{"id":5636,"date":"2013-10-10T16:23:55","date_gmt":"2013-10-10T19:23:55","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/?p=5636"},"modified":"2013-10-10T16:29:20","modified_gmt":"2013-10-10T19:29:20","slug":"nobel-de-literatura-livro-sobre-desaparecida-politica-revela-ao-mundo-brasil-desconhecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2013\/10\/10\/nobel-de-literatura-livro-sobre-desaparecida-politica-revela-ao-mundo-brasil-desconhecido\/","title":{"rendered":"Nobel de Literatura: Livro sobre desaparecida pol\u00edtica revela ao mundo Brasil &#8216;desconhecido&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>M\u00f4nica Vasconcelos<br \/>\nDa BBC Brasil em Londres<br \/>\nAtualizado em 7 de junho, 2013 &#8211; 09:23 (Bras\u00edlia) 12:23 GMT<\/p>\n<p>Detalhe da ilustra\u00e7\u00e3o da capa do livro K<br \/>\nUm livro que narra a busca de um pai por sua filha desaparecida pol\u00edtica durante a ditadura militar no Brasil est\u00e1 surpreendendo editores estrangeiros ao revelar um cap\u00edtulo pouco conhecido da Hist\u00f3ria brasileira \u2013 ao menos no exterior.<br \/>\nPublicado no Brasil em 2011, o livro K, do escritor e cientista pol\u00edtico paulistano Bernardo Kucinski, j\u00e1 ganhou tradu\u00e7\u00f5es em ingl\u00eas, espanhol e catal\u00e3o, e ser\u00e1 publicado tamb\u00e9m em alem\u00e3o e hebraico.<br \/>\nObra de fic\u00e7\u00e3o, o livro \u00e9 baseado nas hist\u00f3rias reais do pai do autor, Majer Kucinski \u2013 o personagem K -, um judeu polon\u00eas que fugiu do nazismo e foi viver no Brasil, e da irm\u00e3 do escritor, Ana Rosa Kucinski Silva.<br \/>\nMilitante pol\u00edtica e professora de qu\u00edmica da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), Ana Rosa foi sequestrada e morta por agentes a servi\u00e7o do governo militar. Seu corpo jamais foi encontrado.<br \/>\nO ex-delegado do Dops Cl\u00e1udio Guerra confirmou, em entrevista ao jornalista Alberto Dines, exibida em 2012 pelo programa de TV Observat\u00f3rio da Imprensa, que recebeu o corpo de Ana Rosa, que teria sido morta em sess\u00e3o de tortura, para ser incinerado.<br \/>\nEm entrevistas \u00e0 BBC Brasil, intelectuais e pessoas envolvidas na publica\u00e7\u00e3o de K no exterior disseram que o livro chama a aten\u00e7\u00e3o ao revelar para o mundo, em um relato comovente e envolvente, o drama humano por tr\u00e1s da realidade violenta da ditadura militar no Brasil.<br \/>\nEm um momento em que a Comiss\u00e3o da Verdade se esfor\u00e7a para recuperar a hist\u00f3ria desse per\u00edodo, o lan\u00e7amento internacional tamb\u00e9m contribuiria para aumentar a press\u00e3o externa sobre o governo brasileiro para que tome provid\u00eancias e puna os culpados, disseram.<br \/>\nBem x Mal<br \/>\nA vers\u00e3o alem\u00e3 de K ser\u00e1 lan\u00e7ada pela editora berlinense Transit durante a Feira do Livro de Frankfurt, que neste ano estar\u00e1 homenageando o Brasil.<br \/>\nSegundo o editor, Reiner Nitsche, o foco em temas brasileiros fez com que ele recebesse muitas ofertas de obras do pa\u00eds para publica\u00e7\u00e3o. Mas nenhuma chamou tanto sua aten\u00e7\u00e3o como K.<br \/>\n&#8220;Nunca associamos hist\u00f3rias de sequestros e desaparecimentos ao Brasil. Pens\u00e1vamos que essas coisas s\u00f3 tinham acontecido na Argentina e no Chile&#8221;.<br \/>\n&#8220;Outro ponto importante \u00e9 a conex\u00e3o com a hist\u00f3ria alem\u00e3. K nasceu na Pol\u00f4nia na d\u00e9cada de 30 e era ativo politicamente, combatendo o antissemitismo. Por isso, foi preso e mais tarde teve de fugir para o Brasil. Anos depois, sua irm\u00e3 foi morta pelos nazistas.&#8221;<br \/>\nPara Nitsche, no entanto, a principal justificativa para a decis\u00e3o de publicar a obra na Alemanha \u00e9 a forma como o livro aborda a tem\u00e1tica pol\u00edtica.<br \/>\nEm K, a comovente busca do personagem central por sua filha \u00e9 narrada de v\u00e1rios pontos de vista. O leitor habita a mente do pai desesperado, do informante, da amante do torturador, da faxineira que limpa a casa onde os prisioneiros s\u00e3o torturados e mortos, dos ex-colegas da desaparecida na universidade e dos militantes clandestinos que lutam contra a ditadura, entre outros.<br \/>\n&#8220;O tipo de verdade que voc\u00ea tem nessa hist\u00f3ria pol\u00edtica \u00e9 muito raro de encontrar&#8221;.<br \/>\n&#8220;Isso \u00e9 muito novo e interessante para n\u00f3s, porque voc\u00ea percebe que a ditadura \u00e9 cruel mas os militantes tamb\u00e9m podem ser cru\u00e9is, seus m\u00e9todos s\u00e3o similares&#8221;.<br \/>\nNitsche faz refer\u00eancia a um cap\u00edtulo em que um militante pol\u00edtico critica seu pr\u00f3prio l\u00edder por n\u00e3o ter permitido que os integrantes do grupo questionassem suas a\u00e7\u00f5es.<br \/>\n&#8220;O que os militantes estavam fazendo era suicida e alguns perceberam isso, mas n\u00e3o tiveram permiss\u00e3o de questionar ou de abandonar a luta&#8221;, disse.<br \/>\n&#8220;Se voc\u00ea quiser mudar a cabe\u00e7a das pessoas, tem de publicar livros como esse, n\u00e3o hist\u00f3rias de bonzinhos e malvados&#8221;, acrescentou o editor. &#8220;O livro mostra a crueldade terr\u00edvel da ditadura militar. Mas no decorrer da hist\u00f3ria, K se d\u00e1 conta de quantas pessoas est\u00e3o colaborando com a ditadura. O padeiro, a imprensa, a comunidade judaica em S\u00e3o Paulo&#8221;.<br \/>\nNitsche disse que j\u00e1 recebeu coment\u00e1rios positivos da imprensa alem\u00e3 sobre K e espera que o livro cause algum impacto no per\u00edodo do lan\u00e7amento, no final de agosto.<br \/>\nInstrumento Pol\u00edtico<br \/>\nA vis\u00e3o cheia de nuances que o livro de Kucinski oferece tamb\u00e9m mereceu elogios de uma especialista em Justi\u00e7a de Transi\u00e7\u00e3o da Oxford University, a professora Leigh Payne.<br \/>\nComentando o lan\u00e7amento, em mar\u00e7o \u00faltimo, da tradu\u00e7\u00e3o inglesa na Gr\u00e3-Bretanha, a especialista disse ter gostado muito da conex\u00e3o entre a vida do pai, seu passado de luta contra a opress\u00e3o, e a vida secreta da filha.<br \/>\n&#8220;Ele n\u00e3o sabia que a filha estava levando adiante a luta dele&#8221;.<br \/>\n&#8220;K \u00e9 muito bom ao tentar mostrar que as v\u00edtimas da viol\u00eancia n\u00e3o eram necessariamente inocentes, mas tamb\u00e9m n\u00e3o eram uma amea\u00e7a&#8221;.<br \/>\nPara Payne, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que os militantes brasileiros n\u00e3o iam conseguir derrubar o regime. &#8220;Ainda assim, lutavam por igualdade e democracia e tinham uma vis\u00e3o patri\u00f3tica do que o Brasil deveria ser&#8221;.<br \/>\nSegundo a especialista, um resultado positivo do lan\u00e7amento internacional do livro \u00e9 que ele pode funcionar como um instrumento de press\u00e3o por mudan\u00e7as.<br \/>\n&#8220;A viol\u00eancia durante o governo militar no Brasil recebeu muito menos aten\u00e7\u00e3o internacional do que a ocorrida na Argentina ou no Chile e essa falta de interesse persiste hoje&#8221;.<br \/>\nA publica\u00e7\u00e3o de K fora do Brasil &#8220;\u00e9 importante porque aumenta a consci\u00eancia, no exterior, das viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos ocorridas no Brasil durante a ditadura militar e faz crescer a press\u00e3o sobre o governo brasileiro para que fa\u00e7a algo a respeito&#8221;.<br \/>\nPayne lembrou que o governo brasileiro ainda n\u00e3o acatou a senten\u00e7a, pela Corte Interamericana dos Direitos Humanos, em 2010, exigindo que o Brasil investigue e puna os respons\u00e1veis pelas mortes de militantes no Araguaia.<br \/>\nDois Desaparecimentos<br \/>\nA vers\u00e3o de K em hebraico deve chegar \u00e0s lojas israelenses no in\u00edcio do pr\u00f3ximo ano pela editora Carmel.<br \/>\nO contato com a editora foi intermediado pelo historiador israelense Avraham Milgram, que vive em Israel e conheceu o pai de Bernardo Kucinski.<br \/>\n&#8220;Uma das raz\u00f5es do sucesso desse livro \u00e9 que pessoas de diversas culturas, pa\u00edses e regimes se identificam com o drama desse pai, \u00e9 um tema universal&#8221;.<br \/>\nMas K tem para os judeus uma dimens\u00e3o que talvez escape ao p\u00fablico europeu e brasileiro, explicou.<br \/>\nO pai da desaparecida, Majer Kucinski, escritor e poeta com livros publicados no Brasil e em Israel, era um t\u00edpico judeu da Europa Oriental, onde floresceu a cultura i\u00eddiche. A maioria dos judeus mortos pelos nazistas pertencia a essa cultura.<br \/>\n&#8220;Em sua devo\u00e7\u00e3o a essa cultura perdida, que existiu durante 800 anos na Pol\u00f4nia e foi erradicada, Majer se alienou dos filhos&#8221;, disse o historiador. &#8220;Isso talvez tenha facilitado a escolha de Ana Rosa pelo caminho que seguiu&#8221;.<br \/>\nFilme<br \/>\nCientistas pol\u00edticos no Brasil se perguntam as raz\u00f5es do desinteresse dos brasileiros em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria da ditadura militar no pa\u00eds.<br \/>\n&#8220;K quase que chegou cedo demais&#8221;, disse Leigh Payne. Depois de anos estudando as pol\u00edticas dos direitos humanos no Brasil e Am\u00e9rica Latina, ela acha que, para comover o p\u00fablico brasileiro, um livro como esse tem de vir junto com outras coisas:<br \/>\nUm trabalho s\u00e9rio e aprofundado da Comiss\u00e3o da Verdade, o resgate da imagem &#8220;negativa&#8221; das v\u00edtimas, mudan\u00e7as no conceito de direitos humanos na sociedade brasileira e, quem sabe, algum sucesso nas tentativas de julgar os respons\u00e1veis pelos crimes.<br \/>\nDepois disso, &#8220;talvez, se algu\u00e9m fizer um filme sobre o livro, com atores famosos nos pap\u00e9is principais, os brasileiros ir\u00e3o ao cinema assisti-lo &#8211; e a\u00ed v\u00e3o se comover e gostar muito&#8221;, concluiu a professora da Oxford University.<br \/>\nBernardo Kucinski trabalhou na BBC Brasil (antigo Servi\u00e7o Brasileiro da BBC) entre 1970 e 1974, per\u00edodo em que viveu em Londres.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00f4nica Vasconcelos Da BBC Brasil em Londres Atualizado em 7 de junho, 2013 &#8211; 09:23 (Bras\u00edlia) 12:23 GMT Detalhe da ilustra\u00e7\u00e3o da capa do livro K Um livro que narra a busca de um pai por sua filha desaparecida pol\u00edtica &hellip; <a href=\"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2013\/10\/10\/nobel-de-literatura-livro-sobre-desaparecida-politica-revela-ao-mundo-brasil-desconhecido\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[149,38],"tags":[7232,7233,7236,7237,7235,86,7234,7231,1785],"class_list":["post-5636","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-aconteceu","category-estante","tag-ana-rosa-kucinski-silva","tag-bernardo-kucinski","tag-claudio-guerra","tag-comissao-da-verdade","tag-direitos-jumanos","tag-ditadura-militar","tag-guerrilha","tag-nobel-de-literarua","tag-nobel-de-literatura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5636","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5636"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5636\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5640,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5636\/revisions\/5640"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5636"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5636"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5636"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}