Arquivo de março, 2009

Inútil sou (Alfonsina Storni)

Por seguir das coisas o compasso,
às vezes, quis neste século ativo,
pensar, lutar, viver com o que vivo,
ser no mundo algum parafuso a mais.
Mas, atada ao sonho sedutor,
do meu instinto voltei ao escuro poço,
pois, como algum inseto preguiçoso
e voraz, eu nasci para o amor.
Inútil sou, pesada, torpe, lenta,
meu corpo, ao sol estendido, se alimenta
e só vivo [...]

Quando cheguei à vida (Alfonsina Storni)

Vela sobre minha vida, meu grande amor imenso.
Quando cheguei à vida trazia em suspense,
na alma e na carne, a loucura inimiga,
o capricho elegante e o desejo que açoita.
Encantavam-me as viagens pelas almas humanas,
a luz, os estrangeiros, as abelhas leves,
o ócio, as palavras que iniciam o idílio,
os corpos harmoniosos, os versos de Virgílio.
Quando sobre teu peito [...]

Sabeis algo? (Alfonsina Storni)

Subi, subi, subi. Já estava bem em cima
quando senti um murmúrio. Era desafio, diatribe?
Escutei: gargalhadas, ironias, insultos.
O que vos pareço uma símia? Oh meus bons estultos.
Sabeis de coisas belas?
Eu, fazem séculos que vivo trança que trança estrelas.
(Tradução de Héctor Zanetti)
» Biografia de Alfonsina Storni
¿Sabéis algo?
Alfonsina Storni
Subí, subí, subí. Ya estaba bien arriba
Cuando sentí un murmullo. [...]

Dorme tranquilo (Alfonsina Storni)

Falaste a palavra que enamora
meus ouvidos. Já esqueceste? Bom.
Dorme tranquilo, deve estar sereno
e charmoso o teu rosto a toda hora.
Quando encanta a boca sedutora
deve ser fresca, seu dizer ameno;
Para teu ofício de amante não é bom
o rosto ardido de quem muito chora.
Reclamam-te destinos mais gloriosos
que o de levar, entre os negros poços
das olheiras, o olhar [...]

Palavras a um habitante de Marte (Alfonsina Storni)

Será verdade que existes sobre o vermelho planeta,
que, como eu, possuis finas mãos prêensíveis,
boca para o riso, coração de poeta,
e uma alma administrada pelos nervos sutis?
Mas no teu mundo, acaso, se erguem as cidades
como sepulcros tristes? As assolou a espada?
Já tudo tem sido dito? Com o teu planeta acrescentas
à vasta harmonia outra taça vazia?
Se fores [...]

Homem pequenino (Alfonsina Storni)

Homem pequenino, homem pequenino,
solta teu canário que quer voar…
Eu sou teu canário, homem pequenino,
deixa-me saltar.
Estive na tua gaiola, homem pequenino,
homem pequenino que gaiola me dás.
Digo pequenino porque não me entendes,
nem me entenderás.
Também não te entendo, mas enquanto isso
abre-me a gaiola que quero escapar;
Homem pequenino, te amei meia hora,
não me peças mais.
(Tradução de Héctor Zanetti)
» Biografia [...]

Vou dormir (Alfonsina Storni)

Dentes de flores, touca de sereno,
Mãos de ervas, tu, ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.
Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada à cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho
Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos…
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça [...]

O rogo (Alfonsina Storni)

Senhor, Senhor, faz já tanto tempo, um dia
Sonhei um amor como jamais pudera
Sonhá-lo ninguém, algum, amor que fora
A vida toda, toda a poesia…
E passava o inverno e não vinha,
E passava também a primavera,
E o verão de novo persistia,
E o outono me encontrava em minha espera.
Senhor, Senhor; minhas costas estão desnudas.
Faça estalar ali, com mão rude,
O [...]

A carta (Violeta Parra)

Me mandaram uma carta
Pelo correio cedo
Nessa carta me dizem
Que caiu preso meu irmão
E sem compaixão com grilhões
Pelas ruas o arrastaram.
Sim…
A carta disse o motivo
Que há cometido Roberto:
Haver apoiado a greve
Que já se havia resolvido
Se acaso isso é um motivo
Preso vou também sargento.
Sim…
Eu que me encontro tão longe,
Esperando uma notícia,
Me vem a dizer na carta
Que em [...]

Te recordo Amanda (Victor Jara)

Te recordo Amanda,
a rua molhada,
Correndo à fábrica,
onde trabalhava Manuel…
O sorriso largo,
a chuva no cabelo
Não importava nada,
ias a encontrar-te com ele…
Com ele, com ele, com ele, com ele…
São cinco minutos. a vida é eterna em cinco minutos.
Soa a sirene, de volta ao trabalho
E tu… caminhando o iluminas tudo,
Os cinco minutos te fazem florescer
Te recordo Amanda, a [...]