{"id":124,"date":"2006-12-01T00:00:29","date_gmt":"2006-12-01T03:00:29","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/?p=124"},"modified":"2008-09-26T00:22:23","modified_gmt":"2008-09-26T03:22:23","slug":"globalizacao-e-catchup","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2006\/12\/01\/globalizacao-e-catchup\/","title":{"rendered":"GLOBALIZA\u00c7\u00c3O E CATCHUP"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/114.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-417\" src=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/114.jpg\" alt=\"\" width=\"97\" height=\"131\" \/><\/a>Assisti no cinema ao agrad\u00e1vel filme <a href=\"\/\/www.youtube.com\/v\/A5I5DeToRWU&amp;hl=en&amp;fs=1&quot; type=&quot;application\/x-shockwave-flash&quot; allowfullscreen=&quot;true&quot; width=&quot;425&quot; height=&quot;344&quot;&gt;&lt;\/embed&gt;&lt;\/object&gt;\"><em>Simplesmente Amor<\/em><\/a>, co-produ\u00e7\u00e3o anglo-franco-estadunidense de 2003, dirigida por Richard Curtis com elenco tamb\u00e9m internacional: Hugh Grant, Emma Thompson, Liam Neeson, o brasileiro Rodrigo Santoro e a portuguesa Lucia Moniz, esta no papel de Aur\u00e9lia. V\u00e1rias hist\u00f3rias bem humoradas, o amor no centro de todas, e o previs\u00edvel final feliz na comemora\u00e7\u00e3o do Natal.<\/p>\n<p>Numa delas, Aur\u00e9lia \u00e9 imigrante portuguesa e faxineira numa pousada no interior da Fran\u00e7a onde um escritor ingl\u00eas se refugia para escrever seus livros. O contato di\u00e1rio entre os jovens, apesar de dificultado pelo fato de que ele s\u00f3 fala ingl\u00eas e ela portugu\u00eas, faz surgir a atra\u00e7\u00e3o amorosa. Num final apote\u00f3tico, coincidente com as demais historietas, nesta, o escritor volta \u00e0 Fran\u00e7a, j\u00e1 falando o portugu\u00eas, procura por Aur\u00e9lia em sua casa, e acompanha sua fam\u00edlia at\u00e9 o restaurante em que ela trabalha como gar\u00e7onete. Na parede do restaurante, a bandeira de Portugal atesta sua origem e gastronomia.<\/p>\n<p><strong>A globaliza\u00e7\u00e3o dos produtos<br \/>\nculturais \u00e9 sempre reducionista<br \/>\n<\/strong><br \/>\nNa segunda vers\u00e3o, vista na televis\u00e3o, Aur\u00e9lia virou espanhola e o escritor ingl\u00eas aprendeu castelhano ao inv\u00e9s de portugu\u00eas, apesar de a bandeira no restaurante ser a mesma. A altera\u00e7\u00e3o teve em mim o efeito de um anticl\u00edmax. E deixou a li\u00e7\u00e3o: a globaliza\u00e7\u00e3o dos produtos culturais \u00e9 sempre reducionista.<\/p>\n<p>Podemos supor, no caso, que, na primeira vers\u00e3o, o roteirista quis buscar o diferente, o idioma e o pa\u00eds menos conhecidos entre os hegem\u00f4nicos na Europa Ocidental. Na segunda, os adaptadores, visando ao enorme p\u00fablico hispano-americano residente nos Estados Unidos e na Am\u00e9rica Latina, optam pelo idioma mais conhecido, facilitando a veicula\u00e7\u00e3o do produto, ao custo da trai\u00e7\u00e3o \u00e0s inten\u00e7\u00f5es do autor.<\/p>\n<p>Fen\u00f4meno id\u00eantico ao do filme, j\u00e1 havia sido denunciado em meu romance <em>O seq\u00fcestro do senhor empres\u00e1rio<\/em> (Publisher Brasil, S\u00e3o Paulo, 1998). Um agente da CIA, atuante na Am\u00e9rica Latina e fluente em castelhano, fora designado para miss\u00e3o no Brasil. Ao constatar que aqui se falava uma l\u00edngua diversa, lamenta o que julga incab\u00edvel para sua provinciana e arrogante concep\u00e7\u00e3o de mundo, e se revolta\u00a0 enquanto constata as diferen\u00e7as e as maiores dificuldades apresentadas pelo portugu\u00eas. Resigna-se apenas quando percebe que aqui muitos falam ingl\u00eas e, vitoriosamente, conclui que, no futuro, o continente todo falar\u00e1 aquele idioma. (Note-se que, nesse texto, o reducionismo aparece n\u00e3o s\u00f3 como sub-produto da domina\u00e7\u00e3o cultural, mas pressuposto e exig\u00eancia de um projeto imperial).<\/p>\n<p>Sempre assim, tudo tem que apresentar o dominante gosto de catchup e coca-cola quando se tratar da distribui\u00e7\u00e3o massiva. O que foi usado acima como met\u00e1fora para produtos culturais, \u00e9 realidade para a gastronomia, pelo menos para Antonio Houaiss, quem, no salivante <em>Gastronomia e culin\u00e1ria: Magia da cozinha brasileira<\/em> (1979), depois de dissertar sobre a sutileza do paladar de muitos pratos, demonstra o temor da futura preval\u00eancia dos sabores pobres na nova gastronomia globalizada. No sentido inverso do que usei, Houaiss realiza met\u00e1fora prof\u00e9tica e mais elaborada daquilo que nos espera.<\/p>\n<p><strong>Nos nossos peri\u00f3dicos,<br \/>\ninexiste a cr\u00edtica liter\u00e1ria.<\/strong><\/p>\n<p>E quanto n\u00f3s brasileiros contribu\u00edmos para isso? Muito. Na quase totalidade de nossos peri\u00f3dicos, inexiste a cr\u00edtica liter\u00e1ria, substitu\u00edda por resenhas informativas, quando muito; laudat\u00f3rias, quase sempre. Tem-se a impress\u00e3o de que os espa\u00e7os s\u00e3o comprados por algumas editoras, tal \u00e9 o grau de predom\u00ednio de algumas delas. Algumas: uma ou duas. Nesses peda\u00e7os de jornais e revistas onde ocorre a sub-cr\u00edtica, constatamos uma desproporcional presen\u00e7a das tradu\u00e7\u00f5es de livros destinados ao mercado global, com lan\u00e7amentos simult\u00e2neos em diversos idiomas e pa\u00edses, precedidos de milion\u00e1rias campanhas publicit\u00e1rias. Como se tudo isso j\u00e1 n\u00e3o fosse o suficiente, a Lei do Livro que subsidia o papel para as edi\u00e7\u00f5es deste produto cultural, beneficia com a mesma generosidade tanto aquelas edi\u00e7\u00f5es globais como as publica\u00e7\u00f5es de escritores brasileiros. Nenhuma xenofobia, nada contra a tradu\u00e7\u00e3o de bons autores de qualquer origem, mas o que conhecemos da Am\u00e9rica Latina, da \u00c1frica, do mundo \u00e1rabe, do extremo oriente, do leste europeu&#8230;? Quase nada. E quando algum livro, proveniente desses ricos celeiros culturais, chega at\u00e9 n\u00f3s, vem embalado pela superprodu\u00e7\u00e3o do mercado global, ou seja, trazem o exotismo j\u00e1 temperado pelo predominante catchup.<\/p>\n<p>O exotismo \u00e9 outro dos componentes reducionistas da globaliza\u00e7\u00e3o cultural: o Brasil \u00e9 samba, futebol, mulatas; a Am\u00e9rica do Sul, realismo fant\u00e1stico. Um par\u00eantese para os \u00e1rabes: devem ser cr\u00edticos da repress\u00e3o e do atraso isl\u00e2micos. Na mesma linha, os europeus do leste t\u00eam que lamentar os opressivos anos do comunismo.<\/p>\n<p>Apenas europeus sabem fazer m\u00fasica erudita; apenas estadunidenses fazem jazz e cinema. E ambos literatura universal. Dos perif\u00e9ricos se esperam apenas produtos t\u00edpicos, eivados de clich\u00eas e exotismos. Assim, al\u00e9m da not\u00e1vel domina\u00e7\u00e3o cultural, que p\u00f5e em risco nossa identidade, e, por essa via, a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de soberania, estamos a alimentar a grande m\u00e1quina da ind\u00fastria cultural e oferecendo de m\u00e3o beijada nosso nada desprez\u00edvel mercado interno.<\/p>\n<p><strong>Livros brasileiros na Europa:<br \/>\n0,5% do total das tradu\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/p>\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 confirmada pelo agente cultural Ray-G\u00fcde Mertin, admirador da literatura brasileira e promotor de nova tradu\u00e7\u00e3o para o ingl\u00eas de <em>Grande Sert\u00e3o: Veredas<\/em>, a ser empreendida pelo competente Gregory Rabassa. Mertin, em entrevista a <em>O Globo<\/em> (4\/11\/2006) acrescenta dados significativos: Os livros brasileiros na Europa n\u00e3o passam de 0,5% do total das tradu\u00e7\u00f5es. Prossegue: \u201cNos EUA e na Inglaterra \u00e9 ainda mais dif\u00edcil. Ambos traduzem muito menos. De todas as obras publicadas em l\u00edngua inglesa nos EUA e na Inglaterra, 50% s\u00e3o traduzidas para outros idiomas no mundo, mas apenas 6% dos livros em outros idiomas s\u00e3o traduzidos para o ingl\u00eas\u201d.<\/p>\n<p>Coroamos o processo com nossa at\u00e1vica voca\u00e7\u00e3o ao colonialismo, no caso, pelo refor\u00e7o aos clich\u00eas que nos s\u00e3o aplicados. Em 2005, ano em que a Fran\u00e7a homenageou a cultura brasileira, levamos para Paris carnaval e m\u00fasica popular (qual delas?). A indig\u00eancia irritou alguns intelectuais franceses conhecedores do Brasil como Serge Gruzinski, professor na Ehess (\u00c9cole des Hautes \u00c9tudes em Sciences Sociales): \u201cEu gostaria que se falasse de Clarice Lispector, S\u00e9rgio Buar\u00acque de Holanda, Gilberto Freyre ou Benedito Nunes. O Brasil tem intelectuais que podem nos fornecer categorias para pensar a Europa de hoje, a mesti\u00e7agem. Mas, se a programa\u00e7\u00e3o ficar somente em torno das divers\u00f5es e do espet\u00e1culo, n\u00e3o se aproveitar\u00e1 a oportunidade para descobrir outro Brasil\u201d. Ao mesmo tempo, Michel Maffesoli, professor na Sorbonne afirmava: \u201cAs pessoas pensam que a Fran\u00e7a conhece bem o Brasil, mas para os franceses o pa\u00eds se resume ao Carnaval do Rio.\u201d Por fim, vale a pena reproduzir o que \u00e9 afirmado por Pierre Rivas, professor de literatura comparada na Universidade Paris 10: \u201cO governo n\u00e3o ajudou as tradu\u00e7\u00f5es. N\u00e3o traduziram Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, mas traduziram livros de auto-ajuda, isso nunca existiu na tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria francesa.\u201d<\/p>\n<p>Oportunidades deste tipo n\u00e3o se podem diluir na macumba para turista, para citar Oswald de Andrade; nem a azeite de dend\u00ea com sabor catchup.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Editorial da <a href=\"http:\/\/www.scortecci.com.br\/lermais_materias.php?cd_materias=4272\">Revista O Escritor<\/a>, n\u00ba 114, dez.2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assisti no cinema ao agrad\u00e1vel filme Simplesmente Amor, co-produ\u00e7\u00e3o anglo-franco-estadunidense de 2003, dirigida por Richard Curtis com elenco tamb\u00e9m internacional: Hugh Grant, Emma Thompson, Liam Neeson, o brasileiro Rodrigo Santoro e a portuguesa Lucia Moniz, esta no papel de Aur\u00e9lia. &hellip; <a href=\"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2006\/12\/01\/globalizacao-e-catchup\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[56,36,65,13,69],"class_list":["post-124","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","tag-cultura","tag-globalizacao","tag-industria-cultural","tag-literatura","tag-o-escritor"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/124","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=124"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/124\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":488,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/124\/revisions\/488"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=124"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=124"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=124"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}