História, memória e ideologia.

Muitos estranharam a demonstração de força que a Rússia deu por ocasião da comemoração da queda do nazismo e fim da 2a. guerra mundial na Europa. Eu gostei e explico: No cinema, na TV, nos livros e revistas, os EUA ganharam aquela guerra; fizeram mais que os russos… E assim, vamos esquecendo o papel da União Soviética e das resistências populares ao nazismo nos países ocupados por Hitler,  particularmente na Iugoslávia, Hungria, Polônia, Itália, França… Se não todos os países, quase, incluindo-se a própria Alemanha.

Pesquisas informam que, a cada ano que passa, é menor a percentagem da população européia que se lembra do papel do Exército Soviético e de próprias resistências em seus países. Devido a intensa propaganda anglo-americana, a desmemória provoca a ingratidão dos europeus de hoje para com os russos e ses  Pouquíssimos sabem que

Se hoje já é difícil alguém saber ou mesmo lembrar que a URSS foi uma potência tão importante quanto os EUA, imagine concordar que havia aspectos positivos no “socialismo real” que seduziu tantas lideranças e trabalhadores, além de políticos, intelectuais e artistas pelo mundo afora. E por tanto tempo. Seduziu também líderes políticos e populações a ponto de, por volta dos anos 60, quase a metade da humanidade viver sob regimes semelhantes.

Kruschev chegou a afirmar que “cada dia de paz no mundo era uma vitória da revolução socialista”. Recentemente em Frankfurt, no lançamento do livro de Moniz Bandeira sobre a re-unificação da Alemanha, houve um debate. O livro esculhamba, com fartura de dados, o atraso da ex-Alemanha Oriental vis a vis o progresso da Ocidental em todos os aspectos. Há provas, inclusive, de que a KGB – já sob influência da perestróica e da glasnost – teria ajudado a derrubar o premiê oriental Honecker, um dos últimos stalinistas. O lançamento foi precedido de um debate. E um dos palestrantes, professor da Universidade de Colônia, nascido e criado na A. Oriental, contestou Bandeira no sentido de que havia aspectos positivos até lá. Segundo ele, a vida era mais barata e os mais pobres teriam mais acesso a educação e à cultura. Deu outros exemplos que não vêm ao caso.  

Vendo os retratos de Stálin e Lênin, a sisudez das personagens do Kremlin, e a estética do realismo socialista, tão retrógrada e tão relacionável hoje a regimes totalitários, fica mais difícil ainda imaginar que a revolução de 1917 apresentou aspectos extremamente libertários para a época. Inclusive nos costumes. Falei-lhe do detalhe do “amor livre”, como se dizia à época, ou seja, o sexo, o morar junto etc. sem casamento… Coisas inimagináveis no ocidente, a ponto de o fato ser usado como “prova” de que o socialismo destruía as famílias. Aqui a infidelidade e o amor pago eram – como ainda são – hipocritamente toleráveis. Mas, juntar sem casar, mudar de cônjuge sem maiores burocracias, absolutamente não. Repare no detalhe: se todos têm emprego, e se os salários de homens e mulheres são idênticos, estas últimas estão mais livres para tomar as decisões que lhes convêm. Sobre isso, colhi depoimentos de comunistas brasileiros que estiveram na URSS e falaram da independência da mulher soviética.

Quanto à estética pense também no tempo. Aqueles cartazes não eram tão diferentes dos produzidos em países ocidentais em casos de guerra, campanhas políticas, e até campanhas de vacinação, saúde pública etc… Ou seja, era um pouco a estética daquele tempo. Veja os cartazes da revolução constitucionalista de 1932, p.ex.

É que no caso da URSS, esta estética se cristalizou para eles e tem sido ainda mais cristalizada nos países ocidentais. Serve para demonstrar um pouco o trágico e um pouco o ridículo da revolução soviética.

Na época da perestroika, eu assisti a uma palestra do Shevarnadze, então ministro de relações exteriores da URSS. Tive também outro contato com russos que queriam modernizar-se, democratizar-se e partir para uma economia de mercado etc. Eram tão ingênuos.

Enfim, tudo indica que os líderes soviéticos desta última época queriam partir para a democratização. O atraso tecnológico da URSS; a longa ditadura; a inexistência de líderes para um novo regime etc., contribuíram para a desordem e a conseqüente derrocada do regime, extensiva aos demais países do leste europeu.

Interessante é que até isso se esquece. As intenções liberalizantes de Gorbatchev e outros não são consideradas. Vende-se a idéia de que os EUA e outras potências aliadas derrubaram o poder soviético e libertaram os demais países quase como se tivesse havido uma guerra real entre os dois lados.

 

(Vou parar por aqui. Continuarei em outra ocasião, centrando-me na questão de como uma revolução se burocratiza e, depois, se nega a si mesma. Finalmente o ressurgimento da auto-estima do povo russo com Vladmir Putin e a 2a. Gerra Fria. Aguardem)

Sobre levi

Poeta, ficcionista, ensaísta, sociólogo e professor universitário. Presidente da UBE - União Brasileira de Escritores, diretor do Sindicato dos Sociólogos de S. Paulo e Presidente do IPSO - Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos. Integra a Coordenação do Movimento Humanismo e Democracia e o Conselho de Redação da Revista Novos Rumos. Foi Presidente da ASESP – Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo, Administrador Regional de Santana -Tucuruvi (SP). Coordenador da Proteção dos Recursos Naturais do Estado de São Paulo. Livros Publicados: Burocratas e Burocracias (ensaio, SP, Ed. Semente, 1981); Ônibus 307 – Jardim Paraíso (poesia, SP, Muro das Artes, 1983); A Portovelhaca e as Outras (poesia, SP, Paubrasil, 1984). O Seqüestro do Senhor Empresário (romance, SP, Publisher/Limiar, 1998); O Inimigo (contos, Limiar – SP, 2003). Recebeu o Prêmio de Revelação de Autor da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte e outros. Publicou diversos artigos, contos, crônicas, poemas e resenhas literárias em coletâneas, jornais e revistas.
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