{"id":87,"date":"2007-10-01T19:55:02","date_gmt":"2007-10-01T22:55:02","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/?p=87"},"modified":"2008-09-26T00:19:34","modified_gmt":"2008-09-26T03:19:34","slug":"87","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2007\/10\/01\/87\/","title":{"rendered":"A CARAVANA PASSA"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/116.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-396\" src=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/116.jpg\" alt=\"\" width=\"75\" height=\"102\" \/><\/a>Esc\u00e2ndalos envolvendo homens p\u00fablicos se sucedem com tal freq\u00fc\u00eancia que deixam estarrecida a opini\u00e3o p\u00fablica. Eu, que nem sei bem o que \u00e9 essa tal de opini\u00e3o, assim t\u00e3o difusa e indefin\u00edvel, apenas percebo que um grande n\u00famero de pessoas n\u00e3o consegue falar de outro assunto. J\u00e1 tem como julgados e condenados os suspeitos de plant\u00e3o que passam a ser sin\u00f4nimo de corrupto nas brincadeiras, anedotas, conversas do dia a dia.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes me surpreendo em n\u00e3o saber da \u00faltima descoberta sobre as supostas falcatruas desses homens-s\u00edmbolo. E sinto que, assim agindo, surpreendo tamb\u00e9m o interlocutor. Sinto e fa\u00e7o sentir o mesmo pasmo causado pelo meu desconhecimento e desinteresse por outro tipo de esc\u00e2ndalo, o representado pelos deslizes sexuais, conjugais, negociais, fofocais, envolvendo celebridades midi\u00e1ticas de todos os matizes.<\/p>\n<p>Seria isso um tipo de omiss\u00e3o, portanto, de coniv\u00eancia passiva? Aliena\u00e7\u00e3o, alheamento? Dou-me o benef\u00edcio da d\u00favida e, por enquanto, afirmo apenas que me comporto como a personagem do poema <em>Transit\u00f3rio Definitivo<\/em> de An\u00edbal Machado, quando afirma: <em>Os pequenos acontecimentos avultam aos meus olhos, os grandes se amesquinham<\/em>.<\/p>\n<p>Abaixo tento explica\u00e7\u00e3o mais l\u00f3gica, mas antes registro meu rep\u00fadio a toda e qualquer forma de corrup\u00e7\u00e3o, particularmente a que envolve recursos p\u00fablicos. N\u00e3o h\u00e1 brincar com isso, nenhuma d\u00favida deve pairar.<\/p>\n<p><strong>A culpa \u00e9 sempre<br \/>\natribu\u00edda ao governo<\/strong><\/p>\n<p>Para l\u00e1 de um horizonte t\u00e3o conden\u00e1vel quanto \u00f3bvio, \u00e9 poss\u00edvel fazer algumas reflex\u00f5es. A primeira \u00e9 a de que, se o esc\u00e2ndalo envolve homens p\u00fablicos, sejam eles deputados ou senadores; ju\u00edzes ou desembargadores; ministros ou barnab\u00e9s, a culpa \u00e9 sempre atribu\u00edda ao governo. E, por extens\u00e3o, ao Estado. Pouqu\u00edssimos s\u00e3o capazes de constatar que s\u00e3o \u00f3rg\u00e3os do Estado que investigam e apuram fraudes e suspeitos. E, se o governo n\u00e3o lhes fornecesse condi\u00e7\u00f5es como recursos e outras, ou, ao contr\u00e1rio, lhes dificultasse a a\u00e7\u00e3o (e h\u00e1, como j\u00e1 se viu, muitas formas de assim proceder) jamais saber\u00edamos destas coisas que movem a roda de nossas conversas.<\/p>\n<p>Vem em seguida o papel da m\u00eddia. Ela \u00e9 quem apimenta a vers\u00e3o que comentaremos amanh\u00e3. Sobre isso, estou cansado de afirmar que n\u00e3o leio jornais nem revistas, n\u00e3o ou\u00e7o r\u00e1dio ou assisto \u00e0 televis\u00e3o para me informar. Fa\u00e7o as quatro coisas apenas para saber qual \u00e9 a jogada, a quem interessa a divulga\u00e7\u00e3o de um determinado assunto.<\/p>\n<p>Que interesses a m\u00eddia representa em cada caso, al\u00e9m, \u00e9 \u00f3bvio do de vender-se e vender nossos olhos a seus anunciantes. E outro menos \u00f3bvio. Em nossa fr\u00e1gil democracia, a viver constantes crises de legitimidade, a m\u00eddia disputa com o Congresso o papel de intermediador entre a tal de opini\u00e3o p\u00fablica e o Poder Executivo.<\/p>\n<p>Legitima\u00e7\u00e3o, prest\u00edgio, poder. E mais olhos e mais anunciantes.<\/p>\n<p>Ao nos atolar periodicamente de informa\u00e7\u00f5es bomb\u00e1sticas a m\u00eddia exacerba fen\u00f4meno t\u00edpico da sociedade de massas: a substitui\u00e7\u00e3o de uma informa\u00e7\u00e3o pela outra, sua banaliza\u00e7\u00e3o pelo espet\u00e1culo e, conseq\u00fcentemente, o fim da mem\u00f3ria e da cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Piada n\u00e3o \u00e9 indigna\u00e7\u00e3o. E esta, sozinha, tamb\u00e9m nada transforma.<\/p>\n<p><strong>No Coliseu midi\u00e1tico<br \/>\ntodos queremos sangue<\/strong><\/p>\n<p>A indigna\u00e7\u00e3o vendida no varejo tem levado ainda a um certo abuso de mecanismos excepcionais de investiga\u00e7\u00e3o como o grampo telef\u00f4nico, as grava\u00e7\u00f5es de conversas entre suspeitos, e muitas outras. Tais m\u00e9todos que, no Estado de Direito, devem ser usados com parcim\u00f4nia e sob sigilo, s\u00e3o escancarados na m\u00eddia. Pela gravidade assim ampliada dos supostos crimes, os m\u00e9todos excepcionais de investiga\u00e7\u00e3o se legitimam, passam a ser regra. E at\u00e9 uma conversa afetiva entre o suspeito e seu c\u00e3o faz parte do espet\u00e1culo. No Coliseu midi\u00e1tico todos queremos sangue.<\/p>\n<p>O perigo desses abusos \u00e9 o de enfraquecer as institui\u00e7\u00f5es e a processualista jur\u00eddica. Aqueles procedimentos t\u00e3o velhos quanto morosos, destinados a garantir o direito de defesa, v\u00e3o nos parecendo obsoletos, merecem ir para o dep\u00f3sito gen\u00e9rico do formalismo e da hipocrisia.<\/p>\n<p>Sugiro um sub-total at\u00e9 aqui. Os julgamentos j\u00e1 foram feitos, den\u00fancias e senten\u00e7as proferidas pela mesma pessoa: o apresentador de jornais radio-televisivos, os colunistas de jornais e revistas. E mais, a pena ser\u00e1 sempre ampliada pelos ing\u00eanuos de plant\u00e3o em conversas de boteco, blogs, sites, listas de e-mail etc. Exaspera\u00e7\u00f5es at\u00e9 o pr\u00f3ximo espet\u00e1culo. Tudo para ser logo esquecido.<\/p>\n<p>Por falar em esquecimento, o tratamento espetacular de esc\u00e2ndalos escamoteia, empurra para debaixo do tapete, quest\u00f5es mais graves em nossa forma\u00e7\u00e3o social. As injusti\u00e7as que se perpetuam desde o per\u00edodo colonial e que se exacerbaram durante a implanta\u00e7\u00e3o do neoliberalismo entre n\u00f3s. Est\u00e3o a\u00ed o desemprego e a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho; a diminui\u00e7\u00e3o gradativa dos direitos trabalhistas; o descaso para com os demais direitos sociais.<\/p>\n<p>Quando ser\u00e1 manchete \u2013 e assunto de boteco- o fato de que mantemos um dos maiores n\u00edveis\u00a0 de desigualdade social do planeta? Ou, dado mais palp\u00e1vel, cinq\u00fcenta mil mortes violentas por ano. Mais do que muitos pa\u00edses em guerra.<\/p>\n<p>E a educa\u00e7\u00e3o? Pelo andar da carruagem, colega escritor, nem sei se seremos lidos. N\u00e3o pelas dificuldades de editar, distribuir, divulgar. Nada disso. Simplesmente porque a educa\u00e7\u00e3o hoje, mesmo a universit\u00e1ria, n\u00e3o forma leitores, como n\u00e3o forma profissionais nem cidad\u00e3os. Preocupe-se tamb\u00e9m com isso.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Editorial da <a href=\"http:\/\/www.scortecci.com.br\/lermais_materias.php?cd_materias=4274\">Revista O Escritor<\/a>, n\u00ba 116, ago.2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esc\u00e2ndalos envolvendo homens p\u00fablicos se sucedem com tal freq\u00fc\u00eancia que deixam estarrecida a opini\u00e3o p\u00fablica. 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