{"id":192,"date":"2003-09-18T23:35:28","date_gmt":"2003-09-19T02:35:28","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/?p=192"},"modified":"2008-10-03T00:03:19","modified_gmt":"2008-10-03T03:03:19","slug":"juca-pato-um-trofeu-impar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2003\/09\/18\/juca-pato-um-trofeu-impar\/","title":{"rendered":"JUCA PATO &#8211; UM TROF\u00c9U \u00cdMPAR"},"content":{"rendered":"<p>O Trof\u00e9u Juca Pato concedido ao Intelectual do Ano \u00e9 \u00fanico em seu g\u00eanero em nosso pa\u00eds, a come\u00e7ar por sua principal caracter\u00edstica, o processo eleitoral a que se submete o candidato, eleito, enfim, pelo voto direto de todos os escritores brasileiros que queiram participar. Nunca teve sua lisura contestada, nem pode, pelo que foi dito, sofrer qualquer acusa\u00e7\u00e3o de compadrio ou protecionismo.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m \u00edmpar porque se destina a autor que tenha publicado naquele ano \u201clivro que suscite debate de id\u00e9ias\u201d; eis, portanto, o embri\u00e3o de sua voca\u00e7\u00e3o social, pol\u00edtica e quase sempre pol\u00eamica, conforme nos faz notar F\u00e1bio Lucas em artigo nesta edi\u00e7\u00e3o sobre a hist\u00f3ria e o car\u00e1ter do pr\u00eamio.<\/p>\n<p><strong>Origem Trof\u00e9u Juca Pato<\/strong><\/p>\n<p>Criado em 1962, por proposta de Marcos Rey, um dos fundadores e ent\u00e3o vice-presidente da UBE, o concurso \u00e9 realizado anualmente em parceria com a Folha de S\u00e3o Paulo. Marcos Rey, juntamente com seu irm\u00e3o M\u00e1rio Donato, ao sugerirem a estatueta que representa o pr\u00eamio acabaram por conferir ao pr\u00eamio uma terceira singularidade: a pereniza\u00e7\u00e3o de Juca da Silva Pato, personagem criada pelo jornalista L\u00e9llis Vieira e celebrizada em 1925 na caricatura feita pelo ilustrador Benedito Carneiro Bastos Barreto, o popular Belmonte.<\/p>\n<p>Homem simples, de pavio curto, porta-voz de algumas camadas m\u00e9dias da sociedade paulistana, irritava-se com os desmandos, a prepot\u00eancia, o arb\u00edtrio dos governantes e poderosos em geral. Sob o lema \u201cPoderia ser pior\u201d, desfilava seus reclamos na coluna \u201cDesabafos do Juca Pato\u201d na ent\u00e3o \u201cFolha da Manh\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>Desde a primeira edi\u00e7\u00e3o o Pr\u00eamio Intelectual do Ano visou a consagrar autores de estudos e reflex\u00f5es sobre o pa\u00eds e quase nunca o conjunto dos eleitores errou. E, nos raros, rar\u00edssimos casos em que isso possa ter ocorrido n\u00e3o foi porque o Juca Pato mudou; mudou de opini\u00e3o o premiado.<\/p>\n<p>Marcos Rey seria finalmente laureado trinta e quatro anos depois da cria\u00e7\u00e3o do Pr\u00eamio e sob muita press\u00e3o de seus amigos e admiradores pois n\u00e3o queria, como criador, candidatar-se. Ao saud\u00e1-lo na ocasi\u00e3o, F\u00e1bio Lucas, notaria \u201co parentesco da prosa de fic\u00e7\u00e3o do romancista com os tra\u00e7os caricaturescos de Belmonte. Tra\u00e7os de ironia e de cr\u00edtica social\u201d.<\/p>\n<p>Ainda para Marcos Rey em 1964, \u201ca imagem do Juca, mesmo sem legendas, amorda\u00e7ada, imobilizada em bronze, \u00e9 presen\u00e7a inc\u00f4moda para a ditadura\u201d. Coerentemente, o primeiro agraciado, Santiago Dantas, afirmou: \u201cO nosso esfor\u00e7o se legitima na medida em que formos capazes de lutar contra a opress\u00e3o, que muda de formas ao longo da hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>E ser\u00e1 por esta senda de reflex\u00e3o sobre o pa\u00eds e seus problemas; sobre nossa cultura e soberania e tudo que as amea\u00e7a; ser\u00e1 sempre por esse caminho que o Pr\u00eamio Intelectual do Ano ir\u00e1 se firmar como dos mais valorosos em nosso pa\u00eds, destinado que \u00e9 a exaltar os expoentes da cultura brasileira, mulheres e homens que mais contribuem para seu enriquecimento, para o nosso autoconhecimento e auto-estima, para a reflex\u00e3o sobre n\u00f3s mesmos como na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o dos premiados haver\u00e1 de confirmar o que estamos dizendo.<\/p>\n<p><strong>Alberto da Costa e Silva<\/strong><\/p>\n<p>E \u00e9 nesse quadro que se insere a pessoa e a obra de Alberto da Costa e Silva, o Intelectual do Ano de 2003. O diplomata, poeta, cr\u00edtico, historiador, pesquisador e membro da Academia Brasileira de Letras, da qual foi Presidente, fez publicar o livro <em>Um rio chamado Atl\u00e2ntico: A \u00c1frica no Brasil e o Brasil na \u00c1frica<\/em>. Nele, o autor faz com que nossos olhos focalizem a outra margem de n\u00f3s mesmos, seja do ponto de vista \u00e9tnico, como cultural e s\u00f3cio-econ\u00f4mico. Jacob Gorender, outro caro Intelectual do Ano j\u00e1 nos afirmara em entrevista que \u201csomos tamb\u00e9m africanos\u201d. Afinal, continua o historiador, \u201cdo total de dez milh\u00f5es de africanos que vieram para as Am\u00e9ricas, quatro milh\u00f5es se destinaram ao Brasil\u201d.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, recordo-me que, durante o regime militar, depois de preso duas vezes, fugi para a Inglaterra onde, rapidamente, me enjoei da insossa cozinha brit\u00e2nica. Debalde procurei alternativas entre restaurantes italianos, portugueses e outros, encontrando em todos o mesmo padronizado sabor. Finalmente, algu\u00e9m me indicou o Centro Cultural Africano. Que del\u00edcia, que maravilha o reencontro com o meu atavismo gastron\u00f4mico! Sabendo que um brasileiro, ali\u00e1s, mais um se esbaldara com sua comida, a cozinheira apresentou-se orgulhosa: Eunice, brasileira&#8230; n\u00e3o falava portugu\u00eas. Tanto tempo depois, gra\u00e7as \u00e0 leitura de Costa e Silva, compreendo aquela aparente contradi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 in\u00fameras \u201ccol\u00f4nias\u201d e \u201ctribos\u201d de brasileiros na \u00c1frica, que assim se auto-identificam por long\u00ednquos la\u00e7os de parentesco, la\u00e7os hoje mais culturais que \u00e9tnicos.<\/p>\n<p>Mais nos ensina o Intelectual do Ano de 2003: que as pot\u00eancias europ\u00e9ias, Inglaterra \u00e0 frente, sempre haveriam de opor obst\u00e1culos \u00e0 integra\u00e7\u00e3o entre o Brasil e a \u00c1frica. Seus interesses imperiais, tanto daquela quanto desta margem do Rio Atl\u00e2ntico, poderiam correr riscos caso cada se perenizassem as pontes que se delinearam e funcionaram por largos per\u00edodos de nossas hist\u00f3rias. Ver a \u00c1frica com as lentes de Costa e Silva \u00e9 vermos um peda\u00e7o de n\u00f3s mesmos, partes separadas uma da outra pela viol\u00eancia t\u00edpica dos colonizadores tanto da Idade Moderna quanto da Contempor\u00e2nea. Por outro lado, s\u00e3o irm\u00e3os que se reconhecem e clamam pelo m\u00fatuo reconhecimento dessa fraternidade,, para a retomada dos la\u00e7os que haver\u00e3o de construir a enorme Na\u00e7\u00e3o Afro-brasileira, assim como, com os olhos voltados para nossos outros vizinhos, os hispano-americanos, haveremos de construir a grande Na\u00e7\u00e3o Sul Americana.<\/p>\n<p>Para tanto, \u00e9 preciso acenar a ambos com firmeza, sem dubiedades, tal como o filho acena ao pai nesses versos de Alberto da Costa e Silva:<\/p>\n<p><em>A m\u00e3o do pai sobre o papel desenha,<br \/>\nQuase num s\u00f3 tra\u00e7o, o menino a cavalo.<br \/>\nSai de sua m\u00e3o a m\u00e3o com que lhe aceno,<br \/>\nE vai sobre o papel o menino a cavalo. <\/em><\/p>\n<p>E foi Drummond quem sentenciou que o poema se avalia por seus desdobramentos.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Artigo publicado no site <a href=\"http:\/\/www.mhd.org\/indice.html\">Movimento Humanista e Democracia<\/a>, em 2003.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Trof\u00e9u Juca Pato concedido ao Intelectual do Ano \u00e9 \u00fanico em seu g\u00eanero em nosso pa\u00eds, a come\u00e7ar por sua principal caracter\u00edstica, o processo eleitoral a que se submete o candidato, eleito, enfim, pelo voto direto de todos os &hellip; <a href=\"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2003\/09\/18\/juca-pato-um-trofeu-impar\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[158,68,159,160,56,80,162,161,50,17,51],"class_list":["post-192","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","tag-africa","tag-alberto-da-costa-e-silva","tag-atlantico","tag-comercio-internacional","tag-cultura","tag-historia","tag-intelectual-do-ano","tag-intercambio","tag-juca-pato","tag-poesia","tag-ube"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/192","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=192"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/192\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":428,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/192\/revisions\/428"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=192"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=192"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=192"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}