{"id":694,"date":"2003-09-30T21:24:21","date_gmt":"2003-10-01T00:24:21","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/?p=694"},"modified":"2008-09-30T21:32:03","modified_gmt":"2008-10-01T00:32:03","slug":"olhos-de-gata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2003\/09\/30\/olhos-de-gata\/","title":{"rendered":"OLHOS DE GATA"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/livros\/o-inimigo\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-696\" src=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/livro2levi3.jpg\" alt=\"\" width=\"126\" height=\"179\" \/><\/a>Se eu lhes dissesse que ela \u00e9 uma flor em meu jardim seria uma met\u00e1fora das mais gastas. Se, entretanto, afirmasse que \u00e9 todo um canteiro, uma evidente hip\u00e9rbole ainda que, paradoxalmente, estar\u00edamos mais pr\u00f3ximos da verdade.<\/p>\n<p>Conto-lhes como tudo ocorreu.<\/p>\n<p>Faltavam poucos dias para minha apresenta\u00e7\u00e3o como solista da orquestra menina dos olhos de quase todos os m\u00fasicos do Brasil, ou do que sobrou do Brasil, a Sinf\u00f4nica de S\u00e3o Paulo. Chegaria em Manaus para uma s\u00f3 apresenta\u00e7\u00e3o em nosso tradicional Teatro Municipal, o orgulho da cidade, todo reformado, ressaltadas sua nobreza arquitet\u00f4nica e excelente ac\u00fastica, evento comemorativo do tombamento internacional da Amaz\u00f4nia. O solista eu, um nativo, oportunidade \u00fanica em uma toda vida.<\/p>\n<p>A partitura das mais dif\u00edceis: longas, intermin\u00e1veis seq\u00fc\u00eancias com profus\u00e3o de semifusas em inesperadas disson\u00e2ncias; demorados, imprevis\u00edveis sil\u00eancios que me obrigavam a uma absoluta aten\u00e7\u00e3o para os retornos a novas profus\u00f5es daquelas min\u00fasculas notas capazes de entrela\u00e7arem, de darem n\u00f3s nos dedos. E l\u00e1 ia eu no calor \u00famido desta cidade, suando por todos os poros para mais um de meus estafantes, tensos ensaios.<\/p>\n<p>Durante os sil\u00eancios da pauta, olho nos olhos de minha gata enquanto conto os compassos em que meus \u00e1vidos dedos expectantes permanecem. A gata me corresponde apreensiva como se compartilhasse da afli\u00e7\u00e3o, solid\u00e1ria, sapiente h\u00e1 muito de que mais nada pode fazer exceto acompanhar-me pelo furta-cor de seus olhos variantes e reflexos n\u00e3o s\u00f3 das inflex\u00f5es da luz; da harmonia, principalmente. \u00c9 o que sinto.<\/p>\n<p>De repente, estou louco, ou demais cansado, id\u00eanticos outros olhos, sei l\u00e1 se felinos, me observam pela janela. Somem, reaparecem, somem, perco a concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pausa, um refresco de guaran\u00e1 e mais caf\u00e9, quero ser todo nervos, \u00e1geis, drogar me de cafe\u00edna \u00e9 necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Recome\u00e7o concentrado e sinto que me sa\u00ed bem, preciso, numa das passagens mais dif\u00edceis e, enquanto a repito, sinto que os mesmos olhos novamente me fitam, sorte que sobre um admirado sorriso ao qual correspondo feliz como se aprovado, aplaudido. E ali permanecem at\u00e9 quase ao t\u00e9rmino da seq\u00fc\u00eancia para n\u00e3o serem, depois dela, vistos.<\/p>\n<p>Hora de novas hidrata\u00e7\u00f5es e drogas. Agora sou eu quem sente falta, busco o olhar que me inspirou, quem sabe dos segredos da interpreta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Sumiram.<\/p>\n<p>E uma extensa pauta me espera.<\/p>\n<p>Era uma menina.<\/p>\n<p>Na idade que se faz indefin\u00edvel \u00e0 mera vista, ora parece mais nova, crian\u00e7a, desajeitos infantis; ora mocinha, outros trejeitos, a fam\u00edlia se mudara h\u00e1 pouco para a casa vizinha e, logo vim a saber, ela bisbilhotava a casa do estranho pianista em busca de uma bola de couro, branca e leve, de voleibol, que havia ca\u00eddo em meu quintal.<\/p>\n<p>Toma, disse ao devolv\u00ea-la, olhando-lhe fixo nos lindos, esquisitos olhos de gata sobre o mesmo j\u00e1 visto sorriso que ent\u00e3o me pareceu tamb\u00e9m esquisito. \u00c9 que enquanto sorria, seus olhos inquiriam, duvidavam, sugeriam, desafiantes intrigavam, instigavam indefin\u00edveis.<\/p>\n<p>Outro dia, uma tardinha, enquanto fa\u00e7o na varanda uma pausa mais longa, a jarra do refresco de guaran\u00e1 sobre a mesa, vejo-a na rua a brincar com outras meninas, a mesma bola, os mesmos olhos e sorriso, s\u00f3 que na testa, \u00e0s vezes, um franzir descombinado.<\/p>\n<p>O jogo acabou, com a bola sob o bra\u00e7o e a cara quase fechada, quase a afugentar o sorriso, ela passar\u00e1 bem pr\u00f3xima e ouvir\u00e1 de mim o convite, natural e avidamente aceito, a jarra se foi num \u00e1timo. Me disponho a trazer outra, mas ela se vai, tomar um banho, me diz, passando as m\u00e3os sobre o corpo a mostrar-se excessivamente suada. Antes r\u00e1pida e logo lentamente, suas m\u00e3os deslizam sobre a pele e os cabelos, seus olhos, o sorriso, o diminu\u00eddo franzir da testa a permitirem, como as minhas semifusas, novas, renovadas, surpreendentes interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Vivi esse curto e intenso per\u00edodo sob as amea\u00e7as de sil\u00eancios e semifusas.<\/p>\n<p>E ainda outras.<\/p>\n<p>Percebi, num dia qualquer, que algu\u00e9m, al\u00e9m da velha gata, respirava mais forte que esta entre os dif\u00edceis compassos. Era ela, sentada h\u00e1 poucos metros, quieta e atenta, talvez admirada. Nem sei como entrou. E, assim que terminei o movimento, ouvi de suas pequenas m\u00e3os o ru\u00eddo das palmas e um aproximar-se respeitoso, os mesmos olhos feitos grandes v\u00eaem as teclas do piano como se n\u00e3o pudessem acreditar que fossem elas capazes de tanta sonoridade. Pode tocar, eu disse, ela pareceu n\u00e3o acreditar. Insisti at\u00e9 que seu dedo indicador bateu sobre a tecla mais pr\u00f3xima. Voltei a insistir e ela arriscou-se a tr\u00eas, quatro toques.<\/p>\n<p>A fiz sentar-se, ajustei-lhe cuidadoso, carinhosamente a banqueta, deixei-lhe o piano entregue a seus caprichos explorat\u00f3rios enquanto fui buscar outro copo para ela. Tocava t\u00edmida e delicadamente cada tecla, ouvindo-lhe atenta o som e as combina\u00e7\u00f5es. Sentei a seu lado e, a cada novo toque de seus dedos finos, eu acrescentava novas notas que se arranjavam \u00e0s suas dando-lhe ora a impress\u00e3o de que toc\u00e1vamos a quatro m\u00e3os, ora de que eu a seguia, como segue o executante a batuta do maestro. Maestrina, no caso.<\/p>\n<p>Sua excita\u00e7\u00e3o era tamanha, explodia na respira\u00e7\u00e3o entrecortada, tantas vezes suspensa, enquanto acelera o ritmo, procura nas teclas as notas que correspondam \u00e0s minhas, tenta suas pr\u00f3prias harmonias.<\/p>\n<p>Sim, ela tinha um bom ouvido, qui\u00e7\u00e1 absoluto, levava jeito. Resolvi ensinar-lhe.<\/p>\n<p>O que ficou para depois do concerto.<\/p>\n<p>Arranjei ingressos para ela e seus pais e interpretei a dif\u00edcil pe\u00e7a que me competia a pensar que aqueles olhos de gata me olhavam impressionados, confiantes; os senti, podem crer, na nuca, onde sempre sentira que se concentravam os olhos de minha outra gata, a velhinha e dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Cabe o par\u00eantesis, as duas se afei\u00e7oaram no per\u00edodo em que \u00e0 humana ensinei tocar piano, esta pr\u00f3diga em afagos \u00e0 outra antes e depois das li\u00e7\u00f5es. Afagos bem-vindos como o demonstra um miar agradecido e manhoso. Pobre gata, t\u00e3o linda em suas tr\u00eas cores, t\u00e3o meiga e expressiva, d\u00e1 sinais inequ\u00edvocos da idade avan\u00e7ada, preciso acostumar-me a id\u00e9ia de que em pouco tempo me deixar\u00e1 novamente s\u00f3.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o o fez antes da gata menina.<\/p>\n<p>Esta, t\u00e3o logo virada mocinha, abandonou o piano, emprestou seus privilegiados, e agora mais afinados, ouvidos ao viol\u00e3o; arranjou um namorado entre essa centena de soldadinhos loiros que infestam a cidade desde a ocupa\u00e7\u00e3o. Me diz agora que chegou a tocar guitarra num desse clubes exclusivos para estrangeiros.<\/p>\n<p>E que dinheiro e sucesso n\u00e3o lhe faltaram; pelo jeito nem amores pois descobriu-se gr\u00e1vida h\u00e1 poucas semanas. E o soldado, alegando que h\u00e1 tantos como ele, n\u00e3o mais quis v\u00ea-la. Ela solu\u00e7a ao perguntar-me o que deve fazer, empalidece ao prometer vingan\u00e7a, me pede ajuda em ambos os casos. Quanto ao primeiro, posso indicar-lhe a um bom conservat\u00f3rio em S\u00e3o Paulo, recomendar-lhe a uma bolsa de estudos, ainda tenho algum prest\u00edgio e amigos l\u00e1 no Brasil, longe dos pais e de outras press\u00f5es voc\u00ea pode melhor decidir sobre sua vida.<\/p>\n<p>E quanto ao soldado, ela me pergunta. Nada posso fazer nem sugerir, respondo secamente, para, em seguida, trair-me em m\u00e1goas, voc\u00ea sumiu, s\u00f3 agora, no desespero, se lembra de mim, deveria ter tido mais cuidado, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma l\u00e1grima lhe cai dos olhos.<\/p>\n<p>Estes ainda avermelhados, a express\u00e3o, por\u00e9m, diferencia-se em ira, agress\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o tem o direito de me julgar, tamb\u00e9m \u00e9 culpado por isso.<\/p>\n<p>Est\u00e1 mais calma, segura no dia em que lhe entrego a carta de recomenda\u00e7\u00f5es, os nomes e endere\u00e7os das pessoas que contatei, a resposta de um \u00f3rg\u00e3o de financiamento garantindo a bolsa, me sorri agradecida, toma minhas m\u00e3os entre as suas, aperta e acaricia, como antigamente.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea parte, pergunto. Logo, foi a resposta, s\u00f3 preciso acertar as contas com aquele cafajeste. O que pretende fazer? Janto com ele hoje, o resto \u00e9 segredo, um a mais entre os tantos que guardamos.<\/p>\n<p>Apenas um projeto de vingan\u00e7a a diluir-se num jantar de despedida, choroso, humilhante, penso aborrecido ou, quem sabe, se n\u00e3o numa cama, seu corpo febril, as cordas retesadas, a proporcionar ao macho um \u00faltimo e especial\u00edssimo concerto, sinto um aperto no peito, profunda decep\u00e7\u00e3o, dor. Mas s\u00f3 consegui dizer-lhe cuidado, melhor esquecer, n\u00e3o v\u00e1 se complicar agora.<\/p>\n<p>Foi a \u00faltima vez que a vi, nem sei onde est\u00e1, n\u00e3o escreve nem telefona. O soldado tamb\u00e9m sumiu, disso fico sabendo no momento em que dois oficiais do ex\u00e9rcito de ocupa\u00e7\u00e3o me interrogam, seus c\u00e3es farejadores focinham meu cuidado jardim, ou\u00e7o ordens de cavar um dos canteiros.<\/p>\n<p>Esses arrogantes senhores n\u00e3o respeitam sequer t\u00famulos de gatos.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&#8220;Outras Palavras&#8221;, programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na R\u00e1dio Cultura AM.<br \/>\nConto publicado na colet\u00e2nea\u00a0 <em>III Pr\u00eamio Escriba de Contos<\/em> (Piracicaba, Prefeitura Municipal &#8211; Secretaria de A\u00e7\u00e3o Cultural, 2001) e no livro <a href=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/livros\/o-inimigo\/\"><em>O Inimigo<\/em><\/a> de Levi Bucalem Ferrari (S\u00e3o Paulo, Ed. Limiar, 2003).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se eu lhes dissesse que ela \u00e9 uma flor em meu jardim seria uma met\u00e1fora das mais gastas. 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