{"id":4038,"date":"2009-05-27T22:28:53","date_gmt":"2009-05-28T01:28:53","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/?p=4038"},"modified":"2009-09-26T16:26:41","modified_gmt":"2009-09-26T19:26:41","slug":"o-renascimento-de-lygia-fagundes-telles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2009\/05\/27\/o-renascimento-de-lygia-fagundes-telles\/","title":{"rendered":"O renascimento de Lygia Fagundes Telles"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/lygia1.jpg\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/lygia1.jpg\" alt=\"\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-4041\" \/><\/a>Aos 86 anos, Lygia Fagundes Telles inicia, com \u201cAs meninas\u201d, \u201cAntes do Baile Verde\u201d e \u201cInven\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria\u201d o relan\u00e7amento de seus livros por uma nova editora, a Companhia das Letras. A escritora conta que sua \u201csepara\u00e7\u00e3o\u201d com a editora anterior, a Rocco, foi cordial, mas se revela encantada com a nova parceria. \u201c\u00c9 uma esp\u00e9cie de renascimento da minha obra. Estou renascendo junto. A impress\u00e3o que tenho \u00e9 que acabei de escrever estes livros. Estou oferecendo ao leitor frutos renovados\u201d. Lygia falou ao GLOBO em sua casa, em S\u00e3o Paulo e, numa conversa pontuada pela emo\u00e7\u00e3o, contou sobre seus planos para um novo livro, as dificuldades em ser uma pioneira na literatura brasileira e sobre seu processo de cria\u00e7\u00e3o. (Foto de Anderson Prado\/Di\u00e1rio de S. Paulo)<\/p>\n<p><strong>A senhora fala de seu of\u00edcio como uma miss\u00e3o e deseja transmitir uma mensagem a seus leitores. Qual seria esta miss\u00e3o, esta mensagem? <\/strong><br \/>\nQuero passar para o pr\u00f3ximo esperan\u00e7a. Eu acredito muito nas tr\u00eas virtudes teol\u00f3gicas: a f\u00e9, a esperan\u00e7a e a caridade. Ent\u00e3o, procuro passar o sonho para o pr\u00f3ximo. O escritor, pelo menos o da minha linha, pode ser corrompido, mas n\u00e3o corrompe o leitor. O escritor pode ser louco, mas n\u00e3o enlouquece o leitor. Ao contr\u00e1rio, pode afast\u00e1-lo da loucura. O escritor pode ser triste, solit\u00e1rio, mas vai acompanhar o leitor que est\u00e1 na solid\u00e3o. Quero dizer que o escritor tem sim uma miss\u00e3o mais profunda do que esta coisa superficial, como \u00e9 tomada no Brasil. <\/p>\n<p><strong>Qual sua rela\u00e7\u00e3o com os leitores? <\/strong><br \/>\nO leitor n\u00e3o \u00e9 meu parceiro, \u00e9 meu c\u00famplice. Ele vem, toma satisfa\u00e7\u00f5es, conversa comigo. Outro dia, andando na rua, veio uma senhora e perguntou: \u201cA senhora \u00e9 Dona Lygia? A senhora escreveu um livro chamado \u2018Meus contos preferidos\u2019. Mas a senhora n\u00e3o p\u00f4s aquele conto, \u2018A confiss\u00e3o de Leontina\u2019. Esse conto \u00e9 o melhor que a senhora escreveu. A senhora n\u00e3o sabe seus contos melhores\u201d. Ao que respondi: \u201cdesculpe\u201d. Meu c\u00famplice veio tomar satisfa\u00e7\u00f5es. Depois, em uma universidade, eu estava falando e vi que o pessoal estava desatento. A\u00ed disse: \u201colha, n\u00e3o sei o que estou fazendo aqui, isso \u00e9 uma loucura. Voc\u00eas gostam de futebol, de balada. Agora, de escritor brasileiro, zero\u201d. Quando fui dar aut\u00f3grafos, chegou um rapaz cabeludo e me atirou um bilhete. Ainda perguntei se queria uma dedicat\u00f3ria e ele respondeu que n\u00e3o, era s\u00f3 para eu ler o bilhete. Chegando em casa fui ler, estava escrito assim: \u201cn\u00e3o \u00e9 loucura n\u00e3o. Alguns contos seus j\u00e1 me afastaram do desespero\u201d. Guardo at\u00e9 hoje este bilhete. <\/p>\n<p><strong>Al\u00e9m das revis\u00f5es das obras relan\u00e7adas, est\u00e1 trabalhando em um novo romance? <\/strong><br \/>\nEstou pensando em um novo romance sim, antes de ir embora. Ainda n\u00e3o d\u00e1 para contar nada. Escrevo tudo na cabe\u00e7a, depois passo para o papel. \u00c9 meu processo de cria\u00e7\u00e3o. E neste romance quero me despedir. <\/p>\n<p><strong>A senhora \u00e9 religiosa? <\/strong><br \/>\nAcredito em Deus. N\u00e3o frequento igreja, mas amo meus anjos e santos. Tenho muita f\u00e9. Acho que al\u00e9m dessa nossa passagem aqui, h\u00e1 alguma al\u00e9m. Acredito muito em Cristo, nesta certeza de que h\u00e1 algo al\u00e9m da morte. N\u00e3o sei bem como \u00e9, mas existe sim. <\/p>\n<p><strong>Na releitura de suas obras para a reedi\u00e7\u00e3o, a senhora fez alguma mudan\u00e7a? <\/strong><br \/>\nRevendo \u201cAs meninas\u201d (1973), com a ajuda de minha neta L\u00facia Telles, percebi, al\u00e9m de v\u00edrgulas em excesso acrescentadas por revisores ao longo dos anos, a falta de um trecho. Disse a L\u00facia que havia algo errado. A personagem Lorena conta uma hist\u00f3ria de sua inf\u00e2ncia para Lia e Ana Clara: seu irm\u00e3o R\u00f4mulo foi morto pelo outro irm\u00e3o, Remo, em uma brincadeira de bandido e mocinho. Foi um tiro acidental. Remo n\u00e3o sabia que a carabina com que brincava estava carregada. Sem querer, puxa o gatilho e o irm\u00e3o cai morto. Um dia a Lia vai \u00e0 casa da m\u00e3e de Lorena, a \u201cm\u00e3ezinha\u201d. A mulher conta que o filho, R\u00f4mulo, morreu beb\u00ea. Lia fica sem saber qual \u00e9 a vers\u00e3o verdadeira, se a da m\u00e3ezinha ou a de Lorena, mas n\u00e3o falou mais nisso. Quando reli o livro, n\u00e3o quis que Lia soubesse quem mentiu, mas ela tinha de falar nisso mais uma vez. E antes das meninas se separarem, no final do livro, acrescentei que Lia olha para Lorena, se lembra da hist\u00f3ria de R\u00f4mulo, e fala: \u201cVou embora e ainda n\u00e3o sei\u201d. Lorena pergunta: \u201cn\u00e3o sabe o que, Li\u00e3o?\u201d. E Lia responde, misteriosa: \u201co resultado a\u00ed de uma pesquisa\u201d. \u00c9 uma coisa t\u00e3o m\u00ednima, mas fiquei devendo na primeira edi\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p><strong>Teve novas impress\u00f5es sobre seus textos ao rel\u00ea-los? <\/strong><br \/>\nDe repente, cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que meus livros est\u00e3o prontos. Fiz o melhor que pude. Estava terminando \u201cAs meninas\u201d, na ch\u00e1cara do meu irm\u00e3o em Barra de S\u00e3o Jo\u00e3o, quando todos dormiam. Quando acabei ca\u00ed em prantos, estava me despedindo de minhas personagens. Elas conviveram comigo, falaram, discutiram o tempo todo e estavam indo embora. Ia perd\u00ea-las, mas depois pensei: \u201celas v\u00e3o voltar, com m\u00e1scaras, mas v\u00e3o voltar\u201d. As personagens s\u00e3o como n\u00f3s mesmos. N\u00f3s gostamos da vida, queremos viver at\u00e9 a \u00faltima gota. <\/p>\n<p><strong>Como se sente com o relan\u00e7amento de sua obra? <\/strong><br \/>\n\u00c9 uma esp\u00e9cie de renascimento da minha obra, estou renascendo junto. A impress\u00e3o que tenho \u00e9 que acabei de escrever estes livros e eles est\u00e3o saindo lindos. Estou oferecendo ao leitor esses frutos renovados, renascidos. Acredito no pr\u00f3prio renascimento pessoal e no de minha obra. Estou muito contente na Companhia das Letras. O editor (Luiz Schwarcz) acreditou em mim, apostou alto. Os livros est\u00e3o lindos. Um escritor precisa disso, ser cuidado. <\/p>\n<p><strong>Por que seus tr\u00eas primeiros livros s\u00e3o desconsiderados no conjunto de sua obra a ser relan\u00e7ado? <\/strong><br \/>\nComecei a escrever muito jovem. Foi muito dif\u00edcil. Tive uma juventude pobre. Estava ainda no curso fundamental (Lygia tinha 15 anos quando publicou o livro de contos \u201cPor\u00e3o e sobrado\u201d) quando publiquei um livrinho. Mas foi prematuro, errado. Chamo isso de juvenilidades. Me arrependi de meus primeiros livros (\u201cPor\u00e3o e sobrado\u201d, de 1938; \u201cPraia viva\u201d, de 1944; e \u201cO cacto vermelho\u201d, de 1946, todos de contos). Cortei-os da minha obra e come\u00e7o a considerar minha carreira a partir do romance \u201cCiranda de pedra\u201d (de 1954). <\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 ser escritor no Brasil? <\/strong><br \/>\nMinha literatura \u00e9 engajada. Sou uma escritora do Terceiro Mundo, onde a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o um desastre. Quando eu era estudante de direito disse uma coisa muito importante e que vale at\u00e9 hoje: quando o Brasil tiver mais creche e mais escolas, ele ter\u00e1 menos hospitais e cadeias. Claro que estou sempre escrevendo, querendo passar para o meu leitor essa verdade sobre o meu pa\u00eds. Ent\u00e3o n\u00e3o vou disfar\u00e7ar. \u00c9 muito duro um pa\u00eds como o nosso, mas assumi meu of\u00edcio. <\/p>\n<p><strong>O fato de ser mulher em algum momento tornou essa escolha mais dif\u00edcil? <\/strong><br \/>\nUm professor da Faculdade de Direito, Miguel Reale, dizia que a mais importante revolu\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XX foi a revolu\u00e7\u00e3o da mulher. As mulheres estavam muito na sombra, sem coragem de assumir suas voca\u00e7\u00f5es. Eu demorei muito para assumir minha voca\u00e7\u00e3o, que era escrever. Quando entrei na Faculdade de Direito, eram sete meninas para quase 200 rapazes. Quer dizer, assumi minha voca\u00e7\u00e3o e ousei. Em uma confer\u00eancia na faculdade, um rapaz perguntou para mim: \u201co que voc\u00eas vieram fazer aqui? Casar?\u201d Eu respondi: \u201cTamb\u00e9m\u201d. E acabei me casando mesmo&#8230; De um certo modo, as mulheres de minha gera\u00e7\u00e3o foram a vanguarda. Agora \u00e9 duro. Ainda em meu tempo de estudante, fiz uma tarde de aut\u00f3grafo. Dois rapazes chegaram e disseram: \u201c\u00d4 Lygia! O que \u00e9 esse neg\u00f3cio de voc\u00ea escrever um livro? Voc\u00ea j\u00e1 \u00e9 bonitinha, perna bonita, cabelo bonito. Que besteira \u00e9 essa?\u201d E eu desabei a chorar. A Clarice Lispector, da minha gera\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m tinha muito esses medos. Ela dizia para mim: \u201cLygia, n\u00e3o tira retrato rindo, que eles n\u00e3o levam voc\u00ea a s\u00e9rio\u201d. <\/p>\n<p><strong>O quanto \u00e9 importante para a senhora ser tida como uma das maiores autoras nacionais? <\/strong><br \/>\nIsso n\u00e3o tem import\u00e2ncia nenhuma para mim. O importante \u00e9 cumprir meu of\u00edcio, minha voca\u00e7\u00e3o com paix\u00e3o, coisa que fa\u00e7o at\u00e9 hoje. Maior, menor, isso \u00e9 coisa de pol\u00edtico. O que importa mesmo \u00e9 ser fiel ao sonho at\u00e9 o fim. Acertou? N\u00e3o acertou? N\u00e3o interessa. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 86 anos, Lygia Fagundes Telles inicia, com \u201cAs meninas\u201d, \u201cAntes do Baile Verde\u201d e \u201cInven\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria\u201d o relan\u00e7amento de seus livros por uma nova editora, a Companhia das Letras. 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