicas.

O crítico não avalia apenas as técnicas da linguagem, mas desvela, de um lado, suas transcendências e contribuições à estética e, de outro, as representações sociais a que o autor e obra se filiam. Ao fazê-lo, revela novas utopias além das contidas na obra original. Para tanto, se nutre das teorias que explicam a obra em questão, bem como as citadas representações utópicas ou ideológicas presentes em cada tempo histórico, em cada formação social.

Bem cultural versus mercadoria

Por esse caminho, pode-se compreender outros eixos orientadores do trabalho de Fábio Lucas: sua opção pela literatura brasileira e, dentro dela, pelo que julga de maior significância para nosso autoconhecimento e auto-estima. Além, sua capacidade de contribuição ao desenvolvimento estético e cultural.

Fábio rejeita a submissão a cânones exóticos, antes eurocentristas, hoje predominantemente anglo-americanos. Veiculados à exaustão pela mídia e recebidos com aplauso pelos menos avisados, eles são tidos como superiores e universais quando não passam de cânones relacionados a outras formações culturais a nós impostos pelo sistema de dominação neocolonial.

Longe de ufanismos, contudo, incluem-se na opção do crítico Lucas outras manifestações em língua portuguesa, bem como as que ocorrem entre nossos vizinhos hispânicos. E, de modo geral, toda a produção literária  que, mesmo exótica, não se apresenta embalada pela indústria cultural destinada ao mercado global, nem se vê precedida de espetaculares campanhas publicitárias. A distinção que mais importa é a de bem cultural versus mercadoria.

De resto, o crítico e o cientista social se encontram e se completam na atuação política de Fábio, aqui resumida em sua participação ininterrupta em todo movimento que visasse a liberdade e a justiça social, o que lhe custou a aposentadoria compulsória e o exílio em tempos de ditadura.

A luta continua e os objetivos perseguidos, por mais longínquos, permanecem claros para os que não capitulam em face de um ou outro revés. Ao contrário, as metas se ampliam, ou descobrem novas prioridades e, hoje se na luta estratégica pela unidade cultural, econômica e política da América do Sul. Única forma de emancipação do subcontinente ao império e a modelos que subjugam seus povos.

Por fim, neste número em que O Escritor homenageia Jorge Amado é oportuno lembrar que Fábio teve a ousadia de defender o grande escritor baiano,  “então execrado por uma parcela da crítica, ao mostrar que – na contramão de visões colonialistas,  submissas a modelos importados – Amado foi dos poucos a furar o bloqueio imposto aos nossos escritores, levando ao mundo um estilo de contar vivências brasileiras”.


Editorial da Revista O Escritor, nº 115, abr.2007.

Sobre levi

Poeta, ficcionista, ensaísta, sociólogo e professor universitário. Presidente da UBE - União Brasileira de Escritores, diretor do Sindicato dos Sociólogos de S. Paulo e Presidente do IPSO - Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos. Integra a Coordenação do Movimento Humanismo e Democracia e o Conselho de Redação da Revista Novos Rumos. Foi Presidente da ASESP – Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo, Administrador Regional de Santana -Tucuruvi (SP). Coordenador da Proteção dos Recursos Naturais do Estado de São Paulo. Livros Publicados: Burocratas e Burocracias (ensaio, SP, Ed. Semente, 1981); Ônibus 307 – Jardim Paraíso (poesia, SP, Muro das Artes, 1983); A Portovelhaca e as Outras (poesia, SP, Paubrasil, 1984). O Seqüestro do Senhor Empresário (romance, SP, Publisher/Limiar, 1998); O Inimigo (contos, Limiar – SP, 2003). Recebeu o Prêmio de Revelação de Autor da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte e outros. Publicou diversos artigos, contos, crônicas, poemas e resenhas literárias em coletâneas, jornais e revistas.
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