A tortura no Paraguai

A tortura no Paraguai

livro stroessner- retrato de uma ditadura

A tortura era prática comum na ditadura do general Alfredo Stroessner (1954-1989). Os agentes da repressão não distinguiam cidadãos anônimos de autoridades ou políticos. Não havia critério para alguém ser vítima dos agentes da repressão.

O livro Stroessner: retrato de uma ditadura, de Julio José Chiavenato, que ilustra o post, relata alguns dos milhares de episódios ocorridos durante o regime do ditador.

Reproduzo abaixo caso ocorrido com o político Euclides Acevedo.

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Euclides Acevedo

Em dezembro de 1974, Euclides Acevedo, diretor do semanário El Pueblo, órgão semiclandestino do Partido Revolucionario Febrerista, acabara de chegar ao Paraguai, vindo da Inglaterra, onde estudava economia, para passar as festas de fim de ano com a família. Foi preso na rua por um ex-colega de faculdade e agente do regime Stroessner. Acevedo foi levado ao Departamento de Vigilância y Delitos. Segue seu relato conforme publicado no livro de Chiavenato:

“Ali me desnudam, me levam a um quartinho onde havia uma banheira, então vazia. Atam-me as mãos atrás das costas. Atam-me os pés. Começam previamente a açoitar-me perguntando onde estava o dinheiro que eu tinha trazido da Hungria. Querem que eu lhes dê nomes de dirigentes de um movimento subversivo ao que me acusam de estar ligado. Eu não posso dizer, eu não sei nada do que falam. Então começam a encher a banheira de água. Me fazem sentar à beira da banheira e, com um pontapé no peito, derrubam-me de costas. Começam a me submergir. Quando eu luto desesperado para respirar, eles me tiram um pouco e, logo em seguida, submergem-se de novo. Isso durante duas horas aproximadamente. Há um policial sentado na porta do quarto, com um papelzinho, fazendo-me perguntas sobre nomes, quem são os dirigentes do Partido, que instruções recebi em Cuba, que instruções recebi na União Soviética. Como não podia responder, começaram a esmurrar-me, sentado à beira da banheira. Comecei a sangrar continuadamente e a vomitar água. Os torturadores comunicam-se por telefone com os policiais de Investigaciones. Na sala contígua colocam um gravador com música barulhenta, para encobrir meus gritos, quando comecei a ficar desesperado. Esse tratamento foi aproximadamente até as 4 da manhã, tendo começado às 23h.

Então colocaram-se um eletrodo dentro do ouvido – e por isso fiquei surdo do ouvido esquerdo – e me dão choques. Golpeiam-se ainda com um cassetete de borracha na cabeça. Me torturam até as 4:45 da manhã. Aí, então, levaram-me, esgotado, quase morto, a Pastor Coronel, que exige minha confissão por escrito. Ele me diz que “escreva tudo”, tudo o que sei, e que ande depressa. Me diz: “não se faça de louco porque vou matá-lo aqui mesmo”. Me davam café para beber, muito café, nenhuma água: era para não dormir.

Na noite seguinte, seguiram com a mesma operação de torturas, só que agora só torturavam, não perguntavam mais nada. Açoite, banheira e picada elétrica. Depois me isolaram num quartinho e nada me perguntaram durante 15 dias, quando então me apresentaram um questionário idiota, que serviu para formar meu processo.

Estive em Investigaciones 57 dias; estavam presas quase 300 pessoas, num calor tremendo. De 1974 a 1976 passaram por Investigaciones cerca de 3 mil pessoas. Estive numa cela durante 27 dias, sem poder tomar banho. Superava-me muito o ouvido perfurado e minhas feridas não cicatrizavam. Depois de 57 dias fui transferido para a 3ª Comisaría, onde estão os presos políticos mais antigos do Paraguai. Na 3ª estive 10 meses sem ver a luz do sol. Depois de um mês ali, recebi pela primeira vez a visita de minha mãe. Podia recebê-la uma vez por semana e a visita durava cinco minutos.

E não podíamos conversar. Já não éramos torturados fisicamente, mas faziam nossa vida impossível. Depois de dez meses de convivência com patriotas que estavam há 17, 18 anos presos ali, fomos transferidos para a cadeia pública.

Fui condenado a 3 anos de prisão. Saí depois de 2 anos com “arresto familiar”: não podia sair de casa. Depois de 2 meses, o comissário informou-me que eu podia sair. Mas não tinha documentos…”

 

Loyola Guzmán

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Loyola Guzmán

Loyola Guzmán tinha 21 anos quando conheceu Che Guevara. Era janeiro de 1967, na região de Ñancahuazú. O contato com o revolucionário argentino foi decisivo para Loyola continuar na luta armada. A luta armada, afirmava Che, era o verdadeiro caminho para se construir uma sociedade diferente, e não as eleições. O discurso do líder da revolução cubana tinha um apelo enorme junto ao grupo de jovens guerrilheiros. Embarcaram todos na jornada que terminaria no dia 8 de outubro do mesmo ano, quando Che foi capturado e assassinado por forças do exército boliviano e da CIA.

Quando encontrou Che na selva, Loyola integrava o Partido Comunista Boliviano. Apesar de ele estar disfarçado e insistir em ser chamado Ramón, ela sabia quem ele era. Depois de um encontro estratégico na região usada pela guerrilha, Loyola recebe ordens de voltar a La Paz com a missão de levantar recursos para financiar o movimento e recrutar militantes.

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Che Guevara e Loyola Guzmán na selva boliviana.

Loyola e seu grupo na capital fariam contato com Che Guevara por meio de um mensageiro, e não fariam qualquer operação militar sem ordens diretas dele. O mensageiro, no entanto, foi preso e o grupo perdeu contato com Che.

Logo depois Loyola foi capturada e tentou se jogar por uma janela durante um interrogatório. Torturada, foi condenada por apoiar a guerrilha. Ela soube da morte de Che na prisão. Libertada, Loyola passou a atuar na defesa dos Direitos Humanos e até hoje participa ativamente da vida política da Bolívia.

Loyola Guzmán, de 73 anos, é uma das personagens do livro-reportagem Os Últimos Guerrilheiros. Estarei com ela em La Paz a partir de 14 de agosto.

Douglas Bravo

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Douglas Bravo

Douglas Bravo, um dos personagens do livro-reportagem Os Últimos Guerrilheiros, é considerado o guerrilheiro mais famoso da Venezuela. Sua luta nos movimentos de esquerda começa em 1946, quando ele tinha apenas 12 anos e ingressa no Partido Comunista da Venezuela (PCV).

Em 1962, ele integra as Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN), criado pelo PCV como braço armado da Frente de Libertação Nacional (FLN).

No início da década de 1960, surgem vários grupos guerrilheiros no país, descontentes com os rumos seguidos pelo presidente Rómulo Betancourt. Político de esquerda, Betancourt se afasta dos ideais socialistas, adere à Aliança para o Progresso e passa a enfrentar forte oposição de grupos armados.

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Douglas Bravo nas selvas venezuelanas

Uma divisão no PCV resulta no rompimento com o líder cubano Fidel Castro e na expulsão de Douglas Bravo da organização. Em declarações públicas, Fidel refere-se ao venezuelano como “um autêntico combatente comunista”. Com alguns companheiros, Bravo cria o Partido da Revolução Venezuelana (PRV) e assume o comando das FALN.

Em 1973, o presidente Rafael Caldera praticamente elimina os grupos guerrilheiros na Venezuela. Três anos depois, já no governo de Carlos Andrés Pérez, as guerrilhas ressurgem por questões ideológicas. No centro das discussões estão as divergências em torno da distribuição dos lucros do petróleo.

Dois anos depois, Bravo retira-se da luta armada. Viaja a Paris para tratamento de saúde e só retorna ao país em 1977. Em 79, ele e outros guerrilheiros recebem indulto do governo. As atividades do PRV, no entanto, continuam.

Um dos grandes feitos de Bravo e seu partido foi infiltrar elementos nas Forças Armadas da Venezuela. Esses agentes atraíram militares para a causa guerrilheira. O mais famoso deles foi o então coronel Hugo Chávez, futuro presidente do país. Foi pelo PRV que Chávez, ao lado de Bravo, participou dos golpes de Estado frustrados de 4 de fevereiro e de 27 de novembro de 1992. Os dois foram presos e indultados no ano seguinte.

Desde o primeiro governo Chávez, em 1999, adotou uma postura crítica e de oposição ao ex-pupilo. Bravo chegou a acusar Chávez de neoliberal e burguês. Atualmente, o ex-guerrilheiro dirige o movimento Terceiro Caminho, uma evolução do PRV-FALN.

A Guerra do Paraguai

Mais uma indicação de Maria Stella Cáceres de Almada, esposa de Martín Almada: um programa da televisão argentina sobre a Guerra do Paraguai. O formato mistura atores da atualidade com personagens históricos na reconstituição de alguns episódios. É uma boa introdução ao tema.

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O livro Che Guevara – uma biografia, do jornalista americano Jon Lee Anderson, é considerado uma das biografias mais completas do guerrilheiro argentino e herói da revolução cubana. Durante o processo de apuração, ele conseguiu a informação do local em que estavam enterrados os restos mortais de Che, assassinado no dia 8 de outubro de 1967 na Bolívia.

No link a seguir é possível ler uma entrevista que a jornalista Cynara Menezes, aSocialista Morena, fez com Anderson na ocasião dos 40 anos da morte de Che Guevara. No texto ela também relata a indignação do biógrafo com um texto publicado na revista Veja sobre o assunto.

Para ler, é só clicar aqui.

35 anos de terror

A TV Pública do Paraguai produziu três programas sobre a ditadura do general Alfredo Stroessner que merecem ser vistos por quem se interessa pela história da América Latina. A partir de entrevistas com ex-presos políticos, torturados, historiadores e cientistas políticos, a série “Los 35 años del Stronismo” explica como o ex-ditador construiu sua rede de poder que aterrorizou os paraguaios por mais de três décadas.

As prisões sem justificativa, os abusos, as torturas, as traições e a corrupção que permeavam a sociedade paraguaia estão no centro das discussões. Sem conhecer o que aconteceu com o Paraguai é impossível entender a realidade do país. Como complemento, recomendo o obituário de Stroessner publicado no jornalThe New York Times.

Os três programas seguem abaixo. Foram indicação de Maria Stella Cáceres de Almada, esposa de Martín Almada, um dos personagens do livro-reportagem Os Últimos Guerrilheiros. Estarei com ele em Assunção em agosto, para uma série de entrevistas. Maria Stella e Martín criaram o Museo Memorias, cuja página no facebook merece uma visita.

Programa 1 – “Los 35 años del Stronismo”

Programa 2 – “Archivos del Terror”

Programa 3 – “Desaparecidos”

A revolução boliviana

Aqui no site estarão disponíveis dicas de livros, reportagens, filmes, documentários e músicas. Muitos fora de catálogo, encontráveis apenas em sebos e merecendo reedição. Sempre que possível postarei o link para a página de onde o produto pode ser adquirido, de uma referência na internet e a imagem.

Toda dica nova entra aqui na lista de posts e também fica na seção Para ler, ver e ouvir. Para acessá-la, basta clicar no link no alto da página.

Se alguém se sentir provocado a saber mais sobre qualquer um deles, esta seção terá justificado sua existência.

The Bolivian Revolution and the United States, 1952 to the Present, de James F. Siekmeier

Sobre levi

Poeta, ficcionista, ensaísta, sociólogo e professor universitário. Presidente da UBE - União Brasileira de Escritores, diretor do Sindicato dos Sociólogos de S. Paulo e Presidente do IPSO - Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos. Integra a Coordenação do Movimento Humanismo e Democracia e o Conselho de Redação da Revista Novos Rumos. Foi Presidente da ASESP – Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo, Administrador Regional de Santana -Tucuruvi (SP). Coordenador da Proteção dos Recursos Naturais do Estado de São Paulo. Livros Publicados: Burocratas e Burocracias (ensaio, SP, Ed. Semente, 1981); Ônibus 307 – Jardim Paraíso (poesia, SP, Muro das Artes, 1983); A Portovelhaca e as Outras (poesia, SP, Paubrasil, 1984). O Seqüestro do Senhor Empresário (romance, SP, Publisher/Limiar, 1998); O Inimigo (contos, Limiar – SP, 2003). Recebeu o Prêmio de Revelação de Autor da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte e outros. Publicou diversos artigos, contos, crônicas, poemas e resenhas literárias em coletâneas, jornais e revistas.
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