{"id":116,"date":"2001-12-15T21:09:25","date_gmt":"2001-12-16T00:09:25","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/?p=116"},"modified":"2008-10-02T23:29:18","modified_gmt":"2008-10-03T02:29:18","slug":"ficcao-em-multiplos-planos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2001\/12\/15\/ficcao-em-multiplos-planos\/","title":{"rendered":"FIC\u00c7\u00c3O EM M\u00daLTIPLOS PLANOS"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/moscas.gif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-117\" src=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/moscas.gif\" alt=\"\" width=\"100\" height=\"145\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Moscas<br \/>\nJos\u00e9 Roberto Melhem<\/strong><\/p>\n<p>Entre n\u00f3s as boas novidades editoriais s\u00e3o ofuscadas, ora pelo excesso de publica\u00e7\u00f5es, ora pelo err\u00e1tico incensar que a m\u00eddia dedica ao que nem sempre, quase nunca, \u00e9 o melhor. \u00c0 primazia dos livros de auto-ajuda e aos t\u00e9cnicos e terap\u00eauticos, seguem-se os m\u00edsticos e esot\u00e9ricos vindo muito depois a fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Nela predominam de longe as tradu\u00e7\u00f5es de originais produzidos alhures, nas metr\u00f3poles, seguidas de nossos cl\u00e1ssicos apenas porque s\u00e3o objeto dos concursos vestibulares, vendem mais. A tal ponto que o leitor menos afeito ter\u00e1 sempre a impress\u00e3o que literatura \u00e9 coisa de estrangeiros ou do passado.<\/p>\n<p>Entre os novos, a m\u00eddia excetua alguns nomes, escolhidos, ou melhor, ungidos, por alguma grande editora, sabe-se l\u00e1 por quais crit\u00e9rios. A descoberta de autores novos com qualidade, se d\u00e1 assim como que por acaso, depois de muita leitura dispens\u00e1vel. \u00c9 garimpar o diamante na imensid\u00e3o do cascalho.<\/p>\n<p>Mas o esfor\u00e7o vale a pena quando se encontra algo como <em>Moscas <\/em>(S\u00e3o Paulo, P\u00e1gina Viva Ed., 2001) de Jos\u00e9 Roberto Melhem. Est\u00e3o ali dispostos sete contos, a maioria longos, bem ao contr\u00e1rio da predominante tend\u00eancia \u00e0 narrativa telegr\u00e1fica. Sem concess\u00f5es a esse como a qualquer outro modismo, Melhem desfila tramas simples, sem maiores mist\u00e9rios, a n\u00e3o ser os muitos que se escondem por tr\u00e1s do mais banal dos cotidianos. Isso n\u00e3o exclui a presen\u00e7a do fant\u00e1stico, como no conto Mariana, nem do absurdo, em Noitada, ou do conte\u00fado fortemente social de Moscas e Retirantes.<\/p>\n<p>Ficam assim os pontos fortes de Melhem concentrados na linguagem e estrutura narrativa. Quanto \u00e0 primeira, dir-se-ia que o autor faz a original mistura do coloquial com algo que se poderia chamar de gong\u00f3rico-jur\u00eddico, este, entretanto, tratado com h\u00e1bil auto-ironia. Para se ter uma id\u00e9ia aproximada, imagine-se um grupo de amigos, estudantes ou bachar\u00e9is de Direito, de prefer\u00eancia, dirigindo-se um ao outro na segunda pessoa do plural num boteco de quinta categoria. E mais, com todas as pompas que o jarg\u00e3o jur\u00eddico \u2013 e sua prefer\u00eancia pela ordem inversa \u2013 proporcionam. Intercalem-se aqui ou acol\u00e1, express\u00f5es coloquiais, intimistas e at\u00e9 algum bem ajustado palavr\u00e3o. Tudo disposto numa sintaxe ousada, a pontua\u00e7\u00e3o tradicional substitu\u00edda pelo ritmo do pensamento, no bom e fluido portugu\u00eas do Brasil.<\/p>\n<p>Melhem nos brinda tamb\u00e9m com inesperadas mudan\u00e7as de narrador, nunca anunciadas, mas feitas com tal habilidade que, ao inv\u00e9s de simplesmente complicar, melhor explicam, atrav\u00e9s da convoca\u00e7\u00e3o de outros pontos de vistas, e tornam a narrativa mais din\u00e2mica. As personagens dialogam entre si tanto no plano factual, como tamb\u00e9m em pensamentos. Quem conversa sozinho tem sempre um interlocutor imagin\u00e1rio. E como este tamb\u00e9m pensa, certamente ter\u00e1 outro interlocutor e assim infinitamente.<\/p>\n<p>Revelar tudo isso sem perder nem clareza nem eleg\u00e2ncia j\u00e1 seria o suficiente, mas Melhem a\u00ed n\u00e3o para. Narradores assim multiplicados dialogam tamb\u00e9m com seu alter ego, sua mem\u00f3ria, desejos, frustra\u00e7\u00f5es. S\u00e3o, portanto, v\u00e1rios planos superpostos de di\u00e1logos, a resultarem em narrativas paralelas que, quando menos se espera, se encontram. Como o fazem suas similares matem\u00e1ticas no infinito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Moscas Jos\u00e9 Roberto Melhem Entre n\u00f3s as boas novidades editoriais s\u00e3o ofuscadas, ora pelo excesso de publica\u00e7\u00f5es, ora pelo err\u00e1tico incensar que a m\u00eddia dedica ao que nem sempre, quase nunca, \u00e9 o melhor. \u00c0 primazia dos livros de auto-ajuda &hellip; <a href=\"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2001\/12\/15\/ficcao-em-multiplos-planos\/\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[142,13,150],"class_list":["post-116","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-critica","tag-jose-roberto-melhem","tag-literatura","tag-literatura-brasileira"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=116"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":783,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116\/revisions\/783"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=116"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=116"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=116"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}