{"id":175,"date":"2023-05-06T17:45:51","date_gmt":"2023-05-06T20:45:51","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/web-cineclube\/?p=175"},"modified":"2023-05-19T20:52:16","modified_gmt":"2023-05-19T23:52:16","slug":"o-homem-que-virou-suco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/web-cineclube\/o-homem-que-virou-suco\/","title":{"rendered":"O homem que virou suco (1981)"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Jo\u00e3o Batista de Andrade (Brasil)<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/web-cineclube\/files\/2023\/05\/image-20.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-176\" width=\"391\" srcset=\"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/web-cineclube\/files\/2023\/05\/image-20.png 599w, https:\/\/blogs.utopia.org.br\/web-cineclube\/files\/2023\/05\/image-20-198x300.png 198w\" sizes=\"(max-width: 599px) 100vw, 599px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"O Homem Que Virou Suco (1981)\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FF70tq8QSS4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Sem legendas<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Do diretor Jo\u00e3o Batista de Andrade, <strong>O Homem que Virou Suco<\/strong> aborda a resist\u00eancia de um poeta popular diante de uma sociedade opressora, que o obriga a eliminar suas ra\u00edzes.<\/p>\n\n\n\n<p>No filme, Deraldo (Jos\u00e9 Dumont), escritor de cordel, paraibano rec\u00e9m-chegado a S\u00e3o Paulo, \u00e9 confundido com o oper\u00e1rio Severino, nordestino, que em um ato de revolta assassina o patr\u00e3o a facadas. Sem documentos para comprovar sua identidade e perseguido pela pol\u00edcia, Deraldo \u00e9 obrigado a fugir do quarto que aluga e, com isso, inicia um percurso de desencontros enquanto sobrevive na metr\u00f3pole. For\u00e7ado a abandonar a venda de seus poemas, passa por diversos lugares, de servente de um coronel paraibano a oper\u00e1rio da constru\u00e7\u00e3o civil. Na condi\u00e7\u00e3o de migrante \u00e9 submetido, apesar de fundamental para o desenvolvimento da cidade, a uma s\u00e9rie de preconceitos e explora\u00e7\u00f5es. Ao t\u00e9rmino do filme, quase desesperan\u00e7oso, ele finalmente encontra Severino e, ap\u00f3s comprovar sua inoc\u00eancia, retoma a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica para escrever um cordel intitulado O Homem que Virou Suco, fazendo de sua carreira um poema de resist\u00eancia da identidade nordestina.<\/p>\n\n\n\n<p>Com uma vis\u00e3o cr\u00edtica do processo migrat\u00f3rio, O Homem que Virou Suco apresenta o personagem Deraldo, cuja trajet\u00f3ria pode ser lida como a s\u00edntese dos enfrentamentos vividos pelos nordestinos que migram para a cidade de S\u00e3o Paulo. Na \u00e9poca da realiza\u00e7\u00e3o do filme, quando o movimento grevista ganha impulso na regi\u00e3o paulista do ABC, v\u00e1rios cineastas voltam suas c\u00e2meras para o registro documental e ficcional do trabalhador. Cineastas como Roberto Gervitz (Bra\u00e7os Cruzados, M\u00e1quinas Paradas, 1979), Leon Hirszman (ABC da Greve, 1979, ou Eles N\u00e3o Usam Black-Tie, 1981), Renato Tapaj\u00f3s (Linha de Montagem, 1981) e o pr\u00f3prio Andrade s\u00e3o respons\u00e1veis por uma filmografia que, na passagem dos anos 1970 para a d\u00e9cada de 1980, coloca as contradi\u00e7\u00f5es do trabalho urbano no centro do debate.<\/p>\n\n\n\n<p>Focando o tema da migra\u00e7\u00e3o e do trabalho, O Homem que Virou Suco sublinha, com base na narrativa de Deraldo, o preconceito existente na grande cidade contra os nordestinos. Quest\u00e3o que aparece, de forma contundente, nas cenas em que o personagem, tentando conseguir um emprego na constru\u00e7\u00e3o de uma esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4, \u00e9 obrigado a assistir a um curta-metragem no qual Lampi\u00e3o, representado por xilogravuras, \u00e9 ridicularizado e transformado em um Jeca Tatu que n\u00e3o consegue adaptar-se em S\u00e3o Paulo. Assim, de modo perverso, o filme do metr\u00f4 se apropria da arte nordestina para induzir os imigrantes a abandonar seus tra\u00e7os culturais. Andrade, em entrevista concedida \u00e0 Folha de S.Paulo, em 1980, explica que o &#8220;t\u00edtulo \u00e9 jocoso, tirado dessa express\u00e3o popular que diz que se a gente bobiar (sic), o sistema espreme e transforma em baga\u00e7o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora Deraldo sofra nesse ambiente, o filme constr\u00f3i um personagem cuja postura, diante dos infort\u00fanios, n\u00e3o \u00e9 de passividade. Em sua imagina\u00e7\u00e3o ele se v\u00ea ironizado por estar vestido de cangaceiro no centro da cidade, prevalecendo, no entanto, sua autoimagem como her\u00f3i popular que, solit\u00e1rio, enfrenta as engrenagens da metr\u00f3pole. Pr\u00f3ximo ao famoso cordel A Chegada de Lampi\u00e3o ao Inferno, no qual o poeta pernambucano Jos\u00e9 Pacheco imagina Lampi\u00e3o como bravo guerreiro que vence todas as for\u00e7as de Satan\u00e1s, O Homem que Virou Suco tem em Deraldo a representa\u00e7\u00e3o daquele que busca resistir \u00e0s adversidades impostas pela ordem pol\u00edtica e social constitu\u00edda. Contra aqueles que o rebaixam nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho ou por preconceito, o protagonista insiste em rebelar-se. E intui a necessidade de ser companheiro dos demais migrantes que se encontram na mesma situa\u00e7\u00e3o. Representativa de sua personalidade heroica &#8211; entre a revolta e o afeto &#8211; \u00e9 a sequ\u00eancia na qual l\u00ea para o colega de trabalho analfabeto uma carta com not\u00edcias familiares enquanto a c\u00e2mera, na m\u00e3o, registra os rostos dos demais oper\u00e1rios que, atentos, ouvem com emo\u00e7\u00e3o palavras vindas do Nordeste. Os olhares direcionados a Deraldo &#8211; uma esp\u00e9cie de p\u00fablico a observar o artista &#8211; parecem demonstrar o afeto sentido por aquele que resiste \u00e0s press\u00f5es da cidade e \u00e9 capaz de dar voz \u00e0s lembran\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1981, Jean-Claude Bernardet comenta como Andrade, ao criar um personagem &#8220;intelectual do povo&#8221;, demonstra seu pr\u00f3prio desejo de fazer de O Homem que Virou Suco um cinema pol\u00edtico capaz de chegar \u00e0s classes populares. Na an\u00e1lise de Bernardet, a busca de Deraldo pelo oper\u00e1rio Severino, seu duplo, e a transforma\u00e7\u00e3o dessa trajet\u00f3ria em poesia de cordel ilustram a vontade do artista em comunicar-se com as massas. Como observa o cr\u00edtico, quase ao t\u00e9rmino do filme, enquanto o protagonista vende sua poesia nas ruas de S\u00e3o Paulo, quatro planos documentais da greve dos metal\u00fargicos de 1979 aparecem na montagem: &#8220;Tive, de repente, a impress\u00e3o rel\u00e2mpago de uma imensa amplia\u00e7\u00e3o da roda de pessoas que cercavam o poeta. Enquanto acompanhava o desenrolar da a\u00e7\u00e3o, estabeleci com as imagens de S\u00e3o Bernardo uma esp\u00e9cie de di\u00e1logo em segundo plano, mais ou menos nos seguintes termos: eles s\u00e3o o p\u00fablico leitor\/ouvinte poss\u00edvel do folheto O Homem que Virou Suco; a literatura que Deraldo escreve fala desses oper\u00e1rios que constituem seu amplo p\u00fablico; eles s\u00e3o o p\u00fablico espectador desejado do filme&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre O Homem que Virou Suco, outra leitura \u00e9 a proposta pelo cr\u00edtico Jos\u00e9 Carlos Avellar. Para ele, a busca de Deraldo por Severino pode ser interpretada como uma met\u00e1fora do artista que procura entrar em contato com o universo daquele &#8211; o oper\u00e1rio &#8211; que \u00e9 representado poeticamente. A investiga\u00e7\u00e3o do protagonista sobre o passado de seu duplo prov\u00e9m, nessa abordagem de Avellar, da necessidade de conhecer e vivenciar o cotidiano do outro como etapa fundamental da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica. <\/p>\n\n\n\n<p>Em O Homem que Virou Suco, as influ\u00eancias da poesia popular n\u00e3o se resumem ao enredo do filme, em di\u00e1logo com a literatura de cordel. Aproximando-se da cultura nordestina como experi\u00eancia est\u00e9tica, Andrade parece tomar emprestado o improviso t\u00edpico do repente. Ele prop\u00f5e uma dramaturgia em que os atores, sem um roteiro completamente fechado, e a c\u00e2mera de Aloysio Raulino, sem marca\u00e7\u00f5es rigidamente preestabelecidas, t\u00eam a permiss\u00e3o de improvisar di\u00e1logos e movimentos. A esse processo, partindo de sua experi\u00eancia anterior como rep\u00f3rter, o cineasta ainda acrescenta uma mistura de encena\u00e7\u00e3o ficcional e aspectos documentais. Em depoimento para o livro O Homem que Virou Suco: Roteiro de Jo\u00e3o Batista de Andrade, o diretor conta que essa proposta de linguagem nasce do desejo de realizar um &#8220;cinema de interven\u00e7\u00e3o&#8221;: &#8220;Na sequ\u00eancia quando Deraldo entra no refeit\u00f3rio da obra mesmo, os oper\u00e1rios que est\u00e3o ali s\u00e3o reais. Coloquei uma barata no prato do Z\u00e9 Dumont, ent\u00e3o ele est\u00e1 comendo, v\u00ea o inseto e d\u00e1 um murro na mesa. O que eu n\u00e3o esperava \u00e9 que os oper\u00e1rios come\u00e7assem a virar coisas e jogar os pratos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>\ud83c\udf9e\ufe0f <a href=\"https:\/\/www.imdb.com\/title\/tt0178585\/\">www.imdb.com\/title\/tt0178585<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Batista de Andrade (Brasil)<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[66,34,67],"class_list":["post-175","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cinema-brasileiro","tag-66","tag-brasil","tag-joao-batista-de-andrade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/web-cineclube\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/175","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/web-cineclube\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/web-cineclube\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/web-cineclube\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/web-cineclube\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=175"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/web-cineclube\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/175\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":771,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/web-cineclube\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/175\/revisions\/771"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/web-cineclube\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=175"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/web-cineclube\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=175"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/web-cineclube\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=175"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}