{"id":5596,"date":"2012-09-21T17:37:09","date_gmt":"2012-09-21T20:37:09","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/?p=5596"},"modified":"2013-09-19T20:26:51","modified_gmt":"2013-09-19T23:26:51","slug":"de-rousseau-a-gramsci","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2012\/09\/21\/de-rousseau-a-gramsci\/","title":{"rendered":"De Rousseau a Gramsci"},"content":{"rendered":"<p>Antonio Carlos Mazzeo<\/p>\n<p>De Rousseau a Gramsci &#8211; Carlos Nelson Coutinho<br \/>\n(Boitempo, 2011)<\/p>\n<p>Ap\u00f3s anos sem publicar livros de sua autoria, Carlos Nelson Coutinho, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de obras fundamentais sobre teoria pol\u00edtica, estreia na Boitempo Editorial com a colet\u00e2nea De Rousseau a Gramsci: ensaios de teoria pol\u00edtica. Um dos mais reconhecidos estudiosos marxistas do Brasil, Coutinho consagrou-se por traduzir e difundir o pensamento de Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e Antonio Gramsci no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nesta nova empreitada intelectual, o autor aponta as potencialidades transformadoras e os dilemas de fen\u00f4menos pol\u00edticos, como a democracia, pelo pensamento de Rousseau, Hegel, Marx e Gramsci, al\u00e9m de aprofundar o compromisso entre reflex\u00e3o e a\u00e7\u00e3o que caracteriza as suas obras. Para ele \u00e9 preciso confrontar e superar a ideia de democracia como um simples jogo competitivo pelo poder pol\u00edtico. \u201cO maior elogio que eu poderia fazer a este livro \u00e9 que ele nos obriga a refletir sobre a baixa intensidade do atual regime democr\u00e1tico brasileiro e nos convoca para uma tarefa a um s\u00f3 tempo te\u00f3rica e pol\u00edtica: indagar os limites da ordem presente\u201d, afirma Ruy Braga, professor de Sociologia da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Diante do atual cen\u00e1rio brasileiro, o autor recupera uma importante reflex\u00e3o de Gramsci sobre duas pr\u00e1ticas pol\u00edticas, acrescentando ainda um paralelo: enquanto a teoria pol\u00edtica se ocupa da \u201cgrande pol\u00edtica\u201d, ou seja, da luta pela destrui\u00e7\u00e3o, pela defesa ou pela conserva\u00e7\u00e3o de determinadas estruturas org\u00e2nicas econ\u00f4mico-sociais; a \u201cci\u00eancia pol\u00edtica\u201d tem como objeto quest\u00f5es da \u201cpequena pol\u00edtica\u201d, que compreende as quest\u00f5es parciais e cotidianas que se apresentam no interior de uma estrutura j\u00e1 estabelecida em decorr\u00eancia de lutas pela predomin\u00e2ncia entre as diversas fra\u00e7\u00f5es de uma mesma classe pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O livro apresenta uma defesa consistente da teoria pol\u00edtica, considerada uma disciplina filos\u00f3fica, contra a chamada \u201cci\u00eancia pol\u00edtica\u201d, que compartimenta o saber. \u201cA teoria pol\u00edtica n\u00e3o hesita em ligar a esfera da pol\u00edtica \u00e0 totalidade social e considera parte inelimin\u00e1vel do seu dom\u00ednio te\u00f3rico tamb\u00e9m os temas hoje considerados \u2018sociol\u00f3gicos\u2019, \u2018econ\u00f4micos\u2019, \u2018antropol\u00f3gicos\u2019 e \u2018hist\u00f3ricos\u2019\u201d, afirma o autor. \u201cA teoria pol\u00edtica tamb\u00e9m n\u00e3o tem a pretens\u00e3o durkheimiana de tratar os fen\u00f4menos pol\u00edticos como \u2018coisas\u2019 semelhantes aos objetos naturais; ao contr\u00e1rio, pretende compreend\u00ea-los como processos din\u00e2micos determinados pela pr\u00e1xis, situados no devir hist\u00f3rico e que, por isso, t\u00eam sua g\u00eanese no passado e apontam para o futuro\u201d.<\/p>\n<p>Relacionando a teoria pol\u00edtica com a \u00e9tica, com ju\u00edzos de valor e com a ideologia, no sentido gramsciano de \u201cest\u00edmulo para uma a\u00e7\u00e3o efetiva no mundo real\u201d, Coutinho segue fiel \u00e0 s\u00edntese de Marx de que n\u00e3o basta entender o mundo, trata-se tamb\u00e9m de transform\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Trechos do livro<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil constatar que os autores tratados neste livro (Rousseau, Hegel, Marx, Gramsci) s\u00e3o te\u00f3ricos da pol\u00edtica e n\u00e3o cientistas pol\u00edticos. Nesse sentido, eles fazem parte de uma tradi\u00e7\u00e3o que come\u00e7a em Plat\u00e3o e chega at\u00e9 Hannah Arendt e John Rawls, passando por Maquiavel, Hobbes, Locke, Montesquieu e tantos outros. Nenhum desses autores se sentiria \u00e0 vontade se tivesse de responder, num curr\u00edculo solicitado hoje por uma ag\u00eancia financiadora, a que campo das chamadas \u2018ci\u00eancias sociais\u2019 pertenceriam. Plat\u00e3o era fil\u00f3sofo ou cientista pol\u00edtico? Montesquieu era soci\u00f3logo ou historiador? Rousseau era pedagogo ou linguista? Marx era economista ou cr\u00edtico liter\u00e1rio? A simples formula\u00e7\u00e3o de tais quest\u00f5es revela quanto a atual divis\u00e3o departamental do saber acad\u00eamico \u00e9 incapaz de dar conta da atividade dos grandes pensadores e, portanto, tamb\u00e9m dos grandes te\u00f3ricos da pol\u00edtica.\u201d<\/p>\n<p>\u201cCom efeito, ao mostrar que filosofia \u00e9 tamb\u00e9m uma ideologia, Gramsci define esta \u00faltima como \u2018unidade de f\u00e9 entre uma concep\u00e7\u00e3o do mundo e uma norma de conduta adequada a ela [&#8230;]. \u00c9 por isso, portanto, que n\u00e3o se pode separar a filosofia da pol\u00edtica; ao contr\u00e1rio, pode-se demonstrar que a escolha e a cr\u00edtica de uma concep\u00e7\u00e3o do mundo s\u00e3o, tamb\u00e9m elas, fatos pol\u00edticos\u2019 (Cadernos do c\u00e1rcere, v. 1). No mesmo sentido, Luk\u00e1cs define a ideologia como algo que transcende o n\u00edvel epistemol\u00f3gico e se liga diretamente \u00e0 a\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antonio Carlos Mazzeo De Rousseau a Gramsci &#8211; Carlos Nelson Coutinho (Boitempo, 2011) Ap\u00f3s anos sem publicar livros de sua autoria, Carlos Nelson Coutinho, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de obras fundamentais sobre teoria &hellip; <a href=\"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2012\/09\/21\/de-rousseau-a-gramsci\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[641,7222,7221,390,7219,7220,7218],"class_list":["post-5596","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","tag-filosofia","tag-gramsci","tag-lukacs","tag-marx","tag-mazzeo","tag-rousseau","tag-teoria-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5596","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5596"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5596\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5624,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5596\/revisions\/5624"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5596"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5596"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5596"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}