A UBE E A CULTURA

A diretoria da União Brasileira de Escritores para o biênio 2004-2006 tem como primeiro desafio, o de manter a mesma eficácia, o mesmo senso de democracia interna e a mesma qualidade nos serviços atualmente prestados, bem como o mesmo grau de contribuição na defesa da liberdade de expressão, da democracia e da cidadania, nos termos da Carta que acompanha e sustenta nossos estatutos. Acrescente-se a isso, a intransigente defesa do escritor e de seus direitos, a divulgação do livro e da leitura, a luta em favor da literatura e da cultura brasileira.

Aliado ao desafio da continuidade – o que não é pouco – propomo-nos a tentar fazer, se possível, ainda mais. Nesta direção, destaca-se o compromisso de um total envolvimento dos diretores e conselheiros pela sede própria cuja doação definitiva, já aprovada em comissão, foi encaminhada ao plenário do Senado Federal. Assim, esperamos que, quando este jornal chegar às mãos do associado, o velho sonho se tenha transformado em realidade, pelo menos do ponto de vista legal. A luta continuará através da busca de recursos para o restauro do casarão à Rua Marquês de Paranaguá, 124. Esta é, pois, a prioridade.

Novo espaço da UBE

Sabemos, entretanto, que, por mais esforços que venhamos a empenhar, o restauro não se dará em curto prazo. Assim, resolvemos, alugar nova sede provisória à Rua Rego Freitas, nº 454, conjunto 121, bastante próximo ao Metrô República. O novo espaço dará melhores condições de atendimento aos associados, como também permitirá a realização de eventos como leitura de poemas, contos, crônicas, excertos de romance; conferências; debates; e lançamentos de livros.

Entre os demais objetivos programáticos da nova diretoria destacam-se:

• Realizar dois encontros nacionais de escritores: em agosto, em Fortaleza e em outubro, em São Paulo e apoiar e participar de eventos regionais semelhantes.

• Ampliar e melhor divulgar os serviços prestados aos associados, tais como: proteção de direitos autorais; convênio de assistência médica; colônia de férias; envio do jornal O Escritor; páginas individuais no portal da UBE na Internet; convênios com editoras, distribuidoras e livrarias; informação sobre concursos e premiações; entre outros. Nosso “O Escritor”, visivelmente renovado, está se transformando num expressivo jornal literário sem deixar, entretanto, de cumprir seu papel de informação aos associados.

• Manter e ampliar o voluntariado do bem-sucedido Mutirão Cultural, este que se constitui no mais expressivo meio que a UBE tem utilizado para proporcionar acesso à cultura e à literatura a enorme contingente de pessoas que teriam dificuldades de fazê-lo por outros meios.

• Desenvolver esforços para a federalização da UBE, em composição com as similares estaduais. Nesse sentido, temos como tarefa a constituição do Conselho Nacional previsto em nossos novos estatutos.

• Realizar planejamento de caráter estratégico e orçamentário incluindo a criação de funções específicas individuais para tomada de decisões e implantação de programas. São oito as áreas de operarão sob esta ótica: Assuntos institucionais e políticos, Assuntos jurídicos, Assuntos administrativos, Captação de patrocínios, Realização de eventos, Relações com os sócios, Comunicação, Providências relativas à sede própria.

• Realizar sessões de leituras, de críticas, de recitais e de lançamentos de livros.

• Lançar campanha visando à ampliação do quadro de associados, abrangendo não apenas os novos poetas, ficcionistas e críticos como também os autores universitários, de livros científicos, didáticos e técnicos.

• Dar maior visibilidade ao nosso consagrado Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano, além de estudar a viabilidade para a retomada de concursos e prêmios literários já realizados anteriormente pela UBE.

Nação de leitores

Tais objetivos ganham maior sentido porque norteados por dois pressupostos filosóficos:

O primeiro vem da constatação de que é inadiável um esforço conjunto de governo e sociedade para nos transformarmos numa nação de leitores. O quadro é trágico e tão gritante que dispensa dados, de resto já conhecidos por todos nós. A UBE coordenará e participará de projetos de formação de leitores diretamente ou através de convênios. Esta questão tem recebido um enfoque excessivamente economicista, ou seja, o de que precisamos ter mais leitores para produzirmos melhor. Isto é inegável, mas não pode ser o centro de nossa motivação. Sabedores de que a leitura é dos mais complexos exercícios intelectuais – o que aconselha que seu hábito se dê o mais precocemente possível – temos também certeza que ela é a principal forma de aquisição do conhecimento; que só ela desenvolve a capacidade de fruição da cultura e do senso crítico que a transforma na busca de uma sociedade mais justa. Leitura é, pois, pressuposto da cidadania. Aquisição coletiva, a cultura deve ser assim usufruída, criada e recriada. Faz-se necessário, portanto, que todos os segmentos da sociedade, alcancem suficientes condições para tanto, caso contrário estaremos diante da mais perversa das concentrações: a do saber.

Próximo deste está o princípio de aprofundarmos nossa participação nas questões de política cultural nas esferas federal, estadual e municipal, com ênfase na necessária distinção entre cultura e entretenimento, entre bem cultural e mercadoria. Distinções que gritam mais em nossos dias, nesses tempos “bicudos” em que tudo se transforma em mercadoria, como se o bem cultural fosse mera moeda de troca, como se a criação literária fosse mensurável apenas por seu sucesso de vendas num mercado cada vez mais balizado pelos meios de comunicação de massa. A preocupação destes, com exceções, tem sido a de incensar os produtos culturais os mais banais porque mais vocacionados à condição de mercadoria. É pela mesma razão que esses meios tem dado mais espaço aos livros e demais mercadorias culturais criadas nos países centrais, fator que muito contribui no processo de invasão cultural.

A isso nos haveremos de opor através da valorização e da ativação de nossa cultura e da retomada de nossa auto-estima como nação. É com a clareza destas distinções que a UBE deve acentuar seu envolvimento em todos os aspectos da vida cultural do país, seja numa palestra do nosso “Mutirão”, seja na Bienal do Livro, nos eventos, enfim, de qualquer porte.

Registrem-se, por fim, as merecidas homenagens ao ex-presidente e atual Conselheiro, poeta Cláudio Willer, que tão bem soube conduzir a entidade nestes últimos quatro anos e ao conselheiro Fábio Lucas que sempre nos tem orientado como o reconhecido mestre de muitos de nós. Que se as estenda ao conjunto de diretores e conselheiros pela certeza do solidário trabalho que à todos aguarda. E, mais importante, ao conjunto de associados, esteio e principal razão de ser desta União Brasileira de Escritores.


Editorial da Revista O Escritor n.109. 2003.

Sobre levi

Poeta, ficcionista, ensaísta, sociólogo e professor universitário. Presidente da UBE - União Brasileira de Escritores, diretor do Sindicato dos Sociólogos de S. Paulo e Presidente do IPSO - Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos. Integra a Coordenação do Movimento Humanismo e Democracia e o Conselho de Redação da Revista Novos Rumos. Foi Presidente da ASESP – Associação dos Sociólogos do Estado de São Paulo, Administrador Regional de Santana -Tucuruvi (SP). Coordenador da Proteção dos Recursos Naturais do Estado de São Paulo. Livros Publicados: Burocratas e Burocracias (ensaio, SP, Ed. Semente, 1981); Ônibus 307 – Jardim Paraíso (poesia, SP, Muro das Artes, 1983); A Portovelhaca e as Outras (poesia, SP, Paubrasil, 1984). O Seqüestro do Senhor Empresário (romance, SP, Publisher/Limiar, 1998); O Inimigo (contos, Limiar – SP, 2003). Recebeu o Prêmio de Revelação de Autor da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte e outros. Publicou diversos artigos, contos, crônicas, poemas e resenhas literárias em coletâneas, jornais e revistas.
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