{"id":255,"date":"2023-09-13T11:51:39","date_gmt":"2023-09-13T14:51:39","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/vermelho\/?p=255"},"modified":"2024-02-25T19:49:01","modified_gmt":"2024-02-25T22:49:01","slug":"jogos-de-manipulacao-das-verdades-e-mentiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/vermelho\/jogos-de-manipulacao-das-verdades-e-mentiras\/","title":{"rendered":"Jogos de manipula\u00e7\u00e3o das verdades e mentiras"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>O jogo das redes sociais e aplicativos permite experimentar diferentes identidades, mas exige respeito \u00e0s regras. \u00c9 preciso entender esses mecanismos para evitar manipula\u00e7\u00e3o e mistifica\u00e7\u00e3o das massas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"574\" src=\"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/vermelho\/files\/2023\/09\/image-1-1024x574.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-256\" srcset=\"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/vermelho\/files\/2023\/09\/image-1-1024x574.png 1024w, https:\/\/blogs.utopia.org.br\/vermelho\/files\/2023\/09\/image-1-300x168.png 300w, https:\/\/blogs.utopia.org.br\/vermelho\/files\/2023\/09\/image-1-768x430.png 768w, https:\/\/blogs.utopia.org.br\/vermelho\/files\/2023\/09\/image-1.png 1456w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>As conversas nas redes e aplicativos sociais s\u00e3o um grande jogo em que as pessoas s\u00e3o suas pe\u00e7as e personagens. Nesse sentido, tem tudo a ver com hist\u00f3ria oral, com hist\u00f3ria digital, com fic\u00e7\u00e3o, e tem a ver com a verdade\/mentira tamb\u00e9m. Mesmo quando o sujeito pretende ser o que n\u00e3o \u00e9, no fundo ele \u201cest\u00e1 sendo\u201d. Aquilo que voc\u00ea quer ser \u00e9 parte daquilo que voc\u00ea \u00e9. Quem afirma que quer ser m\u00e9dico, de alguma forma j\u00e1 \u00e9 um pouquinho m\u00e9dico. S\u00f3 pelo fato de querer ser, ele j\u00e1 passa a ser. Quando o sujeito diz que quer ser assassino, matar um mont\u00e3o de gente, no fundo j\u00e1 \u00e9 um pouco assassino, se voc\u00ea permitir. Fernando Pessoa j\u00e1 dizia que \u201co poeta \u00e9 um fingidor, finge t\u00e3o completamente, que chega a sentir que \u00e9 dor a dor que deveras sente\u201d. O sujeito que entra no chat e diz ser uma loira de olhos azuis, talvez queria experimentar ser isso. N\u00e3o quer dizer que queira s\u00ea-lo de verdade. Ou seja, nessas experi\u00eancias voc\u00ea pode vivenciar coisas que n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Um jogo que em que um sujeito ganhe pontos fazendo xixi no elevador ou atropelando tudo n\u00e3o \u00e9 necessariamente nocivo, porque faz parte de um experimentar. Quem, ao jogar&nbsp;<em>War<\/em>, j\u00e1 n\u00e3o foi um grande general que arrasou continentes? No fundo, esse sujeito pode ser o maior pacifista do mundo, incapaz de matar uma mosca.<\/p>\n\n\n\n<p>Faz parte do processo civilizat\u00f3rio viver coisas que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9, at\u00e9 para saber que n\u00e3o quer ser. Quando voc\u00ea l\u00ea um romance passado na Bessar\u00e1bia, pode achar que foi \u00f3timo ler o livro, mas n\u00e3o pretende ir passar suas f\u00e9rias l\u00e1. Quando joga um game em que voc\u00ea \u00e9 um grande assassino nas catacumbas do planeta tal, voc\u00ea descarrega toda uma energia. Isso n\u00e3o \u00e9 barb\u00e1rie. Barb\u00e1rie \u00e9 um sujeito no boteco da esquina quebrar uma garrafa e espetar a garganta do outro, assassin\u00e1-lo porque estava um pouco alto e o alvo falou que torcia para o time que ele odeia. Processo civilizat\u00f3rio \u00e9 o sujeito dar vaz\u00e3o a toda essa carga primitiva e agressiva em processos criativos, seja na arte, na m\u00fasica. Beethoven foi um grande louco. S\u00f3 que usou essa loucura para produzir sinfonias fant\u00e1sticas. Van Gogh era outro louco, que utilizou sua insanidade na pintura.<\/p>\n\n\n\n<p>Raul Seixas cantou \u201cenquanto voc\u00ea se esfor\u00e7a pra ser \/ um sujeito normal e fazer tudo igual \/ eu do meu lado aprendendo a ser louco\u201d e \u201ccontrolando a minha maluquez \/ misturada com minha lucidez \/ vou ficar com certeza \/ maluco beleza\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando algu\u00e9m est\u00e1 jogando xadrez, acha que isso \u00e9 civilizado, sem se aperceber que representa uma agress\u00e3o rec\u00edproca porque \u00e9 o simulacro de uma batalha. Mas o xadrez muda tamb\u00e9m, ao longo do tempo. Por exemplo, o xadrez nasceu como chaturanga na \u00cdndia; era um jogo para quatro pessoas, caracter\u00edstica dos jogos indianos. Quando foi para os pa\u00edses \u00e1rabes, o xadrez virou shatranj, e de quatro pessoas reduziu-se o n\u00famero a duas. Ao inv\u00e9s de ter dois reis no ex\u00e9rcito, passou-se a ter um vice-rei. S\u00f3 quando o xadrez veio para o ocidente \u00e9 que o vice-rei passou a ser chamado de rainha. E do mesmo jeito o elefante: ao vir para o ocidente, a estiliza\u00e7\u00e3o das duas orelhas do animal fazia lembrar a mitra do bispo. Ent\u00e3o, ele passou a ser chamado de bispo. E, quando no xadrez ocidental o pe\u00e3o chegava na \u00faltima fileira, ele ficava l\u00e1 parado esperando ser comido. Foi preciso vir a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa para mudar o papel do pe\u00e3o no xadrez. S\u00f3 depois disso \u00e9 que o pe\u00e3o passou a poder ser promovido a uma pe\u00e7a nobre. H\u00e1 poucos anos, um professor norte-americano da New Left inventou uma varia\u00e7\u00e3o do xadrez chamada Luta de Classes, em que voc\u00ea coloca de um lado os dezesseis pe\u00f5es e do outro as oito pe\u00e7as nobres. A estrat\u00e9gia entre ambos \u00e9 completamente diferente, com t\u00e1ticas espec\u00edficas.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0 quest\u00e3o dos bate-papos ou chats na rede, eles s\u00e3o um jogo em que as pessoas entram, inventam o seu personagem e, como em todo jogo, \u00e9 necess\u00e1rio um m\u00ednimo de respeito \u00e0s regras. O estraga-prazeres n\u00e3o \u00e9 aquele que rouba no jogo, \u00e9 aquele que se recusa a jogar. O sujeito que procura jogar uma carta que n\u00e3o tem est\u00e1 de algum modo fazendo parte do jogo. O que pega a sua parte no baralho, p\u00f5e no bolso e vai embora, esse \u00e9 o verdadeiro estraga-prazeres, porque est\u00e1 se recusando a jogar.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma experi\u00eancia muito interessante para se fazer num bate-papo nas redes ou aplicativos \u00e9 sobre aquelas tradicionais perguntas que os interlocutores se fazem. A primeira coisa que as pessoas querem saber \u00e9 se voc\u00ea \u00e9 homem ou mulher. Experimente entrar com um nickname d\u00fabio, que n\u00e3o informa isso. Voc\u00ea vai ser bombardeado. Em seguida querem saber o local geogr\u00e1fico onde voc\u00ea est\u00e1, depois a idade. Se voc\u00ea conseguir fazer um jogo sutil de n\u00e3o passar nenhuma dessas informa\u00e7\u00f5es, as pessoas entram em paroxismo cognitivo. As pessoas precisam disso at\u00e9 para inventar quem voc\u00ea \u00e9. A inven\u00e7\u00e3o est\u00e1 dos dois lados. Voc\u00ea diz que tem tal altura e pesa tanto. A\u00ed o outro come\u00e7a imaginar o que quiser. Ou seja, voc\u00ea \u00e9 respons\u00e1vel por aquilo que diz, mas n\u00e3o por aquilo que o outro imagina. Se voc\u00ea n\u00e3o der os elementos m\u00ednimos, e esse \u201cantijogo\u201d \u00e9 muito divertido tamb\u00e9m enquanto experi\u00eancia, poder\u00e1 ver o quanto o interlocutor fica irritado. Eles preferem que voc\u00ea invente, mas que lhes forne\u00e7a o m\u00ednimo para que possam imaginar o resto.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso s\u00e3o elementos usados hoje para a difus\u00e3o de fake news com objetivos pol\u00edticos, usando elementos de psicologia das massas com grandes bases de dados dos usu\u00e1rios, suas prefer\u00eancias e sua navega\u00e7\u00e3o. \u00c9 fundamental que entendamos estes mecanismos para que os processos de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o sejam apropriados para a manipula\u00e7\u00e3o e mistifica\u00e7\u00e3o das massas, hoje ainda por cima contando com plataformas de intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n\n\n\n<p>\ud83c\udf10 <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/coluna\/jogos-de-manipulacao-das-verdades-e-mentiras\/\">https:\/\/vermelho.org.br\/coluna\/jogos-de-manipulacao-das-verdades-e-mentiras\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jogo das redes sociais e aplicativos permite experimentar diferentes identidades, mas exige respeito \u00e0s regras. \u00c9 preciso entender esses mecanismos para evitar manipula\u00e7\u00e3o e mistifica\u00e7\u00e3o das massas. 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