{"id":111,"date":"2007-04-01T20:54:00","date_gmt":"2007-04-01T23:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/?p=111"},"modified":"2008-09-26T01:13:20","modified_gmt":"2008-09-26T04:13:20","slug":"fabio-lucas-critico-e-humanista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/2007\/04\/01\/fabio-lucas-critico-e-humanista\/","title":{"rendered":"F\u00c1BIO LUCAS, CR\u00cdTICO E HUMANISTA"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/115.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-399\" src=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/115.jpg\" alt=\"\" width=\"75\" height=\"100\" \/><\/a>Tamb\u00e9m conhecido como Nobel Brasileiro ou, mais afetuosamente, Nobelzinho, o Pr\u00eamio Conrado Wessel de Arte, Ci\u00eancia e Cultura, se constitui no mais importante de sua categoria em nosso pa\u00eds. Entre os contemplados surgem nomes como Aziz Ab\u00b4S\u00e1ber, Isa\u00edas Raw, Maria In\u00eas Schmidt, Adib Jatene e Ferreira Gullar. Atestam ainda a seriedade do pr\u00eamio, concedido pela Funda\u00e7\u00e3o Conrado Wessel, as demais entidades que o promovem: Fapesp, Capes, CNPq, SBPC, ABC, ABL e CTA. Outros organismos p\u00fablicos e privados com o mesmo grau de excel\u00eancia tamb\u00e9m indicam membros para as comiss\u00f5es julgadoras.<\/p>\n<p>A categoria Cultura, representada pela Literatura, contemplou no ano de 2005,\u00a0 nosso caro F\u00e1bio Lucas, ex-presidente por cinco gest\u00f5es da UBE, ex-presidente de seu Conselho Deliberativo e Fiscal e atual presidente do Conselho Editorial deste <em>O Escritor<\/em>. Com muita justi\u00e7a.<br \/>\n<strong><br \/>\nF\u00e1bio Lucas: um dos mais importantes<br \/>\ncr\u00edticos liter\u00e1rios do pa\u00eds.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o que pr\u00eamios e honrarias sejam novidades para F\u00e1bio Lucas, um dos mais importantes cr\u00edticos liter\u00e1rios do pa\u00eds. A\u00ed est\u00e3o, entre outros, o Juca Pato, como Intelectual do Ano de 1992, oferecido pela Uni\u00e3o Brasileira de Escritores; o Jabuti e o Amigo do Livro, ambos pela CBL; o de Melhores do Ano \u2013 Setor Cr\u00edtica, pela APCA; a Medalha de Honra ao M\u00e9rito Machado de Assis, pela UBE\/Nova Iorque; o Fernando Chinaglia pela UBE\/RJ; a Medalha Santos Dumont pelo Governo de Minas Gerais; e a Homenagem pela Cidade de S\u00e3o Paulo \u201cpor sua contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura e \u00e0 democracia nos \u00faltimos 21 anos\u201d, pr\u00eamio de edi\u00e7\u00e3o \u00fanica ocorrida em 1995.<\/p>\n<p>Nem novidade, nem coroa\u00e7\u00e3o. A contribui\u00e7\u00e3o de Lucas \u00e0 nossa cultura mant\u00e9m-se ativa, plena e prof\u00edcua. E, se n\u00e3o se encerrou, n\u00e3o se encerra tamb\u00e9m o reconhecimento devido. O Pr\u00eamio Conrado Wessel foi, deste modo, o correspondente a mais uma etapa.<\/p>\n<p>Outros reconhecimentos vir\u00e3o para o incessante trabalho do intelectual incans\u00e1vel, sempre dedicado ao estudo das teorias liter\u00e1ria e sociol\u00f3gica e seu constante devir \u00e0 luz de suas din\u00e2micas intr\u00ednsecas e extr\u00ednsecas, estas relacionadas ao que no universo, real e simb\u00f3lico, est\u00e1 sempre em muta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Porque a\u00ed reside a matriz filos\u00f3fica, axial de F\u00e1bio Lucas. O que o obriga ainda a acompanhar, estudar e decifrar as manifesta\u00e7\u00f5es concretas tanto da Pol\u00edtica quanto da Literatura. Acompanhar e propor, estudar e participar, decifrar e posicionar-se sobre todas as quest\u00f5es que dizem respeito \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana, desde seu modo de viver, sobreviver e relacionar-se at\u00e9 as formas pelas quais ela \u2013 humanidade \u2013 expressa, pela arte liter\u00e1ria, a representa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e est\u00e9tica daquela condi\u00e7\u00e3o. O real sempre em mudan\u00e7a exige ainda novas interpreta\u00e7\u00f5es que, por sua vez, se inserem e se conflitam com as teorias interpretativas pr\u00e9-existentes.<\/p>\n<p><strong>O papel do cr\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>Este \u00e9 o papel do cr\u00edtico. Muito mais complexo que o de um mero apreciador e divulgador de obras liter\u00e1rias. Papel de quem sabe que a Hist\u00f3ria interage com a Teoria e com a manifesta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, ainda que estas tenham sua parcela de desenvolvimento aut\u00f4nomo. E que, por isso mesmo, tamb\u00e9m contribuem ao refazer hist\u00f3rico, atrav\u00e9s do que de cr\u00edtico , de ut\u00f3pico, oferecem \u00e0 reflex\u00e3o e a\u00e7\u00e3o humanas.<\/p>\n<p>Ao afastar-se das teorias mecanicistas, que atribuem \u00e0 arte papel meramente reflexo da condi\u00e7\u00e3o humana concreta e, da\u00ed seu compromisso imediato, panflet\u00e1rio com a mudan\u00e7a, o cr\u00edtico, como o artista, tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser seduzido pelas teorias esteticistas t\u00e3o em voga, e manifestas em nosso meio atrav\u00e9s de literatices alheias \u00e0 realidade e sua din\u00e2mica. Como se a arte ca\u00edsse do c\u00e9u e f\u00f4ssemos todos n\u00f3s, escritores, anjos et\u00e9reos bafejados pela inspira\u00e7\u00e3o de intang\u00edveis musas.<\/p>\n<p>Ao descrever seu ambiente, o artista o interpreta; ao mostrar o \u00e9, deixa impl\u00edcita sua conformidade \u2013 assim sempre ser\u00e1 \u2013 ou sua indigna\u00e7\u00e3o,\u00a0 e a conseq\u00fcente utopia do que poderia ser. Volunt\u00e1ria ou involuntariamente, assume uma ou outra vis\u00e3o de mundo. O mais descolado escritor trai suas representa\u00e7\u00f5es. Estas poder\u00e3o ser ideol\u00f3gicas ou ut\u00f3picas. As primeiras s\u00e3o conjuntos de id\u00e9ias e valores que servem \u00e0 legitima\u00e7\u00e3o de sistemas de domina\u00e7\u00e3o; as segundas s\u00e3o cr\u00edticas, portanto, emancipadoras.<\/p>\n<div id=\"attachment_401\" style=\"width: 130px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/fabiolucas1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-401\" class=\"size-medium wp-image-401\" src=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/levi\/files\/fabiolucas1.jpg\" alt=\"F\u00e1bio Lucas\" width=\"120\" height=\"179\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-401\" class=\"wp-caption-text\">F\u00e1bio Lucas<\/p><\/div>\n<p>F\u00e1bio nota que, se a obra liter\u00e1ria \u00e9 sempre interpreta\u00e7\u00e3o do real, a cr\u00edtica \u00e9 outra interpreta\u00e7\u00e3o. Compete ao cr\u00edtico trabalhar com a tens\u00e3o entre a manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica e as informa\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas que a compreendem; entre a interpreta\u00e7\u00e3o livre do artista e a teoria que interpreta o real e sua din\u00e2mica. E, se for o caso, deixar expl\u00edcitas as eventuais representa\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas ou ut\u00f3picas que informam a obra em an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Observa-se que o cr\u00edtico apenas se al\u00e7ar\u00e1 \u00e0 plenitude desta condi\u00e7\u00e3o se ultrapassar o strictu sensu das adjetiva\u00e7\u00f5es, sejam as de liter\u00e1rio, de teatro, cinema, m\u00fasica ou artes pl\u00e1sticas. O cr\u00edtico pleno \u00e9 aquele que compreende sua tem\u00e1tica dentro de teorias explicativas mais amplas das rela\u00e7\u00f5es humanas e da mudan\u00e7a social. A especializa\u00e7\u00e3o \u00e9 outra coisa. Ela\u00a0 ocorre pela afinidade, pela forma\u00e7\u00e3o e pelo volume de informa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas.<\/p>\n<p>O cr\u00edtico n\u00e3o avalia apenas as t\u00e9cnicas da linguagem, mas desvela, de um lado, suas transcend\u00eancias e contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 est\u00e9tica e, de outro, as representa\u00e7\u00f5es sociais a que o autor e obra se filiam. Ao faz\u00ea-lo, revela novas utopias al\u00e9m das contidas na obra original. Para tanto, se nutre das teorias que explicam a obra em quest\u00e3o, bem como as citadas representa\u00e7\u00f5es ut\u00f3picas ou ideol\u00f3gicas presentes em cada tempo hist\u00f3rico, em cada forma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p><strong>Bem cultural versus mercadoria<\/strong><\/p>\n<p>Por esse caminho, pode-se compreender outros eixos orientadores do trabalho de F\u00e1bio Lucas: sua op\u00e7\u00e3o pela literatura brasileira e, dentro dela, pelo que julga de maior signific\u00e2ncia para nosso autoconhecimento e auto-estima. Al\u00e9m, sua capacidade de contribui\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento est\u00e9tico e cultural.<\/p>\n<p>F\u00e1bio rejeita a submiss\u00e3o a c\u00e2nones ex\u00f3ticos, antes eurocentristas, hoje predominantemente anglo-americanos. Veiculados \u00e0 exaust\u00e3o pela m\u00eddia e recebidos com aplauso pelos menos avisados, eles s\u00e3o tidos como superiores e universais quando n\u00e3o passam de c\u00e2nones relacionados a outras forma\u00e7\u00f5es culturais a n\u00f3s impostos pelo sistema de domina\u00e7\u00e3o neocolonial.<\/p>\n<p>Longe de ufanismos, contudo, incluem-se na op\u00e7\u00e3o do cr\u00edtico Lucas outras manifesta\u00e7\u00f5es em l\u00edngua portuguesa, bem como as que ocorrem entre nossos vizinhos hisp\u00e2nicos. E, de modo geral, toda a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria\u00a0 que, mesmo ex\u00f3tica, n\u00e3o se apresenta embalada pela ind\u00fastria cultural destinada ao mercado global, nem se v\u00ea precedida de espetaculares campanhas publicit\u00e1rias. A distin\u00e7\u00e3o que mais importa \u00e9 a de bem cultural versus mercadoria.<\/p>\n<p>De resto, o cr\u00edtico e o cientista social se encontram e se completam na atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de F\u00e1bio, aqui resumida em sua participa\u00e7\u00e3o ininterrupta em todo movimento que visasse a liberdade e a justi\u00e7a social, o que lhe custou a aposentadoria compuls\u00f3ria e o ex\u00edlio em tempos de ditadura.<\/p>\n<p>A luta continua e os objetivos perseguidos, por mais long\u00ednquos, permanecem claros para os que n\u00e3o capitulam em face de um ou outro rev\u00e9s. Ao contr\u00e1rio, as metas se ampliam, ou descobrem novas prioridades e, hoje se na luta estrat\u00e9gica pela unidade cultural, econ\u00f4mica e pol\u00edtica da Am\u00e9rica do Sul. \u00danica forma de emancipa\u00e7\u00e3o do subcontinente ao imp\u00e9rio e a modelos que subjugam seus povos.<\/p>\n<p>Por fim, neste n\u00famero em que <em>O Escritor <\/em>homenageia Jorge Amado \u00e9 oportuno lembrar que F\u00e1bio teve a ousadia de defender o grande escritor baiano,\u00a0 \u201cent\u00e3o execrado por uma parcela da cr\u00edtica, ao mostrar que &#8211; na contram\u00e3o de vis\u00f5es colonialistas,\u00a0 submissas a modelos importados &#8211; Amado foi dos poucos a furar o bloqueio imposto aos nossos escritores, levando ao mundo um estilo de contar viv\u00eancias brasileiras\u201d.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Editorial da <a href=\"http:\/\/www.scortecci.com.br\/lermais_materias.php?cd_materias=4273\">Revista O Escritor<\/a>, n\u00ba 115, abr.2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tamb\u00e9m conhecido como Nobel Brasileiro ou, mais afetuosamente, Nobelzinho, o Pr\u00eamio Conrado Wessel de Arte, Ci\u00eancia e Cultura, se constitui no mais importante de sua categoria em nosso pa\u00eds. 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