Instantâneos de longa duração

Levi Bucalem Ferrari

Resenha do Livro: Noronha Goyos Júnior, Durval – O crepúsculo do império e a aurora da China – São Paulo, Observador Legal Editora, 2012.
Palavras chave: Relações Internacionais, Política econômica, Políticas públicas, Brasil, China, Estados Unidos, imperialismo, crise, Noronha, Moniz Bandeira.

O bom fotógrafo procura ângulos, perspectivas, contrastes, o melhor momento para fazer a foto; usa filtros, ensaia aberturas e velocidades, combina, altera, recompõe todas estas coisas até a exaustão.
Prá que tudo isso? Olha, clica e pronto!
O que os incautos não sabem é que, para além da beleza da foto, este fotógrafo tem, lá no seu íntimo, a pretensão de que ela represente todo um quadro de conceito e estética vigente no seu tempo, no seu mundo. A foto deverá ser uma síntese de muitas outras fotos e, por que não, projetar-se para a posteridade, propor-se a decifração dos sinais das mudanças e do futuro que anunciam.
Foi esta a sensação que experimentei ao ler O crepúsculo do império e a aurora da China, de Durval de Noronha Goyos Jr. (Observador Legal Editora, São Paulo, 2012). Análises conjunturais a se projetarem como instantâneos das mudanças histórico-estruturais que o mundo exibe para o analista atento e, principalmente, munido de metodologia e visão de mundo coerentes.
São artigos de tamanho pequeno, publicados entre 2009 e 2011 em jornais, revistas e internet, e republicados várias vezes. Constituem-se em análises sobre questões específicas que perpassam desde as relações internacionais até aspectos singularíssimos e momentâneos da política econômica e social do Brasil, China, Estados Unidos e outros países. Mas, insisto, todos a guardarem entre si a coerência e profundidade que apontam para as grandes mudanças macro-econômicas.
Se Noronha impressiona antes por esta característica indispensável, convém acrescentar mais duas, entre outras tantas: o volume de dados e a independência do autor.
Assim, nenhuma afirmação de Noronha se perde no vazio, sendo, ao contrário, comprovada por dados dispostos de forma a comprovar e ilustrar sem que o leitor se perca neles ou se canse. Não, tudo na medida certa.
Por outro lado, o autor exibe coragem e independência ímpares quando denúncia os engodos do mito neoliberal e sua permanência até entre países que retoricamente propõe-se a superar esta famigerada ideologia. Aqui se incluem alguns países europeus a colocarem por terra conquistas históricas em direitos sociais. Como também o próprio Brasil. Para combater a inflação, deixa sua moeda valorizar-se artificialmente a custa da evidente desindustrialização. Mantemos também juros altíssimos associados a um espread insano que só interessa a bancos e especuladores. Assim, o país retrocede e deixa crescer a “bolha” que pode estourar a qualquer momento com consequências sociais de grande monta.
Mesmo as medidas tomadas pelo governo após a publicação deste livro – como o rebaixamento dos juros do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal – queremos crer, pareceriam a Noronha corretas, mas insuficientes.
Todo este imbroglio tem suas entranhas destrinchadas e muito bem explicadas no livro de Noronha, o que o transformam em documento para ser lido e consultado.
Por fim, o livro vem enriquecido pelo prefácio de Luiz Alberto Moniz Bandeira, Intelectual do Ano pela UBE – União Brasileira de Escritores e um dos maiores cientistas políticos contemporâneos. É ele quem afirma na contracapa do livro:
“Trata-se de um conjunto de artigos importantes e oportunos, porquanto apresenta uma lúcida percepção das mudanças na correlação mundial de forças, demonstrando a erosão que corrói o Império Americano, à beira da recessão e cuja segurança depende cada vez mais do poder militar, a um custo insustentável, em contraste com o alvorecer da China, a crescer 9,5% em 2011”… ”não obstante a profunda crise econômico e financeira na qual Estados Unidos e União Européia estão submersos.”

Sobre levi

Poeta, ficcionista, ensaísta, sociólogo e professor universitário. Presidente da UBE - União Brasileira de Escritores, diretor do Sindicato dos Sociólogos de S. Paulo e Presidente do IPSO - Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos. Integra a Coordenação do Movimento Humanismo e Democracia e o Conselho de Redação da Revista Novos Rumos. Foi Presidente da ASESP – Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo, Administrador Regional de Santana -Tucuruvi (SP). Coordenador da Proteção dos Recursos Naturais do Estado de São Paulo. Livros Publicados: Burocratas e Burocracias (ensaio, SP, Ed. Semente, 1981); Ônibus 307 – Jardim Paraíso (poesia, SP, Muro das Artes, 1983); A Portovelhaca e as Outras (poesia, SP, Paubrasil, 1984). O Seqüestro do Senhor Empresário (romance, SP, Publisher/Limiar, 1998); O Inimigo (contos, Limiar – SP, 2003). Recebeu o Prêmio de Revelação de Autor da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte e outros. Publicou diversos artigos, contos, crônicas, poemas e resenhas literárias em coletâneas, jornais e revistas.
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