{"id":1233,"date":"2007-09-13T18:46:14","date_gmt":"2007-09-13T21:46:14","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/?p=1233"},"modified":"2008-10-19T19:04:01","modified_gmt":"2008-10-19T22:04:01","slug":"alem-das-aparencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2007\/09\/13\/alem-das-aparencias\/","title":{"rendered":"AL\u00c9M DAS APAR\u00caNCIAS"},"content":{"rendered":"<p>Ando pelas ruas de minha cidade e observo como as coisas e as pessoas mudaram. E continuam mudando num ritmo cada vez mais fren\u00e9tico. Resulta-me pois a certeza de que a regra \u00e9 a mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Mais atento, verifico que as transforma\u00e7\u00f5es n\u00e3o se restringem ao imediatamente percept\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o frenesi imobili\u00e1rio e urban\u00edstico que mais destr\u00f3i do que ergue coisas belas; nem s\u00f3 o incha\u00e7o urbano, nem o tr\u00e2nsito que se satura e polui. Nem o jeito das pessoas se vestirem e se comportarem.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s da foto (ou do filme) pode haver outras coisas que tamb\u00e9m est\u00e3o a se transformar. Se h\u00e1, que coisas s\u00e3o essas? Como mudam? Que rela\u00e7\u00f5es guardam com as mudan\u00e7as mais aparentes?<\/p>\n<p>Vem ent\u00e3o a pergunta: O que compete ao cientista social, constatar e mensurar a exaust\u00e3o esses comportamentos aparentes ou tentar compreender as transforma\u00e7\u00f5es? Onde a imagina\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica?<\/p>\n<p>Volto ao que vejo para fazer notar que, se estou armado de uma teoria que compreende as mudan\u00e7as, fico mais apto para distinguir, dentre tudo o que muda, aquilo que possa ter mais significado. Vejamos alguns exemplos:<\/p>\n<p>a) J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o not\u00e1vel os \u201crushs\u201d pontuais de algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s: pela manh\u00e3 bem cedo e pelo final da tarde. H\u00e1 um locomover-se desencontrado, aparentemente an\u00e1rquico durante quase todo o dia e boa parte da noite.<\/p>\n<p>b) Homens e mulheres n\u00e3o vestem macac\u00f5es ou qualquer roupa adequada a trabalhos pesados.<\/p>\n<p>c) H\u00e1 muitos pedintes; como h\u00e1 muitos jovens que, aparentemente, nem estudam nem trabalham. H\u00e1, enfim, muitos \u201cdesocupados\u201d a exercer a \u201cvadiagem\u201d, nos termos em que sentencia o C\u00f3digo Penal (ainda?).<\/p>\n<p>Agora converso com alguns. Um ex-aluno do Curso de Administra\u00e7\u00e3o da PUC \u00e9 o \u00fanico vendedor de material hospitalar de uma empresa dos EUA para toda a Am\u00e9rica do Sul. Trabalha em casa com telefone e computador. Desta forma substitui cerca de algumas centenas daqueles antigos representantes comerciais que viajavam de cidade em cidade, visitando cada hospital, etc.<\/p>\n<p>Ganha bem meu ex-aluno, mas n\u00e3o ganha por duzentas pessoas. Nem consigo imaginar a mais-valia que ele rende.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m aprecio algumas fotos bem feitas por bons profissionais. A produtividade do trabalho aumentou exponencialmente. Os sal\u00e1rios muito poucos, quase nada.<\/p>\n<p>\u00c9 mais f\u00e1cil o estudante encontrar est\u00e1gio remunerado que o profissional encontrar emprego.\u00a0 O sujeito j\u00e1 est\u00e1 na casa dos trinta e tantos anos, mas ainda dorme e come na casa dos pais. Esses, trabalhadores ou aposentados, s\u00e3o os provedores, os \u201cricos\u201d do n\u00facleo familiar, sen\u00e3o do peda\u00e7o.<\/p>\n<p>Alguns trabalhadores est\u00e3o empregados em grandes empresas e ganham sal\u00e1rios de causar inveja. Outros se sujeitam ao trabalho tempor\u00e1rio, sem direitos ou garantias, e sal\u00e1rios tristes. Outros ainda, desempregados, nem saem de casa porque n\u00e3o t\u00eam dinheiro para a condu\u00e7\u00e3o. Est\u00e3o mais pobres que os pedintes? \u00c9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Assalariados disfar\u00e7ados sob a forma de aut\u00f4nomos, de terceirizados, etc s\u00e3o os verdadeiros pobres de hoje. E, apesar de s\u00f3cio-culturalmente apresentarem-se como classes m\u00e9dias, ganham menos que sacoleiros, ambulantes, revendedores de bugigangas.<\/p>\n<p>Tudo isso j\u00e1 configura transforma\u00e7\u00f5es de monta na segmenta\u00e7\u00e3o social e na pr\u00f3pria estrutura. Quem \u00e9 o prolet\u00e1rio de hoje?\u00a0 J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o oper\u00e1rio bem empregado. N\u00e3o seria o desempregado, o sub-empregado, o pequeno funcion\u00e1rio ou o que vive de bico? Fica a pergunta cara aos marxistas: nesse quadro quais seriam as for\u00e7as sociais propulsoras da mudan\u00e7a?<\/p>\n<p>Todos sabemos que h\u00e1 um conjunto de fatores que explicam as transforma\u00e7\u00f5es: globaliza\u00e7\u00e3o, abertura descontrolada de mercados, precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, diminui\u00e7\u00e3o e desrespeito aos direitos sociais etc.<\/p>\n<p>Mais ao fundo, entretanto, h\u00e1 um imenso volume de capital com o qual o trabalhador interage na produ\u00e7\u00e3o. Isso eleva exponencialmente sua produtividade, sua capacidade de agregar valor \u00e0 mercadoria.<\/p>\n<p>Quanto a isso, o que nos ensina Marx? Que os instrumentos e as condi\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s dos quais os homens ganham seu sustento, o p\u00e3o de cada dia, conhecidos como conjunto das for\u00e7as produtivas constituem a base da divis\u00e3o social do trabalho. Se o primeiro conjunto muda, o segundo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>(N\u00e3o estou a incluir aqui as institui\u00e7\u00f5es e a manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Seria mecanicismo demais imaginar que mudam automaticamente a cada altera\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas .\u00a0 Elas t\u00eam suas configura\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias e possibilidade de desenvolvimento aut\u00f4nomo. Mas, n\u00e3o h\u00e1 negar rela\u00e7\u00f5es, ora de coopera\u00e7\u00e3o, ora de conflito entre uma esfera e outra. Menos ainda se pode negar a intera\u00e7\u00e3o reflexa dessas esferas, a denominada reprodu\u00e7\u00e3o por alguns te\u00f3ricos, entre os quais, principalmente Pierre Bourdieu.)<\/p>\n<p>Permanece, n\u00e3o somente numa sociologia marxista, mas como instrumento universal de qualquer an\u00e1lise social, aquele do primado dos instrumentos e t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o socialmente dispon\u00edveis (for\u00e7as produtivas) sobre a forma como os segmentos sociais se organizam para produzir (rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o). E o de que ambos ser\u00e3o\u00a0 determinantes na forma de distribui\u00e7\u00e3o da riqueza.<\/p>\n<p>Esta tese, exposta com originalidade e profundidade not\u00e1veis em sua Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica, est\u00e1 longe de esgotar a import\u00e2ncia de Karl Marx no moderno conhecimento sociol\u00f3gico. O que importa, todavia, \u00e9 seu sentido axial,\u00a0 e sua aceita\u00e7\u00e3o at\u00e9 por pensadores n\u00e3o marxistas. H\u00e1 quase um consenso de que o conhecimento da configura\u00e7\u00e3o de qualquer forma\u00e7\u00e3o social come\u00e7a por a\u00ed. Desde sempre, at\u00e9 hoje, talvez at\u00e9 sempre.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Resumo de participa\u00e7\u00e3o em painel sobre <em>A Sociologia de Marx<\/em> integrante do simp\u00f3sio Centen\u00e1rio de Nascimento de Le\u00f4ncio Basbaum: desafios e perspectivas do marxismo ocorrido no Centro Universit\u00e1rio \u201cMaria Ant\u00f4nia\u201d nos dias 13 e 14 de setembro de 2007. O simp\u00f3sio teve apoio da Uni\u00e3o Brasileira de Escritores, UBE e foi realizado pelo Laborat\u00f3rio de Estudos sobre a Intoler\u00e2ncia, LEI-USP sob patroc\u00ednio da Pr\u00f3-Reitoria de Cultura e Extens\u00e3o Universit\u00e1ria da USP.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ando pelas ruas de minha cidade e observo como as coisas e as pessoas mudaram. E continuam mudando num ritmo cada vez mais fren\u00e9tico. Resulta-me pois a certeza de que a regra \u00e9 a mudan\u00e7a. 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