{"id":494,"date":"2010-09-03T21:17:06","date_gmt":"2010-09-03T21:17:06","guid":{"rendered":"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/cbc\/?p=494"},"modified":"2010-09-08T17:08:54","modified_gmt":"2010-09-08T17:08:54","slug":"dez-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.utopia.org.br\/cbc\/2010\/09\/03\/dez-anos-depois\/","title":{"rendered":"Dez anos depois"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>Em 2001, j\u00e1 criada a ANCINE, fez-se um novo congresso, o 4\u00ba. Ainda ardia o fogo do 3\u00ba, mas come\u00e7ava a delinear-se a ruptura de uma unanimidade que depois viria dar na constitui\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum do Audiovisual e Cinematogr\u00e1fico, separando o cinema industrial do cinema independente.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><strong>Artigo de Gustavo Dahl publicado na Revista de Cinema<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>A mem\u00f3ria conserva a impress\u00e3o de dois pren\u00fancios do 3\u00ba. Congresso Brasileiro. A primeira remete ao 1\u00ba. Encontro Nacional de Cinema, o  ENCINE, feito no in\u00edcio dos anos 80, quando eu dirigia a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Cineastas (ABRACI) e Aloysio Raulino, a Associa\u00e7\u00e3o <a title=\"Gustavo Dahl, quarto da direita para a esquerda, ao lado do Governador Ol\u00edvio Dutra, \u00e0 sua esquerda, em Porto Alegre, na noite de abertura do 3\u00ba CBC\" href=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/cbc\/files\/2010\/08\/gustavo_dahl_a.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/blogs.utopia.org.br\/cbc\/files\/2010\/08\/gustavo_dahl.jpg\" alt=\"Gustavo Dahl\" width=\"300\" height=\"193\" class=\"alignleft size-full wp-image-500\" align=\"left\"><\/a>Paulista de Cineastas (APACI). No final do encontro, passando a minha presid\u00eancia para o rec\u00e9m-eleito Sergio Rezende, promovi uma foto com todos os presidentes de entidades que estavam l\u00e1. Foi bonito, quase emocionante. J\u00e1 vivia em mim a no\u00e7\u00e3o de que se o cinema brasileiro n\u00e3o se apresentasse unificado perante o governo e a sociedade, ouviria em reposta a seus pleitos aquela cl\u00e1ssica: \u201cprimeiro entendam-se entre si, depois conversamos\u201d. Era a maneira habitual com que os \u201canseios do cinema brasileiro\u201d eram desqualificados. Inesquec\u00edvel a frase de Eduardo Portella, quando estava Ministro da Educa\u00e7\u00e3o no governo Figueiredo, a respeito da sucess\u00e3o da Embrafilme que terminou dando Celso Amorim: \u201cNo cinema brasileiro dois cineastas fazem um partido\u201d. Desinstitucionaliza\u00e7\u00e3o e incapacidade de construir mecanismos leg\u00edtimos de representa\u00e7\u00e3o s\u00e3o os males do Brasil. E ainda s\u00e3o.<\/p>\n<p>A segunda marca da mem\u00f3ria \u00e9 o semin\u00e1rio promovido pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural de Bras\u00edlia, quando presidida por Nilson Rodrigues, na gest\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. Final dos anos 90. Ele chamou Augusto Sev\u00e1, que depois me chamou, para fazer o evento que terminou tendo o t\u00edtulo de \u201cCinema Brasileiro: Estado ou Mercado?\u201d. No final, saiu o manifesto em que constava pela vez primeira a express\u00e3o \u201crepolitiza\u00e7\u00e3o do cinema brasileiro\u201d. <\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Nilson prop\u00f4s um congresso. Por seu lado, Beto Rodrigues, em Porto Alegre, outra prefeitura do PT como Bras\u00edlia, estava na Fundacine com ideia semelhante. A vontade prosperou, Roberto Farias, com sua autoridade e generosidade, foi chamado para presidir o congresso e me chamou para a secretaria executiva. Era a velha dupla da Embrafilme 75\/79 se refazendo. J\u00e1 t\u00ednhamos nos enfrentado em luta pol\u00edtica no passado. Ele me chamar e eu aceitar era prova de car\u00e1ter e fidelidade \u00e0 causa do cinema brasileiro. De ambos. Depois ele n\u00e3o p\u00f4de, por conta de compromissos j\u00e1 assumidos. E l\u00e1 fui eu.<\/p>\n<p>O eixo Rio-Porto Alegre funciona no Brasil desde Get\u00falio e a Revolu\u00e7\u00e3o de Trinta. Funcionou de novo. A necessidade de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e institucional era t\u00e3o grande que \u00e0 convoca\u00e7\u00e3o atenderam 44 entidades, do sindicato dos distribuidores majors \u00e0 ABD, dos produtores aos pesquisadores, dos novi\u00e7os aos cardeais. A capacidade de trabalho e de s\u00edntese de Giba Assis Brasil, combinada com aquela de sistematiza\u00e7\u00e3o de Aurelino Machado, produziu um impressionante relat\u00f3rio final, com 69 pontos. Estava tudo l\u00e1. Seria did\u00e1tico reexamin\u00e1-los para ver o que se conseguiu, o que perimiu e o que permanece. Durante os tr\u00eas dias do 3\u00ba. Congresso, tinham todos a sensa\u00e7\u00e3o de que pelas assembl\u00e9ias cheias de fervor soprava o vento da hist\u00f3ria do cinema brasileiro.<\/p>\n<p>O primeiro ponto do relat\u00f3rio final se referia \u00e0 necessidade de transformar o 3\u00ba. Congresso numa entidade permanente. Assim foi feito. Mas evitou-se enfrentar o principal: o sistema de representa\u00e7\u00e3o. Nas assembleias do 3\u00ba. Congresso, os delegados votavam individualmente. Na entidade era preciso levar em conta a representatividade das associa\u00e7\u00f5es, sindicatos e institui\u00e7\u00f5es que comporiam sua assembleia geral. \u00c9 tradi\u00e7\u00e3o que a falta de poder da corpora\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica fa\u00e7a com que migalhas de poder sejam disputadas ferozmente. N\u00e3o deu outra. A ideia de dirimir conflitos de interesse por meio do consenso parecia ut\u00f3pica. Prevaleceu o esp\u00edrito juvenil de levantar o crach\u00e1 e bater chapa. O que deveria ser a composi\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre a esquerda, o centro e a direita do processo cinematogr\u00e1fico n\u00e3o colou. Mesmo assim a federa\u00e7\u00e3o de todas aquelas entidades que havia ocorrido no 3\u00ba. Congresso dava \u00e0 entidade CBC uma certa autoridade. Ela foi chamada a discutir com a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, o Minist\u00e9rio da Cultura e os caciques Luiz Carlos Barreto, Cac\u00e1 Diegues, um presente do qual o governo FHC n\u00e3o estava dando conta. O CBC representava \u201co povo do cinema\u201d, como diziam o Senador Francelino Pereira e seu assessor Jo\u00e3o da Silveira, que tinham feito no Senado Federal a subcomiss\u00e3o do Cinema Brasileiro, que tamb\u00e9m compunha a cena pol\u00edtica. Dessa movimenta\u00e7\u00e3o nasceu o Grupo Executivo da Ind\u00fastria do Cinema, o GEDIC, que daria origem \u00e0 Ag\u00eancia Nacional do Cinema. Mas esta \u00e9 outra hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Em 2001, j\u00e1 criada a ANCINE, fez-se um novo congresso, o 4\u00ba. Ainda ardia o fogo do 3\u00ba, mas come\u00e7ava a delinear-se a ruptura de uma unanimidade que depois viria dar na constitui\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum do Audiovisual e Cinematogr\u00e1fico, separando o cinema industrial do cinema independente. Exatamente o contr\u00e1rio do que pretendia o 3\u00ba. Congresso. Mas as coisas acontecem da \u00fanica maneira que podem acontecer.<\/p>\n<p>Depois de sete anos dedicados ao 3\u00ba. Congresso, ao GEDIC e \u00e0 ANCINE, me afastei da pol\u00edtica cinematogr\u00e1fica. Fazia 30 anos que eu teimava contribuir para criar um mercado para o cinema brasileiro: na Superintend\u00eancia de Comercializa\u00e7\u00e3o da Embrafilme, a inesquec\u00edvel SUCOM, no Conselho Nacional do Cinema, no GEDIC, na ANCINE; acreditando na for\u00e7a cultural do que poderia ter sido uma ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica brasileira, numa vis\u00e3o sist\u00eamica que desse conta da abrang\u00eancia do todo, distinguindo mas n\u00e3o separando o cinema autoral daquele de entretenimento. Hoje acredito que entrar no esquema tradicional, convencional, de exibi\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica equivale a jogar um avi\u00e3o sobre as torres do castelo ou sobre seu quartel general. A converg\u00eancia tecnol\u00f3gica, a revolu\u00e7\u00e3o digital, a internet que criou novas redes sociais e modelos de neg\u00f3cios se apresentam como um intenso farol de proa, contra a esmaecida lanterna de popa das velhas m\u00eddias. L\u00f3gico, o cinema \u00e9 sagrado e a televis\u00e3o aberta universalizante. Mas num mundo que se suicida aquecendo o planeta, que n\u00e3o admite a liberdade do corpo \u2013 desde que n\u00e3o prejudique ao outro, acabando com a interdi\u00e7\u00e3o do aborto e das drogas, a discrimina\u00e7\u00e3o e a repress\u00e3o sexual \u2013 \u00e9 preciso avan\u00e7ar. Um mundo que consome e desperdi\u00e7a o sup\u00e9rfluo tirando o b\u00e1sico de quem precisa, com 3 bilh\u00f5es de telas nas mais diferentes formas de equipamentos e servi\u00e7os, carece de uma nova pol\u00edtica. Um novo congresso, onde liberdade e solidariedade conversem entre si.<\/p>\n<blockquote><p><em>Gustavo Dahl \u00e9 cineasta, foi o primeiro presidente do CBC e o primeiro diretor-presidente da Ancine, entre 2001 e 2006. Exerce atualmente a dire\u00e7\u00e3o do CTAV, Centro T\u00e9cnico Audiovisual do Minist\u00e9rio da Cultura.<\/em><\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2001, j\u00e1 criada a ANCINE, fez-se um novo congresso, o 4\u00ba. 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