{"id":4531,"date":"2009-11-09T19:05:46","date_gmt":"2009-11-09T22:05:46","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/?p=4531"},"modified":"2009-11-09T19:20:37","modified_gmt":"2009-11-09T22:20:37","slug":"tendencias-da-literatura-brasileira-contemporanea-de-ficcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2009\/11\/09\/tendencias-da-literatura-brasileira-contemporanea-de-ficcao\/","title":{"rendered":"Tend\u00eancias da literatura brasileira contempor\u00e2nea de fic\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Levi Bucalem Ferrari <\/p>\n<p>Em primeiro lugar agrade\u00e7o ao Minist\u00e9rio de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil e ao Consulado-Geral do Brasil em Frankfurt, exemplarmente dirigido pelo Embaixador Cezar Amaral. Agrade\u00e7o tamb\u00e9m ao Prof. Dr. Moniz Bandeira, um dos incentivadores deste evento. Ao Centro Cultural Brasileiro em Frankfurt, nesta mesa representada por Carlos Frederico Graf Schaffgotsche. Agrade\u00e7o principalmente a todos os presentes pela gentileza de estarem aqui e pela confian\u00e7a em n\u00f3s depositada.<\/p>\n<p>Confesso minhas limita\u00e7\u00f5es: n\u00e3o sou cr\u00edtico nem historiador de literatura; sou apenas escritor e estou presidente da UBE \u2013 Uni\u00e3o Brasileira de Escritores. Nesta \u00faltima qualidade procurando divulgar a literatura de meu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Na prepara\u00e7\u00e3o desta palestra percebi tamb\u00e9m certa limita\u00e7\u00e3o ao tema: poucos cr\u00edticos e historiadores de literatura falam ou escrevem sobre tend\u00eancias contempor\u00e2neas. Preferem debru\u00e7ar-se sobre o passado ou sobre determinados autores. Isto se explica pelas seguintes raz\u00f5es: <\/p>\n<p>a) \u00e9 dif\u00edcil julgar com isen\u00e7\u00e3o quando o assunto \u00e9 o presente e se est\u00e1 imerso no processo. No Brasil, embora se leia pouco, publicam-se muitos livros; e os autores mais novos podem confirmar-se ou decepcionar;<\/p>\n<p>b) as tend\u00eancias ainda n\u00e3o est\u00e3o claramente configuradas; n\u00e3o h\u00e1 escolas ou movimentos liter\u00e1rios que se tenham firmado como predominantes, que tenham proposto inova\u00e7\u00f5es tem\u00e1ticas ou de linguagem e mantenham n\u00famero e qualidade significativas de seguidores; <\/p>\n<p>c) a grande m\u00eddia contribui para confundir incensando escritores e livros de sucesso moment\u00e2neo, mas que n\u00e3o se sabe quanto tempo v\u00e3o permanecer; nem sempre oferecem grande contribui\u00e7\u00e3o ao fazer liter\u00e1rio. <\/p>\n<p>Dada a escassa bibliografia, optei por complement\u00e1-la com um levantamento tem\u00e1tico obtido atrav\u00e9s da leitura de livros, e das cr\u00edticas e resenhas publicadas em jornais e revistas nos \u00faltimos anos; e na pr\u00f3pria mem\u00f3ria. Esclare\u00e7o que, al\u00e9m de presidente da UBE, sou apresentador de um programa de r\u00e1dio, <em>Outras Palavras<\/em>, na R\u00e1dio Cultura Brasil de S\u00e3o Paulo. Tamb\u00e9m escrevo resenhas e cr\u00edticas para a Revista <em>O Escritor<\/em>, da UBE, e para meu blog http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi.   <\/p>\n<p>Temos que come\u00e7ar de algum momento. O corte que proponho se inicia no final dos anos 70 e vem at\u00e9 os dias de hoje. Aviso desde j\u00e1 que os livros e autores que vierem a ser citados n\u00e3o est\u00e3o sendo julgados ou recomendados. Nem posso garantir-lhes que sejam os melhores ou mais representativos. E muito menos que sejam os \u00fanicos. Apenas s\u00e3o citados porque podem representar tend\u00eancias de relativa import\u00e2ncia dentro do que se faz hoje em nossa literatura de fic\u00e7\u00e3o. Outros poderiam aqui estar num levantamento mais abrangente.<\/p>\n<p>Nos anos 70, no auge da ditadura no Brasil, considerando-se a censura e a alta polariza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica (ou se era contra ou se era a favor), a literatura permaneceu na den\u00fancia do regime ou na descri\u00e7\u00e3o do clima, restritivo, pesado, n\u00e3o raro absurdo em que viv\u00edamos. Numa boa parte dos casos, o regime \u00e9, no m\u00ednimo, pano de fundo para as tramas que se desenvolvem. Como exemplos, podemos citar Renato Tapaj\u00f3s \u2013 <em>Em c\u00e2mara lenta<\/em>, sobre a morte da guerrilheira Aurora do Nascimento Furtado, sob tortura; Lygia Fagundes Telles \u2013 <em>As meninas<\/em>; Wander Pirolli \u2013 <em>Contos Selecionados<\/em>; Antonio Callado \u2013 <em>Quarup<\/em> e outros; e, em v\u00e1rios livros, Marcos Rey, Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o, M\u00e1rcio de Souza e Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro; Jo\u00e3o Ant\u00f4nio; e muitos outros. <\/p>\n<p>Num segundo momento, mais para o final dos anos 70 e in\u00edcio dos 80 (ainda sob a ditadura) alguns escritores, mesmo quando condenando ainda o regime militar, come\u00e7am a denunciar a excessiva polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e um certo \u201cpatrulhamento ideol\u00f3gico\u201d \u2013 esta era a express\u00e3o usada por alguns dos ent\u00e3o novos autores. Aqui podemos colocar Fernando Gabeira \u2013 <em>O que \u00e9 isso companheiro?<\/em>, um romance de transi\u00e7\u00e3o porque tanto denuncia a tortura quanto o grau de \u201cpatrulhamento\u201d vigente; Marcelo Rubens Paiva \u2013 <em>Feliz Ano Velho<\/em>; e Caio Fernando Abreu \u2013 <em>Morangos Mofados<\/em>. Nestes \u00faltimos predominam as quest\u00f5es interpessoais, mas o pano de fundo da ditadura se faz presente. No extremo desta tend\u00eancia colocar\u00edamos Reinaldo Moraes com Tanto Faz, denunciador do \u201cpatrulhamento\u201d, num romance autobiogr\u00e1fico cuja principal caracter\u00edstica \u00e9 uma autoexposi\u00e7\u00e3o t\u00e3o excessiva que posso considerar a obra como precursora de muitos programas de televis\u00e3o e internet que s\u00f3 fazem isso. <\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos da ditadura, ocorre um fen\u00f4meno digno de nota: os leitores mais cr\u00edticos cobram da literatura aquilo que os meios de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 ainda sob censura ou autocensura \u2013 n\u00e3o mostram: tudo sobre pris\u00f5es, torturas, mortes e desaparecimentos de opositores do regime. Os livros t\u00eam que contar a \u201cverdade\u201d uma vez que, supostamente, s\u00e3o menos censurados; e os escritores mais comprometidos com a luta democr\u00e1tica. Ao contr\u00e1rio da tend\u00eancia anterior, h\u00e1 uma cobran\u00e7a sen\u00e3o pelo engajamento, pelo menos, pela den\u00fancia dos crimes da ditadura. Com alus\u00f5es diretas ou indiretas, temos como exemplos: Frei Betto com <em>Batismo de Sangue<\/em>, <em>Di\u00e1rio de Fernando<\/em> e <em>Cartas da pris\u00e3o<\/em>; Ign\u00e1cio Loyola Brand\u00e3o com <em>Zero<\/em> e <em>Bebel que a cidade comeu<\/em>, entre outros; Pl\u00ednio Marcos com <em>O assassinato do an\u00e3o do caralho grande<\/em>; Rubem Fonseca com <em>O cobrador<\/em>; Nildo Oliveira, com <em>Olho por olho<\/em>; Menalton Braff, com v\u00e1rios trabalhos; e meus livros <em>O inimigo \u2013 contos<\/em>; e <em>O sequestro do senhor empres\u00e1rio<\/em>.  <\/p>\n<p>Estas tr\u00eas tend\u00eancias permanecem at\u00e9 os dias de hoje. Mesmo em romances e contos pouco ou nada politizados, a ditadura e seus agentes aparecem como cen\u00e1rio ou personagens secund\u00e1rias e dignas de curiosidade. Em alguns livros deste tipo, os \u201cresistentes\u201d s\u00e3o glorificados como idealistas e corajosos, <em>a la Che Guevara<\/em> enquanto os militares s\u00e3o sempre desalmados. Ocorre aqui muita fic\u00e7\u00e3o t\u00e3o descontextualizada \u2013 eu diria mesmo oportunista \u2013 que descaracteriza o per\u00edodo e nem \u00e9 digna de nota.<\/p>\n<p>Um quarto momento pode ser observado com o fim da guerra fria. Num certo sentido h\u00e1 uma retomada da segunda tend\u00eancia, mas com novos componentes. Agora j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 que enfatizar a possibilidade de mudan\u00e7a social e outros projetos coletivos nacionais ou ideol\u00f3gicos. E, nem tampouco denunciar o seu excesso. Subsiste, todavia, certa preocupa\u00e7\u00e3o com a identidade cultural do pa\u00eds; a den\u00fancia das desigualdades social e regional; a viol\u00eancia, a mis\u00e9ria, a corrup\u00e7\u00e3o etc&#8230; Como exemplos elencaria Silviano Santiago \u2013 Heran\u00e7as; Joel Rufino dos Santos \u2013 <em>O barbeiro e o judeu da presta\u00e7\u00e3o contra o sargento da motocicleta<\/em>; Autran Dourado \u2013 <em>Novelas do Aprendizado<\/em>; bem como o j\u00e1 citado Wander Pirolli; e muitos outros.    <\/p>\n<p>Esta tem\u00e1tica convive com fen\u00f4menos que, apesar de j\u00e1 existentes, emergem agora com mais for\u00e7a no debate social e intelectual, como a exclus\u00e3o social, a condi\u00e7\u00e3o feminina, os preconceitos racial e social, o homossexualismo, enfim as diversidades sociais, culturais e comportamentais. Isto aponta para uma diversidade tem\u00e1tica ampla e dilu\u00edda naquilo que podemos chamar genericamente de condi\u00e7\u00e3o humana. Esta inclui a quest\u00e3o social, mas nela n\u00e3o se esgota. Assim, somam-se aos anteriores temas como amor, desejo, erotismo, paix\u00e3o, morte, suic\u00eddio, problemas existenciais e outros. Esta diversidade tem\u00e1tica \u00e9 a caracter\u00edstica predominante hoje na fic\u00e7\u00e3o brasileira e inclui autores como Luiz Ruffato \u2013 <em>Mamma son tanto felice<\/em>; Antonio Torres \u2013 <em>Pelo fundo da agulha<\/em>; Luiz Vilela \u2013 <em>B\u00f3ris e D\u00f3ris<\/em>; Jeanette Rozsas \u2013 <em>Qual \u00e9 mesmo o caminho de Swan? <\/em> Anna Maria Martins \u2013 <em>A trilogia do emparedado e outros contos<\/em>; Heloisa Nunes \u2013 <em>Amor e desejo<\/em>; Adriana Lisboa \u2013 <em>Sinfonia em branco<\/em>; Carlos Nejar \u2013 <em>Carta aos loucos<\/em>; Luis Andr\u00e9 Nepomuceno \u2013 <em>A lanterna m\u00e1gica de Jeremias<\/em>; Lygia Fagundes Telles, com v\u00e1rios livros; e nossa colega de mesa, Betty Vidigal com seu <em>Tri\u00e2ngulo<\/em>. E muitos outros autores.     <\/p>\n<p>Outro fen\u00f4meno relativamente recente no que diz respeito \u00e0 tem\u00e1tica da fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria no Brasil \u00e9 a \u201cdescoberta\u201d da periferia, das favelas, corti\u00e7os e bairros pobres das grandes cidades. Seus habitantes convivem com a marginalidade, a viol\u00eancia, a promiscuidade, a doen\u00e7a, o descaso em graus bastante altos, inimagin\u00e1veis muitas vezes. Literariamente n\u00e3o \u00e9 fen\u00f4meno absolutamente novo. Seus precursores podem ser encontrados em Alo\u00edsio Azevedo \u2013 <em>O Corti\u00e7o<\/em>; em Jorge Amado \u2013 <em>Capit\u00e3es de Areia<\/em>, <em>Jubiab\u00e1<\/em> e tantos outros romances; em Clarice Lispector \u2013 <em>A hora da estrela<\/em>. Mesmo em Graciliano Ramos \u2013 <em>Ang\u00fastia<\/em>, a quest\u00e3o \u00e9 pelo menos delineada. E vai reaparecer fortemente em Wander Pirolli, Marcos Rey, Jo\u00e3o Ant\u00f4nio, e Pl\u00ednio Marcos, entre muitos outros.<br \/>\nH\u00e1 quem enfatize a viol\u00eancia, como Paulo Lins \u2013 <em>Cidade de Deus<\/em> e Luis Eduardo Soares \u2013 <em>Elite da tropa<\/em>, enquanto outros frisam as condi\u00e7\u00f5es de vida do trabalhador de baixa renda e as migra\u00e7\u00f5es internas como Roniwalter Jatob\u00e1 em <em>Tisiu<\/em> e outros de seus livros. <\/p>\n<p>Dentro desta tend\u00eancia h\u00e1 que se destacar o fil\u00e3o aberto por Rubem Fonseca que \u00e9 o da conviv\u00eancia, clandestina, mas bastante pr\u00f3xima, entre a marginalidade e a elite. Este fen\u00f4meno tamb\u00e9m vai aparecer em Chico Buarque, Marcelo Rubens Paiva e outros.<br \/>\nAinda aqui aparece a da literatura feita pelos pr\u00f3prios \u201cperif\u00e9ricos\u201d. Os precursores podem ser encontrados nos j\u00e1 citados Jo\u00e3o Ant\u00f4nio e Pl\u00ednio Marcos, como tamb\u00e9m em Carolina de Jesus, com <em>Quarto de Despejo<\/em>, Recentemente, esta tend\u00eancia parte de S\u00e3o Paulo e ganha muita for\u00e7a com Ferr\u00e9z \u2013 <em>Manual pr\u00e1tico do \u00f3dio<\/em> e <em>Cap\u00e3o Pecado<\/em>, entre outros livros. E continua com Sacolinha, Sergio Vaz, Alessandro Buzzo, Allan da Rosa e outros. Esses autores chegaram a organizar em 2007 uma \u201cSemana da Arte Moderna da Periferia\u201d com pretens\u00f5es explicitas \u2013 n\u00e3o s\u00f3 no t\u00edtulo \u2013 de se compararem aos modernistas de 1922. <\/p>\n<p>Cabe aqui o registro de textos ficcionais \u201cbaseados em fatos reais\u201d e elaborados em geral numa linguagem da mis\u00e9ria e da viol\u00eancia: crua, tendendo para o naturalismo e, n\u00e3o raro, apelativa. Ela esbarra, entretanto, nas limita\u00e7\u00f5es da g\u00edria urbana. Enquanto o falar rural ou regional \u2013 dada sua maior perman\u00eancia \u2013 fez vicejar autores j\u00e1 cl\u00e1ssicos como o Monteiro Lobato de Urup\u00eas, e Guimar\u00e3es Rosa, em quase todos os seus livros, a g\u00edria urbana tem pouca durabilidade e compromete a perenidade da obra que s\u00f3 fizer uso da mesma.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o notar que algumas antigas tem\u00e1ticas como o regionalismo, o absurdo e o fant\u00e1stico j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o representativos, mas permanecem e se renovam nos trabalhos de Milton Hatoum, Nicodemos Sena, Caio Porf\u00edrio Carneiro, Vicente Cecim, al\u00e9m dos j\u00e1 citados Lygia Fagundes Telles e Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o, Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro, M\u00e1rcio de Souza e outros. Note-se que o regionalismo amaz\u00f4nico, incluindo-se a preocupa\u00e7\u00e3o com a preserva\u00e7\u00e3o da floresta e seus povos, tem superado o nordestino que tantas obras primas nos legou em d\u00e9cadas anteriores. <\/p>\n<p>Outra tend\u00eancia que, creio, deve crescer \u00e9 a do texto <em> \u201cfalso policial\u201d <\/em>, ou seja, aquele que, tendo todos os ingredientes do romance policial, n\u00e3o se esgota no esclarecimento da trama e na vit\u00f3ria da justi\u00e7a e da verdade, como bem denuncia o cr\u00edtico F\u00e1bio Lucas em muitos se seus trabalhos. Antes, ela \u00e9 um artif\u00edcio para prender a aten\u00e7\u00e3o do leitor e mostrar nas entrelinhas as mazelas da sociedade e da condi\u00e7\u00e3o humana. Como exemplo, temos, mais uma vez, Rubem Fonseca, Chico Buarque e Marcelo Rubens Paiva, aos quais podemos acrescentar Guiomar de Grammont \u2013 <em>Fuga em Espelhos<\/em>, Pl\u00ednio Cabral \u2013 <em>O mist\u00e9rio dos desaparecidos<\/em>, al\u00e9m do meu j\u00e1 citado <em>O sequestro do senhor empres\u00e1rio<\/em>. Esta tend\u00eancia se mescla muitas vezes \u00e0quelas de den\u00fancia dos crimes da ditadura.<\/p>\n<p>O falso policial \u00e9, juntamente com outra tend\u00eancia que veremos \u00e0 frente, resultado da concorr\u00eancia entre fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e outros tipos de fic\u00e7\u00e3o. Explico: a fic\u00e7\u00e3o, antes de ser fen\u00f4meno liter\u00e1rio \u00e9 forma de comunica\u00e7\u00e3o social; \u00e9 processo social destinado \u00e0 transmiss\u00e3o do conhecimento, \u00e0 socializa\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo e ao entretenimento. Abrange desde a milenar arte de contar hist\u00f3rias at\u00e9 o cinema e a televis\u00e3o. <\/p>\n<p>Ora, se h\u00e1 um tempo finito para a fic\u00e7\u00e3o no dia a dia das pessoas, podemos imaginar as dificuldades que se apresentam ao escritor ao competir com meios que contam com som e imagem para enriquecer a narrativa. Enorme desafio que nos exige o uso de recursos narrativos e de linguagem bastante elaborados.<\/p>\n<p>Por isso, temos, al\u00e9m do falso-policial, uma tend\u00eancia em si no que diz respeito \u00e0 forma de escrever hist\u00f3rias. Em rela\u00e7\u00e3o aos meios audiovisuais existe tanto a concorr\u00eancia quanto influ\u00eancias rec\u00edprocas. Boa parte de n\u00f3s escritores assistimos a muitos filmes na inf\u00e2ncia e na juventude e continuamos a assistir. <\/p>\n<p>Nos dias de hoje, o cinema somado \u00e0 televis\u00e3o e outros meios de express\u00e3o ficcional \u00e1udio-visuais, coloca-nos frente a uma cultura cada vez menos gr\u00e1fica, menos conceitual e de a\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida. Da\u00ed que, cada vez mais, encontraremos boa parte das narrativas menos lineares, mais truncadas e multifacetadas, e dispostas numa linguagem que tenta trazer para o campo liter\u00e1rio o primado do olhar sobre o conceito. <\/p>\n<p>Entre os precursores desta tend\u00eancia na atual literatura brasileira, poder\u00edamos citar Euclides da Cunha que consegue ser quase cinematogr\u00e1fico em suas descri\u00e7\u00f5es da geografia, das pessoas e das batalhas. Na mesma trilha, mas com caracter\u00edsticas muito pr\u00f3prias, Guimar\u00e3es Rosa, em muitos trechos, faz da paisagem a personagem principal, ao mesmo tempo em que sua linguagem tende a transcender o limite do conceitual, sem dele abrir m\u00e3o. Outro precursor \u00e9 An\u00edbal Machado que, tendo publicado apenas um livro de contos, teve tr\u00eas deles transformados em filmes: <em>A morte da porta-estandarte<\/em>; <em>O iniciado do vento<\/em>; e <em>O piano<\/em>. <\/p>\n<p>Nos dias de hoje, podemos colocar neste fil\u00e3o, autores com caracter\u00edsticas muito diversas entre si, como Raduan Nassar, Ricardo Ramos, Osman Lins, Marcos Rey e Jo\u00e3o Gilberto Noll, entre muitos outros.<\/p>\n<p>Encerro minhas palavras, solicitando-lhes desculpas pelo n\u00e3o esgotamento das tend\u00eancias e pela omiss\u00e3o de muitos bons autores. Garanto-lhes que hoje \u2013 quando tantas tem\u00e1ticas, estilos e experimenta\u00e7\u00f5es se entremostram \u2013 \u00e9 imposs\u00edvel dar conta de todas elas bem como de todos os seus representantes.<\/p>\n<p>Resumo de palestra proferida no Centro Cultural Brasileiro em Frankfurt, Alemanha, em 08\/10\/2009.<br \/>\n  Levi Bucalem Ferrari \u00e9 contista, romancista e poeta. Presidente da UBE &#8211; Uni\u00e3o Brasileira de Escritores e do IPSO \u2013 Instituto de pesquisas e projetos sociais e tecnol\u00f3gicos. Professor de Ci\u00eancias Pol\u00edticas. Presidiu a Associa\u00e7\u00e3o dos Soci\u00f3logos do Estado de S\u00e3o Paulo. Recebeu o pr\u00eamio Melhores do Ano \u2013 autor revela\u00e7\u00e3o de 1988 da APCA \u2013 Ass. Paulista dos Cr\u00edticos de Arte pelo romance O seq\u00fcestro do senhor empres\u00e1rio. Apresenta na R\u00e1dio Cultura Brasil o programa de literatura Outras Palavras. <\/p>\n<p>Resumo de palestra proferida no Centro Cultural Brasileiro em Frankfurt, Alemanha, em 08\/10\/2009.<\/p>\n<p>Levi Bucalem Ferrari \u00e9 contista, romancista e poeta. Presidente da UBE &#8211; Uni\u00e3o Brasileira de Escritores e do IPSO \u2013 Instituto de pesquisas e projetos sociais e tecnol\u00f3gicos. Professor de Ci\u00eancias Pol\u00edticas. Presidiu a Associa\u00e7\u00e3o dos Soci\u00f3logos do Estado de S\u00e3o Paulo. Recebeu o pr\u00eamio Melhores do Ano \u2013 autor revela\u00e7\u00e3o de 1988 da APCA \u2013 Ass. Paulista dos Cr\u00edticos de Arte pelo romance O seq\u00fcestro do senhor empres\u00e1rio. 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