Posts Tagged ‘literatura contemporânea’

Salim Miguel – A vida breve de Sezefredo das Neves, Poeta

2 de fevereiro de 2010

O livro conta a história do mais talentoso poeta de uma geração, e que se torna mais tarde um grande empresário. Mas, a partir daí torna-se um homem impermeável a qualquer interesse pela arte.

A obra foi considerada, ao mesmo tempo, o retrato de uma geração perdida e um exercício de criação literária.

O autor, Salim Miguel, volta aos locais preferidos do escritor, sua Biriguaçu da infância e a Florianópolis da juventude, na qual um grupo de jovens intelectuais ensaiava uma nova literatura

Devo dizer que Salim Miguel, nascido no Líbano,  transformou-se num dos mais conhecidos autores catarinenses e um dos mais importantes autores contemporâneos brasileiros.

Em 2001 foi eleito Intelectual do Ano tendo recebido por isso o Troféu Juca Pato da União Brasileira de Escritores.

 

 

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura do Brasil.

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

8 de dezembro de 2009

coutoMia Couto
Cia. das Letras

O estudante universitário Marianinho volta à ilha de Luar-do-Chão depois de anos de ausência. Seu retorno é um imperativo: ele fora incumbido de comandar as cerimônias fúnebres do avô Dito Mariano, de quem recebera o mesmo nome.

Neto favorito do patriarca, o rapaz chega à ilha e se vê no centro de uma série de intrigas e de segredos familiares, que envolvem seu pai, Fulano Malta, a avó Dulcineusa, os tios Abstinêncio, Ultímio e Admirança, e também as nebulosas circunstâncias em torno da morte de sua mãe, Mariavilhosa.

Marianinho logo descobre que o falecimento do avô permanece estranhamente incompleto e esconde desígnios que escapam à força dos homens – como tudo nessa enigmática Luar-do Chão.

O autor deste livro, o moçambicano Mia Couto, é um dos mais importantes escritores africanos de hoje. Neste romance, a situação de conflito entre a deriva da África pós-colonial e o arraigamento das tradições ganha retrato exemplar numa saga familiar poética e fantástica.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

O livro dos mandarins

8 de dezembro de 2009

mandarimRicardo Lísias
Ed. Alfaguara

Este é um romance único na literatura brasileira. Seu autor, Ricardo Lísias, alia as reviravoltas e o suspense da trama um estilo literário vibrante e original, para narrar a trajetória de um executivo bem-sucedido que tem como obsessão ser escolhido no banco em que trabalha, para uma vaga na China.

Para montar sua carta de intenções, ele vai muito além de seus concorrentes. Estuda mandarim, pesquisa dados históricos e culturais sobre o país, lê até a biografia de Mao Tse-Tung, e se torna, enfim, um especialista.

Uma vez em Pequim, sua carreira estará garantida. Poderá galgar postos no banco, chegando à presidência do conselho em Londres. Depois, quem sabe, escrever um livro de auto-ajuda para jovens executivos e até abrir sua própria empresa de mentoring, coaching e counselling.

Paulo só não conta com um pequeno detalhe: os planos reservados a ele são muito diferentes do que poderia imaginar.

O livro dos mandarins é um romance surpreendente, permeado de bom-humor e de momentos desconcertantes, de um dos autores mais originais de sua geração.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

A mãe e o filho da mãe & A máquina de fazer amor

8 de dezembro de 2009

mãeWander Pirolli
Ed. Leitura

São dois livros num só volume. Vantagem dupla para o leitor porque se tratam de dois livros ótimos de um dos melhores autores de nossa ficção contemporânea: Wander Pirolli.

Utilizando uma linguagem coloquial, artisticamente elaborada, o autor flagra trabalhadores , donas de casa, desempregados, gente simples em momentos cruciais de suas vidas.

Das 29 histórias aqui reunidas algumas são consideradas obras primas do conto brasileiro: Os camaradas; A mãe e o filho da mãe; Trabalhadores do Brasil; Festa; Manhã seguinte; Lá no morro; Até amanhã; Crítica da razão pura; Até logo, mamãe; e Um pedido de demissão.

O grande mérito deste autor é o de conseguir elevar esta gente humilde à categoria de heróis das aventuras do dia a dia.

A edição traz ainda ilustrações muito adequadas de Odilon Moraes.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Uma casa na escuridão

8 de dezembro de 2009

escurJosé Luís Peixoto
Ed. Record

O autor português, José Luís Peixoto faz um ambiente rotineiro ser sacudido de maneira brutal por bárbaros que decepam com requintes de maldade os habitantes de uma casa onde todos coexistiam num breu solitário.

Uma história fantástica, contada em prosa poética por um sensível narrador entre o desespero e o conformismo. Com muita ficção e irrealidade em um cenário de sentimentos absolutamente reais.

Uma casa na escuridão é uma magistral alegoria do fim da nossa civilização, uma bela denúncia da barbárie que nos submerge, na qual toda a esperança na humanidade se esvai.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Os estranhos

7 de dezembro de 2009

Capa_OsEstranhosCarla Dias
Ed. SIC

Kalé e Alice sofrem de fobia social. Tem medo do convívio com as pessoas, de seu comportamento padrozinado, por isso preferem viver emocionalmente isolados.

Ele é escritor, ela cineasta. Quando se conhecem, ela faz vídeos com pessoas psicologicamente perturbadas enquanto ele está tentando escrever um romance. Kalé, em busca de sossego para escrever, aluga um quarto no apartamento de Alice. E aí começa um jogo de sedução e estranhamento comum entre homem e mulher.

Por isso, estamos diante de um romance feito de pequenos segredos e fortes confissões ao longo do qual lealdade e confiança são sempre postas em questão.

Dentro deste romance há outro, aquele que Kalé começou a escrever secretamente sobre a vida de Alice. Kalé faz como que um contraponto: Tudo que na vida real é conturbado, agressivo, em seu novo livro aparece cheio de ternura.

Tudo isso permite ao leitor um duplo olhar sobre a realidade e as relações humanas; como são e como poderiam ser. Como diz sobre o livro o escritor e crítico Nelson de Oliveira “… é muito bom poder observar alguns demônios de perto, pacificados por um suave estilo literário”.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

A última corrida

29 de novembro de 2009

ultimaMarcos Rey
Global Editora

Mais uma história envolvente e magistralmente escrita pelo grande Marcos Rey. O enredo é cheio de emoção, e os personagens, gente de carne e osso, cruzam seus lances no jogo da vida, amando, sofrendo, vibrando e apostando tudo n’A última corrida.

O romance tem o turfe ou corridas de cavalo como pano de fundo, mas isso não deixa de ser uma alegoria para a corrida da vida.

Marcos Rey, como num filme – e isso ele sabia fazer – conduz o leitor para além do espaço onde se passa a história. Numa linguagem sedutora, enxuta, sem subterfúgios, a trama provoca e estimula o interesse o leitor.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Cisão

29 de novembro de 2009

cisaoLívia Sganzerla Jappe
Ed. 7 Letras

Mais que um romance, o primeiro livro da jornalista Lívia Saganzerla Jappe funde ficção e filosofia, refletindo a separação entre corpo e espírito.

Esse dilema milenar conduz a história do casal Theodoro e Inácia. O par amoroso retrata aquela dicotomia existencial em todos os diálogos, monólogos e encontros. Desta forma, o casal se embrenha em teorias e artifícios atrás dos quais pretendem esconder a verdade mais íntima de cada um.

O livro vai mostrar que tudo isso, no entanto, não protege os protagonistas dos desejos mais humanos.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

O albatroz azul

29 de novembro de 2009

albatrozJoão Ubaldo Ribeiro
Ed. Nova Fronteira

O mais recente romance do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, traz um protagonista que caminha, imperturbável, para a própria morte: Tertuliano. Ele é o herdeiro decaído de grandes proprietários de terra, um homem de bem que, no dia do nascimento de um neto, descobre presságios de que sua hora se aproxima. Seu pai, bígamo – constituíra família com duas irmãs –, teve de se casar com uma de suas mulheres para receber uma herança. Para não ser prejudicado na sucessão, o garoto Tertuliano foi instado a renegar a própria mãe e se declarar filho da outra. Recusou-se, em um gesto de dolorida dignidade.

A busca espiritual de Tertuliano resulta um tanto vaga e confusa, misturando concepções espíritas e filosofices populares. Mas o parágrafo final põe as coisas no lugar. Vida, morte, renovação são o eixo em torno do qual se desenrola a trama simples deste romance magnífico.

Romance destinado a incorporar-se ao melhor patrimônio literário de nossa língua, um momento de rara beleza, daqueles cuja mágica se abre ao leitor desde a primeira página.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Tony Castellmare jamais perdoa

29 de novembro de 2009

tony_castellamareSílvio Lancelloti
LPM Edições

O livro anterior de Sílvio Lancelloti Honra ou Vendetta inspirou a telenovela Poder Paralelo, de Lauro César Muniz.

Este livro pode ser considerado uma espécie continuação do primeiro, pois traz de volta alguns personagens e mostra como transcorreram os dez anos seguintes ao terrível atentado que vitimou a primeira esposa e o filho do protagonista Tony Castellmare.

No intuito de reconstruir sua vida, Tony encontrará alguns percalços, como um terrorista perseguido por seu melhor amigo e uma misteriosa mulher.

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Os prisioneiros

29 de novembro de 2009

prsionRubem Fonseca
Ed. Agir

Estamos diante de um dos mais apreciados escritores brasileiros contemporâneos: Rubem Fonseca, autor de Agosto, A grande arte e outras grandes obras.

Pois bem, este é o seu primeiro livro, agora republicado pela editora Agir. São onze histórias curtas que impressionaram a crítica em 1963 e impressionam até hoje muitos leitores que se tornaram aficionados pelo estilo de Rubem Fonseca.

Em 1963, o crítico literário Wilson Martins escreveu sobre este livro: “Um escritor que traz a literatura no sangue”.

O conto Fevereiro ou março que abre o livro é uma das pequenas obras-primas que marcam a trajetória deste autor como contista. Aqui se misturam e interagem a brutalidade coletiva e a humanidade íntima.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

O seminarista

29 de novembro de 2009

fonsecaRubem Fonseca
Ed. Agir

Neste mais novo romance do mestre Rubem Fonseca, temos um protagonista para quem matar não causa remorso. Mas também não causa prazer.

É apenas seu trabalho, que lhe permite se dedicar àquilo que realmente ama: livros, filmes e mulheres. Não quer saber quem é a pessoa que será eliminada, nem mesmo lê os jornais do dia seguinte.

Quando, no entanto, decide que já é hora de abandonar a profissão, descobre que não é tão imune aos efeitos de seus trabalhos e de suas escolhas como acredita ser. Ao contrário, tem que enfrentar fantasmas de um passado que pensa ter superado.

Em seu décimo primeiro romance, Rubem Fonseca mais uma vez se mostra um dos mestres da narrativa brasileira, conciso e intenso, capaz de manter a tensão a cada página.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Tendências da literatura brasileira contemporânea de ficção

9 de novembro de 2009

Levi Bucalem Ferrari

Em primeiro lugar agradeço ao Ministério de Relações Exteriores do Brasil e ao Consulado-Geral do Brasil em Frankfurt, exemplarmente dirigido pelo Embaixador Cezar Amaral. Agradeço também ao Prof. Dr. Moniz Bandeira, um dos incentivadores deste evento. Ao Centro Cultural Brasileiro em Frankfurt, nesta mesa representada por Carlos Frederico Graf Schaffgotsche. Agradeço principalmente a todos os presentes pela gentileza de estarem aqui e pela confiança em nós depositada.

Confesso minhas limitações: não sou crítico nem historiador de literatura; sou apenas escritor e estou presidente da UBE – União Brasileira de Escritores. Nesta última qualidade procurando divulgar a literatura de meu país.

Na preparação desta palestra percebi também certa limitação ao tema: poucos críticos e historiadores de literatura falam ou escrevem sobre tendências contemporâneas. Preferem debruçar-se sobre o passado ou sobre determinados autores. Isto se explica pelas seguintes razões:

a) é difícil julgar com isenção quando o assunto é o presente e se está imerso no processo. No Brasil, embora se leia pouco, publicam-se muitos livros; e os autores mais novos podem confirmar-se ou decepcionar;

b) as tendências ainda não estão claramente configuradas; não há escolas ou movimentos literários que se tenham firmado como predominantes, que tenham proposto inovações temáticas ou de linguagem e mantenham número e qualidade significativas de seguidores;

c) a grande mídia contribui para confundir incensando escritores e livros de sucesso momentâneo, mas que não se sabe quanto tempo vão permanecer; nem sempre oferecem grande contribuição ao fazer literário.

Dada a escassa bibliografia, optei por complementá-la com um levantamento temático obtido através da leitura de livros, e das críticas e resenhas publicadas em jornais e revistas nos últimos anos; e na própria memória. Esclareço que, além de presidente da UBE, sou apresentador de um programa de rádio, Outras Palavras, na Rádio Cultura Brasil de São Paulo. Também escrevo resenhas e críticas para a Revista O Escritor, da UBE, e para meu blog http://blogs.utopia.org.br/levi.

Temos que começar de algum momento. O corte que proponho se inicia no final dos anos 70 e vem até os dias de hoje. Aviso desde já que os livros e autores que vierem a ser citados não estão sendo julgados ou recomendados. Nem posso garantir-lhes que sejam os melhores ou mais representativos. E muito menos que sejam os únicos. Apenas são citados porque podem representar tendências de relativa importância dentro do que se faz hoje em nossa literatura de ficção. Outros poderiam aqui estar num levantamento mais abrangente.

Nos anos 70, no auge da ditadura no Brasil, considerando-se a censura e a alta polarização ideológica (ou se era contra ou se era a favor), a literatura permaneceu na denúncia do regime ou na descrição do clima, restritivo, pesado, não raro absurdo em que vivíamos. Numa boa parte dos casos, o regime é, no mínimo, pano de fundo para as tramas que se desenvolvem. Como exemplos, podemos citar Renato Tapajós – Em câmara lenta, sobre a morte da guerrilheira Aurora do Nascimento Furtado, sob tortura; Lygia Fagundes Telles – As meninas; Wander Pirolli – Contos Selecionados; Antonio Callado – Quarup e outros; e, em vários livros, Marcos Rey, Ignácio de Loyola Brandão, Márcio de Souza e João Ubaldo Ribeiro; João Antônio; e muitos outros.

Num segundo momento, mais para o final dos anos 70 e início dos 80 (ainda sob a ditadura) alguns escritores, mesmo quando condenando ainda o regime militar, começam a denunciar a excessiva polarização política e um certo “patrulhamento ideológico” – esta era a expressão usada por alguns dos então novos autores. Aqui podemos colocar Fernando Gabeira – O que é isso companheiro?, um romance de transição porque tanto denuncia a tortura quanto o grau de “patrulhamento” vigente; Marcelo Rubens Paiva – Feliz Ano Velho; e Caio Fernando Abreu – Morangos Mofados. Nestes últimos predominam as questões interpessoais, mas o pano de fundo da ditadura se faz presente. No extremo desta tendência colocaríamos Reinaldo Moraes com Tanto Faz, denunciador do “patrulhamento”, num romance autobiográfico cuja principal característica é uma autoexposição tão excessiva que posso considerar a obra como precursora de muitos programas de televisão e internet que só fazem isso.

Nos últimos anos da ditadura, ocorre um fenômeno digno de nota: os leitores mais críticos cobram da literatura aquilo que os meios de comunicação – ainda sob censura ou autocensura – não mostram: tudo sobre prisões, torturas, mortes e desaparecimentos de opositores do regime. Os livros têm que contar a “verdade” uma vez que, supostamente, são menos censurados; e os escritores mais comprometidos com a luta democrática. Ao contrário da tendência anterior, há uma cobrança senão pelo engajamento, pelo menos, pela denúncia dos crimes da ditadura. Com alusões diretas ou indiretas, temos como exemplos: Frei Betto com Batismo de Sangue, Diário de Fernando e Cartas da prisão; Ignácio Loyola Brandão com Zero e Bebel que a cidade comeu, entre outros; Plínio Marcos com O assassinato do anão do caralho grande; Rubem Fonseca com O cobrador; Nildo Oliveira, com Olho por olho; Menalton Braff, com vários trabalhos; e meus livros O inimigo – contos; e O sequestro do senhor empresário.

Estas três tendências permanecem até os dias de hoje. Mesmo em romances e contos pouco ou nada politizados, a ditadura e seus agentes aparecem como cenário ou personagens secundárias e dignas de curiosidade. Em alguns livros deste tipo, os “resistentes” são glorificados como idealistas e corajosos, a la Che Guevara enquanto os militares são sempre desalmados. Ocorre aqui muita ficção tão descontextualizada – eu diria mesmo oportunista – que descaracteriza o período e nem é digna de nota.

Um quarto momento pode ser observado com o fim da guerra fria. Num certo sentido há uma retomada da segunda tendência, mas com novos componentes. Agora já não há que enfatizar a possibilidade de mudança social e outros projetos coletivos nacionais ou ideológicos. E, nem tampouco denunciar o seu excesso. Subsiste, todavia, certa preocupação com a identidade cultural do país; a denúncia das desigualdades social e regional; a violência, a miséria, a corrupção etc… Como exemplos elencaria Silviano Santiago – Heranças; Joel Rufino dos Santos – O barbeiro e o judeu da prestação contra o sargento da motocicleta; Autran Dourado – Novelas do Aprendizado; bem como o já citado Wander Pirolli; e muitos outros.

Esta temática convive com fenômenos que, apesar de já existentes, emergem agora com mais força no debate social e intelectual, como a exclusão social, a condição feminina, os preconceitos racial e social, o homossexualismo, enfim as diversidades sociais, culturais e comportamentais. Isto aponta para uma diversidade temática ampla e diluída naquilo que podemos chamar genericamente de condição humana. Esta inclui a questão social, mas nela não se esgota. Assim, somam-se aos anteriores temas como amor, desejo, erotismo, paixão, morte, suicídio, problemas existenciais e outros. Esta diversidade temática é a característica predominante hoje na ficção brasileira e inclui autores como Luiz Ruffato – Mamma son tanto felice; Antonio Torres – Pelo fundo da agulha; Luiz Vilela – Bóris e Dóris; Jeanette Rozsas – Qual é mesmo o caminho de Swan? Anna Maria Martins – A trilogia do emparedado e outros contos; Heloisa Nunes – Amor e desejo; Adriana Lisboa – Sinfonia em branco; Carlos Nejar – Carta aos loucos; Luis André Nepomuceno – A lanterna mágica de Jeremias; Lygia Fagundes Telles, com vários livros; e nossa colega de mesa, Betty Vidigal com seu Triângulo. E muitos outros autores.

Outro fenômeno relativamente recente no que diz respeito à temática da ficção literária no Brasil é a “descoberta” da periferia, das favelas, cortiços e bairros pobres das grandes cidades. Seus habitantes convivem com a marginalidade, a violência, a promiscuidade, a doença, o descaso em graus bastante altos, inimagináveis muitas vezes. Literariamente não é fenômeno absolutamente novo. Seus precursores podem ser encontrados em Aloísio Azevedo – O Cortiço; em Jorge Amado – Capitães de Areia, Jubiabá e tantos outros romances; em Clarice Lispector – A hora da estrela. Mesmo em Graciliano Ramos – Angústia, a questão é pelo menos delineada. E vai reaparecer fortemente em Wander Pirolli, Marcos Rey, João Antônio, e Plínio Marcos, entre muitos outros.
Há quem enfatize a violência, como Paulo Lins – Cidade de Deus e Luis Eduardo Soares – Elite da tropa, enquanto outros frisam as condições de vida do trabalhador de baixa renda e as migrações internas como Roniwalter Jatobá em Tisiu e outros de seus livros.

Dentro desta tendência há que se destacar o filão aberto por Rubem Fonseca que é o da convivência, clandestina, mas bastante próxima, entre a marginalidade e a elite. Este fenômeno também vai aparecer em Chico Buarque, Marcelo Rubens Paiva e outros.
Ainda aqui aparece a da literatura feita pelos próprios “periféricos”. Os precursores podem ser encontrados nos já citados João Antônio e Plínio Marcos, como também em Carolina de Jesus, com Quarto de Despejo, Recentemente, esta tendência parte de São Paulo e ganha muita força com Ferréz – Manual prático do ódio e Capão Pecado, entre outros livros. E continua com Sacolinha, Sergio Vaz, Alessandro Buzzo, Allan da Rosa e outros. Esses autores chegaram a organizar em 2007 uma “Semana da Arte Moderna da Periferia” com pretensões explicitas – não só no título – de se compararem aos modernistas de 1922.

Cabe aqui o registro de textos ficcionais “baseados em fatos reais” e elaborados em geral numa linguagem da miséria e da violência: crua, tendendo para o naturalismo e, não raro, apelativa. Ela esbarra, entretanto, nas limitações da gíria urbana. Enquanto o falar rural ou regional – dada sua maior permanência – fez vicejar autores já clássicos como o Monteiro Lobato de Urupês, e Guimarães Rosa, em quase todos os seus livros, a gíria urbana tem pouca durabilidade e compromete a perenidade da obra que só fizer uso da mesma.

Faço notar que algumas antigas temáticas como o regionalismo, o absurdo e o fantástico já não são tão representativos, mas permanecem e se renovam nos trabalhos de Milton Hatoum, Nicodemos Sena, Caio Porfírio Carneiro, Vicente Cecim, além dos já citados Lygia Fagundes Telles e Ignácio de Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro, Márcio de Souza e outros. Note-se que o regionalismo amazônico, incluindo-se a preocupação com a preservação da floresta e seus povos, tem superado o nordestino que tantas obras primas nos legou em décadas anteriores.

Outra tendência que, creio, deve crescer é a do texto “falso policial” , ou seja, aquele que, tendo todos os ingredientes do romance policial, não se esgota no esclarecimento da trama e na vitória da justiça e da verdade, como bem denuncia o crítico Fábio Lucas em muitos se seus trabalhos. Antes, ela é um artifício para prender a atenção do leitor e mostrar nas entrelinhas as mazelas da sociedade e da condição humana. Como exemplo, temos, mais uma vez, Rubem Fonseca, Chico Buarque e Marcelo Rubens Paiva, aos quais podemos acrescentar Guiomar de Grammont – Fuga em Espelhos, Plínio Cabral – O mistério dos desaparecidos, além do meu já citado O sequestro do senhor empresário. Esta tendência se mescla muitas vezes àquelas de denúncia dos crimes da ditadura.

O falso policial é, juntamente com outra tendência que veremos à frente, resultado da concorrência entre ficção literária e outros tipos de ficção. Explico: a ficção, antes de ser fenômeno literário é forma de comunicação social; é processo social destinado à transmissão do conhecimento, à socialização do indivíduo e ao entretenimento. Abrange desde a milenar arte de contar histórias até o cinema e a televisão.

Ora, se há um tempo finito para a ficção no dia a dia das pessoas, podemos imaginar as dificuldades que se apresentam ao escritor ao competir com meios que contam com som e imagem para enriquecer a narrativa. Enorme desafio que nos exige o uso de recursos narrativos e de linguagem bastante elaborados.

Por isso, temos, além do falso-policial, uma tendência em si no que diz respeito à forma de escrever histórias. Em relação aos meios audiovisuais existe tanto a concorrência quanto influências recíprocas. Boa parte de nós escritores assistimos a muitos filmes na infância e na juventude e continuamos a assistir.

Nos dias de hoje, o cinema somado à televisão e outros meios de expressão ficcional áudio-visuais, coloca-nos frente a uma cultura cada vez menos gráfica, menos conceitual e de ação mais rápida. Daí que, cada vez mais, encontraremos boa parte das narrativas menos lineares, mais truncadas e multifacetadas, e dispostas numa linguagem que tenta trazer para o campo literário o primado do olhar sobre o conceito.

Entre os precursores desta tendência na atual literatura brasileira, poderíamos citar Euclides da Cunha que consegue ser quase cinematográfico em suas descrições da geografia, das pessoas e das batalhas. Na mesma trilha, mas com características muito próprias, Guimarães Rosa, em muitos trechos, faz da paisagem a personagem principal, ao mesmo tempo em que sua linguagem tende a transcender o limite do conceitual, sem dele abrir mão. Outro precursor é Aníbal Machado que, tendo publicado apenas um livro de contos, teve três deles transformados em filmes: A morte da porta-estandarte; O iniciado do vento; e O piano.

Nos dias de hoje, podemos colocar neste filão, autores com características muito diversas entre si, como Raduan Nassar, Ricardo Ramos, Osman Lins, Marcos Rey e João Gilberto Noll, entre muitos outros.

Encerro minhas palavras, solicitando-lhes desculpas pelo não esgotamento das tendências e pela omissão de muitos bons autores. Garanto-lhes que hoje – quando tantas temáticas, estilos e experimentações se entremostram – é impossível dar conta de todas elas bem como de todos os seus representantes.

Resumo de palestra proferida no Centro Cultural Brasileiro em Frankfurt, Alemanha, em 08/10/2009.
Levi Bucalem Ferrari é contista, romancista e poeta. Presidente da UBE – União Brasileira de Escritores e do IPSO – Instituto de pesquisas e projetos sociais e tecnológicos. Professor de Ciências Políticas. Presidiu a Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo. Recebeu o prêmio Melhores do Ano – autor revelação de 1988 da APCA – Ass. Paulista dos Críticos de Arte pelo romance O seqüestro do senhor empresário. Apresenta na Rádio Cultura Brasil o programa de literatura Outras Palavras.

Resumo de palestra proferida no Centro Cultural Brasileiro em Frankfurt, Alemanha, em 08/10/2009.

Levi Bucalem Ferrari é contista, romancista e poeta. Presidente da UBE – União Brasileira de Escritores e do IPSO – Instituto de pesquisas e projetos sociais e tecnológicos. Professor de Ciências Políticas. Presidiu a Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo. Recebeu o prêmio Melhores do Ano – autor revelação de 1988 da APCA – Ass. Paulista dos Críticos de Arte pelo romance O seqüestro do senhor empresário. Apresenta na Rádio Cultura Brasil o programa de literatura Outras Palavras.

Cinzas do Norte

30 de agosto de 2009

cinzasMilton Hatoum
Cia das Letras

Na Manaus dos anos 50 e 60, dois meninos travam uma amizade que atravessará toda a vida. De um lado, Olavo, o narrador, menino órfão, criado por dois tios remediados. O outro menino é Raimundo Mattoso, filho de Alicia e do aristocrático Trajano.

No centro das ambições de Trajano está a Vila Amazônia, palacete junto a Parintins, sede de uma plantação de juta. A fim de realizar suas inclinações artísticas e investigar suas angústias mais profundas, o jovem engalfinha-se numa luta contra o pai, a província, a moral dominante e, para culminar, contra os militares que tomam o poder em 1964 e dão início à vertiginosa destruição de Manaus.

A luta rebelde resulta em fuga, que alcança a Berlim e a Londres irrequietas da década de 1970, de onde Raimundo manda sinais de vida para o amigo Olavo, agora advogado, mas ainda preso à cidade natal.
Outros fios completam o tecido ficcional de Cinzas do Norte como as cartas que trazem versões e revelações que se cruzam ou desencontram, sem jamais chegar a esgotar o enigma de uma vida singular ou a desnudar os limites da condição humana.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Heranças

30 de agosto de 2009

herançasSilviano Santiago
Rocco

Neste livro de Silviano Santiago a burguesia abordada com raro despudor através da história de um cafajeste da alta sociedade.

Protagonizado por um conterrâneo do autor, o mineiro Walter, o título retoma a tradição que vem do realismo machadiano, em amálgama com o melodrama rodriguiano, para desmascarar a burguesia nacional ao longo do século XX.

Na trama, o personagem, velho e debilitado, deixa a Belo Horizonte natal e vai morar no Rio de Janeiro, onde decide narrar seus setenta anos de vida, da infância na provinciana capital mineira à maturidade à beira-mar, no Rio de Janeiro.

O acúmulo de bens e mulheres perfaz o capital do relato. Confrontado com a proximidade do fim, ele se pergunta para quem deve deixar toda a sua fortuna.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Outra vida

30 de agosto de 2009

outra vidaRodrigo Lacerda
Ed. Alfaguara

São 7h15 da manhã; um homem, uma mulher e sua filha de 5 anos aguardam o momento de embarcar no ônibus que os levará de volta à pequena cidade litorânea de onde vieram.

Com a viagem, o marido espera começar uma vida nova, depois de um período cruel na cidade grande. Funcionário de uma estatal e pressionado por necessidades financeiras, ele quebrou seu código de conduta e agora enfrenta a culpa e a perseguição.

Sua mulher, no entanto, criou vínculos profissionais e sentimentais na capital, que a fazem questionar a mudança. Por isso, luta até o último minuto contra ela.

Lentamente, raízes mais profundas do impasse vão se apresentando. Novos acontecimentos e personagens perturbam o momento da decisão. E fazem emergir os conflitos de cada um e o delicado equilíbrio que os mantém unidos.

O romance mostra, a partir dos dilemas éticos e sociais de uma família, as encruzilhadas do mundo contemporâneo. Com estilo apurado, Rodrigo Lacerda aborda vários temas atuais costurados com sutileza à trama principal.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Nunca o nome do menino

29 de agosto de 2009

nunca o nome do meninoEstevão Azevedo
Editora Terceiro Nome

Nunca o nome do menino, de Estevão Azevedo, lançado pela Editora Terceiro Nome, busca dialogar com obras da tradição literária ocidental, especialmente do século XX, nas quais é representado o rompimento da fronteira que separa as personagens dos livros e seus próprios autores.

Quando colidem essas duas instâncias da literatura, normalmente distantes – de um lado o escritor, com poder de vida e morte sobre sua criação, de outro as personagens, títeres trabalhando cegamente em favor da obra – a narrativa entra em xeque e o leitor é levado a refletir sobre o caráter ficcional de sua própria vida. André Gide, em Os moedeiros falsos, Miguel de Unamuno, em Névoa, Luigi Pirandello, em Seis Personagens a procura de um autor, e Jorge Luis Borges, em Ficções, utilizaram-se desse “curto-circuito” narrativo na sua arte de contar histórias. Em Nunca o nome do menino, a personagem principal, uma mulher, nos relata os dias de sua vida que se seguiram ao momento em que ela descobre seu status de personagem de uma ficção que não aprecia e cujo autor despreza.

Em seu labirinto literário, dois tempos distantes de sua vida nos são narrados, duas linhas que se estendem da primeira à última página como serpentes ávidas por devorar o próprio rabo e criar uma narrativa de vertigem, repleta de ciclos e espelhamentos, mas também de sentimentos e paixões.

A linguagem é veloz, ofegante, alucinada, mas rigorosamente precisa e lírica, e nos arrasta por um texto que é mais sobre como as pessoas sentem do que sobre como elas pensam.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

A cidade ilhada

3 de junho de 2009

Milton Hatoum
Cia das Letras

Relances da experiência, recolhidos em tramas brevíssimas, com nitidez máxima e máximo poder de iluminação – assim são as histórias que Milton Hatoum reuniu em seu primeiro volume de contos, A cidade ilhada.

As sementes dessa história não poderiam ser mais diversas: como exemplos temos a primeira visita a um bordel; uma passagem de Euclides da Cunha pela Amazônia; o amor platônico por uma inglesinha. E outros que vão por aí.

O autor trabalha esses fragmentos até que eles adquiram outro caráter: frutos do acaso e da biografia pessoal, afinal se mostram como imagens exemplares do curso de nossos desejos e fracassos.

As personagens são levadas a expandir o raio de sua ação e a transpor as barreiras da infância e da moral, da classe e da província. Mas estes mesmos elementos não se dão por vencidos. Mais cedo ou mais tarde, recaem sobre os heróis como fatalidade que os traz de volta a um centro imóvel: Manaus. Para onde vão, Manaus os persegue.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Meu amor

31 de maio de 2009

Beatriz Bracher
Ed. 34

Meu amor, primeiro livro de contos de Beatriz Bracher, reúne dezoito narrativas intimamente ligadas por um olhar crítico e ao mesmo tempo amoroso sobre a vida no Brasil contemporâneo.

Ora é uma subjetividade dolorida e sutil que aflora e nos toca; ora é a violência urbana que explode sem disfarces na cara do leitor; ora, ainda, personagens do sertão mineiro que se mostram em toda sua humanidade atual, sem concessões ao pitoresco.

Essa variedade é um dos pontos fortes do livro, que mostra o arrojo com que Beatriz experimenta e questiona os limites que separam não apenas os gêneros literários, mas também os territórios do urbano e do rural no imaginário literário brasileiro. Isto sem resvalar num regionalismo anacrônico nem no realismo jornalístico, deixando sempre a porta entreaberta para o inesperado, a reveladora poesia do cotidiano, por vezes crua, por vezes diáfana.

Se o romance vence por pontos e o conto por nocaute, como queria o argentino Julio Cortázar, Meu amor vence das duas maneiras ao mesmo tempo. É que no jogo de encaixe e desencaixe desses contos se entremostra uma outra história: a do Brasil de hoje.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

VARIAÇÕES GOLDMAN

9 de fevereiro de 2008

Bernardo Ajzenberg
Ed. Rocco

Variações Goldman é o mais novo romance de Bernardo Ajzenberg. E nos traz a história de Silvio Golman, jovem e pacato arquiteto judeu, que inicia um caso com a tradutora Dorieta Mangano, descendente de italianos.

Dorieta é obcecada pela idéia da maternidade. Tudo vai razoavelmente bem, até que os médicos anunciam que Silvio é estéril. E Dorieta, no entanto, acaba de engravidar. A partir desse quadro, o autor constrói um universo vertiginoso no qual emoções e sentimentos afloram nas situações menos esperadas.

Ajzenberg explora temas como doença, ciúme, traição e preconceito, temperando o trágico com humor. E assim compõe retratos de profunda humanidade. Estrutura personagens e ambientações com detalhes que só podem advir da mais fina observação.

A enigmática Dorieta e o complexo Silvio são figuras universais em sua miséria. Como outras personagens do romance. Variações Goldman é um livro maduro, de um escritor que firma seu estilo dentro do panorama da literatura brasileira atual.

Traz um texto forte e vigoroso: consistente num romance ousado e perturbador. O leitor pode se entregar com a certeza de que, após a leitura, não sairá o mesmo.


“Outras Palavras”, programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.