Posts Tagged ‘literatura brasileira’

Euclides da Cunha na Feira do Livro de Frankfurt

19 de fevereiro de 2010

 

O ano do digital

Jornal Estado de São Paulo – Arte e Lazer

O Brasil contará com a participação de 50 expositores – 46 editoras e quatro instituições. Juntos, eles ocuparão um estande coletivo de 120 metros quadrados e deverão apresentar ao público 1.640 títulos nacionais. Na programação, o destaque é a mesa redonda Euclides da Cunha e a Identidade Latino-Americana, no Espaço Forum Dialog, a partir das 16h15 (11h15 de Brasília). Com mediação do presidente da União Brasileira de Escritores, Levi Bucalem Ferrari, o encontro vai reunir Claudius Armbruster, diretor do Instituto Luso-Brasileiro da Universidade de Colônia; o crítico literário Fábio Lucas; Leopoldo M. Bernucci, professor do Departamento de Espanhol e Português da Universidade da Califórnia; e Francisco Foot Hardman, professor do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem e Assessor Especial da Reitoria da Unicamp, além de colaborar para o Estado.

(Publicado no jornal O Estado de São Paulo em 14 de outubro de 2009)

 

“Outras Palavras” é o programa de Literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura do Brasil.

Eliana de Freitas – “Oculta”

20 de janeiro de 2010

       A megalópole paulistana comporta milhares de mundinhos que não se comunicam, cada qual julgando-se o próprio universo e considerando os demais como coisa periférica, pouco interessante. Mas, de fato, todos os grupos, centrais ou periféricos, existem e interagem; daí os preconceitos e conflitos. Tudo se multiplica num Brasil gigante e pleno de contrastes. Como se não bastasse, o tempo se apresenta. E é mais um poderoso fator de clivagens. Dividindo-nos em faixas etárias que pouco se comunicam, eleva ao infinito aqueles grupos e as possibilidades de estranhamento e desencontros. O tempo é ainda, e sobretudo, o sempiterno enigma: passa por nós, ou passamos nós por ele? Quem o acompanha, e como? Quem ficou para trás, por quê?

        É neste complexo conjunto de variáveis – e viajando por entre os multiplicados cenários que seu cruzamento implica – que Eliana de Freitas desenvolve a ação deste instigante romance Oculta – Uma sentença masculina. Nele não faltam ingredientes clássicos do romance: amor, paixão, ciúme, traição, aos quais Eliana acrescenta o molho moderno constituído de muita ação, aventura, conflitos, mistérios, comportamentos aparentemente contraditórios e sexo, muito sexo sob suas mais diversas versões.

        Na roda viva agigantada de nossos dias, desfilam as personagens típicas de cada um dos infinitos grupos. Há o jornalista que, tendo pertencido à vanguarda nos anos setenta, agora se confina em seu mundinho alternativo para negar que o tempo passa e que os valores mudam. Há uma mulher misteriosa que, ao transitar por entre grupos e comportamentos, paira acima deles e do tempo, constituindo-se no centro do enigma que Eliana propõe ao leitor deste belo romance. E, se ele não o decifrar não tem problema. Ninguém decifrou Capitu, e, quiçá por isso Dom Casmurro continue a ser sempre lido e relido.        

 Levi Bucalem Ferrari

Presidente da União Brasileira de Escritores

(*) Apresentação do livro “Oculta” de Eliana de Freitas (São Paulo, Editora Limiar)

 

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Fábio Lucas – O poliedro da Crítica

20 de janeiro de 2010

Este livro traz uma série de reflexões sobre teoria e crítica de Literatura e sobre vários aspectos ligados à leitura e bom entendimento da obra literária.

Fábio Lucas, o autor, cuida também das modalidades de análise, de interpretação e de estimativa dos textos literários.

Livro para professores e especialistas, mas que também agradará àqueles que gostam da nobre arte porque escrito numa linguagem acessível, longe do ecletismo que caracteriza a maior parte dos trabalhos acadêmicos.

Ao contrário, é um passeio agradável pelos principais conceitos e uma visita guiada a grandes autores como Mario de Andrade, Antonio Candido, Augusto Meyer, Sérgio Buarque de Holanda, Euclides da Cunha, Benedito Nunes e Clarice Lispector, entre outros.

O autor é ex-presidente da União Brasileira de Escritores, Prêmio Intelectual do Ano e ganhador do Troféu Juca Pato e muitos outros prêmios. Foi professor no Brasil, nos Estados Unidos e em Portugal. É considerado um dos maiores críticos literários do Brasil.

 

 

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

A CONFLUÊNCIA DA LITERATURA E DO JORNALISMO EM “OS SERTÕES”

10 de dezembro de 2009

setões

Joaquim Maria Botelho

Euclides da Cunha emergiu de Canudos como São Paulo de Damasco. Um homem com ideias renovadas.

Quando foi convidado por Júlio Mesquita, dono do jornal O Estado de S. Paulo, para fazer a cobertura jornalística da guerra de Canudos, Euclides condenava Canudos e sua gente. Engenheiro, formado no cientificismo que regia o Colégio Militar, partilhava do julgamento da gente instruída de sua época. Estava convicto de que Antônio Conselheiro era um falso messias, canalha e impostor. E Canudos, no sertão da Bahia, onde o beato se recolhera com seus seguidores, era um covil de assassinos.

Euclides foi se convertendo à medida que escrevia. Aos poucos sucumbiu à verdade e deixou de lado o cientificismo e o determinismo que explicava gente como Antônio Conselheiro e seus jagunços. Machado de Assis, por exemplo, a bordo do pensamento dominante, considerava o sertanejo um ser incapaz de atingir a civilização. Euclides sintetizaria a sua contraposição a essa ideia numa frase: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

Seguidor da doutrina de Augusto Comte, Euclides seguiu para o local das batalhas como cientista. Principiou a enviar artigos para o jornal, antes de testemunhar a luta, durante um período alongado em que permaneceu em Salvador, aguardando translado. Seu texto denunciava o engenheiro ocupado com a precisão técnica, com o rigor científico. Tinha um projeto historiográfico e para isso valia-se do discurso científico, positivista e europeu. Usava desmedidamente dados da geografia, da meteorologia, da hidráulica, da botânica e da engenharia. Seu interlocutor era a ciência.

Mas, como literato, tinha um projeto estético. Seu texto denuncia o autor ocupado com a precisão da língua, dominando a técnica narrativa, a poética e a humanidade. Mas não perdia de vista o que Machado de Assis pontificava, no artigo Instinto de Nacionalidade, publicado em 1873: “O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”

Gênero literário ou jornalístico?

Do ponto de vista da teoria da literatura, “Os Sertões” não é um romance histórico, dado que não narra um episódio histórico emprestando feição literária de personagem aos protagonistas. O registro é fundamentado, científico – pelo menos tanto que se podia ser naquele momento histórico-filosófico-literário do Brasil.

“Os Sertões” tampouco é a história romanceada, porque não acrescenta à história episódios romanescos para torná-la mais agradável à leitura.

Encaixa-se, perfeitamente, na categoria de épico. Tem narrador, tem urdidura organizada e lógica (neste caso, real), tem personagens (neste caso, históricas), tem espaço definido e tempo delimitado. Aliás, é isto mesmo que escreveu Araripe Júnior, crítico respeitadíssimo à época do lançamento do livro: “Vós sabeis retratar ao vivo a natureza física, dando intensidade às notas, sem prejudicar a veracidade dos fatos, a qualidade dos fenômenos. É o grande escolho da arte descritiva: exatidão e relevo, naturalismo e brilho, consistência e colorido, poesia e verdade.”

Tendo essas qualidades, seria, então, “Os Sertões”, uma reportagem?

Analisemos. É uma obra original, porque traz achados importantes para a sociedade. É uma obra oportuna (menos para o Exército republicano, que queria mesmo era esquecer o fracasso das expedições que durante um ano investiram contra Canudos). É factual, documentada. E, além disso, demonstra independência de consciência. Conceitualmente, tudo isto se refere ao trabalho jornalístico e está presente em “Os Sertões”.

Além disso, o texto obedece aos paradigmas do jornalismo: o quê/quem, quando, onde, como e por que.

É preciso lembrar que a retórica do jornalismo, à época, era uma retórica literária. Ainda não havia sido incorporada ao jornalismo mundial a técnica da objetividade e da imparcialidade que os Estados Unidos exportariam para o mundo depois da Segunda Guerra Mundial. Até aqui, nenhum conflito entre literatura e jornalismo, no texto de “Os Sertões”, apesar da grandiloqüência.

Mas, na questão programática, o papel do repórter está bem claro na obra. Nas “Notas à segunda edição”, Euclides da Cunha encerra com uma frase do historiador ateniense Tucídides, exibindo o seu reposicionamento.

Notas à segunda edição

“Não tive o intuito de defender os sertanejos, porque este livro não é um livro de defesa; é, infelizmente, de ataque.
Ataque franco e, devo dizê-lo, involuntário. Nesse investir, aparentemente desafiador, com os singularíssimos civilizados que nos sertões, diante de semibárbaros, estadearam tão lastimáveis selvatiguezas, obedeci ao rigor incoercível da verdade. Ninguém o negará.
E se não temesse envaidar-me em paralelo que não mereço, gravaria na primeira página a frase nobremente sincera de Tucídides, ao escrever a história da guerra do Peloponeso – porque eu também embora sem a mesma visão aquilina, escrevi

“SEM DAR CRÉDITO ÀS PRIMEIRAS TESTEMUNHAS QUE ENCONTREI, NEM ÀS MINHAS PRÓPRIAS IMPRESSÕES, MAS NARRANDO APENAS OS ACONTECIMENTOS DE QUE FUI ESPECTADOR OU SOBRE OS QUAIS TIVE INFORMAÇÕES SEGURAS.”

Testemunho

Uma vez em Canudos, Euclides ouviu seguidores de Conselheiro. Na narrativa a seguir (trecho de reportagem publicada no jornal o Estado de S. Paulo em agosto de 1897), podemos ler, ao mesmo tempo uma compreensão desvelada da situação e um depoimento do fazer jornalístico que norteava seus artigos.

Afirma o pequeno jagunço que o velho vigário de Cumbe ali aparecia, de quinze em quinze dias.
(…)
Terminamos o longo interrogatório inquirindo acerca dos milagres do Conselheiro. Não os conhece, não os viu nunca, nunca ouviu dizer que ele fazia milagres. E ao replicar um dos circunstantes que aquele declarava que o jagunço morto em combate ressuscitaria – negou ainda.
- Mas o que promete afinal ele anos que morrem?
A resposta foi absolutamente inesperada:
- Salvar a alma.
Estas revelações feitas diante de muitas testemunhas têm para mim um valor inestimável; não mentem, não sofismam e não iludem, naquela idade, as almas ingênuas dos rudes filhos do sertão.

Aí está. Emerge um novo Euclides.

Libelo

Antes de citar um trecho da “Nota preliminar”, lembremos que o jornalismo tem alguns conceitos que categorizam a notícia e a reportagem. São eles: imparcialidade, atualidade, exemplaridade e proximidade.

A civilização avançará nos sertões impelida por essa implacável “força motriz da História” que Gumplowicz, maior do que Hobbes, lobrigou, num lance genial, no esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes.
A campanha de Canudos tem por isto a significação inegável de um primeiro assalto, em luta talvez longa. Nem enfraquece o asserto o termo-la realizado nós filhos do mesmo solo, porque, etnologicamente indefinidos, sem tradições nacionais uniformes, vivendo parasitariamente à beira do Atlântico, dos princípios civilizadores elaborados na Europa, e armados pela indústria alemã – tivemos na ação um papel singular de mercenários inconscientes. Além disto, mal unidos àqueles extraordinários patrícios pelo solo em parte desconhecido, deles de todo nos separa uma coordenada histórica – o tempo.
Aquela campanha lembra um refluxo para o passado.
E foi, na significação integral da palavra, um crime.
Denunciemo-lo.

Euclides da Cunha denunciava a existência de dois Brasis, muito antes de Jacques Lambert ou Gilberto Freyre. Um libelo, como fizera Émile Zola no caso Dreyfus. Isto é mais jornalismo do que literatura. E confere ao livro funções sociais que ultrapassam as suas qualidades literárias ou científicas e que transcendem tanto o projeto historiográfico quanto o projeto estético.

Para a crítica e para os intelectuais, especialmente José Veríssimo, Sílvio Romero, Cassiano Ricardo, Gilberto Freyre e Coelho Neto, talvez a mais importante contribuição de “Os Sertões” tenha sido a tentativa de estabelecer a identidade nacional. O livro tem sido entendido como o primeiro épico da nacionalidade brasileira.

Como num ato de contrição, Euclides escreve, no capítulo V de “Os Sertões”:

“Vivendo quatrocentos anos no litoral vastíssimo, em que palejam reflexos da vida civilizada, tivemos de improviso, como herança inesperada, a República. Ascendemos, de chofre, arrebatados no caudal dos ideais modernos, deixando na penumbra secular em que jazem, no âmago do país, um terço da nossa gente. Iludidos por uma civilização de empréstimo; respingando, em faina cega de copistas, tudo o que de melhor existe nos códigos orgânicos de outras nações, tomamos, revolucionariamente, fugindo ao transigir mais ligeiro com as exigências da nossa própria nacionalidade, mais fundo o contraste entre o nosso modo de viver e o daqueles rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa. Porque não no-los separa um mar, separam-no-los três séculos…”

No entanto, os efeitos sobre o leitor são resultantes mais da retórica do que dos fatos. Isto é literatura. Vamos ver um trecho de “A luta”:

Sem comando, cada um lutava a seu modo. Destacaram-se ainda diminutos grupos para queimarem as casas mais próximas ou travarem breves tiroteios. Outros, sem armas e feridos, principiaram a repassar o rio.
Era o desenlace.
Repentinamente, largando as últimas posições, os pelotões, de mistura, numa balbúrdia indefinível, sob a hipnose do pânico, enxurraram na corrente rasa das águas!
Repelindo-se; apisoando os malferidos, que tombavam; afastando rudemente os extenuados trôpegos; derrubando-os, afogando-os, os primeiros grupos bateram contra a margem direita. Aí, ansiando por vingá-la, agarrando-se às gramíneas escassas, especando-se nas armas, filando-se às pernas dos felizes que conseguiam vencê-las, se embaralham outra vez em congérie ruidosa. Era um fervilhar de corpos transudando vozear estrídulo, e discordante, e longo, dando a ilusão de alguma enchente repentina, em que o Vaza-Barris, engrossado, saltasse, de improviso, fora do leito, borbulhando, acachoando, estrugindo. . .

Vamos escandir os principais efeitos adjetivos, no trecho acima:
 Sem comando
 Diminutos grupos
 Casas mais próximas
 breves tiroteios
 sem armas e feridos
 Repentinamente
 últimas posições
 os pelotões, de mistura
 balbúrdia indefinível,
 enxurraram na corrente rasa das águas !
 Malferidos
 afastando rudemente
 os extenuados trôpegos;
 primeiros grupos
 contra a margem direita
 gramíneas escassas
 felizes que conseguiam vencê-las
 congérie ruidosa.
 corpos transudando vozear estrídulo
 enchente repentina
 Vaza-Barris, engrossado
 borbulhando, acachoando, estrugindo . . .

Em outro trecho de “A luta”, a narrativa também está eivada de efeitos adjetivos:

E foi uma debandada.
Oitocentos homens desapareciam em fuga, abandonando as espingardas; arriando as padiolas, em que se estorciam feridos: jogando fora as peças de equipamento; desarmando-se; desapertando os cinturões, para a carreira desafogada; e correndo, correndo ao acaso, correndo em grupos, em bandos erradios, correndo pelas estradas e pelas trilhas que as recortam, correndo para o recesso das caatingas, tontos, apavorados, sem chefes . . .
Entre os fardos atirados à beira do caminho ficara, logo ao desencadear-se o pânico – tristíssimo pormenor! – o cadáver do comandante. Não o defenderam. Não houve um breve simulacro de repulsa contra os inimigos, que não viam e adivinhavam no estrídulo dos gritos desafiadores e nos estampidos de um tiroteio irregular e escasso, como o de uma caçada. Aos primeiros tiros os batalhões diluíram-se.

Mesmo tomando-se o substantivo como a base da narrativa jornalística, o seu encadeamento em “Os Sertões” tem efeitos retóricos. Destacamos, a seguir, no trecho acima, os substantivos que o leitor poderá colocar em sequência de leitura – e verá o seu efeito narrativo.

 Sem comando, cada um lutava a seu modo. Destacaram-se ainda diminutos grupos para queimarem as casas mais próximas ou travarem breves tiroteios. Outros, sem armas e feridos, principiaram a repassar o rio.
 Era o desenlace.
 Repentinamente, largando as últimas posições, os pelotões, de mistura, numa balbúrdia indefinível, sob a hipnose do pânico, enxurraram na corrente rasa das águas!
 Repelindo-se; apisoando os malferidos, que tombavam; afastando rudemente os extenuados trôpegos; derrubando-os, afogando-os, os primeiros grupos bateram contra a margem direita. Aí, ansiando por vingá-la, agarrando-se às gramíneas escassas, especando-se nas armas, filando-se às pernas dos felizes que conseguiam vencê-las, se embaralham outra vez em congérie ruidosa. Era um fervilhar de corpos transudando vozear estrídulo, e discordante, e longo, dando a ilusão de alguma enchente repentina, em que o Vaza-Barris, engrossado, saltasse, de improviso, fora do leito, borbulhando, acachoando, estrugindo . . .

Para observar a confluência entre jornalismo e literatura, basta levar em consideração a matéria de cada um. Para o jornalismo, nesse trecho anterior, o que importa são os fatos. Para a literatura, nesse mesmo trecho anterior, o que importa são as possibilidades do fato.

Nas reportagens publicadas em O Estado de S. Paulo, Euclides da Cunha faz todos os relatos em 1ª pessoa. Mas quando decidiu publicar as suas anotações como livro, trabalho que realizou durante os três anos que levou para construir uma ponte sobre o rio, em São José do Rio Pardo, Euclides promoveu uma estilização de linguagem que evidencia a presença de um sujeito. Isto implica subjetividade, mais típica do lírico do que do jornalístico. Isto não prejudica o plano estético da obra, mas contraria o discurso anunciado de relato objetivo e fiel da história.

Neste quesito, “Os Sertões” é mais literatura do que jornalismo, embora não seja integralmente num uma coisa nem outra.

Outra consistência a observar é a questão do julgamento.

O jornalista não julga – o entrevistado sim; mas Euclides prefere não dar voz direta aos entrevistados em “Os Sertões”, por isso o narrador.

O literato de mérito abstém-se de julgar – quem pode fazê-lo é o personagem ou o narrador onisciente (este também um personagem).

O tempo em “Os Sertões”

Determinou-a incidente desvalioso.
Antônio Conselheiro adquirira em Juazeiro certa quantidade de madeiras, que não podiam fornecer-lhe as caatingas paupérrimas de Canudos. Contratara o negócio com um dos representantes da autoridade daquela cidade. Mas ao terminar o prazo ajustado para o recebimento do material, que se aplicaria no remate da igreja nova, não lho entregaram. Tudo denuncia que o distrato foi adrede feito, visando o rompimento anelado.
O principal representante da justiça do Juazeiro tinha velha dívida a saldar com o agitador sertanejo, desde a época em que, sendo juiz do Bom Conselho, fora coagido a abandonar precipitadamente a comarca, assaltada pelos adeptos daquele.
Aproveitou, por isto, a situação, que surgia a talho para a desafronta. Sabia que o adversário revidaria à provocação mais ligeira. De fato, ante a violação do trato aquele retrucou com a ameaça de uma investida sobre a bela povoação do S. Francisco: as madeiras seriam de lá arrebatadas, à força.
O caso passou em dias de outubro de 1896.

O espaço em “Os Sertões”

No início de cada capítulo, à guisa de sumário ou de índice, Euclides da Cunha insere uma sequência que funciona como manchetes de jornal. Veja o exemplo em “A Terra” (capítulo I):

Preliminares. A entrada do sertão. Terra ignota. Em caminho para Monte Santo. Primeiras impressões. Um sonho de geólogo.

São tópicos frasais. (Que em jornalismo recebem a denominação técnica de “lead”.)

Vejamos como um trecho do capítulo que ambienta o homem e ambienta a batalha.

É uma paragem impressionadora.
As condições estruturais da terra lá se vincularam à violência máxima dos agentes exteriores para o desenho de relevos estupendos. O regímen torrencial dos climas excessivos, sobrevindo, de súbito, depois das insolações demoradas, e embatendo naqueles pendores, expôs há muito, arrebatando-lhes para longe todos os elementos degradados, as séries mais antigas daqueles últimos rebentos das montanhas: todas as variedades cristalinas, e os quartzitos ásperos, e as filades e calcários, revezando-se ou entrelaçando-se, repontando duramente a cada passo, mal cobertos por uma flora tolhiça – dispondo-se em cenários em que ressalta predominante, o aspecto atormentado das paisagens.
Porque o que estas denunciam – no enterroado do chão, no desmantelo dos cerros quase desnudos, no contorcido dos leitos secos dos ribeirões efêmeros, no constrito das gargantas e no quase convulsivo de uma flora decídua embaralhada em esgalhos – é de algum modo o martírio da terra, brutalmente golpeada pelos elementos variáveis, distribuídos por todas as modalidades climáticas. De um lado a extrema secura dos ares, no estio, facilitando pela irradiação noturna a perda instantânea do calor absorvido pelas rochas expostas às soalheiras, impõe-lhes a alternativa de alturas e quedas termométricas repentinas: e daí um jogar de dilatações e contrações que as disjunge, abrindo-as segundo os planos de menor resistência. De outro, as chuvas que fecham, de improviso, os ciclos adurentes das secas, precipitam estas reações demoradas.
As forças que trabalham a terra atacam-na na contextura íntima e na superfície sem intervalos na ação demolidora, substituindo-se, com intercadência invariável, nas duas estações únicas da região.

Em outro trecho:

E o observador que seguindo este itinerário deixa as paragens em que se revezam, em contraste belíssimo, a amplitude dos gerais e o fastígio das montanhas, ao atingir aquele ponto estaca surpreendido…

Observe-se aí o leitor sendo convocado a participar. Pura técnica literária – veja-se A filosofia da composição, de Edgar Allan Poe.

Gente, matéria-prima do jornalismo e da literatura

Euclides traça um retrato do habitante dos sertões que arrancou de Araripe Júnior um parágrafo laudatório: “Terminada a descrição da terra, isto é, da região das secas, feita a sua história natural e social, o jagunço salta das páginas do livro como um fruto maduro da árvore que o gerou e desenvolveu.”

As observações de Euclides sobre o sertanejo constituem, de fato, mais uma análise social e antropológica. Vejamos um trecho:

O brasileiro, tipo abstrato que se procura, mesmo no caso favorável acima firmado, só pode surdir de um entrelaçamento consideravelmente complexo.
Teoricamente ele seria o pardo, para que convergem os cruzamentos do mulato, do curiboca e do cafuz.
Avaliando-se, porém, as condições históricas que têm atuado, diferentes nos diferentes tratos do território; as disparidades climáticas que nestes ocasionam reações diversas diversamente suportadas pelas raças constituintes; a maior ou menor densidade com que estas cruzaram nos vários pontos do país; e atendendo-se ainda à intrusão – pelas armas na quadra colonial e pelas imigrações em nossos dias – de outros povos, fato que por sua vez não foi e não é uniforme, vê-se bem que a realidade daquela formação é altamente duvidosa, senão absurda.

Recursos de estilo em “Os Sertões”

RITMO

Apenas a artilharia, na extrema retaguarda, seguia vagarosa e unida, solene quase, na marcha habitual de uma revista, em que parava de quando em quando para varrer a disparos as margens traiçoeiras; e prosseguindo depois, lentamente, rodando, inabordável, terrível…

A presença da métrica poética é clara nesse trecho. Pode ser declamado com a beleza da leitura dramática, porque há um ritmo poético que mescla por exemplo a redondilha e o decassílabo. Isto é literatura.

ANALOGIAS

Outro, o velho curiboca desfalecido que não vingara disparar a carabina sobre os soldados, parecia um desenterrado claudicante.

O rosto, onde o prognatismo se acentuara, desaparecia na lanugem espessa da barba, feito uma máscara amarrotada e imunda.
À luz crua dos dias sertanejos aqueles cerros, aspérrimos rebrilham, estonteadoramente – ofuscante, num irradiar ardentíssimo.

Nesse último trecho, não há um quê de Eça de Queiroz nessa “luz crua” e nesse “irradiar ardentíssimo”?
E note-se o efeito onomatopaico de raspagem, nos cerros aspérrimos que irradiam…

TOM

As notas das cornetas vibravam em cima desse tumulto, imperceptíveis, inúteis…
Por fim cessaram. Não tinham a quem chamar. A infantaria desaparecera…
Pela beira da estrada, viam-se apenas peças esparsas de equipamento, mochilas e espingardas, cinturões e sabres, jogados a esmo por ali fora, como coisas imprestáveis.
Inteiramente só, sem uma única ordenança, o coronel Tamarindo lançou-se desesperadamente, o cavalo a galope, pela estrada – agora deserta – como se procurasse conter ainda, pessoalmente, a vanguarda. E a artilharia ficou afinal inteiramente em abandono, antes de chegar ao Angico.
Os jagunços lançaram-se então sobre ela.

É praticamente o inteiro período construído em vogais abertas – notas de corneta.

SONORIDADE

 Vaza-Barris escachoando (onomatopeia)
 O povoado revivesveu (variedades prefixionais)
 engrimponados nas pedras vacilantes (variedades verbais)
 Transmontadas as serras, sob a linha fulgurante do trópico (outro aspecto verbal)

As assonâncias construídas, abaixo (especialmente pelo uso das sibilantes), imitam “um longo uivar de ventania forte”:

Projetis de toda a espécie, sibilos finos de Mannlicher e Mauser, zumbidos cheios e sonoros de Comblain, rechinos duros de trabucos, rijos como os de canhões-revólveres, transvoando a todos os pontos: sobre o âmbito das linhas; sobre as tendas próximas aos quartéis-generais; sobre todos os morros até ao colo abrigado da Favela, onde sesteavam cargueiros e feridos; sobre todas as trilhas; sobre o álveo longo e tortuoso do rio e sobre as depressões mais escondidas; resvalando com estrondo pela tolda de couro da alpendrada do hospital de sangue e despertando os enfermos retransidos de espanto.

Em outro trecho, as aliterações propiciadas pelas letras P e T, concertam a sinfonia da linguagem:

Dali descem, acachoantes, para o levante, tombando em catadupas ou saltando “travessões” sucessivos, todos os rios que do Jequitinhonha ao Doce procuram os terraços inferiores do planalto…

Fechemos este artigo.

Para isto, um corolário jornalístico-literário com que Euclides da Cunha encerrou o seu livro “Os Sertões”:

Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.

Joaquim Maria Botelho

Euclides da Cunha emergiu de Canudos como São Paulo de Damasco. Um homem com ideias renovadas.

Quando foi convidado por Júlio Mesquita, dono do jornal O Estado de S. Paulo, para fazer a cobertura jornalística da guerra de Canudos, Euclides condenava Canudos e sua gente. Engenheiro, formado no cientificismo que regia o Colégio Militar, partilhava do julgamento da gente instruída de sua época. Estava convicto de que Antônio Conselheiro era um falso messias, canalha e impostor. E Canudos, no sertão da Bahia, onde o beato se recolhera com seus seguidores, era um covil de assassinos.

Euclides foi se convertendo à medida que escrevia. Aos poucos sucumbiu à verdade e deixou de lado o cientificismo e o determinismo que explicava gente como Antônio Conselheiro e seus jagunços. Machado de Assis, por exemplo, a bordo do pensamento dominante, considerava o sertanejo um ser incapaz de atingir a civilização. Euclides sintetizaria a sua contraposição a essa ideia numa frase: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

Seguidor da doutrina de Augusto Comte, Euclides seguiu para o local das batalhas como cientista. Principiou a enviar artigos para o jornal, antes de testemunhar a luta, durante um período alongado em que permaneceu em Salvador, aguardando translado. Seu texto denunciava o engenheiro ocupado com a precisão técnica, com o rigor científico. Tinha um projeto historiográfico e para isso valia-se do discurso científico, positivista e europeu. Usava desmedidamente dados da geografia, da meteorologia, da hidráulica, da botânica e da engenharia. Seu interlocutor era a ciência.

Mas, como literato, tinha um projeto estético. Seu texto denuncia o autor ocupado com a precisão da língua, dominando a técnica narrativa, a poética e a humanidade. Mas não perdia de vista o que Machado de Assis pontificava, no artigo Instinto de Nacionalidade, publicado em 1873: “O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.”

Gênero literário ou jornalístico?

Do ponto de vista da teoria da literatura, “Os Sertões” não é um romance histórico, dado que não narra um episódio histórico emprestando feição literária de personagem aos protagonistas. O registro é fundamentado, científico – pelo menos tanto que se podia ser naquele momento histórico-filosófico-literário do Brasil.

“Os Sertões” tampouco é a história romanceada, porque não acrescenta à história episódios romanescos para torná-la mais agradável à leitura.

Encaixa-se, perfeitamente, na categoria de épico. Tem narrador, tem urdidura organizada e lógica (neste caso, real), tem personagens (neste caso, históricas), tem espaço definido e tempo delimitado. Aliás, é isto mesmo que escreveu Araripe Júnior, crítico respeitadíssimo à época do lançamento do livro: “Vós sabeis retratar ao vivo a natureza física, dando intensidade às notas, sem prejudicar a veracidade dos fatos, a qualidade dos fenômenos. É o grande escolho da arte descritiva: exatidão e relevo, naturalismo e brilho, consistência e colorido, poesia e verdade.”

Tendo essas qualidades, seria, então, “Os Sertões”, uma reportagem?

Analisemos. É uma obra original, porque traz achados importantes para a sociedade. É uma obra oportuna (menos para o Exército republicano, que queria mesmo era esquecer o fracasso das expedições que durante um ano investiram contra Canudos). É factual, documentada. E, além disso, demonstra independência de consciência. Conceitualmente, tudo isto se refere ao trabalho jornalístico e está presente em “Os Sertões”.

Além disso, o texto obedece aos paradigmas do jornalismo: o quê/quem, quando, onde, como e por que.

É preciso lembrar que a retórica do jornalismo, à época, era uma retórica literária. Ainda não havia sido incorporada ao jornalismo mundial a técnica da objetividade e da imparcialidade que os Estados Unidos exportariam para o mundo depois da Segunda Guerra Mundial. Até aqui, nenhum conflito entre literatura e jornalismo, no texto de “Os Sertões”, apesar da grandiloqüência.

Mas, na questão programática, o papel do repórter está bem claro na obra. Nas “Notas à segunda edição”, Euclides da Cunha encerra com uma frase do historiador ateniense Tucídides, exibindo o seu reposicionamento.

Notas à segunda edição

“Não tive o intuito de defender os sertanejos, porque este livro não é um livro de defesa; é, infelizmente, de ataque.
Ataque franco e, devo dizê-lo, involuntário. Nesse investir, aparentemente desafiador, com os singularíssimos civilizados que nos sertões, diante de semibárbaros, estadearam tão lastimáveis selvatiguezas, obedeci ao rigor incoercível da verdade. Ninguém o negará.
E se não temesse envaidar-me em paralelo que não mereço, gravaria na primeira página a frase nobremente sincera de Tucídides, ao escrever a história da guerra do Peloponeso – porque eu também embora sem a mesma visão aquilina, escrevi

“SEM DAR CRÉDITO ÀS PRIMEIRAS TESTEMUNHAS QUE ENCONTREI, NEM ÀS MINHAS PRÓPRIAS IMPRESSÕES, MAS NARRANDO APENAS OS ACONTECIMENTOS DE QUE FUI ESPECTADOR OU SOBRE OS QUAIS TIVE INFORMAÇÕES SEGURAS.”

Testemunho

Uma vez em Canudos, Euclides ouviu seguidores de Conselheiro. Na narrativa a seguir (trecho de reportagem publicada no jornal o Estado de S. Paulo em agosto de 1897), podemos ler, ao mesmo tempo uma compreensão desvelada da situação e um depoimento do fazer jornalístico que norteava seus artigos.

Afirma o pequeno jagunço que o velho vigário de Cumbe ali aparecia, de quinze em quinze dias.
(…)
Terminamos o longo interrogatório inquirindo acerca dos milagres do Conselheiro. Não os conhece, não os viu nunca, nunca ouviu dizer que ele fazia milagres. E ao replicar um dos circunstantes que aquele declarava que o jagunço morto em combate ressuscitaria – negou ainda.
- Mas o que promete afinal ele anos que morrem?
A resposta foi absolutamente inesperada:
- Salvar a alma.
Estas revelações feitas diante de muitas testemunhas têm para mim um valor inestimável; não mentem, não sofismam e não iludem, naquela idade, as almas ingênuas dos rudes filhos do sertão.

Aí está. Emerge um novo Euclides.

Libelo

Antes de citar um trecho da “Nota preliminar”, lembremos que o jornalismo tem alguns conceitos que categorizam a notícia e a reportagem. São eles: imparcialidade, atualidade, exemplaridade e proximidade.

A civilização avançará nos sertões impelida por essa implacável “força motriz da História” que Gumplowicz, maior do que Hobbes, lobrigou, num lance genial, no esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes.
A campanha de Canudos tem por isto a significação inegável de um primeiro assalto, em luta talvez longa. Nem enfraquece o asserto o termo-la realizado nós filhos do mesmo solo, porque, etnologicamente indefinidos, sem tradições nacionais uniformes, vivendo parasitariamente à beira do Atlântico, dos princípios civilizadores elaborados na Europa, e armados pela indústria alemã – tivemos na ação um papel singular de mercenários inconscientes. Além disto, mal unidos àqueles extraordinários patrícios pelo solo em parte desconhecido, deles de todo nos separa uma coordenada histórica – o tempo.
Aquela campanha lembra um refluxo para o passado.
E foi, na significação integral da palavra, um crime.
Denunciemo-lo.

Euclides da Cunha denunciava a existência de dois Brasis, muito antes de Jacques Lambert ou Gilberto Freyre. Um libelo, como fizera Émile Zola no caso Dreyfus. Isto é mais jornalismo do que literatura. E confere ao livro funções sociais que ultrapassam as suas qualidades literárias ou científicas e que transcendem tanto o projeto historiográfico quanto o projeto estético.

Para a crítica e para os intelectuais, especialmente José Veríssimo, Sílvio Romero, Cassiano Ricardo, Gilberto Freyre e Coelho Neto, talvez a mais importante contribuição de “Os Sertões” tenha sido a tentativa de estabelecer a identidade nacional. O livro tem sido entendido como o primeiro épico da nacionalidade brasileira.

Como num ato de contrição, Euclides escreve, no capítulo V de “Os Sertões”:

“Vivendo quatrocentos anos no litoral vastíssimo, em que palejam reflexos da vida civilizada, tivemos de improviso, como herança inesperada, a República. Ascendemos, de chofre, arrebatados no caudal dos ideais modernos, deixando na penumbra secular em que jazem, no âmago do país, um terço da nossa gente. Iludidos por uma civilização de empréstimo; respingando, em faina cega de copistas, tudo o que de melhor existe nos códigos orgânicos de outras nações, tomamos, revolucionariamente, fugindo ao transigir mais ligeiro com as exigências da nossa própria nacionalidade, mais fundo o contraste entre o nosso modo de viver e o daqueles rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa. Porque não no-los separa um mar, separam-no-los três séculos…”

No entanto, os efeitos sobre o leitor são resultantes mais da retórica do que dos fatos. Isto é literatura. Vamos ver um trecho de “A luta”:

Sem comando, cada um lutava a seu modo. Destacaram-se ainda diminutos grupos para queimarem as casas mais próximas ou travarem breves tiroteios. Outros, sem armas e feridos, principiaram a repassar o rio.
Era o desenlace.
Repentinamente, largando as últimas posições, os pelotões, de mistura, numa balbúrdia indefinível, sob a hipnose do pânico, enxurraram na corrente rasa das águas!
Repelindo-se; apisoando os malferidos, que tombavam; afastando rudemente os extenuados trôpegos; derrubando-os, afogando-os, os primeiros grupos bateram contra a margem direita. Aí, ansiando por vingá-la, agarrando-se às gramíneas escassas, especando-se nas armas, filando-se às pernas dos felizes que conseguiam vencê-las, se embaralham outra vez em congérie ruidosa. Era um fervilhar de corpos transudando vozear estrídulo, e discordante, e longo, dando a ilusão de alguma enchente repentina, em que o Vaza-Barris, engrossado, saltasse, de improviso, fora do leito, borbulhando, acachoando, estrugindo. . .

Vamos escandir os principais efeitos adjetivos, no trecho acima:
 Sem comando
 Diminutos grupos
 Casas mais próximas
 breves tiroteios
 sem armas e feridos
 Repentinamente
 últimas posições
 os pelotões, de mistura
 balbúrdia indefinível,
 enxurraram na corrente rasa das águas !
 Malferidos
 afastando rudemente
 os extenuados trôpegos;
 primeiros grupos
 contra a margem direita
 gramíneas escassas
 felizes que conseguiam vencê-las
 congérie ruidosa.
 corpos transudando vozear estrídulo
 enchente repentina
 Vaza-Barris, engrossado
 borbulhando, acachoando, estrugindo . . .

Em outro trecho de “A luta”, a narrativa também está eivada de efeitos adjetivos:

E foi uma debandada.
Oitocentos homens desapareciam em fuga, abandonando as espingardas; arriando as padiolas, em que se estorciam feridos: jogando fora as peças de equipamento; desarmando-se; desapertando os cinturões, para a carreira desafogada; e correndo, correndo ao acaso, correndo em grupos, em bandos erradios, correndo pelas estradas e pelas trilhas que as recortam, correndo para o recesso das caatingas, tontos, apavorados, sem chefes . . .
Entre os fardos atirados à beira do caminho ficara, logo ao desencadear-se o pânico – tristíssimo pormenor! – o cadáver do comandante. Não o defenderam. Não houve um breve simulacro de repulsa contra os inimigos, que não viam e adivinhavam no estrídulo dos gritos desafiadores e nos estampidos de um tiroteio irregular e escasso, como o de uma caçada. Aos primeiros tiros os batalhões diluíram-se.

Mesmo tomando-se o substantivo como a base da narrativa jornalística, o seu encadeamento em “Os Sertões” tem efeitos retóricos. Destacamos, a seguir, no trecho acima, os substantivos que o leitor poderá colocar em sequência de leitura – e verá o seu efeito narrativo.

 Sem comando, cada um lutava a seu modo. Destacaram-se ainda diminutos grupos para queimarem as casas mais próximas ou travarem breves tiroteios. Outros, sem armas e feridos, principiaram a repassar o rio.
 Era o desenlace.
 Repentinamente, largando as últimas posições, os pelotões, de mistura, numa balbúrdia indefinível, sob a hipnose do pânico, enxurraram na corrente rasa das águas!
 Repelindo-se; apisoando os malferidos, que tombavam; afastando rudemente os extenuados trôpegos; derrubando-os, afogando-os, os primeiros grupos bateram contra a margem direita. Aí, ansiando por vingá-la, agarrando-se às gramíneas escassas, especando-se nas armas, filando-se às pernas dos felizes que conseguiam vencê-las, se embaralham outra vez em congérie ruidosa. Era um fervilhar de corpos transudando vozear estrídulo, e discordante, e longo, dando a ilusão de alguma enchente repentina, em que o Vaza-Barris, engrossado, saltasse, de improviso, fora do leito, borbulhando, acachoando, estrugindo . . .

Para observar a confluência entre jornalismo e literatura, basta levar em consideração a matéria de cada um. Para o jornalismo, nesse trecho anterior, o que importa são os fatos. Para a literatura, nesse mesmo trecho anterior, o que importa são as possibilidades do fato.

Nas reportagens publicadas em O Estado de S. Paulo, Euclides da Cunha faz todos os relatos em 1ª pessoa. Mas quando decidiu publicar as suas anotações como livro, trabalho que realizou durante os três anos que levou para construir uma ponte sobre o rio, em São José do Rio Pardo, Euclides promoveu uma estilização de linguagem que evidencia a presença de um sujeito. Isto implica subjetividade, mais típica do lírico do que do jornalístico. Isto não prejudica o plano estético da obra, mas contraria o discurso anunciado de relato objetivo e fiel da história.

Neste quesito, “Os Sertões” é mais literatura do que jornalismo, embora não seja integralmente num uma coisa nem outra.

Outra consistência a observar é a questão do julgamento.

O jornalista não julga – o entrevistado sim; mas Euclides prefere não dar voz direta aos entrevistados em “Os Sertões”, por isso o narrador.

O literato de mérito abstém-se de julgar – quem pode fazê-lo é o personagem ou o narrador onisciente (este também um personagem).

O tempo em “Os Sertões”

Determinou-a incidente desvalioso.
Antônio Conselheiro adquirira em Juazeiro certa quantidade de madeiras, que não podiam fornecer-lhe as caatingas paupérrimas de Canudos. Contratara o negócio com um dos representantes da autoridade daquela cidade. Mas ao terminar o prazo ajustado para o recebimento do material, que se aplicaria no remate da igreja nova, não lho entregaram. Tudo denuncia que o distrato foi adrede feito, visando o rompimento anelado.
O principal representante da justiça do Juazeiro tinha velha dívida a saldar com o agitador sertanejo, desde a época em que, sendo juiz do Bom Conselho, fora coagido a abandonar precipitadamente a comarca, assaltada pelos adeptos daquele.
Aproveitou, por isto, a situação, que surgia a talho para a desafronta. Sabia que o adversário revidaria à provocação mais ligeira. De fato, ante a violação do trato aquele retrucou com a ameaça de uma investida sobre a bela povoação do S. Francisco: as madeiras seriam de lá arrebatadas, à força.
O caso passou em dias de outubro de 1896.

O espaço em “Os Sertões”

No início de cada capítulo, à guisa de sumário ou de índice, Euclides da Cunha insere uma sequência que funciona como manchetes de jornal. Veja o exemplo em “A Terra” (capítulo I):

Preliminares. A entrada do sertão. Terra ignota. Em caminho para Monte Santo. Primeiras impressões. Um sonho de geólogo.

São tópicos frasais. (Que em jornalismo recebem a denominação técnica de “lead”.)

Vejamos como um trecho do capítulo que ambienta o homem e ambienta a batalha.

É uma paragem impressionadora.
As condições estruturais da terra lá se vincularam à violência máxima dos agentes exteriores para o desenho de relevos estupendos. O regímen torrencial dos climas excessivos, sobrevindo, de súbito, depois das insolações demoradas, e embatendo naqueles pendores, expôs há muito, arrebatando-lhes para longe todos os elementos degradados, as séries mais antigas daqueles últimos rebentos das montanhas: todas as variedades cristalinas, e os quartzitos ásperos, e as filades e calcários, revezando-se ou entrelaçando-se, repontando duramente a cada passo, mal cobertos por uma flora tolhiça – dispondo-se em cenários em que ressalta predominante, o aspecto atormentado das paisagens.
Porque o que estas denunciam – no enterroado do chão, no desmantelo dos cerros quase desnudos, no contorcido dos leitos secos dos ribeirões efêmeros, no constrito das gargantas e no quase convulsivo de uma flora decídua embaralhada em esgalhos – é de algum modo o martírio da terra, brutalmente golpeada pelos elementos variáveis, distribuídos por todas as modalidades climáticas. De um lado a extrema secura dos ares, no estio, facilitando pela irradiação noturna a perda instantânea do calor absorvido pelas rochas expostas às soalheiras, impõe-lhes a alternativa de alturas e quedas termométricas repentinas: e daí um jogar de dilatações e contrações que as disjunge, abrindo-as segundo os planos de menor resistência. De outro, as chuvas que fecham, de improviso, os ciclos adurentes das secas, precipitam estas reações demoradas.
As forças que trabalham a terra atacam-na na contextura íntima e na superfície sem intervalos na ação demolidora, substituindo-se, com intercadência invariável, nas duas estações únicas da região.

Em outro trecho:

E o observador que seguindo este itinerário deixa as paragens em que se revezam, em contraste belíssimo, a amplitude dos gerais e o fastígio das montanhas, ao atingir aquele ponto estaca surpreendido…

Observe-se aí o leitor sendo convocado a participar. Pura técnica literária – veja-se A filosofia da composição, de Edgar Allan Poe.

Gente, matéria-prima do jornalismo e da literatura

Euclides traça um retrato do habitante dos sertões que arrancou de Araripe Júnior um parágrafo laudatório: “Terminada a descrição da terra, isto é, da região das secas, feita a sua história natural e social, o jagunço salta das páginas do livro como um fruto maduro da árvore que o gerou e desenvolveu.”

As observações de Euclides sobre o sertanejo constituem, de fato, mais uma análise social e antropológica. Vejamos um trecho:

O brasileiro, tipo abstrato que se procura, mesmo no caso favorável acima firmado, só pode surdir de um entrelaçamento consideravelmente complexo.
Teoricamente ele seria o pardo, para que convergem os cruzamentos do mulato, do curiboca e do cafuz.
Avaliando-se, porém, as condições históricas que têm atuado, diferentes nos diferentes tratos do território; as disparidades climáticas que nestes ocasionam reações diversas diversamente suportadas pelas raças constituintes; a maior ou menor densidade com que estas cruzaram nos vários pontos do país; e atendendo-se ainda à intrusão – pelas armas na quadra colonial e pelas imigrações em nossos dias – de outros povos, fato que por sua vez não foi e não é uniforme, vê-se bem que a realidade daquela formação é altamente duvidosa, senão absurda.

Recursos de estilo em “Os Sertões”

RITMO

Apenas a artilharia, na extrema retaguarda, seguia vagarosa e unida, solene quase, na marcha habitual de uma revista, em que parava de quando em quando para varrer a disparos as margens traiçoeiras; e prosseguindo depois, lentamente, rodando, inabordável, terrível…

A presença da métrica poética é clara nesse trecho. Pode ser declamado com a beleza da leitura dramática, porque há um ritmo poético que mescla por exemplo a redondilha e o decassílabo. Isto é literatura.

ANALOGIAS

Outro, o velho curiboca desfalecido que não vingara disparar a carabina sobre os soldados, parecia um desenterrado claudicante.

O rosto, onde o prognatismo se acentuara, desaparecia na lanugem espessa da barba, feito uma máscara amarrotada e imunda.
À luz crua dos dias sertanejos aqueles cerros, aspérrimos rebrilham, estonteadoramente – ofuscante, num irradiar ardentíssimo.

Nesse último trecho, não há um quê de Eça de Queiroz nessa “luz crua” e nesse “irradiar ardentíssimo”?
E note-se o efeito onomatopaico de raspagem, nos cerros aspérrimos que irradiam…

TOM

As notas das cornetas vibravam em cima desse tumulto, imperceptíveis, inúteis…
Por fim cessaram. Não tinham a quem chamar. A infantaria desaparecera…
Pela beira da estrada, viam-se apenas peças esparsas de equipamento, mochilas e espingardas, cinturões e sabres, jogados a esmo por ali fora, como coisas imprestáveis.
Inteiramente só, sem uma única ordenança, o coronel Tamarindo lançou-se desesperadamente, o cavalo a galope, pela estrada – agora deserta – como se procurasse conter ainda, pessoalmente, a vanguarda. E a artilharia ficou afinal inteiramente em abandono, antes de chegar ao Angico.
Os jagunços lançaram-se então sobre ela.

É praticamente o inteiro período construído em vogais abertas – notas de corneta.

SONORIDADE

 Vaza-Barris escachoando (onomatopeia)
 O povoado revivesveu (variedades prefixionais)
 engrimponados nas pedras vacilantes (variedades verbais)
 Transmontadas as serras, sob a linha fulgurante do trópico (outro aspecto verbal)

As assonâncias construídas, abaixo (especialmente pelo uso das sibilantes), imitam “um longo uivar de ventania forte”:

Projetis de toda a espécie, sibilos finos de Mannlicher e Mauser, zumbidos cheios e sonoros de Comblain, rechinos duros de trabucos, rijos como os de canhões-revólveres, transvoando a todos os pontos: sobre o âmbito das linhas; sobre as tendas próximas aos quartéis-generais; sobre todos os morros até ao colo abrigado da Favela, onde sesteavam cargueiros e feridos; sobre todas as trilhas; sobre o álveo longo e tortuoso do rio e sobre as depressões mais escondidas; resvalando com estrondo pela tolda de couro da alpendrada do hospital de sangue e despertando os enfermos retransidos de espanto.

Em outro trecho, as aliterações propiciadas pelas letras P e T, concertam a sinfonia da linguagem:

Dali descem, acachoantes, para o levante, tombando em catadupas ou saltando “travessões” sucessivos, todos os rios que do Jequitinhonha ao Doce procuram os terraços inferiores do planalto…

Fechemos este artigo.

Para isto, um corolário jornalístico-literário com que Euclides da Cunha encerrou o seu livro “Os Sertões”:

Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.

Lançamento: O poliedro da crítica

9 de dezembro de 2009

newspoliedroSe você gosta de Literatura, leia este livro. É um passeio agradável pelos principais conceitos sobre literatura e uma visita guiada a grandes autores como Mario de Andrade, Antonio Candido, Augusto Meyer, Sérgio Buarque de Holanda, Euclides da Cunha, Benedito Nunes e Clarice Lispector, entre outros.

O autor é Fábio Lucas, ex-presidente da União Brasileira de Escritores, Prêmio Intelectual do Ano-Troféu Juca Pato, tendo lecionado no Brasil e no exterior. É considerado um dos maiores críticos literários do Brasil.

O livro dos mandarins

8 de dezembro de 2009

mandarimRicardo Lísias
Ed. Alfaguara

Este é um romance único na literatura brasileira. Seu autor, Ricardo Lísias, alia as reviravoltas e o suspense da trama um estilo literário vibrante e original, para narrar a trajetória de um executivo bem-sucedido que tem como obsessão ser escolhido no banco em que trabalha, para uma vaga na China.

Para montar sua carta de intenções, ele vai muito além de seus concorrentes. Estuda mandarim, pesquisa dados históricos e culturais sobre o país, lê até a biografia de Mao Tse-Tung, e se torna, enfim, um especialista.

Uma vez em Pequim, sua carreira estará garantida. Poderá galgar postos no banco, chegando à presidência do conselho em Londres. Depois, quem sabe, escrever um livro de auto-ajuda para jovens executivos e até abrir sua própria empresa de mentoring, coaching e counselling.

Paulo só não conta com um pequeno detalhe: os planos reservados a ele são muito diferentes do que poderia imaginar.

O livro dos mandarins é um romance surpreendente, permeado de bom-humor e de momentos desconcertantes, de um dos autores mais originais de sua geração.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Histórias do Realismo

8 de dezembro de 2009

realismpo
Vários autores
Ed. Scipione

Neste livro, uma reunião de sete contos de autores consagrados da literatura brasileira do período do Realismo.

O hóspede é a história de uma ambição que termina num terrível mal-entendido. O conto fala de traição, amor não correspondido e um crime.

O impenitente é a história de um frade que não consegue conter os “impulsos da carne”. Enquanto isso, O baile do Judeu é uma narrativa irônica que incorpora elementos do imaginário folclórico da Amazônia.

Outro conto, A batalha dos livros traz a história de um sábio que enlouquece ao tentar fazer a síntese de todos os conhecimentos da humanidade.

A moça mais bonita do Rio de Janeiro é um conto de fada às avessas que trata, com muita ironia, do drama de uma bela jovem impedida de casar com quem ela ama. Enfim, o conto Terpsícore é um casal em dificuldades financeiras, que ganha algum dinheiro e resolve dar uma festa.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

A mãe e o filho da mãe & A máquina de fazer amor

8 de dezembro de 2009

mãeWander Pirolli
Ed. Leitura

São dois livros num só volume. Vantagem dupla para o leitor porque se tratam de dois livros ótimos de um dos melhores autores de nossa ficção contemporânea: Wander Pirolli.

Utilizando uma linguagem coloquial, artisticamente elaborada, o autor flagra trabalhadores , donas de casa, desempregados, gente simples em momentos cruciais de suas vidas.

Das 29 histórias aqui reunidas algumas são consideradas obras primas do conto brasileiro: Os camaradas; A mãe e o filho da mãe; Trabalhadores do Brasil; Festa; Manhã seguinte; Lá no morro; Até amanhã; Crítica da razão pura; Até logo, mamãe; e Um pedido de demissão.

O grande mérito deste autor é o de conseguir elevar esta gente humilde à categoria de heróis das aventuras do dia a dia.

A edição traz ainda ilustrações muito adequadas de Odilon Moraes.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

O campeonato

8 de dezembro de 2009

cmapeFlávio Carneiro
Ed. Rocco

Nesse romance, o personagem principal é o próprio gênero policial, levado às últimas consequências. Pedro, um adolescente rico, desaparece. Onde estaria?

Eis o primeiro caso do detetive André. A investigação o leva a uma casa, em Petrópolis, onde virgens participam de uma espécie de jogo eletrônico, o RPG, inspirado no conto O campeonato, de Rubem Fonseca.

Manipulando as peças reais desse jogo está a Confraria de Fãs de Rubem Fonseca, cujos membros, para vencer o game, lançam mão da ficção, manipulam a realidade, submetendo-a a uma intricada e surpreendente trama.

Estaria André sendo atraído para uma arapuca? Onde estaria Pedro, o adolescente desaparecido? Para onde levariam André as pistas ao longo do caminho? E por que um pai rico e aflito colocaria o inexperiente detetive no encalço de seu filho?

A resposta certamente surpreenderá o leitor.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Água viva

7 de dezembro de 2009

agua vivaClarice Lispector
Ed. Rocco

Texto ficcional em forma de monólogo, foi lançado pela primeira vez em 1973, poucos anos antes da morte da autora, Clarice Lispector.

Nessa época, Clarice já se consagrara como um dos valores mais sólidos da nossa literatura, por seu estilo único, em que a grande preocupação era a busca permanente pela linguagem.

Linguagem que não se perde no tempo; ao contrário, é ricamente metafórica, em que coisas, ações e emoções do dia a dia se transformam em grandiosas digressões indagadoras sobre o sentido da existência e da vida.

Seguindo a linha de características introspectivas de seus livros, Clarice cria, em Água viva, uma obra singular, verdadeiro relato íntimo que projeta em flashes, como num caleidoscópio, verdadeiros resumos de estados de espírito em tom de confidência, onde a subjetividade sobrepuja o factual e a narradora é responsável pela cadência do texto.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Os estranhos

7 de dezembro de 2009

Capa_OsEstranhosCarla Dias
Ed. SIC

Kalé e Alice sofrem de fobia social. Tem medo do convívio com as pessoas, de seu comportamento padrozinado, por isso preferem viver emocionalmente isolados.

Ele é escritor, ela cineasta. Quando se conhecem, ela faz vídeos com pessoas psicologicamente perturbadas enquanto ele está tentando escrever um romance. Kalé, em busca de sossego para escrever, aluga um quarto no apartamento de Alice. E aí começa um jogo de sedução e estranhamento comum entre homem e mulher.

Por isso, estamos diante de um romance feito de pequenos segredos e fortes confissões ao longo do qual lealdade e confiança são sempre postas em questão.

Dentro deste romance há outro, aquele que Kalé começou a escrever secretamente sobre a vida de Alice. Kalé faz como que um contraponto: Tudo que na vida real é conturbado, agressivo, em seu novo livro aparece cheio de ternura.

Tudo isso permite ao leitor um duplo olhar sobre a realidade e as relações humanas; como são e como poderiam ser. Como diz sobre o livro o escritor e crítico Nelson de Oliveira “… é muito bom poder observar alguns demônios de perto, pacificados por um suave estilo literário”.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

A última corrida

29 de novembro de 2009

ultimaMarcos Rey
Global Editora

Mais uma história envolvente e magistralmente escrita pelo grande Marcos Rey. O enredo é cheio de emoção, e os personagens, gente de carne e osso, cruzam seus lances no jogo da vida, amando, sofrendo, vibrando e apostando tudo n’A última corrida.

O romance tem o turfe ou corridas de cavalo como pano de fundo, mas isso não deixa de ser uma alegoria para a corrida da vida.

Marcos Rey, como num filme – e isso ele sabia fazer – conduz o leitor para além do espaço onde se passa a história. Numa linguagem sedutora, enxuta, sem subterfúgios, a trama provoca e estimula o interesse o leitor.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Cisão

29 de novembro de 2009

cisaoLívia Sganzerla Jappe
Ed. 7 Letras

Mais que um romance, o primeiro livro da jornalista Lívia Saganzerla Jappe funde ficção e filosofia, refletindo a separação entre corpo e espírito.

Esse dilema milenar conduz a história do casal Theodoro e Inácia. O par amoroso retrata aquela dicotomia existencial em todos os diálogos, monólogos e encontros. Desta forma, o casal se embrenha em teorias e artifícios atrás dos quais pretendem esconder a verdade mais íntima de cada um.

O livro vai mostrar que tudo isso, no entanto, não protege os protagonistas dos desejos mais humanos.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

O albatroz azul

29 de novembro de 2009

albatrozJoão Ubaldo Ribeiro
Ed. Nova Fronteira

O mais recente romance do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, traz um protagonista que caminha, imperturbável, para a própria morte: Tertuliano. Ele é o herdeiro decaído de grandes proprietários de terra, um homem de bem que, no dia do nascimento de um neto, descobre presságios de que sua hora se aproxima. Seu pai, bígamo – constituíra família com duas irmãs –, teve de se casar com uma de suas mulheres para receber uma herança. Para não ser prejudicado na sucessão, o garoto Tertuliano foi instado a renegar a própria mãe e se declarar filho da outra. Recusou-se, em um gesto de dolorida dignidade.

A busca espiritual de Tertuliano resulta um tanto vaga e confusa, misturando concepções espíritas e filosofices populares. Mas o parágrafo final põe as coisas no lugar. Vida, morte, renovação são o eixo em torno do qual se desenrola a trama simples deste romance magnífico.

Romance destinado a incorporar-se ao melhor patrimônio literário de nossa língua, um momento de rara beleza, daqueles cuja mágica se abre ao leitor desde a primeira página.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

A máquina do Ser

29 de novembro de 2009

maquinaJoão Gilberto Noll
Nova Fronteira

Este é o décimo-quarto livro do escritor João Gilberto Noll. É um livro de contos e cada deles é um convite à observação da solidão.

Para isso, o autor concentra suas narrativas no campo em que o ser humano está condenado a ser sempre só: o do pensamento, insondável e impenetrável.

Em meio aos gestos automáticos e banais do dia a dia, seus personagens tentam se encontrar na vastidão de suas mentes, onde não há ninguém para ajudá-los a erguer as fronteiras entre o que é vivido de fato e o que é imaginado, sonhado ou fantasiado.

A disposição temática dos contos reunidos em A Máquina de Ser contempla uma diversidade de narradores e atmosferas cujo encadeamento confirma e, ao mesmo tempo, renova a habilidade que o autor tem de surpreender – e desestabilizar – seu leitor.

Na medida em que autor e livro revelam novas, profundas e inesgotáveis possibilidades de ser, também se demonstra que a verdadeira literatura tanto estimula a imaginação que chega a desequilibrar os leitores acomodados com as certezas no senso comum.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Inocêncio e a criança divina

29 de novembro de 2009

inoceValdi Ercolani
Ed. Landy

A obra conta a história de um menino cujo avô ensina, a ele e a todos da comunidade, os segredos da vida, da Terra e das Leis da Natureza.

Nascido no Velho Continente, o avô atravessou oceanos para se estabelecer numa terra desconhecida, tornando-se sábio pela própria experiência, e conhecedor dos segredos do cosmo e o significado da vida.

Os ensinamentos do velho tornam-se particularmente úteis, indispensáveis quando o destino afasta Inocêncio do mundo paradisíaco em que vivia e o conduz à grande cidade e seus conflitos.

Escrito numa linguagem lírica e cativante, o autor filosofa de forma espontânea expressando conhecimentos que levam à reflexão sobre a vida e seus mistérios.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Os prisioneiros

29 de novembro de 2009

prsionRubem Fonseca
Ed. Agir

Estamos diante de um dos mais apreciados escritores brasileiros contemporâneos: Rubem Fonseca, autor de Agosto, A grande arte e outras grandes obras.

Pois bem, este é o seu primeiro livro, agora republicado pela editora Agir. São onze histórias curtas que impressionaram a crítica em 1963 e impressionam até hoje muitos leitores que se tornaram aficionados pelo estilo de Rubem Fonseca.

Em 1963, o crítico literário Wilson Martins escreveu sobre este livro: “Um escritor que traz a literatura no sangue”.

O conto Fevereiro ou março que abre o livro é uma das pequenas obras-primas que marcam a trajetória deste autor como contista. Aqui se misturam e interagem a brutalidade coletiva e a humanidade íntima.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

O seminarista

29 de novembro de 2009

fonsecaRubem Fonseca
Ed. Agir

Neste mais novo romance do mestre Rubem Fonseca, temos um protagonista para quem matar não causa remorso. Mas também não causa prazer.

É apenas seu trabalho, que lhe permite se dedicar àquilo que realmente ama: livros, filmes e mulheres. Não quer saber quem é a pessoa que será eliminada, nem mesmo lê os jornais do dia seguinte.

Quando, no entanto, decide que já é hora de abandonar a profissão, descobre que não é tão imune aos efeitos de seus trabalhos e de suas escolhas como acredita ser. Ao contrário, tem que enfrentar fantasmas de um passado que pensa ter superado.

Em seu décimo primeiro romance, Rubem Fonseca mais uma vez se mostra um dos mestres da narrativa brasileira, conciso e intenso, capaz de manter a tensão a cada página.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.

Tendências da literatura brasileira contemporânea de ficção

9 de novembro de 2009

Levi Bucalem Ferrari

Em primeiro lugar agradeço ao Ministério de Relações Exteriores do Brasil e ao Consulado-Geral do Brasil em Frankfurt, exemplarmente dirigido pelo Embaixador Cezar Amaral. Agradeço também ao Prof. Dr. Moniz Bandeira, um dos incentivadores deste evento. Ao Centro Cultural Brasileiro em Frankfurt, nesta mesa representada por Carlos Frederico Graf Schaffgotsche. Agradeço principalmente a todos os presentes pela gentileza de estarem aqui e pela confiança em nós depositada.

Confesso minhas limitações: não sou crítico nem historiador de literatura; sou apenas escritor e estou presidente da UBE – União Brasileira de Escritores. Nesta última qualidade procurando divulgar a literatura de meu país.

Na preparação desta palestra percebi também certa limitação ao tema: poucos críticos e historiadores de literatura falam ou escrevem sobre tendências contemporâneas. Preferem debruçar-se sobre o passado ou sobre determinados autores. Isto se explica pelas seguintes razões:

a) é difícil julgar com isenção quando o assunto é o presente e se está imerso no processo. No Brasil, embora se leia pouco, publicam-se muitos livros; e os autores mais novos podem confirmar-se ou decepcionar;

b) as tendências ainda não estão claramente configuradas; não há escolas ou movimentos literários que se tenham firmado como predominantes, que tenham proposto inovações temáticas ou de linguagem e mantenham número e qualidade significativas de seguidores;

c) a grande mídia contribui para confundir incensando escritores e livros de sucesso momentâneo, mas que não se sabe quanto tempo vão permanecer; nem sempre oferecem grande contribuição ao fazer literário.

Dada a escassa bibliografia, optei por complementá-la com um levantamento temático obtido através da leitura de livros, e das críticas e resenhas publicadas em jornais e revistas nos últimos anos; e na própria memória. Esclareço que, além de presidente da UBE, sou apresentador de um programa de rádio, Outras Palavras, na Rádio Cultura Brasil de São Paulo. Também escrevo resenhas e críticas para a Revista O Escritor, da UBE, e para meu blog http://blogs.utopia.org.br/levi.

Temos que começar de algum momento. O corte que proponho se inicia no final dos anos 70 e vem até os dias de hoje. Aviso desde já que os livros e autores que vierem a ser citados não estão sendo julgados ou recomendados. Nem posso garantir-lhes que sejam os melhores ou mais representativos. E muito menos que sejam os únicos. Apenas são citados porque podem representar tendências de relativa importância dentro do que se faz hoje em nossa literatura de ficção. Outros poderiam aqui estar num levantamento mais abrangente.

Nos anos 70, no auge da ditadura no Brasil, considerando-se a censura e a alta polarização ideológica (ou se era contra ou se era a favor), a literatura permaneceu na denúncia do regime ou na descrição do clima, restritivo, pesado, não raro absurdo em que vivíamos. Numa boa parte dos casos, o regime é, no mínimo, pano de fundo para as tramas que se desenvolvem. Como exemplos, podemos citar Renato Tapajós – Em câmara lenta, sobre a morte da guerrilheira Aurora do Nascimento Furtado, sob tortura; Lygia Fagundes Telles – As meninas; Wander Pirolli – Contos Selecionados; Antonio Callado – Quarup e outros; e, em vários livros, Marcos Rey, Ignácio de Loyola Brandão, Márcio de Souza e João Ubaldo Ribeiro; João Antônio; e muitos outros.

Num segundo momento, mais para o final dos anos 70 e início dos 80 (ainda sob a ditadura) alguns escritores, mesmo quando condenando ainda o regime militar, começam a denunciar a excessiva polarização política e um certo “patrulhamento ideológico” – esta era a expressão usada por alguns dos então novos autores. Aqui podemos colocar Fernando Gabeira – O que é isso companheiro?, um romance de transição porque tanto denuncia a tortura quanto o grau de “patrulhamento” vigente; Marcelo Rubens Paiva – Feliz Ano Velho; e Caio Fernando Abreu – Morangos Mofados. Nestes últimos predominam as questões interpessoais, mas o pano de fundo da ditadura se faz presente. No extremo desta tendência colocaríamos Reinaldo Moraes com Tanto Faz, denunciador do “patrulhamento”, num romance autobiográfico cuja principal característica é uma autoexposição tão excessiva que posso considerar a obra como precursora de muitos programas de televisão e internet que só fazem isso.

Nos últimos anos da ditadura, ocorre um fenômeno digno de nota: os leitores mais críticos cobram da literatura aquilo que os meios de comunicação – ainda sob censura ou autocensura – não mostram: tudo sobre prisões, torturas, mortes e desaparecimentos de opositores do regime. Os livros têm que contar a “verdade” uma vez que, supostamente, são menos censurados; e os escritores mais comprometidos com a luta democrática. Ao contrário da tendência anterior, há uma cobrança senão pelo engajamento, pelo menos, pela denúncia dos crimes da ditadura. Com alusões diretas ou indiretas, temos como exemplos: Frei Betto com Batismo de Sangue, Diário de Fernando e Cartas da prisão; Ignácio Loyola Brandão com Zero e Bebel que a cidade comeu, entre outros; Plínio Marcos com O assassinato do anão do caralho grande; Rubem Fonseca com O cobrador; Nildo Oliveira, com Olho por olho; Menalton Braff, com vários trabalhos; e meus livros O inimigo – contos; e O sequestro do senhor empresário.

Estas três tendências permanecem até os dias de hoje. Mesmo em romances e contos pouco ou nada politizados, a ditadura e seus agentes aparecem como cenário ou personagens secundárias e dignas de curiosidade. Em alguns livros deste tipo, os “resistentes” são glorificados como idealistas e corajosos, a la Che Guevara enquanto os militares são sempre desalmados. Ocorre aqui muita ficção tão descontextualizada – eu diria mesmo oportunista – que descaracteriza o período e nem é digna de nota.

Um quarto momento pode ser observado com o fim da guerra fria. Num certo sentido há uma retomada da segunda tendência, mas com novos componentes. Agora já não há que enfatizar a possibilidade de mudança social e outros projetos coletivos nacionais ou ideológicos. E, nem tampouco denunciar o seu excesso. Subsiste, todavia, certa preocupação com a identidade cultural do país; a denúncia das desigualdades social e regional; a violência, a miséria, a corrupção etc… Como exemplos elencaria Silviano Santiago – Heranças; Joel Rufino dos Santos – O barbeiro e o judeu da prestação contra o sargento da motocicleta; Autran Dourado – Novelas do Aprendizado; bem como o já citado Wander Pirolli; e muitos outros.

Esta temática convive com fenômenos que, apesar de já existentes, emergem agora com mais força no debate social e intelectual, como a exclusão social, a condição feminina, os preconceitos racial e social, o homossexualismo, enfim as diversidades sociais, culturais e comportamentais. Isto aponta para uma diversidade temática ampla e diluída naquilo que podemos chamar genericamente de condição humana. Esta inclui a questão social, mas nela não se esgota. Assim, somam-se aos anteriores temas como amor, desejo, erotismo, paixão, morte, suicídio, problemas existenciais e outros. Esta diversidade temática é a característica predominante hoje na ficção brasileira e inclui autores como Luiz Ruffato – Mamma son tanto felice; Antonio Torres – Pelo fundo da agulha; Luiz Vilela – Bóris e Dóris; Jeanette Rozsas – Qual é mesmo o caminho de Swan? Anna Maria Martins – A trilogia do emparedado e outros contos; Heloisa Nunes – Amor e desejo; Adriana Lisboa – Sinfonia em branco; Carlos Nejar – Carta aos loucos; Luis André Nepomuceno – A lanterna mágica de Jeremias; Lygia Fagundes Telles, com vários livros; e nossa colega de mesa, Betty Vidigal com seu Triângulo. E muitos outros autores.

Outro fenômeno relativamente recente no que diz respeito à temática da ficção literária no Brasil é a “descoberta” da periferia, das favelas, cortiços e bairros pobres das grandes cidades. Seus habitantes convivem com a marginalidade, a violência, a promiscuidade, a doença, o descaso em graus bastante altos, inimagináveis muitas vezes. Literariamente não é fenômeno absolutamente novo. Seus precursores podem ser encontrados em Aloísio Azevedo – O Cortiço; em Jorge Amado – Capitães de Areia, Jubiabá e tantos outros romances; em Clarice Lispector – A hora da estrela. Mesmo em Graciliano Ramos – Angústia, a questão é pelo menos delineada. E vai reaparecer fortemente em Wander Pirolli, Marcos Rey, João Antônio, e Plínio Marcos, entre muitos outros.
Há quem enfatize a violência, como Paulo Lins – Cidade de Deus e Luis Eduardo Soares – Elite da tropa, enquanto outros frisam as condições de vida do trabalhador de baixa renda e as migrações internas como Roniwalter Jatobá em Tisiu e outros de seus livros.

Dentro desta tendência há que se destacar o filão aberto por Rubem Fonseca que é o da convivência, clandestina, mas bastante próxima, entre a marginalidade e a elite. Este fenômeno também vai aparecer em Chico Buarque, Marcelo Rubens Paiva e outros.
Ainda aqui aparece a da literatura feita pelos próprios “periféricos”. Os precursores podem ser encontrados nos já citados João Antônio e Plínio Marcos, como também em Carolina de Jesus, com Quarto de Despejo, Recentemente, esta tendência parte de São Paulo e ganha muita força com Ferréz – Manual prático do ódio e Capão Pecado, entre outros livros. E continua com Sacolinha, Sergio Vaz, Alessandro Buzzo, Allan da Rosa e outros. Esses autores chegaram a organizar em 2007 uma “Semana da Arte Moderna da Periferia” com pretensões explicitas – não só no título – de se compararem aos modernistas de 1922.

Cabe aqui o registro de textos ficcionais “baseados em fatos reais” e elaborados em geral numa linguagem da miséria e da violência: crua, tendendo para o naturalismo e, não raro, apelativa. Ela esbarra, entretanto, nas limitações da gíria urbana. Enquanto o falar rural ou regional – dada sua maior permanência – fez vicejar autores já clássicos como o Monteiro Lobato de Urupês, e Guimarães Rosa, em quase todos os seus livros, a gíria urbana tem pouca durabilidade e compromete a perenidade da obra que só fizer uso da mesma.

Faço notar que algumas antigas temáticas como o regionalismo, o absurdo e o fantástico já não são tão representativos, mas permanecem e se renovam nos trabalhos de Milton Hatoum, Nicodemos Sena, Caio Porfírio Carneiro, Vicente Cecim, além dos já citados Lygia Fagundes Telles e Ignácio de Loyola Brandão, João Ubaldo Ribeiro, Márcio de Souza e outros. Note-se que o regionalismo amazônico, incluindo-se a preocupação com a preservação da floresta e seus povos, tem superado o nordestino que tantas obras primas nos legou em décadas anteriores.

Outra tendência que, creio, deve crescer é a do texto “falso policial” , ou seja, aquele que, tendo todos os ingredientes do romance policial, não se esgota no esclarecimento da trama e na vitória da justiça e da verdade, como bem denuncia o crítico Fábio Lucas em muitos se seus trabalhos. Antes, ela é um artifício para prender a atenção do leitor e mostrar nas entrelinhas as mazelas da sociedade e da condição humana. Como exemplo, temos, mais uma vez, Rubem Fonseca, Chico Buarque e Marcelo Rubens Paiva, aos quais podemos acrescentar Guiomar de Grammont – Fuga em Espelhos, Plínio Cabral – O mistério dos desaparecidos, além do meu já citado O sequestro do senhor empresário. Esta tendência se mescla muitas vezes àquelas de denúncia dos crimes da ditadura.

O falso policial é, juntamente com outra tendência que veremos à frente, resultado da concorrência entre ficção literária e outros tipos de ficção. Explico: a ficção, antes de ser fenômeno literário é forma de comunicação social; é processo social destinado à transmissão do conhecimento, à socialização do indivíduo e ao entretenimento. Abrange desde a milenar arte de contar histórias até o cinema e a televisão.

Ora, se há um tempo finito para a ficção no dia a dia das pessoas, podemos imaginar as dificuldades que se apresentam ao escritor ao competir com meios que contam com som e imagem para enriquecer a narrativa. Enorme desafio que nos exige o uso de recursos narrativos e de linguagem bastante elaborados.

Por isso, temos, além do falso-policial, uma tendência em si no que diz respeito à forma de escrever histórias. Em relação aos meios audiovisuais existe tanto a concorrência quanto influências recíprocas. Boa parte de nós escritores assistimos a muitos filmes na infância e na juventude e continuamos a assistir.

Nos dias de hoje, o cinema somado à televisão e outros meios de expressão ficcional áudio-visuais, coloca-nos frente a uma cultura cada vez menos gráfica, menos conceitual e de ação mais rápida. Daí que, cada vez mais, encontraremos boa parte das narrativas menos lineares, mais truncadas e multifacetadas, e dispostas numa linguagem que tenta trazer para o campo literário o primado do olhar sobre o conceito.

Entre os precursores desta tendência na atual literatura brasileira, poderíamos citar Euclides da Cunha que consegue ser quase cinematográfico em suas descrições da geografia, das pessoas e das batalhas. Na mesma trilha, mas com características muito próprias, Guimarães Rosa, em muitos trechos, faz da paisagem a personagem principal, ao mesmo tempo em que sua linguagem tende a transcender o limite do conceitual, sem dele abrir mão. Outro precursor é Aníbal Machado que, tendo publicado apenas um livro de contos, teve três deles transformados em filmes: A morte da porta-estandarte; O iniciado do vento; e O piano.

Nos dias de hoje, podemos colocar neste filão, autores com características muito diversas entre si, como Raduan Nassar, Ricardo Ramos, Osman Lins, Marcos Rey e João Gilberto Noll, entre muitos outros.

Encerro minhas palavras, solicitando-lhes desculpas pelo não esgotamento das tendências e pela omissão de muitos bons autores. Garanto-lhes que hoje – quando tantas temáticas, estilos e experimentações se entremostram – é impossível dar conta de todas elas bem como de todos os seus representantes.

Resumo de palestra proferida no Centro Cultural Brasileiro em Frankfurt, Alemanha, em 08/10/2009.
Levi Bucalem Ferrari é contista, romancista e poeta. Presidente da UBE – União Brasileira de Escritores e do IPSO – Instituto de pesquisas e projetos sociais e tecnológicos. Professor de Ciências Políticas. Presidiu a Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo. Recebeu o prêmio Melhores do Ano – autor revelação de 1988 da APCA – Ass. Paulista dos Críticos de Arte pelo romance O seqüestro do senhor empresário. Apresenta na Rádio Cultura Brasil o programa de literatura Outras Palavras.

Resumo de palestra proferida no Centro Cultural Brasileiro em Frankfurt, Alemanha, em 08/10/2009.

Levi Bucalem Ferrari é contista, romancista e poeta. Presidente da UBE – União Brasileira de Escritores e do IPSO – Instituto de pesquisas e projetos sociais e tecnológicos. Professor de Ciências Políticas. Presidiu a Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo. Recebeu o prêmio Melhores do Ano – autor revelação de 1988 da APCA – Ass. Paulista dos Críticos de Arte pelo romance O seqüestro do senhor empresário. Apresenta na Rádio Cultura Brasil o programa de literatura Outras Palavras.

A estrela sobe

16 de outubro de 2009

estrelaMarques Rebelo
Ed. José Olympio

Leniza Máier é uma jovem pobre e muito atraente, destas de “fechar o comércio” como se dizia tempos atrás. Ela busca o sucesso a qualquer preço na grande fábrica de sonhos da época – o rádio.

Para conseguir seus objetivos utiliza de todos os meios – a ponto de recusar o amor verdadeiro e aceitar outros, menos sinceros.

Trata-se também de um retrato da era do rádio e da cidade do Rio de Janeiro dos anos de 1930-1940 e uma das primeiras abordagens do fascínio que o estrelato exerce sobre as pessoas e a sociedade.

O livro é considerado também uma das obras-primas do grande escritor Marques Rebelo. Este é o pseudônimo literário que o jornalista e escritor Edi Dias da Cruz adotou para evitar constrangimentos a si mesmo e à sua família, como os que ocorreram com os modernistas de 1922.

“Outras Palavras” é o programa de literatura de Levi Bucalem Ferrari na Rádio Cultura Brasil.