{"id":170,"date":"2023-05-17T15:06:55","date_gmt":"2023-05-17T18:06:55","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/vermelho\/?p=170"},"modified":"2024-02-25T20:04:02","modified_gmt":"2024-02-25T23:04:02","slug":"as-palavras-lidas-e-escritas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/vermelho\/as-palavras-lidas-e-escritas\/","title":{"rendered":"As palavras, lidas e escritas"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Embora as comunica\u00e7\u00f5es por \u00e1udio e v\u00eddeo sejam cada vez mais naturais, quem n\u00e3o sabe escrever est\u00e1 prejudicado \u2013 como algu\u00e9m que olha a estrada diante de si e n\u00e3o sabe usar os p\u00e9s para andar.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"999\" height=\"747\" src=\"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/vermelho\/files\/2023\/05\/image-3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-171\" srcset=\"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/vermelho\/files\/2023\/05\/image-3.png 999w, https:\/\/blogs.utopia.org.br\/vermelho\/files\/2023\/05\/image-3-300x224.png 300w, https:\/\/blogs.utopia.org.br\/vermelho\/files\/2023\/05\/image-3-768x574.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 999px) 100vw, 999px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Como nenhum outro meio de comunica\u00e7\u00e3o anterior (os tambores t\u00eam pouco alcance, as cartas demoram para chegar, ao telefone muitas vezes o som da voz pode nos seduzir ou irritar mais que as palavras proferidas, a televis\u00e3o \u00e9 dos donos dos canais, a r\u00e1dio em geral concess\u00f5es fisiol\u00f3gicas), a Internet nos coloca interativamente em contato, superando barreiras de idade, sexo, cultura e, principalmente, dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica. Aqui, cada um pode n\u00e3o apenas ler o que quiser quando tiver vontade, mas pode escrever, participar, ter os tais 15 minutos de fama que foram prometidos e ningu\u00e9m dava\u2026<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>As pessoas perdem um pouco certos referenciais, muitas vezes impedindo que indiv\u00edduos se conhe\u00e7am e n\u00e3o se estranhem atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o. Por outro lado, aqui os preconceitos podem aflorar mais do que na vida \u201creal\u201d (entre aspas pois o real \u00e9 cada vez mais composto tanto de \u00e1tomos como de bits), escancarados em textos escritos na hora, sem censura, deixando escapulir o lado mais podre das pessoas, em geral contido nas amarras sociais, no mundo virtual t\u00e3o aparentemente quase inexistentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas no mundo virtual, remoto, online, digital, os preconceitos podem virar tigres de papel, bytes que se esvaem, pois colocam as pessoas, irremediavelmente, em \u00edntimo contato umas com as outras. O contato delas aqui se d\u00e1 atrav\u00e9s de seus c\u00e9rebros, de suas almas, desprovidas de barreiras f\u00edsicas. O racista pode perceber que est\u00e1 falando com o objeto de seu preconceito tarde demais: quando j\u00e1 houver feito amizade com ele. O jovem e o velho conversar\u00e3o bastante at\u00e9 descobrirem a idade m\u00fatua. E duas pessoas carentes de calor humano e de amor, entes sens\u00edveis que saibam traduzir em palavras suas emo\u00e7\u00f5es, poder\u00e3o se apaixonar antes de se conhecer\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo depende de saber escrever. Na vida \u201creal\u201d, as pessoas bonitas, bem vestidas e que saibam falar levam toda a vantagem nos primeiros contatos, ao passo que os t\u00edmidos, feios ou mal-vestidos precisam de muito valor para superar tais barreiras. Neste mundo virtual, a palavra \u00e9 o \u201cp\u00f3 de pirlimpimpim\u201d que transforma a gata borralheira em princesa \u2013 e sua meia-noite \u00e9 quando a conex\u00e3o fica irritantemente lenta ou cai, com problemas de Wi-Fi, 3G e que tais, e ent\u00e3o aquele dispositivo na sua frente vira uma ab\u00f3bora.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele que n\u00e3o sabe pontuar, n\u00e3o tem poder de s\u00edntese das id\u00e9ias, n\u00e3o conhece um vocabul\u00e1rio rico, esse \u201cdan\u00e7a\u201d na m\u00e3o destas comunica\u00e7\u00f5es virtuais \u2013 embora, reconhe\u00e7amos, os grunhidos virtuais (Saramago ironizou: \u201ca tend\u00eancia para o monoss\u00edlabo como forma de comunica\u00e7\u00e3o: de degrau em degrau, vamos descendo at\u00e9 ao grunhido\u201d), preponderam nas redes, propiciando um excelente radar das estruturas cognitivas dessa massa humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta nova valoriza\u00e7\u00e3o da palavra escrita \u00e9 um fen\u00f4meno interessant\u00edssimo. O que a humanidade criou \u2013 e nos deu de Shakespeare a Fernando Pessoa \u2013 parecia a muitos que a tecnologia iria matar, a palavra escrita seria substitu\u00edda por cliques, a literatura trocada por \u00edcones. O que se v\u00ea n\u00e3o \u00e9 isso. Embora as comunica\u00e7\u00f5es por \u00e1udio e v\u00eddeo sejam cada vez mais naturais, quem n\u00e3o sabe escrever est\u00e1 prejudicado \u2013 como algu\u00e9m que olha a estrada diante de si e n\u00e3o sabe usar os p\u00e9s para andar. Claro que ainda falta muito para que os escritos na rede n\u00e3o sejam apenas um reflexo da enorme ignor\u00e2ncia do escrever, que \u00e9 o que mais se v\u00ea hoje, mas, como disse o poeta, \u201co caminho se faz ao caminhar\u201d\u2026 O maior erro n\u00e3o \u00e9 nunca a gram\u00e1tica desconhecida, o trope\u00e7o ortogr\u00e1fico, mas sim a falta de compreens\u00e3o pelo outro, a incapacidade de achar as palavras para exprimir suas ideias.<\/p>\n\n\n\n<p>Em praticamente todas as avalia\u00e7\u00f5es de capacidade de compreens\u00e3o leitora (por exemplo, saber recuperar e reproduzir um peda\u00e7o de informa\u00e7\u00e3o explicitamente declarada em um texto), o Brasil situa-se nas piores coloca\u00e7\u00f5es entre todos os demais pa\u00edses. O desafio que temos enquanto na\u00e7\u00e3o \u00e9 darmos v\u00e1rios passos adiante.<\/p>\n\n\n\n<p>Fernando Pessoa disse que sua p\u00e1tria era a l\u00edngua portuguesa, e Paulo Freire escreveu, em seu <em>A import\u00e2ncia do ato de ler<\/em>: \u201cEste movimento do mundo \u00e0 palavra e da palavra ao mundo est\u00e1 sempre presente. Movimento em que a palavra dita flui do mundo mesmo atrav\u00e9s da leitura que dele fazemos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\ud83c\udf10 <a href=\"https:\/\/vermelho.org.br\/coluna\/as-palavras-lidas-e-escritas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/vermelho.org.br\/coluna\/as-palavras-lidas-e-escritas\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Embora as comunica\u00e7\u00f5es por \u00e1udio e v\u00eddeo sejam cada vez mais naturais, quem n\u00e3o sabe escrever est\u00e1 prejudicado \u2013 como algu\u00e9m que olha a estrada diante de si e n\u00e3o sabe usar os p\u00e9s para andar. 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