{"id":5764,"date":"2016-07-25T14:01:04","date_gmt":"2016-07-25T17:01:04","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/?p=5764"},"modified":"2016-07-25T17:47:31","modified_gmt":"2016-07-25T20:47:31","slug":"carlos-marighella-a-chama-que-nao-se-apaga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2016\/07\/25\/carlos-marighella-a-chama-que-nao-se-apaga\/","title":{"rendered":"Carlos Marighella: a chama que n\u00e3o se apaga"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-5777\" src=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/marighella-3-150x150.gif\" alt=\"marighella-3\" width=\"150\" height=\"150\" \/>Carlos Marighella era um sonhador com os p\u00e9s no ch\u00e3o e a cabe\u00e7a no lugar. E ele ainda desafia os seus perseguidores. Texto de Florestan Fernandes A A+ Florestan Fernandes (via PCB.org.br) reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\nLeia, a seguir, artigo de Florestan Fernandes sobre Marighella publicado na Folha de S. Paulo em sua edi\u00e7\u00e3o de 12 de novembro de 1984.<\/p>\n<p>O 4 de novembro de 1969 incorporou-se \u00e0 hist\u00f3ria gra\u00e7as a um feito policial-militar que culminou na morte de Carlos Marighella. Faz portanto, quinze anos que morreu o principal l\u00edder da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN), figura pol\u00edtica que se tornara conhecida como militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), seu dirigente de c\u00fapula e tamb\u00e9m seu deputado no Congresso que elaborou a Constitui\u00e7\u00e3o de 1946. Ele foi perseguido como a ca\u00e7a mais cobi\u00e7ada e condenado \u00e0 morte c\u00edvica, \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva. S\u00f3 em dezembro de 1979, quando seus restos mortais foram trasladados para Salvador, sua cidade natal, Jorge Amado proclamou o fim da interdi\u00e7\u00e3o expiat\u00f3ria: \u201cRetiro da maldi\u00e7\u00e3o e do sil\u00eancio e aqui inscrevo seu nome de baiano: Carlos Marighella\u201d. No ano passado, removemos outra parte da interdi\u00e7\u00e3o, em uma cerim\u00f4nia p\u00fablica de recupera\u00e7\u00e3o c\u00edvica e de homenagem que \u201clavou a alma\u201d de socialistas e comunistas em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Um Homem n\u00e3o desaparece com a sua morte. Ao contr\u00e1rio, pode crescer depois dela, engrandecer-se com ela e revelar sua verdadeira est\u00e1tua \u00e0 dist\u00e2ncia. \u00c9 o que sucede com Marighella. Ele morreu consagrado pela coragem ind\u00f4mita e pelo ardor revolucion\u00e1rio. Os carrascos trabalharam contra si pr\u00f3prios; ao martiriz\u00e1-lo, forjaram o pedestal de uma gl\u00f3ria eterna. Agora, esse homem volta \u00e0 atualidade hist\u00f3rica. Ele n\u00e3o redimiu os oprimidos nem legou um partido novo. Mas atravessou as contradi\u00e7\u00f5es que vergaram um partido que deveria ter enfrentado a ditadura revolucionariamente, acontecesse o que acontecesse. Desmascarou assim a realidade dos partidos prolet\u00e1rios na Am\u00e9rica Latina. Em uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de duas faces (como gosto de descrever), contra-revolu\u00e7\u00e3o e revolu\u00e7\u00e3o ficam t\u00e3o presas uma \u00e0 outra que s\u00e3o os dois lados de uma mesma moeda. \u00c0 superf\u00edcie, parece que a luta de classes opera em m\u00e3o \u00fanica \u2013 no sentido e a favor dos donos do capital e do poder. Todavia, no subterr\u00e2neo (na \u201cinfra-estrutura da sociedade\u201d ou no \u201cmeio social interno\u201d) existem v\u00e1rias fogueiras, e o aparecimento de alternativas hist\u00f3ricas pode depender de \u201cum punhado de homens corajosos\u201d ou de partidos organizados e preparados para a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, entre eles o Brasil, a burguesia \u2013 apesar da depend\u00eancia econ\u00f4mica, cultural e pol\u00edtica \u2013 est\u00e1 encravada nas estruturas de poder nacional e as controla com m\u00e3o de ferro. As ditaduras, \u201ctradicionais\u201d ou \u201cmodernas\u201d, marcam as oscila\u00e7\u00f5es s\u00fabitas, \u00e0s vezes de curta dura\u00e7\u00e3o, da guerra civil latente para a guerra civil aberta. Nenhum partido dos oprimidos pode pretender-se revolucion\u00e1rio, na orienta\u00e7\u00e3o socialista ou comunista, se n\u00e3o estiver preparado para enfrentar tenaz e ferozmente essas oscila\u00e7\u00f5es. A \u201clegalidade\u201d, na acep\u00e7\u00e3o de uma sociedade civil civilizada, \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O grande valor de Carlos Marighella \u2013 como o de outros que enfrentaram corajosa e tenazmente aquelas contradi\u00e7\u00f5es, com a \u201ccrise interna do partido\u201d \u2013 est\u00e1 no fato de ter compreendido objetivamente e exposto sem vacila\u00e7\u00f5es o que a experi\u00eancia lhe ensinava. No diagn\u00f3stico, algumas vezes, ficou preso a uma terminologia equivocada e a concep\u00e7\u00f5es que ele pretendia apurar e superar atrav\u00e9s de uma pr\u00e1tica revolucion\u00e1ria conseq\u00fcente com o marxismo-leninismo e com as exig\u00eancias da situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Por fim, acabou vitimado pela vulnerabilidade central: a inexist\u00eancia do partido que poderia abrir novos rumos na transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da sociedade. Um partido desse tipo n\u00e3o nasce de um dia para o outro. Requer uma longa e dif\u00edcil constru\u00e7\u00e3o. Marighella caiu nos ardis que apontara, tentando derrotar o inimigo onde era imposs\u00edvel fugir ao seu \u201ccerco militar estrat\u00e9gico\u201d. N\u00e3o fora ao fundo da an\u00e1lise da revolu\u00e7\u00e3o cubana, ignorando o quanto uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica revolucion\u00e1ria simplificara os caminhos daquela revolu\u00e7\u00e3o. A \u201cvia militar\u201d revolucion\u00e1ria, no entanto, se mostraria fr\u00e1gil sob o capitalismo dependente mais diferenciado e, por vezes, avan\u00e7ado na Am\u00e9rica do Sul, especialmente depois da vit\u00f3ria do Ex\u00e9rcito Rebelde em Cuba.<\/p>\n<p>As defici\u00eancias e os equ\u00edvocos de Carlos Marighella resultaram de fatores incontrol\u00e1veis e insuper\u00e1veis. Ele foi at\u00e9 onde seu dever exigia, sem meios para tornar a miss\u00e3o necess\u00e1ria realiz\u00e1vel. A revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 um \u201cobjetivo\u201d do partido revolucion\u00e1rio. Ela \u00e9, ao mesmo tempo, sua raz\u00e3o de ser, seu sustent\u00e1culo e seu produto, mas de tal modo que, quando o partido revolucion\u00e1rio surge, ele \u00e9 um coordenador, concentrador e dinamizador das for\u00e7as sociais explosivas existentes. Como assinalou Karl Marx, \u201ca humanidade n\u00e3o se prop\u00f5e nunca sen\u00e3o os problemas que ela pode resolver, pois, aprofundando a an\u00e1lise, ver-se-\u00e1 sempre que o pr\u00f3prio problema s\u00f3 se apresenta quando as condi\u00e7\u00f5es materiais para resolv\u00ea-lo existem ou est\u00e3o em vias de existir\u201d. O que qualifica e distingue as posi\u00e7\u00f5es assumidas por Carlos Marighella \u00e9 o prop\u00f3sito de romper com uma linha adaptativa, que retirava o Partido Comunista do p\u00f3lo prolet\u00e1rio da luta de classes, convertendo-o em \u201ccauda\u201d permanente e em esquerda da burguesia.<\/p>\n<p>O seu marxismo-leninisimo ficou muito mais pr\u00f3ximo da inten\u00e7\u00e3o que da elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e pr\u00e1tica conseq\u00fcente. O que n\u00e3o o impediu de encontrar, atrav\u00e9s da prioridade pol\u00edtica e da acumula\u00e7\u00e3o de uma vasta experi\u00eancia concreta negativa, uma vers\u00e3o objetiva das sinuosidades do comunismo adaptativo e tolerante que o marxismo acad\u00eamico s\u00f3 descobriu tarde demais ou, ent\u00e3o, nunca teve gana de desmascarar. No momento mesmo no qual nos vemos de novo impelidos para os erros do passado, parece indispens\u00e1vel voltar \u00e0s suas cr\u00edticas e \u00e0s raz\u00f5es de suas rupturas (ainda que seja impens\u00e1vel reabsorver o conjunto de solu\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e pr\u00e1ticas que inspirou e difundiu). Em tr\u00eas pontos, pelo menos, \u00e9 indispens\u00e1vel tom\u00e1-lo como refer\u00eancia de uma purifica\u00e7\u00e3o marxista dos nossos partidos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>O primeiro ponto tem a ver com os v\u00ednculos diretos da teoria com os fatos concretos e com a realidade, pela experi\u00eancia cr\u00edtica e pela a\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. Essa orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 b\u00e1sica para a elabora\u00e7\u00e3o de um comunismo made in Am\u00e9rica Latina, constru\u00eddo por n\u00f3s, embora com ra\u00edzes marxistas e leninistas. Ele situa em plano secund\u00e1rio o intelectual \u201cte\u00f3rico\u201d, euroc\u00eantrico, e repele as \u201csolu\u00e7\u00f5es importadas\u201d, que impunham os modelos invari\u00e1veis de algum monolitismo sovi\u00e9tico, chin\u00eas, etc.<\/p>\n<p>O segundo ponto \u00e9 o mais decisivo, pois p\u00f5e em quest\u00e3o qual \u00e9 o partido revolucion\u00e1rio que deve surgir das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas dos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina (e do Brasil, em particular). Uma sociedade civil que repele a civiliza\u00e7\u00e3o para todos e um Estado que concentra a viol\u00eancia no tope para aplic\u00e1-la de forma ultra-opressiva e ultra-ego\u00edsta envolvem uma barb\u00e1rie exasperada espec\u00edfica. Tal partido dever\u00e1 ser, sempre, uma esp\u00e9cie de iceberg, por mais confi\u00e1vel e dur\u00e1vel que pare\u00e7a sua \u201clegalidade\u201d. Isso lhe permitir\u00e1 interagir dialeticamente nos dois n\u00edveis da trasforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da sociedade \u2013 o burgu\u00eas, por dentro da ordem, e o prolet\u00e1rio e campon\u00eas, contra a ordem.<\/p>\n<p>O terceiro ponto refere-se \u00e0 alian\u00e7a com a burguesia, que nunca deveria ter alcan\u00e7ado a densidade e a perman\u00eancia que atingiu. Um partido comunista d\u00f3cil \u00e0 burguesia nunca ser\u00e1 prolet\u00e1rio nem revolucion\u00e1rio e ter\u00e1, como sina inexor\u00e1vel, que perverter a alian\u00e7a pol\u00edtica. \u201cO segredo da vit\u00f3ria \u00e9 o povo\u201d. O eixo de gravita\u00e7\u00e3o das alian\u00e7as est\u00e1, portanto, na solidariedade entre os oprimidos; em suas lutas antiimperialistas, nacionalistas e democr\u00e1ticas, tanto quanto nas suas tentativas de domar a supremacia burguesa, conquistar o poder ou implantar o socialismo.<\/p>\n<p>Em suma, Carlos Marighella era um sonhador com os p\u00e9s no ch\u00e3o e a cabe\u00e7a no lugar. Ele ainda desafia os seus perseguidores e merece dos companheiros de rota (e do antigo partido) que levem seriamente em conta sua tentativa de equacionamento te\u00f3rico e pr\u00e1tico do enigma do movimento comun<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-5779\" src=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/Florestan-Fernandes-150x150.jpg\" alt=\"Florestan-Fernandes\" width=\"150\" height=\"150\" \/>ista no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Marighella \u00e9 tido como o mais importante opositor a ditadura militar no Brasil feita atrav\u00e9s da luta armada. Neste artigo de Florestan Fernandes, tido como o maior soci\u00f3logo brasileiro de todos os tempos, destaca-se a biografia de Mariguella, suas id\u00e9ias e pol\u00eamicas com o PCB, bem como sua a\u00e7\u00e3o como dirigente da ALN, a maior das organiza\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia armada \u00e0<br \/>\n ditadura.   <a href=\"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2016\/07\/25\/carlos-marighella-a-chama-que-nao-se-apaga\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5776,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[182,7337,7332,448,7333,7335,502,7334,7242,7336],"class_list":["post-5764","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-america-latina","tag-burguesia-nacional","tag-carlos-marighella","tag-cuba","tag-dissidencia","tag-ditadura-militar-ideias","tag-florestan-fernandes","tag-luta-armada","tag-pcb","tag-polemicas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5764","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5764"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5764\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5780,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5764\/revisions\/5780"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5776"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5764"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5764"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5764"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}