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Posts Tagged ‘literatura brasileira’

Luiz Ruffato – Eles eram muitos cavalos

19 de agosto de 2010

São Paulo, terça-feira, 9 de maio de 2000. Durante um único dia, o autor percorre a cidade tentando desvendá-la.      Não apenas os engarrafamentos, parques ou dinheiro correndo por entre os conglomerados econômicos. Ele decifra cada dia, minuto e segundo da metrópole marcada pela diversidade humana – mosaico composto por gente de todo o Brasil.
        Uma das maiores vozes da literatura brasileira contemporânea, Luiz Ruffato é autor, entre outros títulos, da série Inferno Provisório: Mamma son tanto felice, O mundo inimigo e Vista parcial da noite.

Os dois primeiros volumes receberam o prêmio de APCA de melhor romance de 2005. Eles eram muitos cavalos recebeu os prêmios APCA e Machado de Assis de 2001. Foi publicado também na França, Itália e Portugal.

“Outras Palavras é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura do Brasil.

João Ubaldo Ribeiro – Diário do Farol

6 de junho de 2010

       Já consagrado como um dos mais importantes escritores de língua portuguesa, João Ubaldo Ribeiro, mais uma vez, causa impacto e talvez até estupefação.

        Trata-se do primeiro romance maior da literatura brasileira vinculado irrestritamente à descrição e contemplação do mal: o mal que nos rodeia e nos atinge, mas preferimos ignorar.

        Neste sentido, Diário do farol rompe barreiras, preconceitos e noções confortáveis, para nos confrontar com verdades inescapáveis.

        O livro parece apenas o relato da vida de um psicopata absolutamente amoral e destituído de qualquer escrúpulo que não os ditados pela sua astúcia.

        Mas sua relevância aumenta exponencialmente quando a patologia se insere num ambiente em que pode prosperar.

        O personagem não teria como conseguir seus objetivos sem que houvesse uma sociedade e um sistema político tão permissivos, que fazem prosperar este tipo de comportamento.

 

 

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura do Brasil.

Ana Maria Escorel – O Pai, a mãe e a filha

6 de junho de 2010

Segundo a crítica Walnice Nogueira Galvão, este é um livro que já nasceu clássico.

        A vivência privilegiada da autora permitiu que ela mesclasse memórias de infância com memórias de escritores, dois gêneros bem assentados em nosso país bem como pelo planeta afora.

        O olhar da menina organiza e decifra o mundo a partir da casa, focalizando o entorno, os vizinhos, os pequenos, os visitantes.

        E se volta da infância para trás, perscrutando o passado tal como se apresenta às crianças, encarnado nos mais velhos: os pais, os tios, os avós, e os casos que contam.

        A teia vai compondo o universo em que a menina se move. E a prosa apurada da autora sustenta-se no coloquial bem–humorado. E foge da tentação dos nomes próprios.

        Tentação forte porque pai e mãe são figuras importantíssimas na construção da cultura e da literatura brasileiras.  Seus perfis, entretanto, são apenas delineados da mesma forma que os de muitos outros figurantes.

 

 

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Raul Pompéia – O Ateneu

21 de maio de 2010

Tido como um dos mais importantes livros do século XIX, este livro é considerado por muitos como o único romance impressionista da literatura brasileira.

 Obra de difícil enquadramento na história da literatura e espécie de desabafo do autor, ela é dona de uma originalidade fascinante.

Nela, o protagonista Sérgio narra seus dois anos de vida neste internato para meninos, que de fato existiu no Rio de Janeiro do século XIX.

O personagem faz amarga crítica ao ambiente do internato e aos seus personagens. Entre eles, Aristarco, o diretor; Sanches e Egbert, colegas que nutrem entre si uma amizade equivoca e doentia, além de Ema, esposa de Aristarco, o diretor que Sérgio não vê com bons olhos em virtude da sua presunção e elevada dose de auto-idolatria.

A obra supera a motivação autobiográfica pela técnica inigualável do exímio narrador, o imortal Raul Pompéia.

 

 

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Lima Barreto – Triste fim de Policarpo Quaresma

21 de maio de 2010

Publicado em 1911, este clássico da literatura brasileira denuncia os males da sociedade da época: a burocracia das repartições públicas, o clientelismo, a bajulação, a injustiça social, o problema da terra, e outros.

No enredo surge um D. Quixote nacional, o Major Policarpo Quaresma. Visionário e patriota, o personagem encarna a luta pela grandeza do país.

O romance traça o destino tragicômico deste homem tomado pelo patriotismo ingênuo em luta inglória contra a corrupção.

O autor, Lima Barreto, um dos principais expoentes do chamado Pré-Modernismo brasileiro, foi um crítico mordaz da vida carioca no período da primeira república.

Lima Barreto foi esteticamente um solitário, que se orientou pela linha inovadora de um realismo crítico de cunho popular e rebelde.

Ele recriou o panorama social da existência miserável e triste dos subúrbios. ‘Triste Fim de Policarpo Quaresma’ (1915) é considerada sua obra-prima.

 

 

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Mario de Andrade – Macunaíma

10 de maio de 2010

Mario de Andrade publicou Macunaíma, o herói sem nenhum caráter em 1938. Por falta de editora, a tiragem do romance foi de apenas oitocentos exemplares, mas o livro foi festejado pela crítica modernista por sua inovação narrativa e de linguagem.

Poeta, contista, romancista, cronista, critico de arte, folclorista, professor e músico, Mário iniciou sua carreira em 1917 com o livro Há uma gota de sangue em cada poema. Sua segunda obra, Paulicéia desvairada, foi publicada em 1922, ano em que o autor participou da Semana de Arte Moderna de São Paulo.

        O romance reúne lendas e mitos indígenas e folclóricos, propiciando uma experiência única de contato com o linguajar corrente no país e a essência do comportamento brasileiro, em suas virtudes e defeitos.

        O personagem Macunaíma simboliza o sujeito esperto e irreverente, preguiçoso, malandro, capaz de exercer influência sobre os que estão ao redor e de se sair bem sem precisar de muito esforço e trabalho. O termo Macunaíma já virou adjetivo com estas características.

        O livro é o grande ícone do romance modernista no Brasil, e obra fundamental para de compreender a literatura brasileira do último século – e de hoje. Já inspirou filme e peça de teatro.

 

 

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Otto Lara Resende – O braço direito

7 de abril de 2010

Na opinião do crítico literário Antonio Cândido “este é um livro poderoso e estranho, narrado na primeira pessoa pelo zelador de um orfanato no interior de Minas.

O autor elaborou um estilo que adere ao modo de ser do personagem narrador, traduzindo a sua mediocridade, a sua angústia e ao mesmo tempo a sua busca de uma pureza cheia de equívocos e dominada pela obsessão do pecado.

O zelador é religioso do tipo mais convencional e parece submeter-se inteiramente às hierarquias e tradições, mas sob a estreiteza do seu ponto de vista a sociedade e as pessoas vão aparecendo nas cores reais.

Como se brotasse das entrelinhas uma força desmistificadora que faz da pequena cidade miniatura do mundo, com suas fragilidades e descaminhos.

O narrador tacanho revela-se um personagem patético e doloroso, vítima da própria insignificância, dotado de uma lucidez implícita, que faz da narrativa o desvendamento do mundo pelo avesso.

Ao cabo, sentimos que a arte de Otto Lara Resende consistiu em elaborar uma voz narrativa destacada do autor, que envolve o leitor e o mantém preso à força desse universo de humilhados e ofendidos. O livro recebeu o Prêmio Jabuti 1994 de Melhor Romance.

 

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Mariel Reis – John Fante trabalha no Esquimó

7 de abril de 2010

Segundo o crítico André Seffrin, o autor deste livro, Mariel Reis, é grande leitor e escritor de talento.

Assim, escreve encharcado de literatura e, como ele mesmo diz, à moda dos escritores que povoam a sua imaginação, sejam eles vivos ou mortos.

De fato, Mariel assimilou a lição de Drummond: somos contemporâneos dos escritores que amamos, isto é, somos contemporâneos de Shakespeare e de Virgílio, “somos amigos pessoais deles”.

 Assim, Mariel e seus personagens acompanham com familiaridade os passos de João do Rio, Marques Rebelo ou Moacir C. Lopes por um Rio de Janeiro mítico.

É este Rio de Janeiro que Mariel percorre como poucos, porque conhece os segredos das ruas e avenidas literárias, ou seja, o segredo da literatura.

 

 

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Dyonelio Machado – Os ratos

3 de abril de 2010

Publicado em 1935, este livro rendeu ao gaúcho Dyonelio Machado o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. Naquele ano, o prêmio foi divido com outras feras: Erico Veríssimo, Marques Rebelo e João Alphonsus de Guimaraens.

Os anos 30 foram marcados por grandes romances dedicados aos dramas cotidianos da população mais pobre. E, por esta senda, Dyonelio transformou Naziazeno Barbosa, o atormentado protagonista de ‘Os Ratos’, em uma das figuras mais marcantes da galeria de personagens desvalidos que povoam a literatura brasileira no período.

 Naziezeno precisa de cinqüenta e três mil-réis para pagar a conta do leite e sai pela cidade – Porto Alegre – para cavar o dinheiro.

Como num lance de jogo, a ação ocorre durante um único dia. E o narrador seguirá as andanças, venturas e desventuras desse funcionário público, movido apenas pela mais estrita necessidade.

 

 

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Euclides da Cunha na Feira do Livro de Frankfurt

19 de fevereiro de 2010

 

O ano do digital

Jornal Estado de São Paulo – Arte e Lazer

O Brasil contará com a participação de 50 expositores – 46 editoras e quatro instituições. Juntos, eles ocuparão um estande coletivo de 120 metros quadrados e deverão apresentar ao público 1.640 títulos nacionais. Na programação, o destaque é a mesa redonda Euclides da Cunha e a Identidade Latino-Americana, no Espaço Forum Dialog, a partir das 16h15 (11h15 de Brasília). Com mediação do presidente da União Brasileira de Escritores, Levi Bucalem Ferrari, o encontro vai reunir Claudius Armbruster, diretor do Instituto Luso-Brasileiro da Universidade de Colônia; o crítico literário Fábio Lucas; Leopoldo M. Bernucci, professor do Departamento de Espanhol e Português da Universidade da Califórnia; e Francisco Foot Hardman, professor do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem e Assessor Especial da Reitoria da Unicamp, além de colaborar para o Estado.

(Publicado no jornal O Estado de São Paulo em 14 de outubro de 2009)

 

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Eliana de Freitas – “Oculta”

20 de janeiro de 2010

       A megalópole paulistana comporta milhares de mundinhos que não se comunicam, cada qual julgando-se o próprio universo e considerando os demais como coisa periférica, pouco interessante. Mas, de fato, todos os grupos, centrais ou periféricos, existem e interagem; daí os preconceitos e conflitos. Tudo se multiplica num Brasil gigante e pleno de contrastes. Como se não bastasse, o tempo se apresenta. E é mais um poderoso fator de clivagens. Dividindo-nos em faixas etárias que pouco se comunicam, eleva ao infinito aqueles grupos e as possibilidades de estranhamento e desencontros. O tempo é ainda, e sobretudo, o sempiterno enigma: passa por nós, ou passamos nós por ele? Quem o acompanha, e como? Quem ficou para trás, por quê?

        É neste complexo conjunto de variáveis – e viajando por entre os multiplicados cenários que seu cruzamento implica – que Eliana de Freitas desenvolve a ação deste instigante romance Oculta – Uma sentença masculina. Nele não faltam ingredientes clássicos do romance: amor, paixão, ciúme, traição, aos quais Eliana acrescenta o molho moderno constituído de muita ação, aventura, conflitos, mistérios, comportamentos aparentemente contraditórios e sexo, muito sexo sob suas mais diversas versões.

        Na roda viva agigantada de nossos dias, desfilam as personagens típicas de cada um dos infinitos grupos. Há o jornalista que, tendo pertencido à vanguarda nos anos setenta, agora se confina em seu mundinho alternativo para negar que o tempo passa e que os valores mudam. Há uma mulher misteriosa que, ao transitar por entre grupos e comportamentos, paira acima deles e do tempo, constituindo-se no centro do enigma que Eliana propõe ao leitor deste belo romance. E, se ele não o decifrar não tem problema. Ninguém decifrou Capitu, e, quiçá por isso Dom Casmurro continue a ser sempre lido e relido.        

 Levi Bucalem Ferrari

Presidente da União Brasileira de Escritores

(*) Apresentação do livro “Oculta” de Eliana de Freitas (São Paulo, Editora Limiar)

 

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Fábio Lucas – O poliedro da Crítica

20 de janeiro de 2010

Este livro traz uma série de reflexões sobre teoria e crítica de Literatura e sobre vários aspectos ligados à leitura e bom entendimento da obra literária.

Fábio Lucas, o autor, cuida também das modalidades de análise, de interpretação e de estimativa dos textos literários.

Livro para professores e especialistas, mas que também agradará àqueles que gostam da nobre arte porque escrito numa linguagem acessível, longe do ecletismo que caracteriza a maior parte dos trabalhos acadêmicos.

Ao contrário, é um passeio agradável pelos principais conceitos e uma visita guiada a grandes autores como Mario de Andrade, Antonio Candido, Augusto Meyer, Sérgio Buarque de Holanda, Euclides da Cunha, Benedito Nunes e Clarice Lispector, entre outros.

O autor é ex-presidente da União Brasileira de Escritores, Prêmio Intelectual do Ano e ganhador do Troféu Juca Pato e muitos outros prêmios. Foi professor no Brasil, nos Estados Unidos e em Portugal. É considerado um dos maiores críticos literários do Brasil.

 

 

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

A CONFLUÊNCIA DA LITERATURA E DO JORNALISMO EM “OS SERTÕES”

10 de dezembro de 2009

setões

Joaquim Maria Botelho

Euclides da Cunha emergiu de Canudos como São Paulo de Damasco. Um homem com ideias renovadas.

Quando foi convidado por Júlio Mesquita, dono do jornal O Estado de S. Paulo, para fazer a cobertura jornalística da guerra de Canudos, Euclides condenava Canudos e sua gente. Engenheiro, formado no cientificismo que regia o Colégio Militar, partilhava do julgamento da gente instruída de sua época. Estava convicto de que Antônio Conselheiro era um falso messias, canalha e impostor. E Canudos, no sertão da Bahia, onde o beato se recolhera com seus seguidores, era um covil de assassinos.

Euclides foi se convertendo à medida que escrevia. Aos poucos sucumbiu à verdade e deixou de lado o cientificismo e o determinismo que explicava gente como Antônio Conselheiro e seus jagunços. Machado de Assis, por exemplo, a bordo do pensamento dominante, considerava o sertanejo um ser incapaz de atingir a civilização. Euclides sintetizaria a sua contraposição a essa ideia numa frase: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

Seguidor da doutrina de Augusto Comte, Euclides seguiu para o local das batalhas como cientista. Principiou a enviar artigos para o jornal, antes de testemunhar a luta, durante um período alongado em que permaneceu em Salvador, aguardando translado. Seu texto denunciava o engenheiro ocupado com a precisão técnica, com o rigor científico. Tinha um projeto historiográfico e para isso valia-se do discurso científico, positivista e europeu. Usava desmedidamente dados da geografia, da meteorologia, da hidráulica, da botânica e da engenharia. Seu interlocutor era a ciência.

Mas, como literato, tinha um projeto estético. Seu texto denuncia o autor ocupado com a precisão da língua, dominando a técnica narrativa, a poética e a humanidade. Mas não perdia de vista o que Machado de Assis pontificava, no artigo Instinto de Nacionalidade, publicado em 1873: “O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”

Gênero literário ou jornalístico?

Do ponto de vista da teoria da literatura, “Os Sertões” não é um romance histórico, dado que não narra um episódio histórico emprestando feição literária de personagem aos protagonistas. O registro é fundamentado, científico – pelo menos tanto que se podia ser naquele momento histórico-filosófico-literário do Brasil.

“Os Sertões” tampouco é a história romanceada, porque não acrescenta à história episódios romanescos para torná-la mais agradável à leitura.

Encaixa-se, perfeitamente, na categoria de épico. Tem narrador, tem urdidura organizada e lógica (neste caso, real), tem personagens (neste caso, históricas), tem espaço definido e tempo delimitado. Aliás, é isto mesmo que escreveu Araripe Júnior, crítico respeitadíssimo à época do lançamento do livro: “Vós sabeis retratar ao vivo a natureza física, dando intensidade às notas, sem prejudicar a veracidade dos fatos, a qualidade dos fenômenos. É o grande escolho da arte descritiva: exatidão e relevo, naturalismo e brilho, consistência e colorido, poesia e verdade.”

Tendo essas qualidades, seria, então, “Os Sertões”, uma reportagem?

Analisemos. É uma obra original, porque traz achados importantes para a sociedade. É uma obra oportuna (menos para o Exército republicano, que queria mesmo era esquecer o fracasso das expedições que durante um ano investiram contra Canudos). É factual, documentada. E, além disso, demonstra independência de consciência. Conceitualmente, tudo isto se refere ao trabalho jornalístico e está presente em “Os Sertões”.

Além disso, o texto obedece aos paradigmas do jornalismo: o quê/quem, quando, onde, como e por que.

É preciso lembrar que a retórica do jornalismo, à época, era uma retórica literária. Ainda não havia sido incorporada ao jornalismo mundial a técnica da objetividade e da imparcialidade que os Estados Unidos exportariam para o mundo depois da Segunda Guerra Mundial. Até aqui, nenhum conflito entre literatura e jornalismo, no texto de “Os Sertões”, apesar da grandiloqüência.

Mas, na questão programática, o papel do repórter está bem claro na obra. Nas “Notas à segunda edição”, Euclides da Cunha encerra com uma frase do historiador ateniense Tucídides, exibindo o seu reposicionamento.

Notas à segunda edição

“Não tive o intuito de defender os sertanejos, porque este livro não é um livro de defesa; é, infelizmente, de ataque.
Ataque franco e, devo dizê-lo, involuntário. Nesse investir, aparentemente desafiador, com os singularíssimos civilizados que nos sertões, diante de semibárbaros, estadearam tão lastimáveis selvatiguezas, obedeci ao rigor incoercível da verdade. Ninguém o negará.
E se não temesse envaidar-me em paralelo que não mereço, gravaria na primeira página a frase nobremente sincera de Tucídides, ao escrever a história da guerra do Peloponeso – porque eu também embora sem a mesma visão aquilina, escrevi

“SEM DAR CRÉDITO ÀS PRIMEIRAS TESTEMUNHAS QUE ENCONTREI, NEM ÀS MINHAS PRÓPRIAS IMPRESSÕES, MAS NARRANDO APENAS OS ACONTECIMENTOS DE QUE FUI ESPECTADOR OU SOBRE OS QUAIS TIVE INFORMAÇÕES SEGURAS.”

Testemunho

Uma vez em Canudos, Euclides ouviu seguidores de Conselheiro. Na narrativa a seguir (trecho de reportagem publicada no jornal o Estado de S. Paulo em agosto de 1897), podemos ler, ao mesmo tempo uma compreensão desvelada da situação e um depoimento do fazer jornalístico que norteava seus artigos.

Afirma o pequeno jagunço que o velho vigário de Cumbe ali aparecia, de quinze em quinze dias.
(…)
Terminamos o longo interrogatório inquirindo acerca dos milagres do Conselheiro. Não os conhece, não os viu nunca, nunca ouviu dizer que ele fazia milagres. E ao replicar um dos circunstantes que aquele declarava que o jagunço morto em combate ressuscitaria – negou ainda.
- Mas o que promete afinal ele anos que morrem?
A resposta foi absolutamente inesperada:
- Salvar a alma.
Estas revelações feitas diante de muitas testemunhas têm para mim um valor inestimável; não mentem, não sofismam e não iludem, naquela idade, as almas ingênuas dos rudes filhos do sertão.

Aí está. Emerge um novo Euclides.

Libelo

Antes de citar um trecho da “Nota preliminar”, lembremos que o jornalismo tem alguns conceitos que categorizam a notícia e a reportagem. São eles: imparcialidade, atualidade, exemplaridade e proximidade.

A civilização avançará nos sertões impelida por essa implacável “força motriz da História” que Gumplowicz, maior do que Hobbes, lobrigou, num lance genial, no esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes.
A campanha de Canudos tem por isto a significação inegável de um primeiro assalto, em luta talvez longa. Nem enfraquece o asserto o termo-la realizado nós filhos do mesmo solo, porque, etnologicamente indefinidos, sem tradições nacionais uniformes, vivendo parasitariamente à beira do Atlântico, dos princípios civilizadores elaborados na Europa, e armados pela indústria alemã – tivemos na ação um papel singular de mercenários inconscientes. Além disto, mal unidos àqueles extraordinários patrícios pelo solo em parte desconhecido, deles de todo nos separa uma coordenada histórica – o tempo.
Aquela campanha lembra um refluxo para o passado.
E foi, na significação integral da palavra, um crime.
Denunciemo-lo.

Euclides da Cunha denunciava a existência de dois Brasis, muito antes de Jacques Lambert ou Gilberto Freyre. Um libelo, como fizera Émile Zola no caso Dreyfus. Isto é mais jornalismo do que literatura. E confere ao livro funções sociais que ultrapassam as suas qualidades literárias ou científicas e que transcendem tanto o projeto historiográfico quanto o projeto estético.

Para a crítica e para os intelectuais, especialmente José Veríssimo, Sílvio Romero, Cassiano Ricardo, Gilberto Freyre e Coelho Neto, talvez a mais importante contribuição de “Os Sertões” tenha sido a tentativa de estabelecer a identidade nacional. O livro tem sido entendido como o primeiro épico da nacionalidade brasileira.

Como num ato de contrição, Euclides escreve, no capítulo V de “Os Sertões”:

“Vivendo quatrocentos anos no litoral vastíssimo, em que palejam reflexos da vida civilizada, tivemos de improviso, como herança inesperada, a República. Ascendemos, de chofre, arrebatados no caudal dos ideais modernos, deixando na penumbra secular em que jazem, no âmago do país, um terço da nossa gente. Iludidos por uma civilização de empréstimo; respingando, em faina cega de copistas, tudo o que de melhor existe nos códigos orgânicos de outras nações, tomamos, revolucionariamente, fugindo ao transigir mais ligeiro com as exigências da nossa própria nacionalidade, mais fundo o contraste entre o nosso modo de viver e o daqueles rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa. Porque não no-los separa um mar, separam-no-los três séculos…”

No entanto, os efeitos sobre o leitor são resultantes mais da retórica do que dos fatos. Isto é literatura. Vamos ver um trecho de “A luta”:

Sem comando, cada um lutava a seu modo. Destacaram-se ainda diminutos grupos para queimarem as casas mais próximas ou travarem breves tiroteios. Outros, sem armas e feridos, principiaram a repassar o rio.
Era o desenlace.
Repentinamente, largando as últimas posições, os pelotões, de mistura, numa balbúrdia indefinível, sob a hipnose do pânico, enxurraram na corrente rasa das águas!
Repelindo-se; apisoando os malferidos, que tombavam; afastando rudemente os extenuados trôpegos; derrubando-os, afogando-os, os primeiros grupos bateram contra a margem direita. Aí, ansiando por vingá-la, agarrando-se às gramíneas escassas, especando-se nas armas, filando-se às pernas dos felizes que conseguiam vencê-las, se embaralham outra vez em congérie ruidosa. Era um fervilhar de corpos transudando vozear estrídulo, e discordante, e longo, dando a ilusão de alguma enchente repentina, em que o Vaza-Barris, engrossado, saltasse, de improviso, fora do leito, borbulhando, acachoando, estrugindo. . .

Vamos escandir os principais efeitos adjetivos, no trecho acima:
 Sem comando
 Diminutos grupos
 Casas mais próximas
 breves tiroteios
 sem armas e feridos
 Repentinamente
 últimas posições
 os pelotões, de mistura
 balbúrdia indefinível,
 enxurraram na corrente rasa das águas !
 Malferidos
 afastando rudemente
 os extenuados trôpegos;
 primeiros grupos
 contra a margem direita
 gramíneas escassas
 felizes que conseguiam vencê-las
 congérie ruidosa.
 corpos transudando vozear estrídulo
 enchente repentina
 Vaza-Barris, engrossado
 borbulhando, acachoando, estrugindo . . .

Em outro trecho de “A luta”, a narrativa também está eivada de efeitos adjetivos:

E foi uma debandada.
Oitocentos homens desapareciam em fuga, abandonando as espingardas; arriando as padiolas, em que se estorciam feridos: jogando fora as peças de equipamento; desarmando-se; desapertando os cinturões, para a carreira desafogada; e correndo, correndo ao acaso, correndo em grupos, em bandos erradios, correndo pelas estradas e pelas trilhas que as recortam, correndo para o recesso das caatingas, tontos, apavorados, sem chefes . . .
Entre os fardos atirados à beira do caminho ficara, logo ao desencadear-se o pânico – tristíssimo pormenor! – o cadáver do comandante. Não o defenderam. Não houve um breve simulacro de repulsa contra os inimigos, que não viam e adivinhavam no estrídulo dos gritos desafiadores e nos estampidos de um tiroteio irregular e escasso, como o de uma caçada. Aos primeiros tiros os batalhões diluíram-se.

Mesmo tomando-se o substantivo como a base da narrativa jornalística, o seu encadeamento em “Os Sertões” tem efeitos retóricos. Destacamos, a seguir, no trecho acima, os substantivos que o leitor poderá colocar em sequência de leitura – e verá o seu efeito narrativo.

 Sem comando, cada um lutava a seu modo. Destacaram-se ainda diminutos grupos para queimarem as casas mais próximas ou travarem breves tiroteios. Outros, sem armas e feridos, principiaram a repassar o rio.
 Era o desenlace.
 Repentinamente, largando as últimas posições, os pelotões, de mistura, numa balbúrdia indefinível, sob a hipnose do pânico, enxurraram na corrente rasa das águas!
 Repelindo-se; apisoando os malferidos, que tombavam; afastando rudemente os extenuados trôpegos; derrubando-os, afogando-os, os primeiros grupos bateram contra a margem direita. Aí, ansiando por vingá-la, agarrando-se às gramíneas escassas, especando-se nas armas, filando-se às pernas dos felizes que conseguiam vencê-las, se embaralham outra vez em congérie ruidosa. Era um fervilhar de corpos transudando vozear estrídulo, e discordante, e longo, dando a ilusão de alguma enchente repentina, em que o Vaza-Barris, engrossado, saltasse, de improviso, fora do leito, borbulhando, acachoando, estrugindo . . .

Para observar a confluência entre jornalismo e literatura, basta levar em consideração a matéria de cada um. Para o jornalismo, nesse trecho anterior, o que importa são os fatos. Para a literatura, nesse mesmo trecho anterior, o que importa são as possibilidades do fato.

Nas reportagens publicadas em O Estado de S. Paulo, Euclides da Cunha faz todos os relatos em 1ª pessoa. Mas quando decidiu publicar as suas anotações como livro, trabalho que realizou durante os três anos que levou para construir uma ponte sobre o rio, em São José do Rio Pardo, Euclides promoveu uma estilização de linguagem que evidencia a presença de um sujeito. Isto implica subjetividade, mais típica do lírico do que do jornalístico. Isto não prejudica o plano estético da obra, mas contraria o discurso anunciado de relato objetivo e fiel da história.

Neste quesito, “Os Sertões” é mais literatura do que jornalismo, embora não seja integralmente num uma coisa nem outra.

Outra consistência a observar é a questão do julgamento.

O jornalista não julga – o entrevistado sim; mas Euclides prefere não dar voz direta aos entrevistados em “Os Sertões”, por isso o narrador.

O literato de mérito abstém-se de julgar – quem pode fazê-lo é o personagem ou o narrador onisciente (este também um personagem).

O tempo em “Os Sertões”

Determinou-a incidente desvalioso.
Antônio Conselheiro adquirira em Juazeiro certa quantidade de madeiras, que não podiam fornecer-lhe as caatingas paupérrimas de Canudos. Contratara o negócio com um dos representantes da autoridade daquela cidade. Mas ao terminar o prazo ajustado para o recebimento do material, que se aplicaria no remate da igreja nova, não lho entregaram. Tudo denuncia que o distrato foi adrede feito, visando o rompimento anelado.
O principal representante da justiça do Juazeiro tinha velha dívida a saldar com o agitador sertanejo, desde a época em que, sendo juiz do Bom Conselho, fora coagido a abandonar precipitadamente a comarca, assaltada pelos adeptos daquele.
Aproveitou, por isto, a situação, que surgia a talho para a desafronta. Sabia que o adversário revidaria à provocação mais ligeira. De fato, ante a violação do trato aquele retrucou com a ameaça de uma investida sobre a bela povoação do S. Francisco: as madeiras seriam de lá arrebatadas, à força.
O caso passou em dias de outubro de 1896.

O espaço em “Os Sertões”

No início de cada capítulo, à guisa de sumário ou de índice, Euclides da Cunha insere uma sequência que funciona como manchetes de jornal. Veja o exemplo em “A Terra” (capítulo I):

Preliminares. A entrada do sertão. Terra ignota. Em caminho para Monte Santo. Primeiras impressões. Um sonho de geólogo.

São tópicos frasais. (Que em jornalismo recebem a denominação técnica de “lead”.)

Vejamos como um trecho do capítulo que ambienta o homem e ambienta a batalha.

É uma paragem impressionadora.
As condições estruturais da terra lá se vincularam à violência máxima dos agentes exteriores para o desenho de relevos estupendos. O regímen torrencial dos climas excessivos, sobrevindo, de súbito, depois das insolações demoradas, e embatendo naqueles pendores, expôs há muito, arrebatando-lhes para longe todos os elementos degradados, as séries mais antigas daqueles últimos rebentos das montanhas: todas as variedades cristalinas, e os quartzitos ásperos, e as filades e calcários, revezando-se ou entrelaçando-se, repontando duramente a cada passo, mal cobertos por uma flora tolhiça – dispondo-se em cenários em que ressalta predominante, o aspecto atormentado das paisagens.
Porque o que estas denunciam – no enterroado do chão, no desmantelo dos cerros quase desnudos, no contorcido dos leitos secos dos ribeirões efêmeros, no constrito das gargantas e no quase convulsivo de uma flora decídua embaralhada em esgalhos – é de algum modo o martírio da terra, brutalmente golpeada pelos elementos variáveis, distribuídos por todas as modalidades climáticas. De um lado a extrema secura dos ares, no estio, facilitando pela irradiação noturna a perda instantânea do calor absorvido pelas rochas expostas às soalheiras, impõe-lhes a alternativa de alturas e quedas termométricas repentinas: e daí um jogar de dilatações e contrações que as disjunge, abrindo-as segundo os planos de menor resistência. De outro, as chuvas que fecham, de improviso, os ciclos adurentes das secas, precipitam estas reações demoradas.
As forças que trabalham a terra atacam-na na contextura íntima e na superfície sem intervalos na ação demolidora, substituindo-se, com intercadência invariável, nas duas estações únicas da região.

Em outro trecho:

E o observador que seguindo este itinerário deixa as paragens em que se revezam, em contraste belíssimo, a amplitude dos gerais e o fastígio das montanhas, ao atingir aquele ponto estaca surpreendido…

Observe-se aí o leitor sendo convocado a participar. Pura técnica literária – veja-se A filosofia da composição, de Edgar Allan Poe.

Gente, matéria-prima do jornalismo e da literatura

Euclides traça um retrato do habitante dos sertões que arrancou de Araripe Júnior um parágrafo laudatório: “Terminada a descrição da terra, isto é, da região das secas, feita a sua história natural e social, o jagunço salta das páginas do livro como um fruto maduro da árvore que o gerou e desenvolveu.”

As observações de Euclides sobre o sertanejo constituem, de fato, mais uma análise social e antropológica. Vejamos um trecho:

O brasileiro, tipo abstrato que se procura, mesmo no caso favorável acima firmado, só pode surdir de um entrelaçamento consideravelmente complexo.
Teoricamente ele seria o pardo, para que convergem os cruzamentos do mulato, do curiboca e do cafuz.
Avaliando-se, porém, as condições históricas que têm atuado, diferentes nos diferentes tratos do território; as disparidades climáticas que nestes ocasionam reações diversas diversamente suportadas pelas raças constituintes; a maior ou menor densidade com que estas cruzaram nos vários pontos do país; e atendendo-se ainda à intrusão – pelas armas na quadra colonial e pelas imigrações em nossos dias – de outros povos, fato que por sua vez não foi e não é uniforme, vê-se bem que a realidade daquela formação é altamente duvidosa, senão absurda.

Recursos de estilo em “Os Sertões”

RITMO

Apenas a artilharia, na extrema retaguarda, seguia vagarosa e unida, solene quase, na marcha habitual de uma revista, em que parava de quando em quando para varrer a disparos as margens traiçoeiras; e prosseguindo depois, lentamente, rodando, inabordável, terrível…

A presença da métrica poética é clara nesse trecho. Pode ser declamado com a beleza da leitura dramática, porque há um ritmo poético que mescla por exemplo a redondilha e o decassílabo. Isto é literatura.

ANALOGIAS

Outro, o velho curiboca desfalecido que não vingara disparar a carabina sobre os soldados, parecia um desenterrado claudicante.

O rosto, onde o prognatismo se acentuara, desaparecia na lanugem espessa da barba, feito uma máscara amarrotada e imunda.
À luz crua dos dias sertanejos aqueles cerros, aspérrimos rebrilham, estonteadoramente – ofuscante, num irradiar ardentíssimo.

Nesse último trecho, não há um quê de Eça de Queiroz nessa “luz crua” e nesse “irradiar ardentíssimo”?
E note-se o efeito onomatopaico de raspagem, nos cerros aspérrimos que irradiam…

TOM

As notas das cornetas vibravam em cima desse tumulto, imperceptíveis, inúteis…
Por fim cessaram. Não tinham a quem chamar. A infantaria desaparecera…
Pela beira da estrada, viam-se apenas peças esparsas de equipamento, mochilas e espingardas, cinturões e sabres, jogados a esmo por ali fora, como coisas imprestáveis.
Inteiramente só, sem uma única ordenança, o coronel Tamarindo lançou-se desesperadamente, o cavalo a galope, pela estrada – agora deserta – como se procurasse conter ainda, pessoalmente, a vanguarda. E a artilharia ficou afinal inteiramente em abandono, antes de chegar ao Angico.
Os jagunços lançaram-se então sobre ela.

É praticamente o inteiro período construído em vogais abertas – notas de corneta.

SONORIDADE

 Vaza-Barris escachoando (onomatopeia)
 O povoado revivesveu (variedades prefixionais)
 engrimponados nas pedras vacilantes (variedades verbais)
 Transmontadas as serras, sob a linha fulgurante do trópico (outro aspecto verbal)

As assonâncias construídas, abaixo (especialmente pelo uso das sibilantes), imitam “um longo uivar de ventania forte”:

Projetis de toda a espécie, sibilos finos de Mannlicher e Mauser, zumbidos cheios e sonoros de Comblain, rechinos duros de trabucos, rijos como os de canhões-revólveres, transvoando a todos os pontos: sobre o âmbito das linhas; sobre as tendas próximas aos quartéis-generais; sobre todos os morros até ao colo abrigado da Favela, onde sesteavam cargueiros e feridos; sobre todas as trilhas; sobre o álveo longo e tortuoso do rio e sobre as depressões mais escondidas; resvalando com estrondo pela tolda de couro da alpendrada do hospital de sangue e despertando os enfermos retransidos de espanto.

Em outro trecho, as aliterações propiciadas pelas letras P e T, concertam a sinfonia da linguagem:

Dali descem, acachoantes, para o levante, tombando em catadupas ou saltando “travessões” sucessivos, todos os rios que do Jequitinhonha ao Doce procuram os terraços inferiores do planalto…

Fechemos este artigo.

Para isto, um corolário jornalístico-literário com que Euclides da Cunha encerrou o seu livro “Os Sertões”:

Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.

Joaquim Maria Botelho

Euclides da Cunha emergiu de Canudos como São Paulo de Damasco. Um homem com ideias renovadas.

Quando foi convidado por Júlio Mesquita, dono do jornal O Estado de S. Paulo, para fazer a cobertura jornalística da guerra de Canudos, Euclides condenava Canudos e sua gente. Engenheiro, formado no cientificismo que regia o Colégio Militar, partilhava do julgamento da gente instruída de sua época. Estava convicto de que Antônio Conselheiro era um falso messias, canalha e impostor. E Canudos, no sertão da Bahia, onde o beato se recolhera com seus seguidores, era um covil de assassinos.

Euclides foi se convertendo à medida que escrevia. Aos poucos sucumbiu à verdade e deixou de lado o cientificismo e o determinismo que explicava gente como Antônio Conselheiro e seus jagunços. Machado de Assis, por exemplo, a bordo do pensamento dominante, considerava o sertanejo um ser incapaz de atingir a civilização. Euclides sintetizaria a sua contraposição a essa ideia numa frase: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

Seguidor da doutrina de Augusto Comte, Euclides seguiu para o local das batalhas como cientista. Principiou a enviar artigos para o jornal, antes de testemunhar a luta, durante um período alongado em que permaneceu em Salvador, aguardando translado. Seu texto denunciava o engenheiro ocupado com a precisão técnica, com o rigor científico. Tinha um projeto historiográfico e para isso valia-se do discurso científico, positivista e europeu. Usava desmedidamente dados da geografia, da meteorologia, da hidráulica, da botânica e da engenharia. Seu interlocutor era a ciência.

Mas, como literato, tinha um projeto estético. Seu texto denuncia o autor ocupado com a precisão da língua, dominando a técnica narrativa, a poética e a humanidade. Mas não perdia de vista o que Machado de Assis pontificava, no artigo Instinto de Nacionalidade, publicado em 1873: “O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”

Gênero literário ou jornalístico?

Do ponto de vista da teoria da literatura, “Os Sertões” não é um romance histórico, dado que não narra um episódio histórico emprestando feição literária de personagem aos protagonistas. O registro é fundamentado, científico – pelo menos tanto que se podia ser naquele momento histórico-filosófico-literário do Brasil.

“Os Sertões” tampouco é a história romanceada, porque não acrescenta à história episódios romanescos para torná-la mais agradável à leitura.

Encaixa-se, perfeitamente, na categoria de épico. Tem narrador, tem urdidura organizada e lógica (neste caso, real), tem personagens (neste caso, históricas), tem espaço definido e tempo delimitado. Aliás, é isto mesmo que escreveu Araripe Júnior, crítico respeitadíssimo à época do lançamento do livro: “Vós sabeis retratar ao vivo a natureza física, dando intensidade às notas, sem prejudicar a veracidade dos fatos, a qualidade dos fenômenos. É o grande escolho da arte descritiva: exatidão e relevo, naturalismo e brilho, consistência e colorido, poesia e verdade.”

Tendo essas qualidades, seria, então, “Os Sertões”, uma reportagem?

Analisemos. É uma obra original, porque traz achados importantes para a sociedade. É uma obra oportuna (menos para o Exército republicano, que queria mesmo era esquecer o fracasso das expedições que durante um ano investiram contra Canudos). É factual, documentada. E, além disso, demonstra independência de consciência. Conceitualmente, tudo isto se refere ao trabalho jornalístico e está presente em “Os Sertões”.

Além disso, o texto obedece aos paradigmas do jornalismo: o quê/quem, quando, onde, como e por que.

É preciso lembrar que a retórica do jornalismo, à época, era uma retórica literária. Ainda não havia sido incorporada ao jornalismo mundial a técnica da objetividade e da imparcialidade que os Estados Unidos exportariam para o mundo depois da Segunda Guerra Mundial. Até aqui, nenhum conflito entre literatura e jornalismo, no texto de “Os Sertões”, apesar da grandiloqüência.

Mas, na questão programática, o papel do repórter está bem claro na obra. Nas “Notas à segunda edição”, Euclides da Cunha encerra com uma frase do historiador ateniense Tucídides, exibindo o seu reposicionamento.

Notas à segunda edição

“Não tive o intuito de defender os sertanejos, porque este livro não é um livro de defesa; é, infelizmente, de ataque.
Ataque franco e, devo dizê-lo, involuntário. Nesse investir, aparentemente desafiador, com os singularíssimos civilizados que nos sertões, diante de semibárbaros, estadearam tão lastimáveis selvatiguezas, obedeci ao rigor incoercível da verdade. Ninguém o negará.
E se não temesse envaidar-me em paralelo que não mereço, gravaria na primeira página a frase nobremente sincera de Tucídides, ao escrever a história da guerra do Peloponeso – porque eu também embora sem a mesma visão aquilina, escrevi

“SEM DAR CRÉDITO ÀS PRIMEIRAS TESTEMUNHAS QUE ENCONTREI, NEM ÀS MINHAS PRÓPRIAS IMPRESSÕES, MAS NARRANDO APENAS OS ACONTECIMENTOS DE QUE FUI ESPECTADOR OU SOBRE OS QUAIS TIVE INFORMAÇÕES SEGURAS.”

Testemunho

Uma vez em Canudos, Euclides ouviu seguidores de Conselheiro. Na narrativa a seguir (trecho de reportagem publicada no jornal o Estado de S. Paulo em agosto de 1897), podemos ler, ao mesmo tempo uma compreensão desvelada da situação e um depoimento do fazer jornalístico que norteava seus artigos.

Afirma o pequeno jagunço que o velho vigário de Cumbe ali aparecia, de quinze em quinze dias.
(…)
Terminamos o longo interrogatório inquirindo acerca dos milagres do Conselheiro. Não os conhece, não os viu nunca, nunca ouviu dizer que ele fazia milagres. E ao replicar um dos circunstantes que aquele declarava que o jagunço morto em combate ressuscitaria – negou ainda.
- Mas o que promete afinal ele anos que morrem?
A resposta foi absolutamente inesperada:
- Salvar a alma.
Estas revelações feitas diante de muitas testemunhas têm para mim um valor inestimável; não mentem, não sofismam e não iludem, naquela idade, as almas ingênuas dos rudes filhos do sertão.

Aí está. Emerge um novo Euclides.

Libelo

Antes de citar um trecho da “Nota preliminar”, lembremos que o jornalismo tem alguns conceitos que categorizam a notícia e a reportagem. São eles: imparcialidade, atualidade, exemplaridade e proximidade.

A civilização avançará nos sertões impelida por essa implacável “força motriz da História” que Gumplowicz, maior do que Hobbes, lobrigou, num lance genial, no esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes.
A campanha de Canudos tem por isto a significação inegável de um primeiro assalto, em luta talvez longa. Nem enfraquece o asserto o termo-la realizado nós filhos do mesmo solo, porque, etnologicamente indefinidos, sem tradições nacionais uniformes, vivendo parasitariamente à beira do Atlântico, dos princípios civilizadores elaborados na Europa, e armados pela indústria alemã – tivemos na ação um papel singular de mercenários inconscientes. Além disto, mal unidos àqueles extraordinários patrícios pelo solo em parte desconhecido, deles de todo nos separa uma coordenada histórica – o tempo.
Aquela campanha lembra um refluxo para o passado.
E foi, na significação integral da palavra, um crime.
Denunciemo-lo.

Euclides da Cunha denunciava a existência de dois Brasis, muito antes de Jacques Lambert ou Gilberto Freyre. Um libelo, como fizera Émile Zola no caso Dreyfus. Isto é mais jornalismo do que literatura. E confere ao livro funções sociais que ultrapassam as suas qualidades literárias ou científicas e que transcendem tanto o projeto historiográfico quanto o projeto estético.

Para a crítica e para os intelectuais, especialmente José Veríssimo, Sílvio Romero, Cassiano Ricardo, Gilberto Freyre e Coelho Neto, talvez a mais importante contribuição de “Os Sertões” tenha sido a tentativa de estabelecer a identidade nacional. O livro tem sido entendido como o primeiro épico da nacionalidade brasileira.

Como num ato de contrição, Euclides escreve, no capítulo V de “Os Sertões”:

“Vivendo quatrocentos anos no litoral vastíssimo, em que palejam reflexos da vida civilizada, tivemos de improviso, como herança inesperada, a República. Ascendemos, de chofre, arrebatados no caudal dos ideais modernos, deixando na penumbra secular em que jazem, no âmago do país, um terço da nossa gente. Iludidos por uma civilização de empréstimo; respingando, em faina cega de copistas, tudo o que de melhor existe nos códigos orgânicos de outras nações, tomamos, revolucionariamente, fugindo ao transigir mais ligeiro com as exigências da nossa própria nacionalidade, mais fundo o contraste entre o nosso modo de viver e o daqueles rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa. Porque não no-los separa um mar, separam-no-los três séculos…”

No entanto, os efeitos sobre o leitor são resultantes mais da retórica do que dos fatos. Isto é literatura. Vamos ver um trecho de “A luta”:

Sem comando, cada um lutava a seu modo. Destacaram-se ainda diminutos grupos para queimarem as casas mais próximas ou travarem breves tiroteios. Outros, sem armas e feridos, principiaram a repassar o rio.
Era o desenlace.
Repentinamente, largando as últimas posições, os pelotões, de mistura, numa balbúrdia indefinível, sob a hipnose do pânico, enxurraram na corrente rasa das águas!
Repelindo-se; apisoando os malferidos, que tombavam; afastando rudemente os extenuados trôpegos; derrubando-os, afogando-os, os primeiros grupos bateram contra a margem direita. Aí, ansiando por vingá-la, agarrando-se às gramíneas escassas, especando-se nas armas, filando-se às pernas dos felizes que conseguiam vencê-las, se embaralham outra vez em congérie ruidosa. Era um fervilhar de corpos transudando vozear estrídulo, e discordante, e longo, dando a ilusão de alguma enchente repentina, em que o Vaza-Barris, engrossado, saltasse, de improviso, fora do leito, borbulhando, acachoando, estrugindo. . .

Vamos escandir os principais efeitos adjetivos, no trecho acima:
 Sem comando
 Diminutos grupos
 Casas mais próximas
 breves tiroteios
 sem armas e feridos
 Repentinamente
 últimas posições
 os pelotões, de mistura
 balbúrdia indefinível,
 enxurraram na corrente rasa das águas !
 Malferidos
 afastando rudemente
 os extenuados trôpegos;
 primeiros grupos
 contra a margem direita
 gramíneas escassas
 felizes que conseguiam vencê-las
 congérie ruidosa.
 corpos transudando vozear estrídulo
 enchente repentina
 Vaza-Barris, engrossado
 borbulhando, acachoando, estrugindo . . .

Em outro trecho de “A luta”, a narrativa também está eivada de efeitos adjetivos:

E foi uma debandada.
Oitocentos homens desapareciam em fuga, abandonando as espingardas; arriando as padiolas, em que se estorciam feridos: jogando fora as peças de equipamento; desarmando-se; desapertando os cinturões, para a carreira desafogada; e correndo, correndo ao acaso, correndo em grupos, em bandos erradios, correndo pelas estradas e pelas trilhas que as recortam, correndo para o recesso das caatingas, tontos, apavorados, sem chefes . . .
Entre os fardos atirados à beira do caminho ficara, logo ao desencadear-se o pânico – tristíssimo pormenor! – o cadáver do comandante. Não o defenderam. Não houve um breve simulacro de repulsa contra os inimigos, que não viam e adivinhavam no estrídulo dos gritos desafiadores e nos estampidos de um tiroteio irregular e escasso, como o de uma caçada. Aos primeiros tiros os batalhões diluíram-se.

Mesmo tomando-se o substantivo como a base da narrativa jornalística, o seu encadeamento em “Os Sertões” tem efeitos retóricos. Destacamos, a seguir, no trecho acima, os substantivos que o leitor poderá colocar em sequência de leitura – e verá o seu efeito narrativo.

 Sem comando, cada um lutava a seu modo. Destacaram-se ainda diminutos grupos para queimarem as casas mais próximas ou travarem breves tiroteios. Outros, sem armas e feridos, principiaram a repassar o rio.
 Era o desenlace.
 Repentinamente, largando as últimas posições, os pelotões, de mistura, numa balbúrdia indefinível, sob a hipnose do pânico, enxurraram na corrente rasa das águas!
 Repelindo-se; apisoando os malferidos, que tombavam; afastando rudemente os extenuados trôpegos; derrubando-os, afogando-os, os primeiros grupos bateram contra a margem direita. Aí, ansiando por vingá-la, agarrando-se às gramíneas escassas, especando-se nas armas, filando-se às pernas dos felizes que conseguiam vencê-las, se embaralham outra vez em congérie ruidosa. Era um fervilhar de corpos transudando vozear estrídulo, e discordante, e longo, dando a ilusão de alguma enchente repentina, em que o Vaza-Barris, engrossado, saltasse, de improviso, fora do leito, borbulhando, acachoando, estrugindo . . .

Para observar a confluência entre jornalismo e literatura, basta levar em consideração a matéria de cada um. Para o jornalismo, nesse trecho anterior, o que importa são os fatos. Para a literatura, nesse mesmo trecho anterior, o que importa são as possibilidades do fato.

Nas reportagens publicadas em O Estado de S. Paulo, Euclides da Cunha faz todos os relatos em 1ª pessoa. Mas quando decidiu publicar as suas anotações como livro, trabalho que realizou durante os três anos que levou para construir uma ponte sobre o rio, em São José do Rio Pardo, Euclides promoveu uma estilização de linguagem que evidencia a presença de um sujeito. Isto implica subjetividade, mais típica do lírico do que do jornalístico. Isto não prejudica o plano estético da obra, mas contraria o discurso anunciado de relato objetivo e fiel da história.

Neste quesito, “Os Sertões” é mais literatura do que jornalismo, embora não seja integralmente num uma coisa nem outra.

Outra consistência a observar é a questão do julgamento.

O jornalista não julga – o entrevistado sim; mas Euclides prefere não dar voz direta aos entrevistados em “Os Sertões”, por isso o narrador.

O literato de mérito abstém-se de julgar – quem pode fazê-lo é o personagem ou o narrador onisciente (este também um personagem).

O tempo em “Os Sertões”

Determinou-a incidente desvalioso.
Antônio Conselheiro adquirira em Juazeiro certa quantidade de madeiras, que não podiam fornecer-lhe as caatingas paupérrimas de Canudos. Contratara o negócio com um dos representantes da autoridade daquela cidade. Mas ao terminar o prazo ajustado para o recebimento do material, que se aplicaria no remate da igreja nova, não lho entregaram. Tudo denuncia que o distrato foi adrede feito, visando o rompimento anelado.
O principal representante da justiça do Juazeiro tinha velha dívida a saldar com o agitador sertanejo, desde a época em que, sendo juiz do Bom Conselho, fora coagido a abandonar precipitadamente a comarca, assaltada pelos adeptos daquele.
Aproveitou, por isto, a situação, que surgia a talho para a desafronta. Sabia que o adversário revidaria à provocação mais ligeira. De fato, ante a violação do trato aquele retrucou com a ameaça de uma investida sobre a bela povoação do S. Francisco: as madeiras seriam de lá arrebatadas, à força.
O caso passou em dias de outubro de 1896.

O espaço em “Os Sertões”

No início de cada capítulo, à guisa de sumário ou de índice, Euclides da Cunha insere uma sequência que funciona como manchetes de jornal. Veja o exemplo em “A Terra” (capítulo I):

Preliminares. A entrada do sertão. Terra ignota. Em caminho para Monte Santo. Primeiras impressões. Um sonho de geólogo.

São tópicos frasais. (Que em jornalismo recebem a denominação técnica de “lead”.)

Vejamos como um trecho do capítulo que ambienta o homem e ambienta a batalha.

É uma paragem impressionadora.
As condições estruturais da terra lá se vincularam à violência máxima dos agentes exteriores para o desenho de relevos estupendos. O regímen torrencial dos climas excessivos, sobrevindo, de súbito, depois das insolações demoradas, e embatendo naqueles pendores, expôs há muito, arrebatando-lhes para longe todos os elementos degradados, as séries mais antigas daqueles últimos rebentos das montanhas: todas as variedades cristalinas, e os quartzitos ásperos, e as filades e calcários, revezando-se ou entrelaçando-se, repontando duramente a cada passo, mal cobertos por uma flora tolhiça – dispondo-se em cenários em que ressalta predominante, o aspecto atormentado das paisagens.
Porque o que estas denunciam – no enterroado do chão, no desmantelo dos cerros quase desnudos, no contorcido dos leitos secos dos ribeirões efêmeros, no constrito das gargantas e no quase convulsivo de uma flora decídua embaralhada em esgalhos – é de algum modo o martírio da terra, brutalmente golpeada pelos elementos variáveis, distribuídos por todas as modalidades climáticas. De um lado a extrema secura dos ares, no estio, facilitando pela irradiação noturna a perda instantânea do calor absorvido pelas rochas expostas às soalheiras, impõe-lhes a alternativa de alturas e quedas termométricas repentinas: e daí um jogar de dilatações e contrações que as disjunge, abrindo-as segundo os planos de menor resistência. De outro, as chuvas que fecham, de improviso, os ciclos adurentes das secas, precipitam estas reações demoradas.
As forças que trabalham a terra atacam-na na contextura íntima e na superfície sem intervalos na ação demolidora, substituindo-se, com intercadência invariável, nas duas estações únicas da região.

Em outro trecho:

E o observador que seguindo este itinerário deixa as paragens em que se revezam, em contraste belíssimo, a amplitude dos gerais e o fastígio das montanhas, ao atingir aquele ponto estaca surpreendido…

Observe-se aí o leitor sendo convocado a participar. Pura técnica literária – veja-se A filosofia da composição, de Edgar Allan Poe.

Gente, matéria-prima do jornalismo e da literatura

Euclides traça um retrato do habitante dos sertões que arrancou de Araripe Júnior um parágrafo laudatório: “Terminada a descrição da terra, isto é, da região das secas, feita a sua história natural e social, o jagunço salta das páginas do livro como um fruto maduro da árvore que o gerou e desenvolveu.”

As observações de Euclides sobre o sertanejo constituem, de fato, mais uma análise social e antropológica. Vejamos um trecho:

O brasileiro, tipo abstrato que se procura, mesmo no caso favorável acima firmado, só pode surdir de um entrelaçamento consideravelmente complexo.
Teoricamente ele seria o pardo, para que convergem os cruzamentos do mulato, do curiboca e do cafuz.
Avaliando-se, porém, as condições históricas que têm atuado, diferentes nos diferentes tratos do território; as disparidades climáticas que nestes ocasionam reações diversas diversamente suportadas pelas raças constituintes; a maior ou menor densidade com que estas cruzaram nos vários pontos do país; e atendendo-se ainda à intrusão – pelas armas na quadra colonial e pelas imigrações em nossos dias – de outros povos, fato que por sua vez não foi e não é uniforme, vê-se bem que a realidade daquela formação é altamente duvidosa, senão absurda.

Recursos de estilo em “Os Sertões”

RITMO

Apenas a artilharia, na extrema retaguarda, seguia vagarosa e unida, solene quase, na marcha habitual de uma revista, em que parava de quando em quando para varrer a disparos as margens traiçoeiras; e prosseguindo depois, lentamente, rodando, inabordável, terrível…

A presença da métrica poética é clara nesse trecho. Pode ser declamado com a beleza da leitura dramática, porque há um ritmo poético que mescla por exemplo a redondilha e o decassílabo. Isto é literatura.

ANALOGIAS

Outro, o velho curiboca desfalecido que não vingara disparar a carabina sobre os soldados, parecia um desenterrado claudicante.

O rosto, onde o prognatismo se acentuara, desaparecia na lanugem espessa da barba, feito uma máscara amarrotada e imunda.
À luz crua dos dias sertanejos aqueles cerros, aspérrimos rebrilham, estonteadoramente – ofuscante, num irradiar ardentíssimo.

Nesse último trecho, não há um quê de Eça de Queiroz nessa “luz crua” e nesse “irradiar ardentíssimo”?
E note-se o efeito onomatopaico de raspagem, nos cerros aspérrimos que irradiam…

TOM

As notas das cornetas vibravam em cima desse tumulto, imperceptíveis, inúteis…
Por fim cessaram. Não tinham a quem chamar. A infantaria desaparecera…
Pela beira da estrada, viam-se apenas peças esparsas de equipamento, mochilas e espingardas, cinturões e sabres, jogados a esmo por ali fora, como coisas imprestáveis.
Inteiramente só, sem uma única ordenança, o coronel Tamarindo lançou-se desesperadamente, o cavalo a galope, pela estrada – agora deserta – como se procurasse conter ainda, pessoalmente, a vanguarda. E a artilharia ficou afinal inteiramente em abandono, antes de chegar ao Angico.
Os jagunços lançaram-se então sobre ela.

É praticamente o inteiro período construído em vogais abertas – notas de corneta.

SONORIDADE

 Vaza-Barris escachoando (onomatopeia)
 O povoado revivesveu (variedades prefixionais)
 engrimponados nas pedras vacilantes (variedades verbais)
 Transmontadas as serras, sob a linha fulgurante do trópico (outro aspecto verbal)

As assonâncias construídas, abaixo (especialmente pelo uso das sibilantes), imitam “um longo uivar de ventania forte”:

Projetis de toda a espécie, sibilos finos de Mannlicher e Mauser, zumbidos cheios e sonoros de Comblain, rechinos duros de trabucos, rijos como os de canhões-revólveres, transvoando a todos os pontos: sobre o âmbito das linhas; sobre as tendas próximas aos quartéis-generais; sobre todos os morros até ao colo abrigado da Favela, onde sesteavam cargueiros e feridos; sobre todas as trilhas; sobre o álveo longo e tortuoso do rio e sobre as depressões mais escondidas; resvalando com estrondo pela tolda de couro da alpendrada do hospital de sangue e despertando os enfermos retransidos de espanto.

Em outro trecho, as aliterações propiciadas pelas letras P e T, concertam a sinfonia da linguagem:

Dali descem, acachoantes, para o levante, tombando em catadupas ou saltando “travessões” sucessivos, todos os rios que do Jequitinhonha ao Doce procuram os terraços inferiores do planalto…

Fechemos este artigo.

Para isto, um corolário jornalístico-literário com que Euclides da Cunha encerrou o seu livro “Os Sertões”:

Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.

Lançamento: O poliedro da crítica

9 de dezembro de 2009

newspoliedroSe você gosta de Literatura, leia este livro. É um passeio agradável pelos principais conceitos sobre literatura e uma visita guiada a grandes autores como Mario de Andrade, Antonio Candido, Augusto Meyer, Sérgio Buarque de Holanda, Euclides da Cunha, Benedito Nunes e Clarice Lispector, entre outros.

O autor é Fábio Lucas, ex-presidente da União Brasileira de Escritores, Prêmio Intelectual do Ano-Troféu Juca Pato, tendo lecionado no Brasil e no exterior. É considerado um dos maiores críticos literários do Brasil.

O livro dos mandarins

8 de dezembro de 2009

mandarimRicardo Lísias
Ed. Alfaguara

Este é um romance único na literatura brasileira. Seu autor, Ricardo Lísias, alia as reviravoltas e o suspense da trama um estilo literário vibrante e original, para narrar a trajetória de um executivo bem-sucedido que tem como obsessão ser escolhido no banco em que trabalha, para uma vaga na China.

Para montar sua carta de intenções, ele vai muito além de seus concorrentes. Estuda mandarim, pesquisa dados históricos e culturais sobre o país, lê até a biografia de Mao Tse-Tung, e se torna, enfim, um especialista.

Uma vez em Pequim, sua carreira estará garantida. Poderá galgar postos no banco, chegando à presidência do conselho em Londres. Depois, quem sabe, escrever um livro de auto-ajuda para jovens executivos e até abrir sua própria empresa de mentoring, coaching e counselling.

Paulo só não conta com um pequeno detalhe: os planos reservados a ele são muito diferentes do que poderia imaginar.

O livro dos mandarins é um romance surpreendente, permeado de bom-humor e de momentos desconcertantes, de um dos autores mais originais de sua geração.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Histórias do Realismo

8 de dezembro de 2009

realismpo
Vários autores
Ed. Scipione

Neste livro, uma reunião de sete contos de autores consagrados da literatura brasileira do período do Realismo.

O hóspede é a história de uma ambição que termina num terrível mal-entendido. O conto fala de traição, amor não correspondido e um crime.

O impenitente é a história de um frade que não consegue conter os “impulsos da carne”. Enquanto isso, O baile do Judeu é uma narrativa irônica que incorpora elementos do imaginário folclórico da Amazônia.

Outro conto, A batalha dos livros traz a história de um sábio que enlouquece ao tentar fazer a síntese de todos os conhecimentos da humanidade.

A moça mais bonita do Rio de Janeiro é um conto de fada às avessas que trata, com muita ironia, do drama de uma bela jovem impedida de casar com quem ela ama. Enfim, o conto Terpsícore é um casal em dificuldades financeiras, que ganha algum dinheiro e resolve dar uma festa.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

A mãe e o filho da mãe & A máquina de fazer amor

8 de dezembro de 2009

mãeWander Pirolli
Ed. Leitura

São dois livros num só volume. Vantagem dupla para o leitor porque se tratam de dois livros ótimos de um dos melhores autores de nossa ficção contemporânea: Wander Pirolli.

Utilizando uma linguagem coloquial, artisticamente elaborada, o autor flagra trabalhadores , donas de casa, desempregados, gente simples em momentos cruciais de suas vidas.

Das 29 histórias aqui reunidas algumas são consideradas obras primas do conto brasileiro: Os camaradas; A mãe e o filho da mãe; Trabalhadores do Brasil; Festa; Manhã seguinte; Lá no morro; Até amanhã; Crítica da razão pura; Até logo, mamãe; e Um pedido de demissão.

O grande mérito deste autor é o de conseguir elevar esta gente humilde à categoria de heróis das aventuras do dia a dia.

A edição traz ainda ilustrações muito adequadas de Odilon Moraes.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

O campeonato

8 de dezembro de 2009

cmapeFlávio Carneiro
Ed. Rocco

Nesse romance, o personagem principal é o próprio gênero policial, levado às últimas consequências. Pedro, um adolescente rico, desaparece. Onde estaria?

Eis o primeiro caso do detetive André. A investigação o leva a uma casa, em Petrópolis, onde virgens participam de uma espécie de jogo eletrônico, o RPG, inspirado no conto O campeonato, de Rubem Fonseca.

Manipulando as peças reais desse jogo está a Confraria de Fãs de Rubem Fonseca, cujos membros, para vencer o game, lançam mão da ficção, manipulam a realidade, submetendo-a a uma intricada e surpreendente trama.

Estaria André sendo atraído para uma arapuca? Onde estaria Pedro, o adolescente desaparecido? Para onde levariam André as pistas ao longo do caminho? E por que um pai rico e aflito colocaria o inexperiente detetive no encalço de seu filho?

A resposta certamente surpreenderá o leitor.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Água viva

7 de dezembro de 2009

agua vivaClarice Lispector
Ed. Rocco

Texto ficcional em forma de monólogo, foi lançado pela primeira vez em 1973, poucos anos antes da morte da autora, Clarice Lispector.

Nessa época, Clarice já se consagrara como um dos valores mais sólidos da nossa literatura, por seu estilo único, em que a grande preocupação era a busca permanente pela linguagem.

Linguagem que não se perde no tempo; ao contrário, é ricamente metafórica, em que coisas, ações e emoções do dia a dia se transformam em grandiosas digressões indagadoras sobre o sentido da existência e da vida.

Seguindo a linha de características introspectivas de seus livros, Clarice cria, em Água viva, uma obra singular, verdadeiro relato íntimo que projeta em flashes, como num caleidoscópio, verdadeiros resumos de estados de espírito em tom de confidência, onde a subjetividade sobrepuja o factual e a narradora é responsável pela cadência do texto.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Os estranhos

7 de dezembro de 2009

Capa_OsEstranhosCarla Dias
Ed. SIC

Kalé e Alice sofrem de fobia social. Tem medo do convívio com as pessoas, de seu comportamento padrozinado, por isso preferem viver emocionalmente isolados.

Ele é escritor, ela cineasta. Quando se conhecem, ela faz vídeos com pessoas psicologicamente perturbadas enquanto ele está tentando escrever um romance. Kalé, em busca de sossego para escrever, aluga um quarto no apartamento de Alice. E aí começa um jogo de sedução e estranhamento comum entre homem e mulher.

Por isso, estamos diante de um romance feito de pequenos segredos e fortes confissões ao longo do qual lealdade e confiança são sempre postas em questão.

Dentro deste romance há outro, aquele que Kalé começou a escrever secretamente sobre a vida de Alice. Kalé faz como que um contraponto: Tudo que na vida real é conturbado, agressivo, em seu novo livro aparece cheio de ternura.

Tudo isso permite ao leitor um duplo olhar sobre a realidade e as relações humanas; como são e como poderiam ser. Como diz sobre o livro o escritor e crítico Nelson de Oliveira “… é muito bom poder observar alguns demônios de perto, pacificados por um suave estilo literário”.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.