{"id":887,"date":"2008-08-20T23:57:08","date_gmt":"2008-08-21T02:57:08","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/?p=887"},"modified":"2008-11-11T23:33:54","modified_gmt":"2008-11-12T02:33:54","slug":"juca-pato-discurso-de-antonio-candido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2008\/08\/20\/juca-pato-discurso-de-antonio-candido\/","title":{"rendered":"JUCA PATO: DISCURSO DE ANTONIO CANDIDO"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_151\" style=\"width: 134px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/candido3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-151\" class=\"size-medium wp-image-151\" src=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/candido3.jpg\" alt=\"Antonio Candido\" width=\"124\" height=\"173\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-151\" class=\"wp-caption-text\">Antonio Candido<\/p><\/div>\n<p>O trof\u00e9u Juca Pato tem para mim grande significado, inclusive porque as entidades que o criaram foram importantes na minha carreira intelectual. Uma \u00e9 sucessora da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Escritores, a outra \u00e9 sucessora da Folha da Manh\u00e3, e a ambas se prende a fase inicial da minha atividade de cr\u00edtico liter\u00e1rio e de intelectual participante, como se dizia naquele tempo.<\/p>\n<p>Em 1942 a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Escritores foi fundada no Rio de Janeiro com uma finalidade ostensiva e outra impl\u00edcita. Ostensivo era o intuito de lutar pela regulariza\u00e7\u00e3o dos direitos autorais, ent\u00e3o muito desrespeitados. Impl\u00edcito era o \u00e2nimo de lutar contra a ditadura do Estado Novo e seu duro arrocho em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 liberdade de pensamento e de express\u00e3o. Eu estava presente ao encontro fundador da se\u00e7\u00e3o paulista, do qual saiu a delibera\u00e7\u00e3o de eleger S\u00e9rgio Milliet seu presidente, pois M\u00e1rio de Andrade, que tamb\u00e9m estava ali, recusou o cargo, ficando discretamente como vice. A mim, jovem principiante, foi atribu\u00edda a fun\u00e7\u00e3o de 2o. secret\u00e1rio, n\u00e3o devido a m\u00e9rito pessoal, mas como reconhecimento de um grupo de mo\u00e7os ao qual eu pertencia e estava se lan\u00e7ando na vida intelectual com a nossa revista Clima, cujo t\u00edtulo passou a nos designar: \u00e9ramos o &#8220;grupo de Clima&#8221;.<\/p>\n<p>Na se\u00e7\u00e3o paulista da ABDE, sigla com a qual a Associa\u00e7\u00e3o ficou famosa, participei da organiza\u00e7\u00e3o e da realiza\u00e7\u00e3o do hist\u00f3rico Primeiro Congresso Brasileiro de Escritores, que teve lugar em S\u00e3o Paulo no m\u00eas de janeiro de 1945 e foi um movimento significativo de oposi\u00e7\u00e3o ao regime, que ali\u00e1s come\u00e7ou a se dissolver no m\u00eas seguinte. Mais tarde, em 1949, fui eleito presidente da se\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo e nessa qualidade presidi o Segundo Congresso Paulista de Escritores, realizado naquele ano em Ja\u00fa. A declara\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios deste congresso afirmou que o dever b\u00e1sico do escritor \u00e9 a fidelidade \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a obedi\u00eancia a imperativos externos, aos quais poderia, no entanto, servir como intelectual em sentido amplo. Isso era uma retifica\u00e7\u00e3o \u00e0 tend\u00eancia demasiado pol\u00edtica justificada em tempo de ditadura. Pouco depois esse problema gerou a cis\u00e3o que dividiu a entidade, recomposta felizmente mais tarde com o nome atual.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 outra instituidora, menciono que em 1943 tornei-me o que se denominava ent\u00e3o &#8220;cr\u00edtico titular&#8221; do jornal Folha da Manh\u00e3, que mudara de propriet\u00e1rio e passava por uma reforma modernizadora. Ligado aos autores desta era o meu grande amigo e companheiro da revista Clima Lourival Gomes Machado, que se encarregou da cr\u00edtica de arte. Como os reformadores queriam estabelecer um rodap\u00e9 semanal de cr\u00edtica liter\u00e1ria, ele me indicou para esta tarefa de grande responsabilidade. O meu nome foi aceito e eu, verde principiante, assumi o compromisso de fornecer semanalmente um artigo de cinco a seis laudas tamanho of\u00edcio a dois espa\u00e7os sobre os livros da hora. Foi nessa tarefa, n\u00e3o na Universidade, que me formei como cr\u00edtico, pois sou licenciado em Ci\u00eancias Sociais, n\u00e3o Letras, e naquele tempo dava aulas de Sociologia. O meu tiroc\u00ednio foi portanto adquirido dentro da tradi\u00e7\u00e3o franco-brasileira do jornalismo, o que me ensinou antes de mais nada a procurar clareza e simplicidade na escrita. Sou, portanto, um cr\u00edtico de jornal que passou mais tarde ao ensino da literatura, o contr\u00e1rio do que \u00e9 freq\u00fcente em nossos dias.<\/p>\n<div id=\"attachment_155\" style=\"width: 182px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/juca_home1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-155\" class=\"size-medium wp-image-155\" src=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/juca_home1-250x300.jpg\" alt=\"Antonio Candido e Levi\" width=\"172\" height=\"207\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-155\" class=\"wp-caption-text\">Antonio Candido e Levi Bucalem Ferrari<\/p><\/div>\n<p>Aquele momento era de intensa politiza\u00e7\u00e3o dos intelectuais, segundo o esp\u00edrito predominante no dec\u00eanio que sucedeu ao movimento armado de 1930. Eu embarquei nesse rumo, politizando talvez um pouco demais a minha atividade cr\u00edtica, mas correspondendo assim ao \u00e2nimo de milit\u00e2ncia que era o dos intelectuais contr\u00e1rios \u00e0 ditadura do Estado Novo. Afinado com as tend\u00eancias radicais do momento, assumi ent\u00e3o posi\u00e7\u00f5es socialistas que n\u00e3o abandonei mais e continuam a nortear as minhas convic\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 necessidade de transformar profundamente a nossa sociedade desigual e mutiladora.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o posso ir adiante sem mencionar que na reda\u00e7\u00e3o da Folha da Manh\u00e3 conheci e vi muitas vezes ningu\u00e9m menos que o inventor do popular Juca Pato, personagem pitoresco que d\u00e1 o nome a este pr\u00eamio. Refiro-me a Benedito Carneiro de Bastos Barreto, famoso sob o pseud\u00f4nimo de Belmonte, escritor e desenhista de alto valor, um dos mais altos praticantes da caricatura no Brasil. Era um homem discreto e cort\u00eas, de pouca fala, mas muito simp\u00e1tico. Naquela altura participava da luta ideol\u00f3gica por meio de charges mordazes contra o nazismo.<\/p>\n<p>Tendo mencionado dois motivos que contribuem para fazer deste pr\u00eamio uma alegria para mim, resta mencionar como terceiro o fato de ser ele conferido neste local. Estudei na Faculdade de Direito durante sete anos, dois no chamado &#8220;pr\u00e9-jur\u00eddico&#8221;, designa\u00e7\u00e3o corrente na 1a. Se\u00e7\u00e3o do Col\u00e9gio Universit\u00e1rio Anexo \u00e0 Universidade de S\u00e3o Paulo, mais cinco no bacharelado, sendo que os tr\u00eas primeiros de maneira ass\u00eddua e os dois \u00faltimos com muita aus\u00eancia, acabando por n\u00e3o prestar em segunda \u00e9poca os exames finais, segundo o sistema da \u00e9poca e segundo tamb\u00e9m a minha inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Portanto sou quase bacharel e sempre me senti uma esp\u00e9cie de aluno permanente que ainda n\u00e3o cumpriu a tarefa, mas tenho a honra de ser bacharel do XI de Agosto, grau que me foi conferido solenemente por uma turma de formandos. Por isso trago neste momento na lapela o distintivo do Centro, quase igual ao que, em seguida ao trote de 1939, depois de raspado o cabelo e pagas as devidas taxas, recebi junto com a fl\u00e2mula e o diploma de burro em bom latim macarr\u00f4nico, diploma que conservo como ant\u00eddoto salutar contra eventuais assomos da vaidade&#8230;<\/p>\n<p>Foi nesta Casa que comecei a militar contra as ditaduras, como um dos fundadores do Partido Libertador, surgido aqui em 1939, quando eu estava no primeiro ano do bacharelado, e que n\u00e3o deve ser confundido com o de \u00e2mbito nacional de mesmo nome, criado sob a inspira\u00e7\u00e3o de Raul Pilla. Mais tarde fui tamb\u00e9m um dos fundadores da Frente de Resist\u00eancia, formada quando eu estava no 5o. ano por estudantes liberais e socialistas desta e de outras faculdades, que desenvolveu uma atividade ponder\u00e1vel apesar dos apertados limites impostos pela censura e a repress\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_735\" style=\"width: 186px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/candido31.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-735\" class=\"size-medium wp-image-735\" src=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/candido31.jpg\" alt=\"Ruth Guimar\u00e3es e Antonio Candido\" width=\"176\" height=\"176\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-735\" class=\"wp-caption-text\">Ruth Guimar\u00e3es e Antonio Candido<\/p><\/div>\n<p>O que estou dizendo se refere cronologicamente aos anos de 1940, isto \u00e9, mais de meio s\u00e9culo atr\u00e1s. Portanto, os generosos confrades da Uni\u00e3o Brasileira de Escritores foram buscar um intelectual bem antigo, bem fora do tempo, para confort\u00e1-lo com esta distin\u00e7\u00e3o consagradora. Devo ser de fato t\u00e3o antiquado, que venho sendo definido em algumas inst\u00e2ncias como &#8220;ilustrado&#8221;, devidamente entre aspas, e como algu\u00e9m preso a uma vis\u00e3o de tipo teleol\u00f3gico da hist\u00f3ria e do pensamento. Devo esclarecer que, ao contr\u00e1rio do que se poderia pensar, considero esta restri\u00e7\u00e3o um elogio. Ela quer dizer que me mantenho fiel \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o do humanismo ocidental definida a partir do s\u00e9culo XVIII, segundo a qual o homem \u00e9 um ser capaz de aperfei\u00e7oamento, e que a sociedade pode e deve definir metas para melhorar as condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas, tendo como horizonte a conquista do m\u00e1ximo poss\u00edvel de igualdade social e econ\u00f4mica e de harmonia nas rela\u00e7\u00f5es. O tempo presente parece duvidar e mesmo negar essa possibilidade, e h\u00e1 em geral pouca f\u00e9 nas utopias. Mas o que importa n\u00e3o \u00e9 que os alvos ideais sejam ou n\u00e3o ating\u00edveis concretamente na sua sonhada integridade. O essencial \u00e9 que nos disponhamos a agir como se pud\u00e9ssemos alcan\u00e7\u00e1-los, porque isso pode impedir ou ao menos atenuar o afloramento do que h\u00e1 de pior em n\u00f3s e em nossa sociedade. E \u00e9 o que favorece a introdu\u00e7\u00e3o, mesmo parcial, mesmo insatisfat\u00f3ria, de medidas humanizadoras em meio a recuos e malogros. Do contr\u00e1rio, poder\u00edamos cair nas concep\u00e7\u00f5es negativistas, segundo as quais a exist\u00eancia \u00e9 uma agita\u00e7\u00e3o aleat\u00f3ria em meio a trevas sem alvorada.<\/p>\n<p>\u00c9 com este esp\u00edrito talvez obsoleto de velho intelectual participante, como se dizia naquele tempo, que aqui estou para agradecer de cora\u00e7\u00e3o esta desvanecedora homenagem.<\/p>\n<p><em><strong>Antonio Candido<\/strong><br \/>\n20 de agosto de 2008<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>Discurso proferido durante a cerim\u00f4nia de entrega do pr\u00eamio Juca Pato, em 20 de agosto de 2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trof\u00e9u Juca Pato tem para mim grande significado, inclusive porque as entidades que o criaram foram importantes na minha carreira intelectual. Uma \u00e9 sucessora da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Escritores, a outra \u00e9 sucessora da Folha da Manh\u00e3, e a &hellip; <a href=\"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2008\/08\/20\/juca-pato-discurso-de-antonio-candido\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[149],"tags":[49,162,50,13,51],"class_list":["post-887","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-aconteceu","tag-antonio-candido","tag-intelectual-do-ano","tag-juca-pato","tag-literatura","tag-ube"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/887","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=887"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/887\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2045,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/887\/revisions\/2045"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=887"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=887"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=887"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}